A Ordem de Drugstrein
80 Elfos - Parte 2
Notas iniciais
Capítulo 079
Elfos (Parte 2)
Thays concentrou-se e pequenas esferas de aura com cerca de vinte centímetros de diâmetro surgiram atrás dela. Eram cerca de trinta delas e todas pegavam fogo.
— Que coisa idiota é essa? Acha que essas esferas de fogo me farão recuar?
Karion caçoou da Cyren enquanto conjurava uma lâmina de vento contra a mesma. Antes mesmo de chegar perto dela, uma das esferas avançou e a interceptou. A explosão causada dissipou o feitiço do Wigg imediatamente.
Ainda mas furioso, ele começou a conjurar várias lâminas de vento na sequência. As esferas flamejantes avançavam e protegiam sua conjuradora sem que Thays sequer precisasse pensar nisso. Elas eram guiadas por aura em um sistema semelhante ao de invocações, e agiam livremente em várias situações. Conforme as explosões ocorriam e destruíam os feitiços de Karion, a Cyren conjurava novas esferas flamejantes.
— Será engraçado se ele continuar insistindo nisso e ficar sem aura antes de mim – ela comentou apenas para que Kayan a ouvisse.
— Eu estou me segurando para não ir lá acabar com ele pessoalmente – respondeu-lhe ele.
— Não fique irritado, foram só palavras afinal.
Depois de mais de um minuto de ataques inúteis, Karion decidiu mudar de estratégia. Ele estava ofegante devido ao grande uso de sua aura e de movimentar os braços em sequência para conjurar seus feitiços. Uma poderosa descarga elétrica foi dirigida contra a Cyren. Uma das esferas flamejantes do crisis supris avançou para interceptá-lo, mas a descarga elétrica avançou assim mesmo e a destruiu completamente. Para se defender, Thays colocou ambos braços na frente do corpo e conjurou um aurus pinn.
O impacto foi terrível e chegou até mesmo a empurrá-la para trás. Um estrondo foi ouvido, tal como um trovão. A terra ao redor da Cyren foi removida e ela precisou utilizar toda sua força para conseguir impedir aquele poderoso feitiço. A força da ofensiva de Karion era maior que sua defesa, ela admitiu para si mesma. Certamente seria derrotada dentro de alguns instantes se aquele embate de forças continuasse.
Enquanto concentrava toda sua aura naquela defesa, Thays fez com que as esferas flamejantes avançassem contra seu adversário. Ela não fez isso de forma direta e sim de uma maneira que elas o cercassem. Focado em seu feitiço, o Wigg percebeu tarde demais quando elas avançaram contra ele de uma única vez.
Thays sentiu a pressão contra seu escudo sumir subitamente quando Karion encerrou seu feitiço para poder conjurar uma barreira de energia para conter as várias explosões causadas pelas esferas do crisis supris de sua adversária. Individualmente as esferas não possuíam grande poder, mas quando unidas em um único ponto podiam causar tanto estrago quanto o melhor crisis katris que a mestre poderia conjurar.
Apesar da explosão devastadora que o feitiço causou, Karion foi capaz de se defender a tempo. Sua barreira foi conjurada apenas na sua frente e anulou completamente os ataques que vieram daquele lado. Contra as que vieram pelas suas costas, porém, ele teve que contar apenas com sua aura para se proteger.
A Cyren viu quando Karion foi atingido por quase metade de sua ofensiva e arremessado para frente. Ele conseguiu levar um braço ao chão antes de cair e girou o corpo de maneira a cair em pé. Ela, por sua vez, não perdeu tempo e avançou contra seu oponente imediatamente.
Karion percebeu a aproximação de sua adversária naquele exato momento e já preparava um tangrea para atingi-la. A Cyren, porém, usou sua grande agilidade para chegar bem perto dele antes de ser atacada. Ampliou sua força com sua aura e desferiu um soco diretamente contra o estomago do Wigg. Esquivou-se para o lado para que o sangue que ele cuspiu não a sujasse.
