O baque dos meus sapatos no chão sempre úmido das ruas de Ruswiastein já soava como uma canção bela, para mim. Entretanto, naquela manhã gelada o som parecia mais irritante do que belo.

Mas eu sabia que o que me irritava, na verdade, era o rumo que minha vida poderia tomar naquela semana.

Fried tentava fracassadamente me tranquilizar:

— O maço de cigarros não ajudou muito, não foi? — Falou, soltando um sorriso. Não retribui e então ele continuou. — Não importa que no fim de tudo você seja mesmo uma sem virtude. Eu não me importo, você sabe. Eu e as outras pessoas que te amam não se importam.

Dessa vez, tive que desmanchar a cara amarrada.

— Infelizmente o mundo não é composto apenas de pessoas que me amam. Vai ser duro ter o atestado de sem virtude por toda minha vida. Duro é pouco. — Admiti.

Andávamos exalando uma áurea triste, bem perceptível aos olhos dos poucos pedestres que passavam por nós. Um pouco antes de chegar à minha casa, Fried começou a se despedir.

—Eu simplesmente adorei nossa noite, Helse. Você sabe que é mágica. — Falou sem jeito.

— Eu também amei. Acho que deveríamos ter feito isso mais vezes, sabe, sair para quebrar as regras sem o Brendan.

O rosto de Fried se iluminou.

—A gente ainda pode fazer mais vezes. Há um futuro pela frente, Helse, você sabe...

Olhei com tristeza para o chão encharcado de água.

— Ei, você encara o Período Preparatório como se estivesse indo para a execução. — Continuou Fried.

— Execução da minha vida social, talvez. Eu sou uma sem virtude. Dá para entender isso? Depois que receber o Resultado Oficial De Habilidades vou estar manchada como uma sem virtude, oficialmente. Você e o Brendan vão para o Período Preparatório para aprenderem a serem verdadeiramente úteis na sociedade, já eu... — Falei, triste.

— Você sabe que não é bem assim. Tem gente que não descobre a habilidade que possui até fazer o teste de habilidade.

Bufei.

— Já tenho dezessete anos, já fiz tudo possível para descobrir minha habilidade. Eu não a tenho.

—Nem tudo. A habilidade vem quando se está em uma situação de medo. — Insistiu. — Qual situação de medo já passou?

— Cair na bicicleta vale? — Tentei brincar.

Fried revirou os olhos.

— O Brendan pode te colocar em uma situação complicada. Assim, quem sabe você não descobre sua habilidade. — Disse.

Ponderei por uns segundos a hipótese.

— Já pensei nisso. Achei arriscado.

— Não vou te forçar a fazer nada. — Falou.

Fried depositou um beijo carinhoso na minha testa.

— Melhor irmos, antes que nossas mães pirem. — Disse ele.

— Você tem razão. Obrigada pela noite. — Agradeci.

— Aconteça o que a acontecer, eu vou te amar e não vou deixar que separem a gente por possuirmos habilidades diferentes. Saiba disso.

Eu sabia. E sabia também que o "eu te amo" do Fried era bem mais do que um eu te amo de amigo.

Ele já se virava para ir embora.

— Eu também te amo, Fried. — Falei, fazendo a atenção de Fried se voltar para mim. — Até daqui a pouco na escola. Acho que vamos tirar bons cochilos durante as aulas.

— Como sempre. — Respondeu ele, soltando um risinho.

Fiquei parada esperando até sua cabeleira escura desaparecer na rua. Quando feito, virei-me e fui em direção à porta da minha casa, prevendo as broncas.

Mal entrei e minha mãe já começou a berrar.

— Helse, por que faz isso? Quando vezes vou ter que dizer que você é altamente proibida de sair depois do horário de recolher. Se um SS pega você... Eu não sei o que fazer...

Apenas abracei-a. Tinha consciência de que eu era a errada da história e ela só estava usando seu senso materno.

