Notas iniciais
Esse capítulo ficou um pouco no molho porque tava com "writer block". Mas conseguiu sair, e acredito que a partir desse a história vai seguir no jeito da anterior, só fazendo poucas correções e eliminando conteúdos que não fazem parte da nova linha do tempo.

Aqueles cabelos cacheados e alaranjados. Aquele rosto inocente e pele límpida. Aquela mesma menina que estava com medo de andar na rua há pouco tempo. Aquela mesma pessoa que havia sido uma doce e inocente mulher agora estava parada entre eles e a loira, com um cetro de madeira branca na mão esquerda, que tinha um rubi na ponta de cima, seguro por um mini pedestal, e uma safira na ponta de baixo, protegida por duas pequenas lâminas. Ela olhou para trás, hesitante, mirando o jovem mais alto com olhos apologéticos.

— Desculpe por isso...

Quando ela falou, o vento ficou errático. Deu uma rajada muito forte que levantou poeira e bloqueou a visão dos dois momentaneamente, parando de repente. Ao conseguir enxergar novamente, nem ela, nem a cobra e nem a mulher flutuante estavam lá. Os sinais da destruição permaneciam, com toda a carnificina. Curiosos começavam a aparecer, e os dois não perderam tempo, saindo o mais furtivamente que podiam. As pessoas olhavam para eles e alguns tentavam ampará-los, assim como outros sortudos o suficiente para escapar do violento ataque da serpente. Machucados, mas não incapacitados, os dois tentavam coletar os pensamentos.

— Eu devia ter desconfiado... – disse Cole, de cabeça baixa. Ele estava sentado na calçada perto do terreno baldio. O barulho das ambulâncias ficava mais alto à medida que se aproximavam – Tava bom demais pra ser verdade...

— Não tenho certeza, Cole – alegou Vergil, sentado na mesma calçada – Ela parecia angustiada...

— Um tornado de fogo é angustiado pra você?!

— Não é isso. A expressão dela...

“Ela parecia estar lutando contra algo que não podia falar, ou não conseguia. Aquela executiva do inferno me conhecia, mesmo eu nunca tendo a visto, e não parece que Niéle foi por vontade própria também.”

— A gente tem pouca informação... – disse Cole, depois de uma pausa e suspirando – E também não tô afim de ficar só reagindo. Eu vou atrás delas. A gente precisa de respostas.

— Com certeza. Niéle deve ter os motivos dela, mas vou exigir uma explicação.

Cole concordou. Eles ficaram lá um tempo, descansando. Foram atendidos pelo pronto-socorro, mas como não estavam em risco de vida, foram liberados logo. Poucos minutos a imprensa e a polícia chegaram, mas eles já não estavam mais lá.

Com a Percepção ativa, eles sentiam várias Energias por todo o bairro. Só que nada dela, da cobra e da mulher. Sem muita opção, Vergil procurou um prédio próximo. Precisavam de mais alcance. Pedir para subir até o telhado seria difícil, afinal que pessoa em sã consciência deixaria um adolescente que nunca viu na vida entrar lá? Ainda mais nesses tempos tumultuados e com uma chacina por perto.

— Quer tentar pular? – disse Cole, chamando ele pra perto com uma cara travessa – Eu te dou um impulso.

— Engraçadinho, mas pode dar certo – respondeu Vergil, fazendo a mesma cara, mas olhando para cima, avaliativo. A altura não era tanta, mas ele não tinha confiança que ia conseguir saltar aquilo com sua Energia. Cole fez uma pose, deixando os dedos entrelaçados na sua frente e flexionando as pernas para lança-lo. Sentiu Energia vindo dele, certamente reforçando os braços para o movimento. Talvez realmente funcionasse...

— Quando tiver pronto...

— Bem, aí vamos nós...

Se preparou para saltar, dando um grunhido de força. Certificou que não tinha ninguém na rua que os observasse, e correu. Chegando perto, deu um pequeno pulo e pôs o pé na junção de mãos. No contato, concentrou o máximo de Energia que conseguiu no pouco tempo que tinha e flexionou a perna. Combinado com a força que Cole pôs nos braços, Vergil conseguiu ir bem alto. O deslocamento de ar balançou as folhas das árvores ao redor, chegando a dobrar alguns arbustos.

Pousou no topo do prédio sem muitos problemas. Mesmo não sendo muito alto, do prédio o garoto tinha uma boa visão da cidade. Era na maior parte plana, e mais ao longe se via a linha do horizonte, quase na praia. Olhou para o outro lado, vendo o rio de onde a cidade havia sido fundada, repleto de árvores e com poucas edificações. O vento era mais forte pela altura que estava mas estava estranhamente calmo. Olhou pelos arredores, notando que havia pedaços da cidade que estavam “vazios”. Era mais uma sensação do que um fato, e como estava procurando Niéle, talvez fosse uma pista. Respirou fundo, sentindo todo o ar úmido preencher seus pulmões, o enchendo de Energia. Concentrou-se bem, focando todos seus esforços em notar Sensitivos.

