Minhas mãos agarram-se ao guidão da moto com tanta força que posso ver os nós dos meus dedos ficando brancos devido à falta de circulação. É incrível o quanto me sinto vulnerável estando presa nesse engarrafamento de quase duas horas, com as buzinas altas dos carros soando furiosamente atrás de mim, na minha frente e em todo canto no qual eu olhe.

Pééém, um homem começa a vociferar uma quantidade impressionante de palavrões e xingamentos. Fóóóm, um casal dá início a uma briga ao meu lado esquerdo, e posso ver através do vidro que a mulher se vira e tenta abrir a porta do carona, mas não consegue. Bibiiii, uma criança abre um berreiro choroso que pode ser ouvido a vários metros de distância.

Estou suando como uma porca no espeto embaixo desse capacete, respirando o ar úmido da noite quando o cenário muda abruptamente. Um dos motoristas que está três carros adiante de mim abre a porta. Ele grita e cai no chão do asfalto com um baque surdo, então começa a se contorcer como uma minhoca louca. Normalmente, se visse uma cena dessas, eu correria pra ajudar, mas sei exatamente o que está acontecendo. Todos os sintomas batem. O cara deve estar infectado.

— Se segura aí. – Digo para Brenna, que está com as mãos ao redor da minha cintura pra não perder o equilíbrio. Ela ouve meu aviso e me aperta com tanta força que quase fico sufocada, mas não digo nada a respeito.

Sei que estou agindo impulsivamente, talvez motivada pela irritação de ter que esperar por tanto tempo em uma fila de carros que simplesmente não anda. Talvez pelas sirenes e buzinas soando em meus ouvidos já sensíveis a essa altura do campeonato. Tudo o que eu consigo pensar é: Foda-se.

Minha Intruder dá um pinote pra frente quando acelero rápido demais. Giro o guidão e saio de trás de uma Pick-Up, conduzindo a moto pelo espaço suficientemente largo entre duas fileiras de carros congestionados.

O homem está caído na mesma fileira que nós, lutando agora contra uma tremedeira violenta.

— O que você vai fazer? – A voz fraca de Brenna escapa, abafada pelo capacete que ela usa enquanto percebe imediatamente quais são minhas intenções, mas não tem tempo pra reagir.

A moto atinge uma velocidade impressionante em apenas dois segundos de aceleração. O motor ruge como um leão faminto embaixo de nós, e eu sei que já não tem volta. A minha decisão foi tomada, talvez movida por um instinto protetor que eu desconhecia em mim mesma antes de tudo ir pra merda.

O espaço ínfimo entre nós e o homem caído é atravessado num piscar de olhos. Sinto a resistência do ar me empurrando pra trás como se – de algum modo – ele também soubesse o que estou fazendo. A imagem do infectado no asfalto aumenta aos poucos e posso ver nitidamente que agora ele está parado, caído no chão como se fosse um saco de lixo qualquer. Então ele abre os olhos e os músculos de sua bochecha se erguem numa contração involuntária.

O pneu dianteiro da Intruder atinge sua cabeça no exato momento em que ele iria se levantar. Por uma fração de segundo eu penso que vamos cair devido ao impacto, mas esse momento passa e a moto se adapta ao obstáculo facilmente. Brenna solta um gritinho de surpresa atrás de mim e me inclino um pouco, como se estivéssemos subindo num quebra-molas. A única diferença é que a cabeça do homem não é tão resistente assim.

Ouço o barulho tenebroso do crânio sendo esmagado, das três camadas da pele sendo rasgadas de uma só vez. A maxila se parte em mil fragmentos num créééc interno e abafado, repulsivo. Contudo, o massacre não acabou ainda. O sangue escuro esguicha fracamente num jato que quase atinge minhas botas, mas o pneu traseiro ainda está vindo alegremente para finalizar o serviço. Transforma os fragmentos dos ossos restantes em cacos, e não consegue impedir a sujeira da massa encefálica que gruda na borracha enegrecida que nem chiclete no sapato.

Acelero, me afastando dali e resisto à vontade de olhar no espelho retrovisor porque tenho certeza que ele não vai sobreviver. Brenna está ofegante devido ao excesso de adrenalina, mas relaxa o aperto em minha cintura á medida que nos distanciamos do cadáver ensanguentado. É a minha primeira morte. A primeira de muitas que estão por vir.

Mas nada consegue sobrepor a sensação de que o que acabei de fazer é extremamente errado.

Notas finais
Hao.
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.