A Ordem de Drugstrein
2 Encontro Inesperado - Parte 1
Notas iniciais
Capítulo 001
Encontro Inesperado (Parte 1)
O arcanista observava a vasta campina com um olhar distraído. Encontrava-se em uma pequena cidade a menos de duas centenas de quilômetros de sua ordem e lembrava-se da noite anterior, tal qual passara com uma bela mulher.
Seus cabelos eram de um vermelho intenso, assim como os olhos, e estendiam-se até pouco abaixo de seus ombros. Vestia-se com simplicidade, utilizando botas de couro; calças e camiseta de algodão azul escuro. Seu sobretudo – que por alguma razão eles chamavam de manto – era vermelho com a bainha, detalhes no final da manga e da gola prateados.
Aquele manto que ele utilizava o caracterizava como sendo um mestre entre os magos, e aqueles detalhes prateados indicava que ele era um dos mestres de elite dentro de sua ordem.
— Encontrou algum sinal, Paxter? – Perguntou enquanto se virava para os outros dois magos ali presentes.
— Encontrei, mestre Spaak.
Paxter era o mais alto dos dois irmãos, apesar de ser o mais jovem. Seus cabelos eram de um castanho acinzentado e ele o usava bem longo. Seu irmão era bem parecido, porém, com o cabelo um pouco acima dos ombros. Paxter tinha dezesseis anos e Giun, dezoito.
— Muito bem. Quero que saibam que não pretendo me envolver nesta missão. Como o protocolo pede que a equipe mínima seja de três, resolvi trazê-los para que tenham um pouco mais de experiência ao lidar com outros magos.
— Sim, mestre Spaak, a experiência esta valendo a pena – desta vez foi Giun quem respondeu.
— Certo, certo – o mestre respondeu em um tom zombeteiro. – Mas parem de me chamar de mestre o tempo todo, não precisamos de tanta formalidade assim.
Os rapazes consentiram, mas ainda continuavam a se comportar de maneira acanhada devido à grande diferença de status entre as partes envolvidas.
— Agora chega de conversa e vamos logo seguir esse rastro de aura que você encontrou.
* * *
Kayan espreguiçou-se enquanto percebia os raios de sol entrando pelas frestas da veneziana de madeira fechada de seu quarto. O cômodo era bem simples e muito bem limpo e organizado. Além da cama do rapaz havia um baú onde ele guardava suas roupas, uma estante com alguns livros e uma pequena mesa de madeira, ao lado de sua cama, onde jazia uma grossa vela de cera apagada e já perto do fim.
Levantou-se vagarosamente, ainda bocejando, e vestiu as calças de algodão cinzento antes de abrir a janela — não queria correr o risco de ser visto completamente nu por qualquer pessoa que estivesse observando sua casa por qualquer motivo.
Ele era um rapaz de boa estatura para sua idade, magro e com a tez da pele bem clara. Tanto seus cabelos quanto seus olhos eram completamente negros e ele fazia questão de bagunçar os cabelos com as mãos de vez em quando. Era um ato involuntário que sempre o deixava com os mesmos bem despenteados.
E foi em meio a esse ato involuntário que ele caminhou para fora de seu quarto e se dirigiu até um pequeno quartinho ao lado que continha uma latrina, uma pequena banheira de cobre e uma mesa com uma bacia do mesmo material cheia de água. Lavou o rosto e as mãos naquela água e foi para o próximo aposento da casa. Antes disso, porém, parou de frente a uma porta fechada de madeira ao lado da de seu quarto e ficou um momento a observando. Suspirou longa e pesadamente e seguiu seu caminho.
A porta a seguir era uma cozinha bastante espaçosa. Numa parede havia uma lareira ainda com restos de madeira queimada – afinal de contas o inverno havia acabado há pouco e a temperatura ainda era amena – e um fogão a lenha ao seu lado, ambos feitos de pedra, assim como o restante da estrutura da casa. Duas mesas permeavam o centro do cômodo, sendo uma maior, com cadeiras a sua volta e um cesto cheio de pães ao centro, local do qual Kayan pegou um deles e começou a comer. A outra era uma mesa de trabalho e tinha algumas ferramentas de trabalhar o metal, embora não havia bigorna nem fornalha ali.