Astral Quaerare...— e abriu os braços, os direcionando um pouco para frente e mantendo as palmas para cima. Parecia uma homenagem à estatua de Cristo Redentor. O propósito era de direcionar sua procura, usando os braços como limite consciente. Ao fazer isso, imediatamente sentiu alguns pontos de Energia. Estes eram pessoas que tinham potencial para serem Sensitivos, ou eles propriamente ditos. Sentia outros, mas muito fracos. Supôs serem as pessoas normais, então continuou procurando. A cada respirada, a procura parecia que ficava mais precisa, pois ele estava conseguindo diferenciar os vários níveis de pessoas, animais, Sensitivos e potenciais destes. Depois de alguns poucos minutos procurando, sempre expandindo a procura, sentiu um volume de Energia bem maior que os outros, indo em direção à praia e se deslocando um pouco rápido.

— Achei... – comentou para si mesmo, esboçando um leve sorriso na lateral da boca.

Pulou do prédio, descendo pela cerâmica que cobria as paredes. Mais perto do chão, saltou e rolou, pousando em segurança. Cole estava com os braços cruzados, olhando para os lados enquanto esperava Vergil sair de lá de cima.

— E aí: onde é que ela tá?

— Pela praia. Não deu pra ter certeza porque tava muito longe. Mas já dá pra ter uma ideia. Vamos!

Cole concordou, e os dois partiram correndo em direção à ela. A velocidade começou pouca, mas gradualmente eles iam acelerando, a Energia reforçando as pernas e permitindo pisadas mais fortes. Nesse momento, eles estavam tão rápidos quanto um carro em uma autoestrada. Saltavam sobre casas, pulavam muros e desviavam das pessoas, tudo para chegar no objetivo. Porém, no meio do caminho, os dois sentiram uma sensação estranha. Pararam o avanço para olharem para os lados. Não parecia haver nada de mais na rua de asfalto, nem nas casas e nos postes. Todavia a Percepção de ambos estava mostrando que ali estava uma concentração de Energia mais baixa. Vergil imaginava que não tinha haver com Niéle, mas o local não parecia normal.

Suas suspeitas se provaram verdadeiras quando foi repentinamente suspenso no ar. Acontecera o mesmo com Cole, deixando-o sem contato com o chão. Ventos violentos bagunçavam as folhas das árvores e suas roupas, mas nada os movia de lá. Na verdade, parecia sequer tocá-los, se reduzindo a uma mera brisa.

— Q-Que diabos é isso?! – disse Cole, de cabeça para baixo e girando devagar.

— Não sei, mas não podemos ficar aqui! – falou Vergil, enquanto pensava no que fazer para sair dali – Temos que ir atrás delas!

— Eu sei, tapado, mas o que a gente faz?!

Olharam para os lados. Vergil viu um poste e teve uma ideia. Concentrou Energia na mão e esperou ficar na posição ideal, fazendo um movimento circular de cima para baixo, como se fosse jogar uma pedra. Só que no lugar de uma esfera, se desenrolou de sua mão um chicote vermelho feito inteiramente de Energia, que se esticou e enlaçou a parte de cima do poste. Fez força para se puxar, e foi flutuando em direção ao poste. Cole viu que o amigo estava usando um poste como âncora e tentou a mesma coisa, mas sua Fundação não era tão boa. A corda que tentava criar falhava no ar, se dissipando inofensivamente em névoa. Mas teve uma alternativa: virou o corpo na posição oposta ao do amigo, apontou as duas mãos e disse:

Caelesti Eruptio!— um jorro de água partiu de suas palmas, indo em direção à reserva florestal de onde eles estavam parados. Vergil ficou sem entender, mas percebeu que o ataque impulsionou o garoto para trás. Só que não notou que estava indo em sua direção com velocidade. Os dois colidiram no caminho, mas o lutador foi rápido o suficiente para pegá-lo antes de tocarem o chão enquanto a gravidade os puxava normalmente de novo.

— Ufa, foi por pouco... Cê tá bem, cara?

— Tô bem, mas quem foi que deixou um negócio de anti-gravidade aqui? O que tá acontecendo com a rua?!

— Não faço ideia, mas vamos descer.

