Notas iniciais
Vergil acordara cedo da noite passada. Se levantou bocejando e comeu o café da manhã. Vestindo-se logo depois, esperou sua irmã também se arrumar para poder sair, tombando com Niéle, que ficava sempre em frente a sua casa na mesma hora que ele saía. Sabia disso, pois a presença dela era muito difícil de esconder, e depois que descobriu como usar sua Percepção, quase sempre a deixava ativa. Atravessando a porta, se deparou com sua guarda. Com um sorriso, ela o esperou vencer os metros até a calçada para então o acompanhá-lo até a escola.
A avenida estava cheia de carros. Aparentemente havia tido algum acidente, pois o trânsito não fluía. As calçadas tinham pouca gente, o que era estranho considerando que era uma sexta-feira. Normalmente, para se livrar logo do expediente, muitas pessoas chegariam cedo para serem liberados mais cedo e então curtir o final de semana com suas famílias e/ou amigos, ou se preparar para uma jornada no final de semana, tudo para atender à demanda de seus empregadores.
Os dois caminhavam tranquilos, mas sempre atentos ao ambiente. Conseguiram chegar ao colégio sem problemas, indo para a aula logo em seguida. O horário transcorreu normalmente, mas houve uma interrupção no meio da aula. Um anúncio do diretor da escola parou o conteúdo de ser transmitido:
– Atenção a todos os professores. Peço que liguem os projetores de suas salas. Irei transmitir o anúncio dado a todo o mundo.
Cada professor, seja ele baixo, alto, magro, gordo, novo ou velho pegaram os controles e ligaram os projetores acoplados no centro superior da sala. Uma luz saiu da lente e formou uma imagem na frente do quadro. Lá, uma pessoa estava num pedestal, dando um discurso para uma imensa multidão. Esta pessoa tinha pele clara, um pouco enrugada pela idade, cabelos pretos grisalhos e olhos de um profundo azul-claro, quase acinzentado. Trajava um terno risca de giz liso e falava em inglês. Um toque de botão por fora e legendas quase instantâneas povoavam a tela, traduzindo as palavras que o presidente do país norte-americano divulgava.
“Senhoras e senhores de todo o mundo, venho aqui divulgar uma notícia revolucionária: nosso país descobriu uma faixa de continente entre a América do Sul e a África que não havia sido encontrada por nosso sistema de satélites até recentemente. Essa faixa, de aproximadamente 10 mil km², possuía propriedades estranhas a nossos olhos, então fomos investigar. Lá, encontramos um minério que não é registrado em local algum e não consta na tabela periódica na análise inicial. Infelizmente, fora em pouca quantidade, mas nos ajudou a entender outro fato extraordinário que tem acontecido ao redor do mundo: o surgimento dos batizados Bruxos, essas pessoas que parecem ser tiradas de mundos de fantasia. Com a vossa bênção, eu peço que se encontrar algum Bruxo, que o mande para a embaixada americana em seu país que ele será bem tratado e nos ajudará a entender alguns mistérios de nosso próprio mundo. Isso é tudo...”
Com aplausos pela plateia que o assistia, ele desceu pelo lado e fora escoltado por dois seguranças grandes até a saída.
– Isso é mal – comentou Lillian ao grupo no ginásio.
– Nem me fale – disse Cole, segurando na mão uma adaga e testando seu peso – Se esse mala está por trás, pode ter certeza que vai piorar.
O presidente atual dos Estados Unidos tinha uma boa política para com seu país, mas era muito radical e agia contra as outras, sendo taxado de xenófobo. Para ele, tudo que não fosse americano não era digno de entrar em solo estadunidense. Ele só não fechou as fronteiras por causa da decadência econômica que o país estava sofrendo, pois nem mesmo a pressão das grandes corporações pareceu intimidá-lo.
– Certeza que querem pro exército. – confirmou Vergil, manuseando uma espada grande e pesada com relativa facilidade. – Qualquer coisa para aumentar o tamanho do poder militar.