O jovem abriu uma outra janela na cozinha e observou como estava o dia lá fora. Aquela janela tinha visão para uma rua pavimentada com pedras irregulares, mas bem assentadas. Ele via o movimento intenso da cidade e resolveu sair imediatamente. Antes disso, porém, passou em seu quarto e vestiu um colete de couro preso por botões de bronze. O colete tinha mangas curtas e era uma peça bem bonita na qual Kayan pagara umas boas moedas de prata.
Assim que saiu da porta de sua casa e trancou-a com uma grande chave de ferro, um senhor de roupas gastas e surradas apareceu com um forcado em sua mão.
— Mestre Kayan, por favor, preciso deste forcado para trabalhar e alimentar minha família. Conserte para mim senhor, por favor. Eu tenho cobre.
Kayan observou o homem com certa apreensão. Geralmente não consertava as ferramentas das pessoas, caso contrário estaria sempre rodeado de trabalhadores que não queriam gastar comprando novos utensílios. Porém, ele percebeu que aquele senhor realmente parecia precisar de sua ajuda e daquele forcado. Resolveu ajudá-lo, afinal aquilo apenas lhe custaria alguns segundos.
Pegou a ferramenta e a inspecionou, constatando que ela apenas estava com o cabo quebrado e nenhuma avaria na parte metálica exceto o desgaste de muito uso. Encostou as duas partes uma na outra e concentrou-se para que sua energia fluísse para a madeira. E, então, pequenas ramificações surgiram de um lado para o outro se trancando como se fossem cipós marrons. Por fim eles se assentaram em torno do eixo central do cabo da ferramenta e uma pequena parte perfeitamente cilíndrica de madeira se destacava do restante rústico da ferramenta.
— Muito obrigado, mestre Kayan – disse enquanto recebia sua ferramenta novamente. – Eu só tenho três moedas, senhor. É tudo o que tenho, me desculpe.
— Não se preocupe com isso. Não precisa me pagar, apenas não conte a ninguém o que eu fiz para você.
O velho, então, afastou-se em meio a agradecimentos e mesuras. Todas as pessoas de Bereth respeitavam Kayan, mas a maioria delas também o temia. Eles não conheciam magia e não sabiam do que um mago era capaz. Também não sabiam que Kayan sabia apenas o básico da mesma e utilizava seus conhecimentos para conseguir seu sustento e viver confortavelmente mesmo sendo tão jovem.
Vendo o senhor sumir de vista satisfeito, o jovem continuou seu caminho por aquela que era uma das ruas principais da pequena cidade.
* * *
A oficina de Jeniton estava extremamente movimentada naquela manhã. O ferreiro fabricava ferraduras e ferramentas em geral, mas seu forte mesmo eram armas como espadas e machados, além de algumas armaduras como cotas de malha.
Kayan passou pela grande porta da entrada e seguiu diretamente para o balcão, onde um rapaz aproximadamente da mesma idade do mago estava atendendo os clientes.
— Jen, seu pai está trabalhando lá nos fundos? – ele perguntou.
— Sim, Kayan, e ele tem trabalho para você.
O rapaz, então, seguiu para trás do balcão como se já fosse bem familiarizado com a loja e passou por uma porta aos fundos. Ao passar por ela deparou-se com um homem de meia idade vestindo calças e sandálias de couro, além de um avental do mesmo material. Seu torso estava nu por baixo da vestimenta de proteção e um de seus braços era bem mais forte que o outro. Seus cabelos já começavam a faltar, mas os que restavam eram de um castanho bem vivo.
Assim que percebeu que Kayan estava ali ele parou de martelar a espada que estava fabricando, pousou a marreta na bigorna, a arma na água e encarou o rapaz.
— Que bom que apareceu, Kayan, tenho algumas armas para que conserte aqui.
Sem apresentar respostas, o mago aproximou-se de uma pilha com algumas espadas danificadas. Duas delas estavam quebradas e as demais com serias avarias em sua lâmina ou rachaduras em sua estrutura.