Estendeu a corda de Energia que tinha feito até chegarem no chão. Assim que se organizaram, partiram correndo. Chegaram num viaduto que separava a estrada principal das estradas internas da cidade. E lá parecia o inferno na Terra: estava chovendo copiosamente, tão forte que não dava para enxergar dois metros à frente. Mas nas estradas, o asfalto estava em chamas, literalmente. Carros estavam atolados no betume negro, alguns tinham tentando sair, outros abandonados por seus próprios donos. Marcas de movimentação de terra estavam espalhadas pelos canteiros centrais, como se alguma escavadeira tivesse passado por ali sem pudores.

— Tenho certeza que foi aquela cobra gigante – disse Cole, esfregando as mãos – Vou fazer um espetinho dela quando encontra-la.

— Esquece isso. Temos que ver como vamos passar daqui – comentou Vergil, contemplando todo o caos à sua frente.

— É fácil, observe.

O garoto sentiu um volume de Energia partir do amigo. Ela o envolveu como uma esfera, depois se expandiu. Nesse movimento, a água que caía em grande quantidade começou a se acumular, como se um campo de força invisível estivesse servindo como um grande guarda-chuva multidirecional. A água que batia nas laterais desse campo apagava o fogo que teimava em continuar pelo caminho, mesmo com o forte temporal. Cole estava fazendo esforço, mas virou o rosto para o lutador e fez um movimento para ele o seguir. Vergil passou para o lado dele, e sentiu como se tivesse andado através de uma câmara fria. Estava gelado, mas pelo menos estava protegido da chuva e das chamas do ambiente. Ficou atento mesmo assim, pois não sabia se podiam ser atacados.

Por sorte, ou pela própria situação, não sabia dizer, o caminhar foi tranquilo, apesar de longo e demorado. Quando chegaram mais à frente, passando pelo limite da interminável tempestade e sendo agraciados com os restantes raios de sol, Cole pôs as mãos nas pernas cansado, mas dispensou ajuda. Disse que era só esperar um pouco que ficaria tudo bem. Vergil olhou mais adiante: a presença de Energia enorme que sentia estava mais à frente, mas os mesmos pontos que sentia como se algo estivesse “faltando” também continuavam.

Passados três minutos, Cole recuperou um pouco do fôlego e continuaram, não encontrando muita coisa pelo caminho exceto a cidade parecendo abandonada. Estavam perto da praia depois de vários minutos, e assim que chegaram na ladeira que separava a parte do continente com os bancos de areia, viram ao longe a orla parecendo “morta”: os prédios, ruas e árvores estavam lá como se lembravam, mas não ventava. As edificações, que eram na grande maioria bem cuidadas e sempre reformadas, pareciam ter saído de um mundo pós-apocalíptico, pois estavam rachadas e com ladrilhos caídos e destruídos. As folhas estavam secas e frágeis, caindo com facilidade e não oferecendo resistência nenhuma. As pedras que povoam a areia da praia estavam pulverulentas, parecendo que iriam se desfazer com o próprio peso.

Bem na frente, quase não dando para ver, os dois viram duas figuras no deserto areal. Uma delas flutuava em pleno ar, e a outra estava gesticulando frequentemente. Depois, a que pairava fez um movimento e atingiu a que estava no chão com algo brilhante. Vendo isso, Vergil começou a correr em direção à ela: sabia que era Niéle que estava sendo atacada. Cole seguiu logo atrás, mas não sem dificuldade.

Ao pisarem no começo da ladeira, um tronco de árvore caiu e se fincou no asfalto, forçando uma parada brusca dos dois. Olharam para cima, mas não fazia sentido algum: vários troncos de coqueiros, ipês e mangueiras estavam caindo do céu como se fossem chuva. Pensando rapidamente, Vergil gritou, desviando de dois deles enquanto corria e juntava Energia.

— Cole! Vem cá!

— EU... TÔ... TENTANDO! – gritou o amigo em resposta, enquanto dava paradas constantes pela queda da madeireira dos céus. Assim, que se aproximou, Vergil o puxou para perto pela gola da camisa e ambos se jogaram no chão, mas nesse momento ele tinha criado uma prancha côncava totalmente vermelha para descer pelo asfalto. O escudo-skate era muito mais rápido do que eles correndo, e por ser feito por Vergil, ele conseguia controlar bem as curvas.

Quando estavam quase no final, à toda velocidade, uma série de árvores os forçou a desviar para os lados. Mas mesmo com a mobilidade melhorada, as curvas foram bem repentinas, e algumas das toras quase os atingiram, se não fosse os disparos de água em pressão de Cole, que os cortavam e empurravam para longe. Ao chegarem no final da ladeira que dava acesso à praia, os ataques cessaram.

— Ufa... – respirou Vergil, cansado de ter que desviar das rotas da natureza mortal.

— Bem, depois dessa não vai ter carro passando por aqui – ofegou Cole, enquanto olhava o estrago – A ladeira tá parecendo uma mesa de pinball.