— Estou bem, dessa vez. Eu te amo, mamãe. — Falei, depositando um beijo bem no centro da sua testa, como Fried fizera. — Estava com o Fried. Você sabe que temos cuidado para os SS não nos verem.

— Olha só para essas olheiras... — Preocupou-se ela. Apalpou-as e olhou com pena.

— Deixe que eu me preocupo com elas. Vou me trocar para a aula.

— Helse, senti o cheiro de cigarro e bebida. — Advertiu.

— Não exagerei em nada. — Cantarolei enquanto já subia a escada.

Violava o toque de recolher há anos, mas minha mãe nunca tinha se acostumado. Era meio que uma tradição entre o trio que eu participava. Eu, Brendan e Fried nos enfiávamos em alguma floresta escura nos arredores de Ruswiastein e debatíamos sobre coisas banais ou inteligentes, enquanto bebíamos as bebidas contrabandeadas mais baratas e tragávamos cigarros da mesma espécie da bebida.

Era nossa forma de se rebelar contra o sistema. Forma errada, mas enchia nossos espíritos problemáticos de alegria, e isso já era o suficiente.

Entrei no meu quarto frio e ouvi alguns sermões da minha mãe vindo lá de baixo, mas não conseguia traduzir. A única coisa que conseguia pensar era que aquele seria meu último dia de aula, que na verdade era o marco do começo para muita gente, eu não conseguia ver assim.

Eu simplesmente gostaria que as coisas fossem como 200 anos antes. Quando a Alemanha não era dominada pelos Nazistas, quando os seres humanos eram apenas seres humanos, quando as pessoas tinham a opção de concluir a escola e seguir a carreira que bem entendessem.

Essa escolha já não era mais cabível a mim ou aos outros jovens. Ela foi tirada quando os humanos se tornaram verdadeiros mutantes. O papel de cada um na sociedade, a partir desse instante, era dado a partir do poder que cada um possuía.

Todo jovem que concluir a escola tem que fazer um teste elaborado pelo governo Nazista para que possam emitir uma espécie de atestado contendo a virtude de cada pessoa. E cada um dos jovens é obrigado a passar o tempo que for necessário estudando o papel do seu poder na vida em sociedade e aprimorando-o. Até mesmo os sem virtude têm que passar por esse "curso". Sua profissão, com quem iria se casar, onde morar, tudo seria decidido a dessa conclusão do governo.

Eu, como uma pessoa extremamente "sortuda", era uma sem virtude. Ou seja, não possuía mutação alguma.

Crianças sem virtude são relativamente raras entre pais que possuem mutação. Cerca de uma em setenta. Eu fui uma das " agraciadas".

As opções de carreira para os sem virtudes eram bem amplas, comparada aos que possuíam habilidades. Mas eram carreiras bem menos requintadas, digamos. Eu poderia ser psicóloga, professora, comerciante, empresária... Bem, tudo que uma pessoa com habilidades poderia fazer e fazer extremamente melhor.

O que me inquietava naquele dia era justamente eu ser quem eu era, uma sem virtude. Aquele era meu último dia, ou seja, no dia seguinte iriam aplicar o teste e emitir os atestados. Ser considerada uma sem virtude na escola era bem ruim, imagina só ser uma na sociedade.

Eu teria que ser firme e aguentar o meu destino. Mas algo me atormentava. E esse algo era saber que tudo isso era imposto pelo governo hipócrita e manipulador.

Apalpei meu cabelo, tentando deixá-lo um pouco menos bagunçado. Em seguida, peguei meu uniforme da Juventude Hitlerista na arara. Eu não possuía armário ou cômoda para guardar roupas, era um luxo que não tínhamos, então, tinha que expor minhas roupas em uma arara surrada. Apesar disso, não me importava muito, eu possuía pouca variedade de roupas.

