A Ocorrência

1 A dor da perda


Era para ser um dia como outro qualquer, já havia me acostumado, mas não foi bem assim...

–Sinto muito, não pude fazer nada...

–COMO? VOCÊ DISSE QUE TENTARIA TUDO!

–Eu sei..., mas você precisa se acalmar.... As coisas não são tão fáceis assim... Ele tinha 10% de chance de sobreviver mesmo com a cirurgia...

–VOCÊ É O PROFISSIONAL AQUI! Bom.... Tecnicamente falando, pelo jeito! — As lágrimas rolavam pelas minhas bochechas. Ele tentou dizer algo, mas eu não queria ouvir. — VÁ EMBORA! Não quero mais te ver! ME DEIXE SOZINHA! — Nessa hora eu soluçava, quase não pude entender o que eu mesma havia dito. Não queria mais ninguém perto de mim.

–Você não está bem! Deixe-me ajudá-la, fazer companhia para você! — Ele tocou meu braço. Aquilo me tirou do sério.

–NÃO ME TOQUE! VOCÊ O MATOU!

–Mas-

–NÃO TEM MAS... VÁ EMBORA! — Ele se afastou com a cabeça baixa e a única coisa que consegui fazer foi sair correndo daquele hospital. Não importava a distância que eu percorria, parecia que a dor, o sofrimento e o frio só aumentavam. A cada passo que eu dava a dor da perda me engolia, me possuindo aos poucos.

Você já foi atropelado por um caminhão? Acredito que seja essa a sensação. Uma dor insuportável no peito, como uma brasa quente. Um frio cortando sua alma ao meio, seu coração falhando, sua mente enevoada. A única diferença é que o caminhão pode acabar com a sua dor, você pode morrer por causa de um caminhão, mas não pela perda de alguém, chega perto..., mas não perto suficiente.

Quando finalmente voltei para a minha consciência, notei que eu tinha corrido uns vinte quarteirões sem parar, eu arfava, estava suada e meu peito ardia.

Admiti para eu mesma que a dor não passaria assim e ao começar a atravessar a rua a única coisa que pude ver foram os faróis apagados de um caminhão que cruzava o sinal vermelho.

Minha dor acabou, logo depois de um clarão.

–É... Eu estava errada.... Não dói...

Notas finais
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