Antes que Karion se recuperasse, Thays saltou e agarrou a cabeça do rapaz com ambas as mãos e puxou-a contra seu joelho direito. Com a aura ampliando as capacidades físicas da baixinha de cabelos azulados, aquele golpe teve um impacto enorme em Karion, que se afastou cambaleante.
O Wigg não podia acreditar que estava sendo subjugado daquela maneira. Ele utilizava sua aura para se defender e mesmo assim os golpes que recebia tinham uma força terrível e o feriam gravemente. Ele não podia ser derrotado daquela maneira. Aquela devia ser um alvo esgotado. Ele já a havia derrotado antes, então porque estava perdendo? Como ela havia evoluído tanto assim?
Karion forçou-se a se estabilizar para contra atacar. Reuniu o máximo de aura que conseguiu em tão pouco tempo para um novo tangrea. Ele iria fritá-la com certeza. Só percebeu o último golpe quando sentiu a dor lancinante em no lado esquerdo de seu rosto. Thays havia girado em volta de seu próprio corpo e quando o Wigg avançou para lançar seu raio elétrico ela atingiu-o com o calcanhar esquerdo. Ela havia utilizado tanta aura naquele chute que um estrondo foi ouvido até bem longe dali.
— Que tal?
Ela perguntou enquanto caminhava em direção a Kayan e deixava seu oponente desacordado no chão.
— Parece que eu não era o único irritado aqui. Você partiu para uma luta corpo a corpo só para poder descontar sua raiva.
Quando ela chegou perto, Kayan colocou a presilha da flor do eterno inverno em seus cabelos novamente.
— Palavras podem ser bem ofensivas – justificou-se ela.
Aquele comentário fez com que o casal risse por alguns segundos. Após isso, olharam para os dois outros mestres, que já haviam corrido para auxiliar o líder de sua equipe.
— E aí, o que vai ser? Querem tentar a sorte? – indagou-lhes Thays.
— Se vocês quiserem lutar, enfrentarão apenas a mim – disse-lhes Kayan.
— Hum. Vocês não estão com sorte – comentou Thays. – Sabe, o Kayan é um mago negro e não é tão bonzinho como eu. Vocês vão acabar bem mais feridos que o Karion.
O Wigg tinha queimaduras por todo corpo. Pelo que eles analisaram, as costelas inferiores do rapaz haviam se quebrado e o maxilar também.
— Nós nos rendemos. Por favor, nos deixe terminar nossa missão – pediu um deles.
Kayan montou seu cavalo e entregou o de sua namorada para que ela fizesse o mesmo.
— Nós não queríamos lutar com vocês desde o início. Pretendíamos até ajudá-los. Podem curar o Karion, ou levar até um mago branco se não conseguirem.
Após aquelas palavras, Kayan começou a se afastar. Antes de ir muito longe, porém, virou-se para os dois para algumas últimas palavras.
— Quando esse traste acordar, digam-no que da próxima vez que ele me ameaçar ou ameaçar alguém da minha ordem novamente, eu certamente o matarei. Avise-o que se ele me ver de novo é melhor ele correr o máximo que puder, pois esta foi a última vez que o deixei sair com vida.
Após se afastar dos magos de Zeneth o casal cavalgou em silêncio por alguns minutos antes que Thays o quebrasse.
— Você falou sério? Sobre matar o Karion.
Kayan pensou muito bem em como deveria responder aquela pergunta. Por fim chegou a conclusão de que não deveria esconder nada da mulher que ele amava, nem mesmo suas resoluções mais obscuras.
— Ele é perigoso demais. Você pode acabar com ele agora, mas apenas uns dez por cento dos magos de Drugstrein poderiam fazer o mesmo. Eu não seria capaz de executar alguém, mas lutar com a intenção de matar aqueles que ameaçarem as pessoas que são importantes para mim será o que farei de agora em diante.
— É uma resolução muito forte. Você é um mago negro afinal. Também tem o seu lado sombrio.
— Espero que isso não faça você me amar menos, mas não irei mais medir esforços para proteger o que é importante para mim. Mesmo que isso signifique matar outros magos.
Ela sorriu para ele ao ouvir aquilo. Um simples sorriso que sempre era capaz de alegrar o jovem Atreius.
