A Nuvenzinha Triste
1 A História da Nuvenzinha Triste
Notas iniciais
A Nuvenzinha era triste. Uau, que bela introdução. Mas é verdade, ela era. Não tinha um motivo específico, ela só era. Não se lembrava mais de uma época em que não fora triste. Ela chorava e chorava, dia após dia, esperando que um dia fosse se esvair. Era assim que nuvens funcionavam, não? Não no caso dessa nuvem em específico, porque não adiantava. Ela nunca, nunca se desfez.
Seu passatempo favorito era ficar olhando para o nada. Não tinha muito o que fazer, no caso. Era deprimente e não ajudava em nada, mas era o que dava pra fazer. Nunca conseguiu manter amigos por perto porque ela sempre tinha que se afastar de todo mundo, toda vez a mesma história. Acabava por ficar sozinha no céu, isolada da maioria das pessoas, coisas e seres, se odiando.
Ah, isso ela sabia fazer. Ela se odiava como ninguém. Odiava suas curvas de gás, odiava a intensidade dos seus raios, odiava sua personalidade, seu jeito, odiava como não adiantava fazer nada que ela não sumia. Odiava ver que estava perdendo sua vida presa em um lugar sem poder fazer nada.
Em um dia qualquer, enquanto andava e pensava em se jogar na frente de um pássaro, a Nuvenzinha esbarrou em algo. Quer dizer, alguém. Era uma pessoa... quente. No sentido literal da palavra. Ela se sentiu acolhida imediatamente por aquele estranho, o que era estranho pra caralho, considerando seu histórico de relações. Depois disso, tudo aconteceu muito rápido.
O Solzinho era incrível. Ele não sabia disso, mesmo a Nuvenzinha repetindo várias e várias vezes. Ela nunca vai cansar de repetir isso, se podemos ser sinceros. Se ela pudesse, faria com que fosse dia o tempo todo, porque quando as luzes se apagam e o Sol não está com ela, não há ninguém entre ela e ela mesma, e ela não gosta disso. Mas ela sabe que ele merece descansar. É claro que merece, porque ele é tão incrível. Se não fosse por ele, mal haveria vida no planeta.
Isso é algo que nem todo mundo percebe. Nos dias mais quentes, em que o Solzinho estava mais agitado (e a Nuvenzinha achava isso adorável, no caso), algumas pessoas diziam que era incômodo, e isso machucava o Sol, mas lá no fundo as pessoas são apenas malvadas, elas sabem o quanto o Sol é importante e essencial. Se não fosse, não precisaríamos de vitamina D, certo?
Às vezes, o Sol ficava triste. Pros meros mortais, isso é conhecido como inverno. E a Nuvem não sabia o que fazer nessas situações, porque ele só merece coisas incríveis e era precioso demais pra esse mundo. Queria gritar porque ela sabe como é ruim, ela conhece todas essas sensações, mas não pode fazer nada pra mudar. Ela não é boa com as palavras e prefere se afastar pra não deixá-lo pior. Não é a atitude mais heroica, ela reconhece. Mas tem medo de acabar falando besteira e perder o Solzinho pra sempre. Ela não quer ser mais um incômodo na vida do Sol.
Apesar de todos os apesares, eles funcionam bem juntos. É uma dupla improvável, sim. Mas eles não trocariam isso por nada. Pelo menos, a Nuvem não, mas ela não pode falar pelo Sol. Ela o ama muito, e mesmo quando os tempos estão difíceis (e honestamente, pra Nuvem não há tempo fácil. Tá tudo sempre uma merda, mas relevemos) ela se agarra nesse sentimento pra seguir em frente. Nada é perfeito, mas esses dois se aproximam muito disso. A única certeza da vida da Nuvem é que, independente do caminho que eles vão seguir no futuro, seja uma via de mão dupla ou uma estrada bipartida, ela sempre vai amar o Sol. Pra todo o sempre.
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