A Ordem Cerúlea
5 Capítulo IV - Estraçalho
Notas iniciais
O elfo, visivelmente desesperado, começou a proferir palavras de uma língua distinta, jamais conhecida pelos seres humanos. Pelo menos aqueles que não possuíam conhecimento do além, como eles chamam a quem estuda magia com afinco, o que se resume a pouquíssimas pessoas.
De repente, Bresys começara a respirar com mais dificuldade e sua visão embaçava lentamente. Começou a perder as forças e já não pressionava tanto a criatura. Sua feição agora mostrava insegurança e ódio ao mesmo tempo. Em poucos segundos, o elfo conseguiu se livrar de Bresys e não tardou a correr. A guerreira ficou de joelhos no chão sem conseguir se movimentar direito. Estava prestes a desmaiar quando percebeu que a figura já não estava mais em seu campo de visão, já tinha desaparecido em meio a tempestade. Com tudo, a mulher se recusou a desmaiar e ficou de pé novamente, recuperando os sentidos. Afirmou a si mesma que aquilo se tratava de algum feitiço e voltou a seu foco inicial, encontrar Ewrir.
Ewrir acordou do desmaio. Sentia-se muito melhor do que da vez que tinha desmaiado. Levantou-se e tentou dar alguns passos, porém se agachou e agonizou por alguns segundos devido a dor que sentia em suas pernas. Sentou-se novamente naquele chão frio e úmido do esgoto. Levou suas mãos a seu rosto e deu um longo suspiro. Deslizou-as até seu queixo e novamente suspirou. Uma lágrima escorreu de seu olho direito. Uma corrente de emoções e lembranças começaram a cercar a mente de Ewrir. Um choro amargo, intenso e irado tomava o semblante do garoto. Perguntava-se se tinha feito correto ao brigar com Hulbard. Viu que as consequências daquilo eram muito piores do que havia imaginado. Talvez agora não poderá participar da fase final da Jornada. O fato disso ser uma grande possibilidade tornava sua angustia ainda mais profunda.
Bresys havia chegado ao acesso dos esgotos. Os guardas ali presentes a avisaram que a patrulha dela já havia descido em busca do jovem. Bresys agradeceu e partiu sem demora. Agora sua mente estava ocupada com mais um problema, primeiro Ewrir, agora esse elfo desconhecido. Apesar de ser uma comandante, ela sempre preferiu o campo de batalha do que os deveres de trabalho dela. Bresys só aceitou o posto pois, mesmo que ela não goste, ela o exerce muito bem e esse posto a leva para inúmeras batalhas e expedições, então ela acabou se acostumando.
A mulher andava a passos rápidos, notava o sangue de seu filho no chão e seus olhos se reviravam a medida que a quantia se expandia. Avistou seus guardas e bradou, furiosa:
— Seus idiotas! Eu demorei a chegar aqui e vocês ainda nem sem quer chegaram perto de onde ele esteja!
— Mas comandante... — Antes que o homem pudesse continuar, seu companheiro lhe tocou o ombro e balançou a cabeça negativamente.
Agora, Bresys liderava novamente o pequeno grupo. Tinha um olfato muito bom, mais aguçado que o de muitos outros. Começara a sentir o cheiro de sangue ficar mais intenso em uma direção e seguiu a mesma. Ao se aproximar do local, avistou Ewrir inconsciente e debilitado. Ao perceber a situação do filho, o semblante de fúria e frieza desapareceu, cedendo agora a um aspecto de dó e amor intenso.
A mulher se aproximou do rapaz e tocou-lhe o rosto suavemente. Ewrir abriu os olhos lentamente, ainda desnorteado. Bresys esboçou um sorriso breve, arqueando suas sobrancelhas para cima.
— Meu filho... — Disse Bresys, com ternura — Vejo que passou maus tempos nas últimas horas.
— É, um tanto quanto. — Respondeu com dificuldade.
— Poderia ter evitado tudo isso. Foi infantil de sua parte revidar. — Afirmou Bresys, voltando ao seu aspecto frio.
— Sim, sim. Eu já sei disso. — Retrucou, esfregando as mãos nos olhos. — Peço perdão. Antes de mais nada, quero sair daqui, pelo amor dos deuses, por favor.
A comandante fez uma ligeira afirmação com a cabeça e começou a ajudar o garoto a se levantar devagar. Um guarda rapidamente foi ajudar. Sem muito cuidado, o homem apertou um dos ferimentos de Ewrir no braço direito. O jovem soltou um grito abafado. Bresys levantou seu olhar ao guarda, que de forma desajeitada pediu desculpas e ajeitou sua postura. A mulher mirou seus olhos onde o guarda havia agarrado e percebeu que aquela região estava cicatrizada demais para tão pouco tempo. Muito pouco tempo.