— Isso não muda o que eu sinto por você. Muito pelo contrário. Você sempre faz a parte mais difícil e direciona esse seu lado sombrio para nossos inimigos. Isso só faz com que eu te ame cada vez mais.
Sorrindo, Kayan se aproximou de sua amada e estendeu-lhe a mão. Foi de mãos dadas que eles seguiram cavalgando por um longo percurso de seu caminho para a terra dos elfos.
* * *
Sem pressa para chegar nas florestas dos elfos, Kayan e Thays viajaram tranquilamente pelo norte das planícies Daran, parando sempre nas vilas para passar a noite. Eles puderam perceber como aquela região era mais militarizada, uma vez que os goblins atacavam com frequência na tentativa de saquear os vilarejos.
Quando chegaram na última cidade antes dos limites do território humano, venderam seus cavalos para terminar o restante do trajeto a pé, pois os animais não se dariam muito bem na floresta fechada.
— Então é assim que é o território dos elfos – comentou Thays ao caminhar ao lado de Kayan.
— Para mim também é novidade. Assim podemos explorar ele juntos.
A enorme floresta onde os elfos viviam era um pouco diferente das que existiam no território dos humanos. Além de muito mais fechada, as árvores eram muito mais altas e robustas, e também de espécies diferentes das que os magos já haviam visto.
Apesar da densidade da floresta, também havia rios, riachos e clareiras. E foi em uma dessas clareiras que o casal parou para a refeição do meio do dia. Para tal eles haviam caçado um porco do mato e Thays preparou a carne para os dois.
— Gostaria de lembrar quais frutos daqui são venenosos ou não – comentou ela enquanto comiam.
— Estudamos isso em Drugstrein, mas também não me lembro.
Eles podiam utilizar um encantamento da esfera da água para purificar o fruto e livrá-lo de qualquer veneno, mas isso também tirava-lhe o sabor, então não havia nada que pudessem fazer sobre o assunto.
— Tenho uma dúvida quanto ao nosso plano de visitar os elfos – disse Thays, alterando completamente o assunto. – Como faremos para encontrá-los?
— Simples, iremos sentir a aura de algum de seus magos e pediremos para que nos leve ate Elfelian.
— Certo. Só tem um problema. É impossível sentir a aura dos elfos a não ser que eles estejam usando magia ativamente ou estejam muito perto de nós.
Ao ouvir aquilo, Kayan parou de comer e exibiu uma expressão de surpresa que fez com que Thays caísse na risada.
— Vai me dizer que não sabia disso?
— Não fazia ideia. Lá se vai meu plano.
— Tudo bem. Temos uma alternativa.
A Cyren pegou uma pedra no chão e utilizou um clayn para transformá-la em um bastão com um lado pontiagudo. Após isso, utilizou um encantamento que a fazia apontar para o norte.
— Podemos seguir para o oeste até chegarmos na costa. Pelo que sei...
— ... os elfos tem um porto que eles utilizam para chegar até Mandrakory – completou ele junto com a namorada e os dois começaram a rir.
* * *
Mais tarde naquele dia o casal continuou seu trajeto tranquilamente. O clima na floresta era ameno, apesar de bastante úmido, e isso tornava o trajeto em um passeio bem agradável. Isso ao menos até serem surpreendidos por uma voz que, apesar de suave, falava com autoridade.
— Parados aí mesmo, humanos.
Quando eles olharam para a direção da voz, viram um elfo sobre uma das árvores a frente. Quando repararam melhor, perceberam que havia mais de uma dezena deles sobre as árvores.
Sobre os galhos, camuflado entre as folhas, eles portavam elegantes arcos com cordas já retesadas cujo as flechas estavam apontadas para o casal. Eram magros e elegantes. Todos com cabelos lisos que variavam de um loiro quase branco ou preto mais escuro que uma noite sem estrelas. Seus olhos eram todos claros e suas vestimentas armaduras de couro e tecidos em tons de marrom ou verde.
— Digam o que querem invadindo nossas terras – ordenou outro com uma voz ainda mais suave.