– Não vai adiantar ficar remoendo sobre isso: temos que encontrar os filhos de Alucard e enviá-los de volta à Ryokun. – falou Lillian, se levantando. – Agora, hora de pôr em prática o que vocês aprenderam nesse tempo. Quero que--
Um estrondo ecoou por toda a escola. Os oito ficaram alertas, procurando qualquer sinal de agressão contra eles no ginásio. Quase que instantaneamente, Vergil correu para a entrada, preocupado com seus amigos. Atravessou corredores e viu uma das salas em escombros. Assombrou-se com a visão, mas não se deteve. Percorreu o largo do pátio até sua sala quando foi interrompido por uma ponta de tridente que perfurou o solo de cimento, segura por uma pessoa peculiar: usava vários panos esvoaçantes enrolados no corpo, multicoloridos, encobrindo não só suas feições, mas também seu tipo físico ou gênero. A única coisa visível eram as mãos, e mesmo isso era escondido por uma luva preta de tecido. O garoto parou de chofre e entrou em postura: em suas mãos uma espada de uma mão e meia ocidental, com corpo reto, empunhadura quadrada e feita em aço único junto da lâmina. O punho era coberto com tiras de couro apertadas e lisas, formando um padrão retilíneo e paralelo. Possuía duas protuberâncias laterais da lâmina assim que esta começava, prosseguindo reta e afiada até a ponta, onde se curvava suavemente até formar um vinco com o outro lado. Havia sido a primeira arma que havia posto a mão, então se viraria com ela; felizmente tinha treino com a mesma.
O indivíduo das capas puxou sua arma do solo e girou por cima da cabeça, tudo formando uma trajetória circular para empalar o garoto de lado. Este avançou defletindo a arma lateralmente e pôs a mão onde seria o pescoço dele. Com um urro, gritou:
– Impacto Terreno! – sua mão emergiu Energia vermelha, fustigando como um raio. Seu braço ganhou uma aceleração que jogou o inimigo para o chão, destroçando concreto numa área de 6 metros mais ou menos circular. Recolheu a arma e continuou seu caminho, deixando o alvo sangrando no chão.
Sua mente se perguntava se ainda estavam bem, mas uma outra pequena parte estava impressionada com o que acabara de fazer. Apesar disso, não teve muita chance, pois um grupo de 3 indivíduos, todos vestidos de túnicas amarelas, com um cinto de corda branca, armados de livros de bordas metálicas bloqueou sua passagem. Os alunos, professores e funcionários corriam desesperados para todos os lados, enquanto mais indivíduos destes os aterrorizavam.
Vergil segurou a arma com força e desferiu um arco horizontal. Um deles bloqueou com o livro, mas foi jogado com violência para a parede, fazendo um buraco ao atingi-la. A pressão do ar gerada foi suficiente para aturdir os outros dois, o que deu-lhe chance para apontar a mão para um deles e pronunciar com veemência:
– Disparo Celeste Duplo! – um feixe de luz rubra atingiu instantaneamente o inimigo, com outro sendo disparado em sucessão contra o outro, o nocauteando também. Feito isso, retomou a corrida passando por um curto corredor e saindo para a frente da escola. No canto do olho, viu muitos dos indivíduos que enfrentara cercando os alunos, professores e funcionários da edificação. À sua frente, os policiais estavam formando um cerco, limitando o perímetro para poder invadir com uma unidade tática.
Sem que percebesse, os sete que estavam no ginásio lhe alcançaram e viram a situação. Com comandos rápidos, Lillian coordenou os outros a irem à procura de remanescentes dos invasores e alunos reféns. Como os inimigos usavam armas arcaicas, o perigo de matarem alguém era ligeiramente menor. Cada um foi com sua equipe costumeira, entrando em cada canto que fosse possível, à procura dos alunos que não fugiram para longe do conflito.
Niéle fora na frente, escoltando Vergil. Eles ficaram encarregados da ala dos laboratórios, localizados na parte mais funda da escola. O corredor estava silencioso, porém mal iluminado, com algumas luzes piscando e prejudicando a visão. Dando um comando para diminuir o passo, a garota puxou um cajado das costas: era feito de madeira comum, mas muito resistente e pintado de um tom de laranja. Numa das pontas havia uma joia azul, cercada por lâminas semicirculares que a mantinham presa e protegida no local. Na outra, havia uma joia vermelha ladeada por pinças, como um mini pedestal. Ambos os lados não pareciam prontos para atacar, como se a arma fosse empregada para outro uso.