O amigo tentou esboçar uma risada, mas estava cansado demais para isso. Mas deixou que um sorriso escapasse de sua boca. Levantando, ajudou Cole a se erguer também enquanto caminhavam pela paisagem arruinada. Pisavam com cuidado, evitando as seções de asfalto que estavam podres, o que eram muitas. Mais adiante, viam que a figura flutuante da executiva do mal estava segurando Niéle pelo braço, e a puxando para a água. Ela tentava resistir, mas não parecia tão vigorosa depois de ter sido atingida.

Mesmo que a executiva estivesse voando e Niéle andando, eles não contiveram sua surpresa ao ver que a garota de cabelos laranja estava andando na superfície do mar. Boquiabertos, só conseguiram reagir quando um flash de luz repentino cobriu as duas num véu, e sumiram.

— O-o que?! – exclamou Vergil, sem entender.

— Não é hora de ficar parado! Vamos atrás delas! – reclamou Cole, apontando para onde elas estavam.

— Mas--

— Mas nada!

Um pouco recuperados, os dois amigos foram caminhando até o ponto da praia que elas sumiram. A areia estava espalhada, rígida em certos pontos e com gelo em outros. Vergil não entendeu muito disso, e nem teve tempo para pensar, pois Cole foi caminhando em passos determinados para a maré parada. E tão surpreendente quanto tinha sido antes, ele estava andando sobre a água.

— Olha aqui, tá vendo? – disse o amigo, deliberadamente pisando na água. O barulho parecia ser de pedra. Ainda sem conseguir acreditar nos olhos, o lutador piscou algumas vezes e ativou a Percepção: via um fino aglomerado de linhas onde estava a água e Cole em cima. Estranho, pois por todo o local, as linhas de Energia estavam quase inexistentes, parecendo que todas se concentravam ali. Era uma pista, que levava em direção ao oceano. Não sabia no que iria dar, mas se Niéle e a mulher tinham passado por lá, era provável que eles conseguissem.

Caminhou com cuidado, tanto pelo cansaço como pela cautela por onde iria pisar. O mar parado, sem vento nos arredores e a falta de sol, encoberto pelas nuvens amareladas contribuíam para deixar tudo mais misterioso. Deu poucos passos, sentindo a pisada num chão firme, mesmo que abaixo visse a superfície amarelada da água da costa, refletida pela areia. Os dois adentraram mais alguns metros até que fosse ficando visível um trecho de orla, como uma ilha. Vergil olhou para baixo por um instante, vendo ainda que estava pisando na água. Ao visar a frente de novo, estava diante de uma floresta. Pulou assustado, e Cole também não escondeu a surpresa. Não observaram o flash de luz nem nada parecido. Era algo que tinha acontecido no instante de uma piscada.

— Que lugar é esse? – comentou Cole, baixinho.

O local tinha árvores bem altas, de folhas bem largas. Não pareciam ser nativas da região. O chão era de areia de praia, mas mudava para um solo bem escuro e compacto a poucos metros da costa. Não havia nenhum sinal de habitação, exceto marcas de algo sendo arrastado.

— Caminho retos... Bagunças ocasionais... Isso foi Niéle, ela veio por aqui: vamos! – disse Vergil, ao analisar as marcas

— Ei, desde quando tu é perito? – perguntou Cole, curioso.

— Desde Ryokun... – respondeu simplesmente, enquanto eles iam seguindo os sinais. – Mesmo que Jane fosse nossa rastreadora oficial e Claire fosse nossa detecção de presenças, eu aprendi a seguir rastros durante meu treinamento no Círculo da Batalha.

— E ainda lembra?!

Vergil só deu um leve sorriso, dando de ombros. Os dois seguiram pela clareira, acompanhando o trajeto. Não demorou muito até chegarem no que parecia ser um piso de concreto, organizado numa forma geométrica de 10 lados. Assim que se aproximaram, toda o chão tremeu, e uma torre muito alta surgiu no lugar, aparecendo em pleno ar. Feita de pedra esverdeada, como as que viram em Ryokun, bem polida e brilhando levemente em amarelo, com um cristal tetraédrico transparente no topo, ela seria uma visão muito óbvia se não estivesse previamente escondida por uma ilusão. A torre tinha uma abertura pequena no corpo, o suficiente para entrar uma pessoa.

Nenhum dos dois falou nada: não era necessário. Vergil confirmou com a cabeça em concordância com Cole, enquanto se aproximava da abertura. O amigo só fez um meneio, como que dizendo “Tenha cuidado”. O garoto pisou dentro, e não aconteceu nada. Só com o contato com o segundo pé fez a torre brilhar mais intensamente, e teve um último vislumbre de Cole antes de tudo ficar branco e não ver mais nada.