Só então Kayan reparou que havia elfas entre eles. Todos eram muito esbeltos e em meio a folhagem era difícil reparar nas curvas do corpo feminino e nos traços mais delicados no rosto.
— Não estamos invadindo – disse ele. – Estamos visitando.
— Somos mestres da Ordem de Drugstrein e até onde sabemos humanos e elfos ainda são aliados – complementou Thays.
Enquanto conversavam o casal tentou sentir a aura dos presentes. Todos ali possuíam uma presença bem fraca. Isso era normal uma vez que todos os elfos possuíam um mínimo de controle de sua aura. Isso lhes possibilitava ampliar suas capacidades físicas para um combate ou até mesmo para as atividades do dia a dia.
Como não sentiram nenhuma aura mais forte, ficou claro que não havia magos entre eles, exceto se estivessem escondendo suas auras. Mas isso não amenizava a tensão da situação.
Apenas observaram enquanto a elfa conversava com outro de sua raça em seu próprio idioma. Em seguida, ele saltou da árvore e correu em direção sudoeste, embrenhando-se na floresta.
— Miliir foi comunicar um de nossos lideres e ele certamente irá querer conversar com vocês antes de permitir que entrem mais a fundo em nosso território. Devo-lhes pedir desculpas por esta inconveniência, mas recentemente alguns magos humanos invadiram nossa floresta e nos causaram problemas.
Kayan pensou em fazer algumas perguntas, mas quando olhou para a namorada viu que ela fazia um sinal de negativa com a cabeça. Após raciocinar um pouco, entendeu que ela pretendia conversar com o mago que viria lhes conhecer, uma vez que ele devia ser algum tipo de líder perante os elfos.
— Podemos esperar – disse ele, por fim.
— Isso pode levar algumas horas.
— Não temos pressa.
Após aquelas palavras, retirou a pesada mochila que trazia nas costas e colocou-a no chão, sendo imitado por Thays logo em seguida. Utilizando um visgoon, Kayan fez com que os galhos de uma árvore se moldassem no formato de um banco relativamente confortável. Ele sentou-se e Thays se aninhou ao lado de seu corpo para que ele passasse seu braço esquerdo sobre seus ombros, abraçando-a.
— Vamos, relaxem – disse ela. – Não sairemos daqui.
Apesar disso, os elfos mantiveram sua vigilância.
* * *
Quando Thays acordou já era noite. Sem perceber, ela havia sido pega pelo sono e dormiu com a cabeça apoiada no peito de Kayan e suas pernas sobre as dele. Ainda sonolenta, sorriu ao perceber que ele a abraçava.
A floresta era bem escura durante a noite e os elfos conseguiam ver perfeitamente apenas com a fraca luminosidade da lua. Como os humanos não tinham esta vantagem, Kayan havia encantado uma pedra para que ela emitisse luz e não os deixasse na quase total escuridão.
— Eles estão assim desde aquela hora?
Ela indagou assim que percebeu que os elfos mantinham-se sobre as árvores de prontidão. Seus arcos não estavam mais retesados e nem as flechas apontadas para eles, mas eles seguravam ambos ao lado do corpo de uma maneira que poderiam disparar em uma fração de segundos.
— Estão sim – respondeu-lhe Kayan após um breve beijo em sua testa.
— E você também estava de prontidão, ao que parece.
— Acho que podemos confiar neles, mas precaução nunca é demais.
— Eu acabei dormindo, me desculpe.
— Tudo bem, você fica muito bonitinha quando esta dormindo.
Ela sorriu e levantou-se enquanto se espreguiçava. Sabia que Kayan devia estar entediado de tanto esperar, mas não havia nada que pudessem fazer quanto a isto. O Atreius imitou-a e se esticou. Desfez o banco improvisado logo em seguida.
Eles já haviam tentado puxar assunto com os elfos, mas eles não pareciam muito interessados em conversar, então não tentaram novamente. Ao invés disso, o casal começou a conversar apenas entre eles enquanto aguardava a chegada do tal líder que viria verificá-los.