Mesmo mostrando firmeza nos comandos, a menina estava trêmula. Vergil colocou uma mão em seu ombro, para tranquilizá-la. O gesto a fez soltar um gritinho, onde o garoto fora rápido e a impediu de continuar, tapando sua boca com a mão. Nervoso, ficou atento aos sons que estava captando: uma conversa falando sobre as rondas, passos demasiados para dois guardas, e choro de pessoas numa sala. Após a análise, liberou a menina, cuja face estava tranquila, mas envergonhada. Não prestou atenção nisso, apenas segurando a arma com força e sussurrando perto de sua orelha.
– O que faremos? Sondei o local, mas tem muito mais que dois guardas e alguns alunos presos numa sala. – perguntou Vergil. A garota respondeu olhando bem em seus olhos, apesar de ainda estar vermelha.
– V-vou distraí-los e você abre para eles.
Confirmando com a cabeça, Vergil deu um passo à frente, ficando encostado à parede e pronto para adentrar a porta do laboratório de química. Niéle cambaleou ao levantar, mas retomou à postura. Encostou o cajado na alvenaria, sussurrando algo. Imediatamente a ponta vermelha da arma começou a brilhar, deixando uma trilha incandescente na parede, quase cortando-a no meio. Ela correu enquanto fazia isso, e o barulho atraiu a atenção dos guardas.
Procurando não chamar atenção, Vergil respirou fundo e tentou diminuir sua emissão de Energia, acalmando o coração e minimizando as funções vitais, tudo para esconder sua presença. Os guardas, trajados de túnicas amarelas e cintos de corda trançada, passaram direto, ignorando o garoto colado na parede com uma espada grande em mãos. Com passos furtivos, ele atravessou a porta e viu um dos homens ainda lá dentro, de olho nos alunos e no professor no canto da sala. Um deles o observou e gritou de esperança. Subitamente, todos os olhares se voltaram para o garoto, que disparou a toda velocidade um feixe de luz vermelha da ponta do dedo, apontado como uma pistola para o inimigo. O raio o nocauteou na hora. Bufando, quase atacou o garoto em irritação, mas conteve a voz e o braço, resmungando:
– Vão para fora, está liberado o caminho.
Viu os rostos mostrarem alívio enquanto passavam por ele. Expandindo sua Percepção, notou Niéle parada com as outras Energias dos inimigos. Para ganhar tempo enquanto procurava a rota mais rápida, ele pronunciou “Acelerar Terreno”: a sensação era a mesma quando usava o Accelero, mas agora não havia o cansaço demasiado. O ar estava muito mais denso, porém ele tinha certeza que o tempo estava mais devagar. Venceu os metros do corredor com dificuldade, já que os intervalos das luzes estavam maiores, correndo o risco de ser visto se movimentando.
Chegou numa área um pouco maior, o pátio da área dos serviçais. A garota estava parada, com um escudo côncavo grande de fogo pouco à frente de sua mão direita aberta, protegendo-a das rajadas de Energia que os três indivíduos disparavam. Ela não parecia cansada, mas estava apreensiva, e Vergil viu o porque: duas meninas estava logo atrás dela, tremendo de medo. Puxando o ar dos pulmões, bradou com toda a força que tinha:
– EI, VOCÊS!!!
A distração foi o suficiente para chamar a atenção deles, o que deu tempo para a maga recolher a proteção e apontar o cajado para cima, dizendo:
– Bola de Fogo Tripla! – três grandes bolas de fogo, do tamanho de bolas de basquete, surgiram acima de sua cabeça e foram disparadas assim que ela movimentou o bastão contra os inimigos. Instantaneamente, eles foram envolvidos e gritaram em terror, correndo para os lados a esmo. Atento a qualquer errante, a garota extinguiu as chamas com uma batida no chão da ponta azul. Os três estavam queimados, mas não parecia ser de terceiro grau.
