A Opositora
3 TRÊS
O dia teria corrido totalmente normalmente se não fosse pelas dezenas de trotes aplicados a todos os professores, os discursos fajutas de despedida e o clima relaxado que parecia atingir a todos, menos a mim.
Terminada a nossa última aula, já éramos considerados formandos.
— Helse, não dá pra acreditar, consegui superar essa merda! — Berrava Brendan.
— O pior vem é agora. — Falei com pessimismo.
— Que nada! Vou fazer o Curso Preparatório e depois ingressar na minha carreira nas usinas de eletricidade. Moleza.
Revirei os olhos.
— Se você acha.
— O que pretende fazer, pequena Helse? — Perguntou.
— Não faço ideia. Acredite ou não, nunca parei para pensar nisso. — Admiti.
— Logo você, a certinha. — Provocou.
Franzi o cenho para Brendan.
— Olá, graduandos! — Anunciou Fried, que vinha de uma aula diferente da nossa.
— Que bom que vocês estão animados, porque eu não. — Falei, observando a alegria de ambos.
— Ainda por causa do tal teste? — Perguntou Brendan.
Concordei com a cabeça.
— Claro. O que me mata é sentir um pingo de esperança em mim, uma esperança que diz que meus poderes vão finalmente ser revelados, aí, caio na realidade.
Brendan passou o braço pelo meu ombro com firmeza.
— Você não precisa ficar frustrada na frente de um desconhecido e confinada em um cubículo. Sabe que posso tentar "ativar" seus poderes, usando a mesma técnica que eles usam no teste. — Falou Brendan.
— É arriscado, já falei.
— Querendo ou não, você vai passar por isso amanhã, Helse. Acho melhor que se prepare com alguém conhecido, não acha?
Pensei rapidamente sobre a possibilidade, analisando os riscos e as vantagens de aceitar.
— Tudo bem. Você pode tentar ativar meus poderes, se é que os tenho. — Cedi.
A técnica usada no exame para determinar ou concluir o poder de alguém é a do medo. Algum instrutor poderoso, na maioria das vezes um manipulador, lança seu poder sobre o jovem testado. É tiro e queda que os jovens que ainda não sabem qual o seu poder acabem revelando eles. A técnica só não funciona naqueles que têm habilidades de animais e em alguns de habilidades mentais.
A habilidade de cada pessoa se revela diante do medo.
No meu caso, ou eu não tinha medo ou eu não tinha poder, muito provavelmente a segunda opção reinava. Não havia descoberto nenhuma característica animal, também. E se descobrisse, seria muito estranho, já que minha família é proveniente de habilidades mentais, não animais.
Sempre neguei às tentativas de Brendan, um manipulador, de tentar usar a técnica do medo sobre mim. Porém, a ideia de ficar frustrada, chorar, ficar com cara de bosta e tudo mais na frente de um poderosão desconhecido no dia seguinte me atormentou. Brendan não iria me machucar, não tinha por que temer.
— Quer fazer isso na minha frente? — Perguntou Fried, com um tom meio entusiasmado.
— Prefiro que seja apenas eu e o Brendan. — Admiti.
— Ah. — O olhar de Fried era de pura decepção.
— Por favor, não é nada pessoal. Amanhã só vai ter um instrutor... Sabe...
— Tudo bem, Helse. — Disse Fried, sem esconder o tom desapontado.
O silêncio tomou de conta.
— Então, a gente se encontra um pouco mais cedo na floresta habitual, certo, Helse? — Perguntou Brendan, quebrando o silêncio.
— Quer fazer isso na floresta? — Perguntei.
— E tem outro lugar?
— Certo, então está tudo bem. — Concordei.
...
— Como foi o último dia? — Disparou minha mãe, enquanto jantávamos.
— Normal. — Respondi, remexendo a comida com o grafo.
Senti o cheiro da minha roupa se apoderar do meu nariz, naquele espaço fechado e quase sem janelas que chamamos de casa. Era um misto de cigarro queimado com bebida. Não me importava em sair por aí com esse cheiro, era como um anúncio a todas as pessoas que chegassem perto de mim que eu ia contra os padrões nazistas, que faziam campanhas intensas contra tabagismo e alcoolismo.
Entretanto, ficar com aquele cheiro tão forte ali na mesa de jantar, diante dos meus pais... Fazia-me sentir uma completa mal agradecida.
— Normal tipo como? — Insistiu minha mãe.
— Ah, normal do tipo normal. — Eu não estava para papo, como sempre.
— Certo, não quer falar sobre o assunto.
Larguei o garfo sobre o prato, emitindo um som.
— Desculpa. Eu nunca tenho o que falar.
— Você parece bem falante com os seus amigos. — Provocou meu pai.