Não levou muito tempo mais para que uma elfa surgisse em meio a vegetação e se aproximasse dos dois. Eles observaram-na muito bem. Suas vestimentas eram um pouco mais elegantes que os demais e completamente feitas de seda em tons verdes, que poderiam não ser tão escuros quanto aparentavam devido à noite. Seus cabelos eram pretos e os olhos de um azul profundo.
— Eu sou Illya li Myrial, uma das anciãs dos elfos e conhecida como a eremita.
Apesar da aparência jovial, Illya certamente tinha mais de mil anos de idade para ser chamada de anciã. Provavelmente ela era uma maga poderosa.
— Meu nome é Thays Cyren, prazer em conhecê-la.
— E eu sou Kayan Atreius. Somos mestres da Ordem de Drugstrein.
— Vocês disseram que vieram nos visitar. Isso é algum tipo de missão da Ordem de Drugstrein?
— Não. Quando dissemos que viemos visitar, viemos apenas visitar mesmo – respondeu-lhe Kayan. – Nós já enfrentamos todos os tipos de criaturas, desde os povos bárbaros até os sraths, mas nunca conhecemos um elfo antes, por isso pensamos em passar alguns dias em Elfelian.
— Entendo. No passado isso não era incomum de se acontecer. Magos humanos, principalmente mestres, vinham até nossas terras de tempos em tempos. Após o evento que vocês chamaram de Rebelião Negra isso parou de acontecer.
Enquanto eles conversavam, os magos de Drugstrein perceberam que os elfos em cima das árvores haviam relaxado um pouco. Eles sentavam-se sobre os galhos, o que indicava que estavam cansados após tanto tempo mantendo sua vigilância.
— Sabem por que o meu povo me chama de eremita?
O casal apenas fez um sinal negativo com a cabeça e Illya respondeu-lhes.
— Eu costumava passar muito tempo fora de nosso território. Elfos não são de falar muito, mas eu gosto de conversar bastante. E das raças com as quais mais gosto de interagir estão os humanos. Eu costumava passar anos de minha vida viajando entre as ordens de magos. Como o granmestre Radamanthys tem passado?
Kayan não pode esconder sua surpresa pela pergunta, mas respondeu-lhe educadamente.
— Ele está bem.
— Acredito que ele seja algum parente seu, vejo alguma semelhança entre vocês dois. Ele nunca falou de mim para você?
— Ele é meu tio, mas nós não nos falamos muito.
— Deveria imaginar. Radamanthys nunca foi de falar muito, mas gostava muito de minha companhia quando estávamos sozinhos. Quando o ver de novo diga-lhe que mandei-lhe lembranças e que ainda não encontrei um amante que me agradasse tanto quanto ele me agradou.
Kayan e Thays entreolharam-se enquanto se perguntavam se o que acabaram de ouvir realmente significava o que eles pensavam que significava.
— Vocês desejam visitar Elfelian, então os conduzirei até lá, mas apenas a partir de amanhã. Por hoje podemos caminhar até o rio Tyail, que fica a uns dois quilômetros para o norte, e acampar lá. Nós não temos problemas em viajar a noite, mas temo que meus patrulheiros estejam cansados após esse tempo de vigia.
Seguindo o pedido da elfa, todos colocaram-se em movimento. Thays conjurou duas esferas de luz para auxiliar à ela e Kayan no caminho tortuoso. Os patrulheiros seguiram separados do trio por meia centena de metros, tanto à frente quanto para trás. Nesse meio tempo, Kayan aproveitou para fazer uma pergunta que o deixava intrigado.
— Uma de suas patrulheiras nos disse que seu território foi invadido por magos humanos. Gostaria de saber mais detalhes sobre isso.
Sem perder tempo, Illya foi direto ao assunto em sua resposta.
— Cada uma de nossas três cidades possui cinco equipes de patrulheiros composta por um mago e vinte e um patrulheiros. O trabalho dessas equipes é manter nossas fronteiras em constante vigilância contra invasores. Há onze dias uma de nossas equipes encontrou os corpos de outra. Havia sinais de combate e de magia humana das esferas do fogo e do gelo. Desde então, os doze anciões do conselho de Elfelian decidiram substituir os magos por magos anciões poderosos para fortalecer nossas patrulhas e encontrar os invasores.