Vergil amparou as meninas e se junto à sua parceira. Ela lhe deu um sorriso, como se não fosse a pessoa que acabara de quase assar três. Após esse evento, eles sondaram os outros laboratórios, mas não havia mais ninguém. Então, retornaram para Lillian, que estava os aguardando na saída da escola, discutindo com os policiais. Depois de um tempo, um oficial saiu da conversa, e veio falar com Vergil.
– Ah, Vergil! Estranho te ver nessa situação – disse o homem, com um sorriso sem graça.
– Heh, sabe como é, Scott: eu acabo atraindo esse tipo de problema. – respondeu o garoto ao falar com o seu amigo. Scott era um homem novo, de 20 anos apenas, mas que era um proeminente oficial de polícia. Através de determinação e muito trabalho duro, ele ascendeu as posições em menos de dois anos e fez um concurso público, se tornando delegado da cidade. Era um rapaz um pouco baixo, com 1,68m e 62 kg, cabelos pretos e curtos, com olhos azuis-claros, coisa rara de se ver. Bem cobiçado pelas mulheres por sua aparência elegante e rosto de ator, era ele quem dava conselhos para o garoto antes de Cole e Claire, por sua incrível capacidade de ler emoções e entender o estado de pensamento de uma pessoa.
– Engraçado como são as coisas. Nós estamos procurando esses fanáticos a semanas, e vejo que estão aqui, bem perto de você. Vou acabar botando uma escuta em você, garoto! – disse, enquanto pressionava o punho contra a cabeça de Vergil.
– Ai, ai, ai! – reclamou o garoto, enquanto se desvencilhava do aperto – Fanáticos?
– Isso mesmo. Essa seita surgiu a alguns meses. Antes não faziam nada, mas os casos de falta de energia e atentados ao público estavam ligados a eles quase sempre.
– Que terrível...
– Pois é, cara. E o pior é que sempre acabam sequestrando adolescentes e fazendo uma lavagem cerebral. Mesmo que os peguemos, não podemos prender, e a quantidade está demais até para nós – deu uma pausa enquanto coletava os pensamentos – Se autoproclamam os “Filhos de Jovái”.
Vergil estranhou o nome, mas teve um mal pressentimento. Isso deve ter refletido em seu rosto, pois Lillian lhe deu uma forte cotovelada e Scott perguntou:
– Você tá bem? – a preocupação era visível, mas o instinto policial transparecia uma certa desconfiança pela face.
– Estou, estou. Só um pressentimento ruim.
– De qualquer forma, quase todos eles são Bruxos. Muitos, depois que percebem a gravidade de seus atos, são libertados e mandados para a embaixada. Curiosamente, sem saber de nada...
– Scott, tenho uma coisa para contar para você... – começou o garoto. A professora olhou incrédula e fez menção de interromper, mas parou de chofre, compreendendo a intenção dele por sua expressão e a determinação calorosa que partia de si. Deu um sorriso discreto e esperou a resolução de seu aluno.
– O que foi, cara? – perguntou o policial, confuso, mas cauteloso ainda assim.
– Eu sou um Sensitivo também, mas eu quero ajudar vocês.
– Um o que?
– Atualmente, são chamados de Bruxos, mas na verdade são Sensitivos.
“Então era verdade mesmo. Achei que tinha imaginado aquilo, mas definitivamente era Vergil dando aqueles gritos e manejando aquela espada gigante. Também vi disparando um feixe de luz vermelho da mão, o que apagou aqueles lá na hora.”. Por um momento, Scott quis puxar a arma do coldre. Mas lembrou-se que o Vergil que estava à sua frente era o mesmo garoto que conheceu a vários anos atrás, com sua coragem e determinação inabaláveis, mesmo desde pequeno. Por fim, não conseguiu duvidar dele e sabia que não havia intenções por trás disso.
– Entendo – respondeu Scott com a voz um pouco trêmula – O que pretende fazer para ajudar?
– Na verdade, queria que me orientasse nisso. – disse o garoto, coçando a parte de trás da cabeça com um sorriso desajeitado.
– Já que é assim, venha comigo. Tenho que discutir isso com meus colegas de trabalho. Vai ser um pouco difícil convencê-los, mas acredito que será possível. Tenho uma ideia.
Fale com o autor