A Onda Branca
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Notas iniciais
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– É mesmo verdade, então? Eles avaliaram? Testaram? Você conseguiu a cura? — Uma não tão pequena Kira Dhurvasula de quatorze anos tinha seus grandes olhos escuros brilhando de esperança. A mãe da garota adoecia aos poucos pela Onda Branca. Um belo nome dado para uma crueldade humana que matava milhares de pessoas todos os dias. A Onda Branca deveria representar, segundo o governo, uma onda de esperança, mas para todos os que conheciam alguém que perdera ou estava perdendo a vida pelo vírus, significava simplesmente a realidade: os olhos revirados e sem vida, que antes transmitiam emoções, agora transmitiam uma onda de... Vazio. Morte... Branco. Uma onda de devastação, que aos poucos se tornava um mar.
Talvez a Onda Branca tenha sido uma boa revolução dos costumes de muitos. A cor do luto para os que perderam, a cor da morte para os que lutaram, a cor da esperança para os que se tornariam algum dos outros num futuro próximo. Na verdade, talvez só não seja errado caracterizar como uma cor, pois ainda não houve uma lei na língua para alterar o significado.
Mas Joel Dhurvasula virava uma celebridade pelas televisões de todo o mundo: o cientista que talvez tivesse criado a cura da Onda Branca sem nem mesmo saber. Alguns o viam como um gênio, outros como alguma figura religiosa, tudo diante das crenças de cada ser humano. Todas as esperanças da humanidade pareciam apostadas nele. Irônico mesmo, era lembrar que a pandemia havia se iniciado exatamente daquela forma. Kira confiava nas capacidades científicas de seu pai, embora nunca tenha conversado seriamente sobre o assunto. Mas, oito meses atrás, um homem que dizia ter uma cura, devastou o mundo. Será que o rumo da população estava perdido à ponto desse tipo de confiança às cegas?
– Eles não querem arriscar nada, Kira. A população pode estar cega de desespero, mas o governo não pode se dar à esse luxo. -Joel suspirou. Os dias trancado no laboratório causaram-lhe olheiras maiores do que o normal e uma barba mal feita, além de um humor horrível que se espalhava pela casa, deixando o clima tenso e triste, ou pelo menos, mais do que já estava. — Eles querem me entregar prisioneiros em cativeiro para os testes e depois deixá-los em uma zona de quarentena. Repito as próprias palavras do Primeiro Ministro, ao dizer que não fará diferença uma zona de quarentena se já estavam na cadeia. Causará menos alvoroço, afinal já temos muita coisa com o que nos preocupar.
– E eles estão certos! Por quê ainda não fez isso? É... Ótimo! Quero dizer, nada vai acontecer com eles, você mesmo disse que está confiante, todos os superiores apostam em você. Quais são as chances de dar errado? E se der, qual será a diferença? Continuaremos procurando até encontrarmos. O que tem de ruim nisso? — Kira sabia o quão egoístas soaram suas próprias palavras, mas não se importou. Para ela, a guerra tinha seus estágios, e quando eles estão em níveis críticos, não havia espaço para remorso. Principalmente quando o inimigo real é uma incógnita.
Principalmente quando alguns não aceitavam estar guerreando contra algo que não seja humano.
– A diferença é que se algo der errado, terei sangue nas minhas mãos! Você tem alguma ideia do que é isso? — Incrédulo, o homem simplesmente não conseguia continuar a falar. E nem precisava, pois Kira entendera o que ele quis dizer, apesar de discordar completamente.
– Você não terá sangue nas mãos! A sua intenção era de salvá-los, de salvar todos, de salvar à minha mãe! Eles não podem fazer isso, não podem te culpar por isso, simplesmente... — A morena precisou soltar alguns palavrões para se acalmar e esperar pela resposta.