— Vocês sabem quantos são e qual a força deles? – indagou Thays.
— Suspeitamos de três indivíduos, mas não é possível saber ao certo a força deles.
— Se uma patrulha encontrar esses magos ainda assim será três contra um – afirmou Kayan.
— Duvida de minha força, Kayan Atreius? – apesar da voz severa, a expressão no rosto da elfa não era de descontentamento pela afirmação.
— Não duvido e peço desculpas se foi o que pareceu. O que quero dizer é que esses magos certamente são o que consideramos como renegados. Se eles têm algum assunto a tratar em seu território, não são do tipo fraco.
— Entendo sua preocupação e irei perdoá-lo apenas porque não nos conhece direito – novamente um tom de voz severo e um sorriso de quem se divertia com a conversa. – Os patrulheiros não são guerreiros comuns. Eles não são magos, mas conseguem uma boa manipulação de sua aura e são muito bem treinados. Em minha equipe, inclusive, temos quatros que são anciões como eu. Geralmente, três deles são o suficiente para abater um mago médio tanto da nossa quanto da sua raça. Uma equipe como essas provavelmente poderia fazer frente contra dois mestres dos humanos.
Não era possível para Kayan e Thays confirmar se o que ela afirmava era verdade, mas Illya parecia bem confiante no que dizia.
— Para finalizar, eu mesma possuo o mesmo poder que um de seus granmestres. Pode ser que eu não me compare com os mais poderosos, mas ainda assim sou muito mais forte que qualquer mestre dentre a sua raça. Os outros anciões escolhidos são quase tão fortes quanto eu.
— Existe algo que podemos fazer para ajudar? – indagou Thays. – Sendo eles de nossa raça nos sentimos um pouco culpados por eles estarem lhes causando problemas.
— Não precisam se sentir assim. Os elfos negros vivem causando problemas para vocês e, mesmo eles sendo de um tipo totalmente diferente de nós, ainda assim são elfos. Resolveremos esse problema por nós mesmos e vocês poderão visitar Elfelian livres de qualquer sentimento de culpa.
Tudo aquilo não explicava o porque de Illya estar longe de sua equipe, mas os dois jovens não quiseram se intrometer ainda mais nos métodos dos elfos e não perguntaram nada.
Caminharam por mais alguns minutos antes de encontrar o tal rio. Chegando lá, eles limparam o local e fizeram uma pequena fogueira. Os elfos ofereceram frutas, a carne de algum animal que os dois mestres não conseguiram identificar e um vinho muito mais suave do que eles estavam acostumados. Apesar de diferente, a refeição estava bastante agradável.
Nesse meio tempo, um ou outro elfo decidiu conversar um pouco com o casal de Drugstrein. Nenhum deles jamais havia saído daquela floresta e alguns mostram-se tão curiosos sobre a cultura dos humanos quanto os dois pela dos elfos.
Pouco antes de dormir, um deles pegou um pequeno instrumento de cordas e começou a tocar uma canção no idioma dos elfos. Kayan e Thays não entendiam quase nada do que ele dizia, já que seu élfico era muito fraco, mas gostaram da melodia independentemente disso.
— Nós costumamos fazer o que vocês chamam de dormir ao relento. Acredito que vocês saibam disso, mas nós não dormimos como vocês, apenas entramos em uma espécie de transe enquanto descansamos. Isso pode ser feito tanto deitado, quanto sentado. Se quiserem montar um acampamento, sintam-se a vontade.
— Nós temos sacos de dormir em nossas mochilas, mas acampamento mesmo, quando necessário, utilizamos um clayn para criar um de pedras. Nesse caso, acho que não teremos problemas para dormir perto do fogo – afirmou Kayan.
— Fiquem a vontade e não se preocupem com animais selvagens pois estaremos de vigia.
Após agradecer, o casal arrumou suas coisas próximas a fogueira e ajeitaram-se para dormir. Depois daquele breve tempo eles já confiavam em seus novos amigos elfos para mantê-los em segurança.