A afirmação foi como um soco na cara e me deixou surpresa. Meu pai não costumava soltar indiretas tão diretas.
— Eles costumam responder às minhas perguntas, só isso. — Tentei rebater.
— Não respondemos às suas? — Indagou meu pai, arqueando o par de sobrancelhas.
— Vocês têm sempre um mistério. Sei lá. — Admiti.
Engoli o último pedaço de comida e me levantei da cadeira.
— Vou me encontrar com o Brendan. Hoje vai ser uma noite especial.
Falei isso e já fui em direção a porta.
Meus pais não parecem absolutamente nada abalados com o que eu tinha dito deles minutos antes. O que levou a crer que realmente eles tinham um mistério.
— Não vou nem clamar para você chegar antes do toque de recolher. — Minha mãe falou
— Hum. — Foi o que eu disse. — Tem razão.
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O caminho até a já tão conhecida floresta que costumávamos ir era coberto de neblina e frio, como quase todos os caminhos que existiam em Ruswiastein.
Assim que me aproximei, avistei Brendan encostado em uma árvore tragando um cigarro.
Ele me ofereceu um, e eu aceitei.
— Pronta? — Perguntou.
Balancei a cabeça negativamente.
— Vamos, temos que fazer isso longe da civilização.
Brendan foi na frente, adentrado bem mais a fundo a floresta do que costumávamos ir. Parou em um ponto bem no meio do nada e sem dizer uma palavra, disparou uma carga elétrica em minha direção que passou bem próximo ao meu cabelo.
Por um momento, achei que meu cabelo castanho estivesse chamuscado. Conferi-o com os dedos e percebi que Brendan era bom de mira, era apenas para me assustar, não atingir.
— Você está louco? — Berrei.
— É assim que deve se fazer. Pegar de surpresa. Poder contra poder. Apenas um poder contra você fará que revele os seus. Sentiu algo, algum poder?
— Não. — Falei.
Brendan ajeitou uma das mãos em direção a mim e então, lançou uma descarga elétrica bem em direção à minha cabeça, porém, a poucos centímetros do meu nariz ela se dividiu em duas ramificações, evitando que eu morresse eletrocutada.
Eu me perguntei onde Brendan estava conseguindo eletricidade para manipular.
Como se tivesse lido meus pensamentos, Brendan tira do bolso uma lanterninha de luz fraca. Ele estava manipulando dali, fazendo aquela luz fraca se tornar uma descarga elétrica fortíssima.
Ainda com os dois feixes de luz, um do lado e outro do outro da minha cabeça, fiz um sinal para que ele cessasse.
— Bem, dessa vez vou tentar outra coisa. — Disse ele.
Uma descarga mais fraca veio em minha direção e atingiu meu braço esquerdo. Na mesma hora, esquivei-me e disse: — Ai!
Brendan parou na hora.
Mas eu não tinha sentido dor.
O grito de dor tinha vindo como um instinto, mas eu realmente não havia sentido nada.
Abaixei o olhar em direção ao meu braço, e para minha surpresa, minha pele não estava chamuscada.
— Acho que você deve aumentar a potência. Não senti nada. — Falei.
— Helse, é perigoso. Essa descarga que dei em você já era o suficiente para você chamuscar um pouquinho e vir em minha direção, brigando comigo por eu ter machucado você.
— Por favor... — Pedi.
Sem dizer nada, Brendan posicionou novamente a mão e manipulou uma descarga que parecia mais intensa que a última. O feixe violeta veio em direção ao mesmo ponto do braço direito e mais uma vez nada de dor ou de pele chamuscada.
Porém, eu havia sentido algo.
Era como se eu tivesse aquela descarga tivesse entrando por minha pele, como se eu a tivesse sugado para mim.
— Helse, acho que encontramos seu poder. — Gritou Brendan, maravilhado. — Escudo telepático? Mas, espera, escudo telepático é contra poderes mentais.
As pessoas que tinham o Escudo Telepático eram imunes a qualquer poder mental, mas não dos manipuladores.
— Que poder é esse? — Falei olhando para minhas mãos
Antes que eu pudesse perguntar mais alguma coisa, um feixe fraco na cor lilás brotou da minha mão. Ele ficou rodopiando sobre meu membro, indo e vindo, mas eu não estava manipulando nada.
— Eu... Eu... Absorvi sua descarga. — Berrei.
Olhei par Brendan e ele tinha uma face de descrença.
— O que? Não é possível. — Disse Brendan com um som cético.
— Eu não sou uma sem virtude! — Berrei.
— Essa habilidade não existe, Helse! — Brendan tentou me conter.
— Eu sei! — Gritei.
Brendan posicionou as mãos e disparou uma descarga fortíssima em minha direção.