– As intenções não importam! Nunca importaram! O que interessa uma intenção boa se ela terminar numa ação errada? Foi exatamente assim que o surto começou, foram pessoas que pensam como você que mataram a sua mãe e outras milhões de pessoas! — A explosão do pai acabou não sendo um sacode em Kira. Como sempre fez, levou as palavras como um desafio. Uma infantilidade que não deveria ter espaço livre diante daquela situação, mas que também não poderia ser impedida. Deixara de ver o sofá vermelho da qual estava sentada ao lado de Joel, ou a televisão que transmitia algum jogo de basquete, o imundo carpete azul da sala-de-estar e muito menos a expressão de nojo no rosto do homem ao seu lado.
– Ela não está morta, Joel. Ainda não. Mas poderá estar morta a qualquer momento se você não largar desse coração mole e começar a crescer um pouco, sabia? Não é um surtinho que podemos resolver com um pouco de álcool-gel, é uma bomba relógio que você está deixando explodir porquê consegue ser egoísta o bastante pra pensar em ter suas mãos sujas enquanto elas já estão! Mil pessoas morrem a cada minuto em que você não age, você já está com sangue de milhares de pessoas em suas mãos e está preocupado de fazer a mesma coisa diretamente. Poupe-me.
Joel parecia estar sem palavras, e a satisfação que Kira sentiu era inexplicável. Mas o homem não demorou a acordar de seu transe momentâneo e se aproximou com uma raiva contida à tempos prestes a explodir.
– Você tem quatorze anos, Kira. Nunca, nunca tente me dizer que eu preciso crescer, você mal sabe o que é a vida, você não tem ideia do que isso pode causar, não tem ideia do que está falando. — O rosto distorcido e ruborizado de raiva, cuspiu as palavras como ácido. E o resultado não foi diferente.
Por um instante, as respostas que Kira sempre tinha na ponta da língua desapareceram. Mas para o próprio alívio, voltaram logo depois.
– Eu nunca saberei o que é a vida com esse surto. Até os que já souberam, esqueceram ou nem tiverem a chance disso antes de morrer. O tempo não vai esperar você decidir, nem o mar. Eles vão continuar os seus trabalhos: nos matar. Não pense que terá muitas escolhas, ninguém tem. Todas as portas foram trancadas atrás de nós, e você quer guardar a única chave que pode abri-las. Você pode fazer o certo, ou pode fazer com que sua filha decida por você o que você não conseguiu.
E com essas palavras vagando no ar do ambiente, sem resposta, Kira saiu do cômodo. Não pôde deixar de se sentir satisfeita do efeito que conseguira por trás da tensão que suas palavras causariam não na vida de sua própria família, mas talvez nas poucas vidas restantes que usufruíam a arte de viver naquele mundo.
*
– Sr. Dhurvasula, precisamos de uma resposta. — A voz do prefeito, apesar de entrecortada pelo sinal ruim, sôou firme. Joel ainda não havia decidido. Antes, tinha certeza de sua escolha, mas quanto mais pensou no ocorrido da noite passada, mais dúvidas surgiam perambulando por sua mente.
Joel estava prestes a dizer que recusaria as cobaias, mas se interrompeu repentinamente, um misto de ideias e opções se embaralhando por onde olhava, não conseguia pensar, calcular uma resposta.
E então percebeu que aquele era o problema desde o início. Se calculasse cada vantagem e desvantagem de cada escolha, como poderia decidir por si próprio? Era impossível. As chances de fazer uma merda enorme com sua próxima decisão eram as mesmas de uma decisão considerada racional. Joel nunca acreditara que algo poderia dar certo se dito sem uma balança, sem uma medida. Ou, quem sabe, nunca acreditara que qualquer coisa poderia dar certo?
Nada que importasse, nada que já tenha importado, nada que importará. Pela primeira vez em anos, concluiu uma frase sem medir meticulosamente cada palavra, simplesmente a concluiu, esperando estar pronto para as consequências.
– Eu já testei uma dose, senhor. E funcionou. Encontramos a cura.
Bem... ninguém estava pronto para as consequências, afinal.
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