* * *
Kayan e Thays acordaram assim que o sol iluminou as árvores da floresta, mas encontraram os elfos já despertos. Seus anfitriões lhes ofereceram um pão muito mais macio do que eles poderiam esperar vindo de alimento para viagens. Para acompanhar, um pouco de leite de algum animal que os dois preferiram não saber qual era.
Foi uma refeição rápida e em alguns minutos todos já estavam prontos para seguir viagem. Antes mesmo dos patrulheiros se espalharem pelo perímetro, o Atreius chamou a atenção de todos.
— Esperem um pouco. Thays, está sentindo isso? Naquela direção, a uns sete ou oito quilômetros – disse enquanto apontava para o sudoeste.
— Deixe-me ver – disse enquanto fechava os olhos para se concentrar. – Sim, três auras inativas. Um deles utilizou magia recentemente.
— Do que vocês estão falando? – perguntou um dos patrulheiros.
— Acho que encontramos os três magos invasores.
— Vocês têm certeza disso? – indagou Illya. – Eu não consigo sentir nada dentro de uma área de seis quilômetros, mas se eles estiverem nesta distância que vocês me falaram estão fora do meu alcance. Vocês conseguem mesmo sentir aura nesta distância toda?
— Antes de virmos para cá, nós passamos nove luas ao norte dos Portões do Exílio – disse Kayan.
— E lá não tinha nada para fazermos além de treinarmos nossa magia o dia inteiro e namorar à noite – complementou Thays em meio a um sorriso sapeca.
— Confiarei em vocês, então. Vamos pessoal, atrás desses invasores.
— Espere, Illya, deixe-nos ajudar. Não tem porque arriscar a vida do seu povo. Nós somos três, eles também. Cada um derruba um deles – sugeriu Kayan.
A elfa olhou para os dois de cima a baixo como se os analisasse. Estava começando a desconfiar que estava subestimando aqueles dois humanos apenas por eles serem muito jovens.
— Tudo bem, então, faremos como vocês sugerem, mas meus patrulheiros cercarão a área para garantir a captura do inimigo.
* * *
O grupo se movia mais rápido que seus alvos e em menos de uma hora Illya já podia sentir a aura dos três magos que invadiam as florestas dos elfos. Kayan e Thays haviam escondido suas auras o máximo que puderam para que não fossem detectados antes que já estivessem bem perto.
Levou mais de quatro horas para que eles conseguissem se aproximar de seus alvos, uma vez que eles também estavam se movendo. Quando chegaram a aproximadamente uns quinhentos metros de distância, Kayan pediu para que eles parassem.
— Se avançarmos além daqui, logo eles irão nos perceber – disse ele. – Não podemos ocultar nossa aura totalmente porque utilizamos magia ontem mesmo.
— Illya, quanto tempo você levaria para percorrer esses últimos quinhentos metros que falta? – indagou-lhe Thays.
— Uns quinze segundos, aproximadamente.
— Você é mais rápida que nós. Acho que podemos fazer em uns vinte.
— Tem certeza disso? – duvidou ela.
— Sim. Você não duvidará mais de nossa força depois que nos ver lutando.
Ela realmente duvidava que aqueles dois eram tão poderosos quanto diziam ser, mas não de que eles eram capazes de enfrentar aqueles magos invasores.
— Tudo bem, darei a volta por trás e assim nos poderemos cercá-los.
Naquele momento os três liberaram o máximo de suas auras e as direcionaram para suas pernas de maneira a ganhar grande velocidade. Terra e folhas foram arremessadas a mais de dois metros de altura quando o trio disparou em direção ao inimigo.
Em menos de um minuto os três magos estavam cercados. Havia uma mulher loira e de cabelos curtos divididos ao meio, outra de aparência um pouco mais velha, de uns quarenta anos e com cabelos longos e castanhos. Completando o trio havia um homem bem magro e de cabelos ruivos na altura dos ombros. Os três já esperavam a chegada de seus inimigos, mas não atacaram imediatamente.
Por alguns segundos, perseguidores e perseguidos estudaram-se mutuamente, mas não levaria muito mais tempo para uma intensa batalhar ter início.
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