A OFERENDA
7 Capítulo 06
Notas iniciais
Estou escondido atrás de uma das maiores pedras do Vale, mas consigo ver exatamente o que aconteceu. Não consigo acreditar que Eva foi capaz de fazer tamanha maldade com Charles. Apesar de não termos ficado tão próximos, sempre desejei ser amigo dele, afinal, ele era o único garoto da minha idade aqui. E por falar em garotos, agora somos só três: eu, Logan e Ricky. Passa rapidamente pela minha cabeça a ideia de que todos os garotos serão levados primeiro pela garra e sinto meu corpo estremecer.
A garra sobe em direção ao céu e, repentinamente, Logan nocauteia Eva na nuca e a garota vai ao chão na mesma hora. Vou em direção aos dois, mas Diana segura minha mão e faz um sinal negativo com a cabeça, logo entendo que não devo me aproximar. Logan segura nas pernas de Eva, enquanto Winter pega a garota pelas mãos. Alynn corre para tirar a amiga das mãos dos dois, mas é impedida por Hazel (para minha surpresa, afinal, nunca vi Hazel agindo de forma tão decidida).
Outro ruído surge no mesmo instante e mais uma garra desce do céu, com bastante velocidade. Vejo algumas pessoas correndo, e se afastando, provavelmente pensam que a garra vem para pegar outra pessoa. Eu fico estático, tenho certeza que ela irá devolver Charles. Britt me puxa pela camiseta, mas eu resisto.
― Temos que correr! – ela grita, recuando cada vez mais.
― Ela não vai pegar outro de nós – digo baixinho.
― Você não sabe – ela limita-se a dizer, enquanto me puxa pelo braço, ainda olhando para o céu.
― Veja! Está trazendo algo – confirmando minha teoria de que nada será levado.
A garra chega ao centro do Vale e solta um objeto com cerca dois metros quadros e dois de altura. Corro em direção ao objeto, soltando-me de Britt. Antes de chegar ao local onde ele se encontra, consigo identificar que se trata de uma gaiola gigante.
― Era exatamente o que precisávamos – Logan comenta e Winter concorda com a cabeça. A porta da gaiola está aberta, ainda carregando uma Eva inconsciente, os dois entram na gaiola para deixá-la aprisionada. A barra de ferro que segura a porta da gaiola desce assim que os três estão dentro do local, prendendo-os.
― Mas que merda! – Logan grita.
― Hazel, vê se você encontra uma fechadura – Winter diz.
Ajudo a procurar pela gaiola, mas tudo parece bastante padrão e não vejo nenhum tipo de trava ou algo do gênero.
― Hoje tem rede e saco de dormir para todos que estão livres – Alynn comenta, debochando dos dois, e dirige-se para o dormitório. Logan apenas encara Alynn, afinal, não há muito que fazer.
― Podemos tentar encontrar algo na gaiola amanhã, com o sol para nos ajudar – sugiro.
― Acho que é o jeito, Igor – Logan responde, sentando-se no chão da gaiola.
― Vamos dormir – diz Rose, colocando as mãos sobre meus ombros. Às vezes me sinto a criança do grupo, como se precisasse dos cuidados de todos. Certo, não é de todo ruim, mas há momentos que eu fico irritado com isso.
Sinto uma grande exaustão tomar conta de mim. Sempre que alguém é levado é assim. Antes de dormir, sinto as lágrimas correrem pelo meu rosto. Estou em uma das redes e Britt está ao meu lado. Choro o mais baixo possível, para que ninguém escute. Sinto medo de tudo o que está acontecendo e lamento muito por ter perdido Charles. Eu simpatizava com ele. Acabo pegando no sono chorando. Quando acordo, vejo que sou o último a sair das redes, porém, ainda há algumas pessoas nos sacos de dormir. A primeira coisa que faço é ir em direção à gaiola. Eva já está acordada, encostada em uma das extremidades da gaiola, Winter e Logan em outra. Rapidamente vou à cachoeira me lavar, enquanto vejo os dois esquilos na árvore. Todos nós já sabemos da sequência e ficou combinado que pegaremos os tatus amanhã.
Após banhar-me na cachoeira, fico somente de bermuda (o sol está mais quente do que nunca) e faço círculos em volta da gaiola, tentando encontrar algo.
― Não perca seu tempo procurando – diz Winter.
― Por quê? – questiono, sem entender.