— Ewrir... Como seu braço já cicatrizou? Faz no máximo duas horas desde que tudo aconteceu. Isso não é possível.
— Isso é complicado. — Respondeu, coçando seu volumoso cabelo. — Como estou cansado, vou direto ao ponto. Um elfo apareceu aqui e usou algum feitiço que acelerava minha recuperação. Antes que eu pudesse perguntar qualquer outra coisa, ele me desmaiou e foi embora.
Bresys franziu a testa, lembrando do que havia enfrentado um tempo atrás. Os guardas ficaram assustados e inquietos com a revelação. Uma série de cochichos começou a ecoar no longo local.
— Esse... elfo, trajava que tipo de vestimenta? — Questionou sua mãe.
— O que isso importa? — Falou Ewrir, agora já conseguindo andar sem muita dificuldade.
— Não me faça perder mais ainda a minha paciência, garoto. — Vociferou Bresys, entrando na frente do garoto e fitando seus olhos.
Todos pararam, em alerta. Os homens ali recuaram mais do que o necessário. Ewrir notou certo incomodo vindo deles.
— Ora, mãe, não precisa ser durona o tempo todo. Uma hora vão parar de ceder a sua fúria.
— Não vão não! — Retrucou um guarda. Logo após o dito, todos miraram a atenção para ele e não esboçaram reação. O homem fez uma tímida pigarra e olhou para o chão.
A conversa entre mãe e filho continuou.
— Enfim, respondendo sua pergunta, ele trajava um manto negro. Na verdade, era um tom até mais escuro. Não sei descrever direito.
— Então vimos a mesma pessoa. Criatura, tanto faz. — Ewrir arregalou os olhos — Eu o enfrentei agora pouco. Não foi uma disputa grandiosa ou coisa do tipo. Ele era fraco, mas usou uma magia estranha para me atordoar. — Bresys notou que seus homens estavam muito atentos na conversa e decidiu encerrar o assunto. Afinal, algo tão irregular não podia ser revelado para muitos, pelo menos por enquanto.
Depois da conversa voltaram a caminhar, lentamente dessa vez, para não prejudicar Ewrir. Perceberam que a chuva agora estava bem mais fraca, pois o som era quase imperceptível dali de dentro.
***
O banquete já havia encerrado, quem quisesse já podia ir para suas casas e descansar. Os que ficavam geralmente eram alguns homens adultos, para acabar com os estoques de cerveja e vinho da noite. O pai de Ewrir era um deles. O banquete era realizado num salão enorme do castelo, alguns duvidam se não era o maior local da instalação. As refeições não eram sempre feitas lá, o rei que decidia se iria realizar ou não. Com tudo, eram raras as vezes em que ele liberava o salão, afinal, é difícil fazer uma refeição para uma cidade inteira, mesmo que poucas vezes num ciclo.
Thord, o pai de Ewrir, estava sentado em uma das diversas mesas do lugar com outros amigos. Um deles, Zjorn, estava mais bêbado do que os outros.
— É, Thord, seu filho levou uma surra! — Gritou, gargalhando. Thord, apesar de robusto e forte, sempre foi muito calmo. Por mais que ora fosse um guerrilheiro, não se mostrava intimidante, a não ser que fosse necessário. O homem riu junto de seu amigo.
— Pois é. Já a quarta ou quinta vez que você diz isso, mas é verdade. Foi uma coisa diferente pra vida do moleque, vamos ver como ele vai lidar com isso! — Afirmou, soltando uma gargalhada também. Afagou sua barba loura e cheia com suas mãos marcadas pelo ferro quente da forja.
Os outros companheiros na mesa também riram. Apesar de tudo o que ocorreu nesse dia, o povo parecia descontraído. O pai do rapaz estava visivelmente tranquilo e quase indiferente ao que tinha acontecido, tanto para o acontecimento na parte do dia, em que Bresys se desentendeu com um de seus guardas, quanto a briga de seu filho com Hulbard.
Os barris já estavam quase se esvaziando, alguns já estavam até indo embora, quando alguém chegou em silêncio e ficou parado na porta.
— Chegou um pouco tarde... — Disse o rei, que estava ali presente, sentado à mesa principal. Ele havia percebido que a presença daquela pessoa resultaria em algum conflito.
Thord estava virado para o lado contrário da porta. Notou que seus colegas ficaram mais desconfortáveis, até encerraram a breve conversa. Ele se virou para saber do que se tratava todo aquele clima estranho. Ao se virar, abriu um sorriso irônico e logo transformou seu semblante em algo frio. Até seu amigo bêbado estava quieto, aparentando estar sóbrio.