O que senti foi milhões e milhões de feixes sendo absorvidos por mim.
Eles me cobriam enquanto me atingiam e não provocavam absolutamente nada contra mim. Surpreendi-me com a coragem de Brendan em disparar tudo aquilo contra uma pessoa, sem ter absoluta certeza se aquilo provocaria danos.
— Você é uma manipuladora, é isso? — Perguntou.
Neguei com a cabeça, hesitante.
— Não. Manipuladores podem sofrer fisicamente contra os seus próprios poderes. Eu... Consigo ter sua energia em mim, é isso.
Brendan começou a ficar com o olhar perdido.
— Helse! — Gritou.
Brendan berrou, antes de cair e se ajoelhar no chão.
— O que houve, Brendan?
Corri em sua direção, disparada.
— Eu me sinto fraco. Essa energia, essas descargas...Você as pegou pra você. Simplesmente não me pertencem mais.
Comecei a chorar.
— Que diabos de habilidade é essa? — Berrei alto em meio as lágrimas.
— Helse, seja lá o que isso for... — Brendan parecia ofegante. — Creio que você consiga absorver não apenas poder de manipuladores de energia, mas também de fogo, água, gelo, ferro, luz...
— E o teste de amanhã? Como fica? — Perguntei, desesperada.
— Precisamos falar com o Fried. Não sou inteligente o bastante para pensar em uma solução.
Ajudei o Brendan a se levantar e praticamente o arrastei ao local de origem.
— Você é poderosa, Helse. — Admitiu Brendan, com um sorriso malicioso. Ele conseguia sacanear até em um estado físico ruim.
— Eu estou com medo de mim mesma, isso sim...
O barulho de galhos sendo quebrados aumentou, vindo em nossa direção.
— Ei, vocês estão bem? — Gritou a voz de Fried em meio às árvores.
— Você não vai acreditar, Fried! Helse não é uma sem virtude. — Brendan pareceu usar todas suas forças para gritar isso.
— Não me diga que ela possui um poder mental! — Os olhos de Fried pareciam que iam saltar de tão brilhantes e entusiasmados que ficaram diante da possibilidade de eu ter uma habilidade mental, e então, poder me casar com ele.
— Aí é que tá. Ela não possui nenhuma das 26 habilidades existentes. Como isso é possível? — O tom da voz de Brendan tinha mudado drasticamente. De entusiasmado ao extremo ao preocupado ao extremo.
A boca de Fried parecia caída até o seus pés.
— Como que é? Uma nova mutação?
Brendan e eu contamos tudo ao Fried, alternando os trechos de um para o outro. No final, Fried parecia ainda mais perplexo do que no começo.
— Uma sugadora? Isso não existe.
Falava Fried, indo de um lado para o outro.
— Nós sabemos. — Lamentava Brendan.
— Não gostei desse termo. Sugadora. — Admiti de cabeça baixa.
— Você sabe que vai ter que dar um jeito de esconder essa sua habilidade fora do comum, amanhã, não é?
— Como é? Não vou esconder. Não quero ser uma sem virtude. — Falei, irritada.
— Helse, tenta imaginar o que o governo pensaria de uma garota que consegue sugar poderes! Uma mutação totalmente nova e extremamente mortífera, no mínimo. Eles pegariam você, estudariam e depois a matariam. Você quer morrer?
Revirei os olhos.
— Está sendo dramático, Friedrich.
— Não estou não. Estou sendo até modesto em relação ao seu trágico futuro caso revele esse poder.
— Eu nem sei se posso sugar outros poderes! Talvez seja apenas eletricidade. — Tentei convencê-lo.
— Teste comigo. Tente sugar algo meu.
Franzi a testa.
— Você não libera nada. Como vou fazer isso?
— Apenas tente. — Insistiu.
Posicionei minha mão sobre o seu rosto e me concentrei. Em alguns momentos senti algo vindo, mas então parava.
— Acho que deve ser mais fácil sugar poderes de algum manipulador, já que nós "jogamos" nossa energia para a pessoa. — Comentou Brendan.
— É verdade. — Concordei. — Mas sinto algo vindo, só é difícil de tirar para mim.
— Essa sua habilidade... Estou perplexo. — Admitiu Fried. — Amanhã, tente sugar de algum manipulador. Pode fazer isto?
— Meio impossível. — Admiti.
— Pior que é verdade. — Concordou.
Comecei a soluçar.
— Não quero ser uma sem virtude. Eu tenho um poder e agora tenho que simplesmente fingir não ter?
Fried me puxou para si e me envolveu com seus braços. Senti seus cabelos roçarem na minha nuca e me senti protegida.
— É para o seu bem. Por enquanto é necessário. Acha que pode conseguir?
Relutante, afirmei com a cabeça.
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