Kayan começou por uma das que estavam quebradas. Uniu ambas as partes e concentrou-se para visualizar a maneira que elas deveriam ser. Em seguida, utilizou sua energia para aquecer o metal e controlou sua estrutura para que ela se fundisse devidamente uma na outra. O processo era lento e delicado e o mago levou vários minutos para concluí-lo. Após isso, começou o mesmo processo com outra das lâminas.
O sol já passara da metade de seu percurso quando o rapaz terminou sua última espada. Mostrou o resultado do trabalho para Jeniton, que as inspecionou uma a uma, satisfeito.
— Muito bom, como sempre. Incrível como sua magia religa o metal sem deixar marcas. Agora tudo o que tenho que fazer é refazer o fio da lâmina. Aqui está, cinco moedas de prata pelas cinco espadas.
— Cinco de prata e cinco de cobre. Uma delas era uma espada de duas mãos e vale mais.
— Esta certo, esta certo, aqui está.
Jeniton retirou um pequeno saco de moedas de seu bolso e contou a quantidade pedida pelo garoto. Ele pegou-as e guardou-as nos bolsos de sua jaqueta, as de prata em um e as de cobre em outro.
— Bom trabalhar com você, até uma próxima ocasião.
— Até, Kayan, tenha um bom dia.
Ele não respondeu novamente, apenas acenou ao sair da quente oficina. Estava com fome e a próxima parada seria na taverna do Cavalo Veloz.
* * *
A taverna do Cavalo Veloz era uma das melhores e mais caras de Bereth, mas Kayan havia recebido um bom dinheiro pelo trabalho do dia e considerava-se merecedor de uma comida de boa qualidade naquele dia.
O ambiente não estava muito carregado de pessoas e o rapaz poderia escolher a mesa que desejasse. Escolheu uma no centro do estabelecimento e esperou para ser atendido.
Estava aguardando seu vinho e o pernil de carneiro que havia pedido quando um sujeito entrou no local. Ele era bem magro e de cabelos longos e castanhos. Aparentava ser jovem, mas há muito já um homem feito. A barba estava por fazer e ele trajava vestimentas de lã muito bem tingidas de branco — no caso da camisa — e marrom — no caso da calça. Também utilizava um sobretudo na mesma cor de suas calças, além de calçar botas de couro e ostentar um anel e uma corrente com um pingente de ouro.
No exato momento que o viu, Kayan soube que eles tinham algo em comum. Ele nunca havia tido contato com outro mago antes, mas algo lhe dizia que aquele homem também era um conjurador.
Resolveu que conversaria com ele. Sempre quis saber como era estar em uma ordem ou guilda e talvez aquele homem pudesse lhe contar. Mas decidiu que falaria com ele apenas do lado de fora da taverna, onde havia uma menor quantidade de pessoas. Para tal, enrolou o máximo que pode para comer seu pernil assado e tomar seu corno de vinho. Quando o homem terminou de se alimentar e se afastou do balcão, Kayan apressou-se para pagar as seis moedas de cobre que devia ao estabelecimento e saiu atrás dele.
— Senhor, um momento, por favor – chamou quando haviam saído fora do estabelecimento e já estavam na rua. – O senhor é um mago também, não é?
O homem virou-se um tanto quanto assustado e a sensação que Kayan sentia sobre ele se esvaiu e ao garoto ele parecia-se como qualquer outro humano comum. Passou um breve momento, no qual Kayan pensou em desculpar-se pelo engano cometido, até que ele voltasse a sua expressão comum e lhe respondesse.
— Entendo, você é um mago destreinado, por isso sua energia é tão fraca e não o percebi. Não... eu não quais ofende-lo, rapaz, não quero dizer que seu poder seja fraco, apenas que é destreinado, nunca esteve em uma ordem antes, não é?
Ele se justificou tão rapidamente ao ver o olhar de desagrado de Kayan que o mesmo cogitou a hipótese do outro possuir a habilidade de ler a mente das pessoas.
— Me chamo Kayan, e realmente nunca estive em nenhuma ordem. O que sei aprendi sozinho ao ler alguns livros e praticar.
— Muito prazer, Kayan, eu sou Allen Kurbs, um mestre dentro da Ordem de Drugstrein.
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