Vesti o uniforme, que tinha mudado um pouco em relação ao de 254 anos antes, quando acabou a II Guerra Mundial. Agora, a roupa da Juventude Hitlerista era uma saia feita de tecido pesado na cor marrom escura, uma blusa de botões branco na frente, um lenço para ser amarrado abaixo na gola e um casaco grosso, este exatamente igual ao de séculos antes. Para completar, ainda tinha a braçadeira que dispunha o símbolo da Juventude Hitlerista, que era o mesmo desde sua gênese.

Eu odiava aquele uniforme, a Juventude Hitlerista e tudo mais. Pelo menos aquilo estaria acabado naquele mesmo dia. O pensamento me fez sorrir.

Ao menos agora a Juventude Hitlerista não era mais dividida entre homens e mulheres. Era mista. Isso me conferiu dois amigos homens maravilhosos. Jamais teria amigas caso a Juventude Hitlerista ainda fosse dividida entre gêneros. A única mulher que eu consigo me relacionar bem é a minha mãe.

Depois de me aprontar para a escola, desci sem pressa até a cozinha, seguindo minha rotina normal.

— Bom dia, minha linda! — Falou meu pai, disparando em minha direção com um abraço.

— De onde vem todo esse afeto? — Falei sem ar em meio a risadas, tentando me soltar dos seus braços fortes.

— Chatinha. — Retrucou ele, libertando-me do abraço caloroso e olhando firme para os meus olhos azuis.

— É por que vou ser oficialmente uma sem virtude? — Perguntei.

Meu pai fez uma cara de tédio.

— Essa é minha última preocupação, Helse. Ou melhor, nem é uma preocupação.

Afastou com carinho duas mechas castanhas do meu cabelo que caiam na minha face pálida enquanto continuava me olhando firme.

— O que eu e sua mãe precisamos fazer para você entender que não nos importamos com isso? Vivemos quase como uns sem virtude.

Isso era verdade. Papai e mamãe possuíam habilidades, mas mesmo assim não seguiam profissões de acordo com elas. Ambos tinham habilidades mentais; Mamãe é uma super dotada, mas trabalha como agente de um importante Juíz, já Papai é um animador, ou seja, anima objetos inanimados, mas trabalha com um comércio, uma floricultura, o que soava bem absurdo.

— Sou filha única. Queria ser a filha perfeita. Poder ter uma habilidade extraordinária e uma profissão muito boa, para melhorar nossa condição, quem sabe. — Tentei falar como se meu apelo soasse totalmente importante.

Papai riu diante da minha afirmação.

— Eu e sua mãe escolhemos nosso destino. Temos condição mais baixa porque queremos, e isso não incomoda nenhum de nós, e sei também que não incomoda você.

Nessa hora, mamãe apareceu anunciando que já podíamos ir para a mesa.

Sentei-me na cadeira de madeira surrada e dispus meus cotovelos sobre a mesa. Belisquei uns mini pães dormidos com geleia, já prevendo as falas que minha mãe diria.

— Não tem que se preocupar com amanhã, Helse. — Falou minha mãe, enquanto partia algo em seu prato.

— Eu sei. Você repete isso toda hora. — Disse, em tom impaciente.

— Só queremos frisar que amamos você, sempre. — Seu olhar negro expressava ternura.

Observei minha mãe após ela dizer aquilo. Os olhos caídos, cabelos vermelhos amarrados em um coque no alto da cabeça e o rosto tão cansado. Por que teria ela abrido mão de uma carreira espetacular como Médica, Cientista ou Física, por exemplo, para ser uma simples secretária? Era uma super dotada, assim como seus irmãos, e eles agora possuíam carreiras magníficas. O sucesso era, sem dúvidas, o destino da minha mãe. Mas por algum motivo desconhecido ela o abandonou. O mesmo se aplicava ao meu pai.

Cogitei que talvez eles quisessem se reservar por serem casados e possuírem poderes diferentes um do outro, porém, isso soava extremamente sem sentido.

Cessei os pensamentos sobre os possíveis destinos dos meus pais e fui em direção à porta. Era hora de ir e encarar o último dia.

— Tchau. Amo vocês. — Falei e saí, sem esperar resposta.