― Hazel e Alynn rodaram por minutos essa gaiola e não encontraram nada – ela explica, sentada com as costas apoiadas na gaiola.
― Talvez só precise olhar sobre outro ângulo – afirmo. Aproximo de Winter e sento-me perto dela. – Como foi quando ela acordou?
― Ela acordou bastante tonta, – Winter sussurra para que Eva não perceba que estamos conversando sobre ela – mas se lembrava de ser sido atacada. Ela veio para cima de mim, acreditando que eu havia acertado sua nuca, porém Logan se meteu e a empurrou bruscamente no chão, fazendo Eva cair de costas. Ele explicou toda a situação para ela, deixando claro que por ele, ela estaria trancada aqui sozinha e ele a deixaria apodrecer, mas a gaiola nos prendeu acidentalmente e então, ela soltou a risada mais histérica que eu já ouvi.
― Ela tem problemas – digo, levantando-me.
― Não é a única – Winter comenta, sorrindo discretamente para mim.
Ao me levantar, vejo a lateral de uma das barras da gaiola e percebo que existe algo diferente nela. Aproximo lentamente e noto a presença de um pequeno furo, percorrendo toda a barra. O furo se repete em quatro barras em sequência.
― Não falei que tudo era questão de ver sobre...
― Outro ângulo – Eva repete a frase que eu disse anteriormente, me interrompendo ao fazer uma voz que me deixa muito bravo. – Desembucha logo, garoto.
― Há um furo muito pequeno nessas quatro barras – não olho em momento algum para Eva, estou explicando a situação apenas para Logan e Winter, como se ela não existisse.
― Será que precisamos encontrar algo para ligar as quatro barras? – Logan questiona.
― Provavelmente – Eva se intromete.
― Não estou falando com você, Eva – Logan grita e levanta-se.
― Minha vontade de sair daqui é tão grande quanto a sua – ela responde, levantando-se também.
Logan se aproxima do local onde estou e observa os pequenos furos.
― Tente encontrar? – ele pede.
― Farei o possível, Logan! – respondo, abrindo um pequeno sorriso.
― Valeu garoto! – ele diz.
No meio da tarde vou até à floresta e com a ajuda de Hazel e Britt, colhemos alguns frutos para levar para os engaiolados. Quando voltamos para o centro, todos estão reunidos em volta da gaiola.
― Aconteceu alguma coisa? – Hazel questiona enquanto entrega alguns frutos para Logan e Winter. Como sei que ela não fará o mesmo para Eva, acabo entregando duas maçãs para a garota, que pega relutante.
― Estávamos esperando vocês para debatermos sobre um assunto levantado por Rose – explica Logan.
― Estamos aqui há mais de uma semana e me questionei o porquê de não termos tentados as montanhas ainda – Rose comenta para o grupo.
― Porque elas ficam distantes? – Magrit lembra.
― Não seria uma caminhada tão longa, Magrit – Rose diz. – Do outro lado pode estar a nossa salvação, vocês já pensaram nisso?
De fato, nunca havia pensado na possibilidade de atravessar a montanha. Certamente a viagem não seria fácil, pois é possível ver que além de bastante íngreme, os picos são muito elevados.
― Poderíamos pedir que algumas pessoas tentassem subir a montanha – Logan sugere. – Concordam?
O grande grupo permanece calado, os poucos que manifestam sua opinião acreditam que é uma boa hipótese e acreditam que nossos esforços podem valer a pena.
― Alguém se dispõe a subir a montanha? – ele pergunta.
Ricky é o primeiro a levantar o braço, seguido por Elizabeth e Lílian. Magrit também opta por ajudar o grupo – provavelmente porque Lílian decidiu ir — e Alynn estende sua mão, mas Eva encara a garota na mesma hora, então ela entende que não deve ir. Rose é a última a se voluntariar nesta ação.
― Acredito que vocês devam partir amanhã pela manhã – Logan comenta. – Procurem alimentos e utilizem as latas que guardamos para levar água. Caso encontrem algo que possa ser útil na abertura da gaiola, por favor, preservem.
― Certo – Ricky diz, levantando-se. – Vou arrumar o que precisamos levar.
― Eu te ajudo! – Diana segue Ricky em direção ao local onde guardamos os suprimentos.
Rose e Britt caminham comigo, em direção à ponte. Na verdade a intenção é se afastar do grupo, para que tenhamos um pouco mais de privacidade.