— Você tem coragem, Ozin. Não tem vergonha de mostrar seu rosto depois de tudo que sua família causou hoje? Conseguiu afetar a cidade toda. Meus parabéns.
O inquilino começou a andar lentamente em direção a Thord. De olhos fechados e um sorriso nada amigável no rosto, Ozin, o homem que foi humilhado na frente do quartel, pai de Hulbard, caminhava com ódio e apenas uma vontade: devolver todo o transtorno causado a sua família nesse dia com uma morte. A medida que avançava, os presentes na mesa de Thord iam se afastando, exceto o próprio. Guardas presentes no local perceberam que Ozin estava fora de si e moveram-se para perto da mesa do pai de Ewrir.
— Pare imediatamente! — Bradou Eric, o rei, ao perceber que Ozin desembainharia uma adaga. Os guardas barraram o homem no mesmo instante. Thord e Ozin estavam trocando olhares a uma distância menor que a de um metro. O pai de Ewrir, estava calmo, apenas mantendo a face intimidadora, a qual não era comum dele. Já o pai de Hulbard estava de olhos arregalados e perplexos. Bufava sem parar e transparecia uma fúria fora do comum.
— Vejo que Bresys deixou uma bela cicatriz em sua boca. — Provocou, Thord. Ozin começou a se debater cada vez mais para se livrar dos guardas. Estava quase conseguindo, o que fez Thord se levantar rapidamente e recuar um pouco. Eric também levantou-se de seu assento e esboçou um pequeno desespero.
O homem furioso conseguiu se livrar dos que os seguravam e sacou uma adaga. Num movimento ligeiro, desferiu um golpe em Thord, que rapidamente segurou o braço de seu atacante. A adaga havia parado centímetros de seu pescoço. Ele agora mostrava um aspecto agressivo, de testa franzida, mas ainda assim mostrava-se assustado.
Thord empurrou o braço de Ozin para trás e recuou. Eric ordenou que Ozin recuasse.
— O que foi, Eric?! Você é outro que idolatra essa família ridícula! Mas que rei... — A essa altura, os guardas já o cercavam e o puxavam a força. Iria ser preso por todo o distúrbio causado e a afronta ao rei.
— Isso! Me prendam como fizeram com meu filho! Só porque eles têm cargos mais importantes do que os outros cidadãos recebem toda essa idolatria fútil! — Gritou chorando.
Eric mandou seus homens soltarem o indivíduo e foi a seu encontro.
— Para de se envergonhar, homem. Enxugue essas lágrimas. Tenha consciência de que tudo que aconteceu hoje em relação a você e seu filho, são consequências do que vocês mesmo fizeram. E olhe, você vir buscar vingança dessa maneira... — O rei viu uma coloração arroxeada nas bordas das pálpebras de Ozin — Está explicado. Usou ervas olfeas. Não quero nem saber como as conseguiu, já que estas vêm de terras élficas. — Ervas Olfeas eram plantas que muitos homens usavam para melhorar seu desempenho em guerras. Ela acelerava a pessoa que a usasse, porém, como efeitos colaterais, trazia um forte mal estar que durava dias, além de características visíveis, onde, no dia de uso, as pálpebras se arroxavam e nos outros dias, o próprio corpo ficava num tom mais próximo do roxo.
— Minha vida já está um lixo. Perdi meu emprego por causa daquela comandante de me... enfim, meu filho está na merda também. Não tenho mais nada a perder, mas tenho a tirar.
— Você parece uma criança. — Indagou Thord. Ozin desviou sua atenção do rei e virou-se lentamente a Thord. Os dois começaram a se encarar novamente. O ferreiro se manteve frio, enquanto o outro se mostrava indignado.
— Ah, sim! Todos estão ao seu lado, suas palavras são incríveis, sempre superior! — Todos estranharam o dito por ele. As palavras não faziam sentido algum. — Vamos lá, cadê aquele cara durão que guerreava sem parar! Agora se sente mais confortável por ter sua própria mulher te defendendo? Pelos deuses, que fraco.
— Tem mais alguma coisa a dizer? Estou cansado e quero logo ver minha família. Em casa. — Respondeu Thord. Novamente Thord mostrou ser tênue apesar da aparência bruta e rígida. Era um homem esperto, tranquilo. Essa foi uma das características que fez com que Bresys se apaixonasse por ele. Era diferente.
— Vocês são escória! Resto de lixo! Sua família não devia ter vindo a essa cidade! Têm uma falsa reputação de boa gente, mas não são! Não passam de li-- — De súbito, um caneco de vidro foi estraçalhado na cabeça de Ozin. O homem caiu morto no mesmo instante.
Fale com o autor