― Me prontifiquei a ir porque a ideia foi minha – Rose comenta. – Além de ter alguém de cada grupinho indo para a montanha, e como vocês não falaram nada...
― Eu fiquei na dúvida, tenho receio de não conseguir acompanhar o grupo – confesso.
― Se você quiser vou no seu lugar, Rose – Britt se oferece.
― Não precisa Britt, eu tive a ideia, devo participar – Rose responde.
― Nós que vamos ficar, precisamos encontrar um meio de tirá-los de dentro da gaiola – Britt comenta, enquanto chuta uma pequena pedra encontrada sobre a grama.
― Tenho medo do que pode acontecer assim que eles saírem – digo baixinho.
― Como assim? – Rose questiona.
― Logan e Eva estão se enfrentando a todo o momento – explico, olhando para trás, me certificando de quem ninguém está nos seguindo.
― Mesmo assim, acho que eles precisam sair de lá – Britt dá de ombros. – É a minha opinião.
― Talvez pedir para a Diana voltar na cachoeira e procurar onde Ricky encontrou a bolinha aquela vez – Rose sugere.
― É uma possibilidade – Britt afirma.
Diversas alternativas surgem em nossa mente enquanto caminhamos sem rumo pelo vale. A noite chega rapidamente e eu tenho minhas desconfianças que o tempo aqui é controlado. Há dias que parece que o sol fica mais tempo, em outros, a noite logo chega.
Como os três ainda estão dentro da gaiola, todos dormimos no mesmo local que a noite anterior. Mais uma vez penso em Charles antes de dormir e sinto uma pontada no coração, por lamentar sua morte. Tenho pesadelos nesta noite e sonho com as o metal gelados das garras pressionando meu corpo, enquanto sobe, levando-me em direção ao céu. Grito apavoradamente para que me deixe sair, mas a garra se fecha cada vez mais.
― Ei, Igor! Acorde! Acorde! Está tudo bem! Foi só um pesadelo.
Abro meus olhos e sinto minhas costas encharcadas de suor.
― Você estava gritando muito – Britt passa a mão pelo meu rosto. – Desculpe por acordá-lo.
― Obrigado Britt! – respondo. – Pode voltar a dormir agora.
― Mesmo? – ela sorri para mim.
― Sim.
Brittanny volta para a sua rede e eu tiro minha camiseta repleta de suor. Tenho dificuldade de pregar o olho, na realidade, tenho a impressão que não consegui dormir mais, contudo, acordo quando escuto alguns gritos de animais e imediatamente lembro-me dos tatus. Pulo da rede rapidamente e corro em direção à árvore. Ricky já pegou um deles e encontra-se morto sobre a grama. Ele segura o segundo e acerta uma pedrada na cabeça do bicho para matá-lo. O sangue espirra no braço de Ricky que imediatamente deixa o animal cair.
― Merda! Queima! – Ricky corre em direção à cachoeira, enquanto Diana o segue.
― Vou junto, conheço uma planta cujas folhas ajudam a curar queimaduras. Já a vi por aqui – menciona Britt, enquanto corre atrás dos dois.
O terceiro tatu desaparece após alguns segundos. Na mesma hora me questiono se isso irá interferir na ordem e quantidade do surgimento dos animais.
Após alguns minutos, Ricky volta com o braço envolto de folhas amarradas a um fino ramo de cipó. Certamente Britt fez o curativo improvisado, ela realmente leva jeito para isso. Ricky coloca um dos tatus em um dos sacos que continham os enlatados, no baú que trazia Elizabeth. Os demais carregavam outros suprimentos, como frutas e águas enlatadas.
Rose, Ricky, Elizabeth, Lílian e Magrit partem assim que tudo está pronto, decidindo subir a montanha pelo lado mais próximo do dormitório. Rose me dá um abraço forte, em seguida, abraça Britt. Lílian e Magrit saem de mãos dadas, caminhando à frente do grupo. Elizabeth se despede de todos com um aceno geral, já Ricky, demora-se um pouco mais em Diana, finalizando a despedida com um leve selinho, que deixa a garota nas nuvens.
Alynn prontifica-se a despedaçar o tatu para servir posteriormente aos que ficaram no Centro. Britt comenta com Diana que deseja ir à cachoeira para verificar se encontram algo que pode ser útil para a gaiola, e então, nós três partimos para a nossa busca particular.
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