A Nova Guardiã
16 A Terrível Lembrança
Notas iniciais
O natal estava próximo e o Papai Noel já estava recuperado daquela facada de raspão. Todos os guardiões estavam se preparando para o natal, inclusive eu. Eu anotava no meu caderninho tudo o que eu deveria fazer para ser notada pelas crianças e para alegrá-las durante alguns minutinhos... As ideias sempre vinham quando eu desejava. Talvez eu fosse mais criativa do que eu imaginava. Ou quem sabe a vida como guardiã teria melhorado esse quesito, afinal se você quer estar ligado às crianças e fazer parte do mundo delas, precisa ser criativo, senão é melhor esquecer.
De repente apareceu o Jack Frost. Ele estava como sempre, com aquele sorriso travesso e terrivelmente sexy – pelas barbas do profeta, eu nem acredito que eu pensei isso. Mas ele estava sexy mesmo, eu que não ia tentar me enganar. E, com isso, acabei ficando vermelha. Que droga!
_Nossa, eu mal chego e você já fica vermelha! – disse ele – Eu não sabia que eu tinha todo esse poder!
E agora ele estava se achando. Parabéns Roberta, você mereceu ganhar um prêmio pela sua idiotice suprema. Franzi a testa e disse:
_Você é um convencido!
_Eu não tenho culpa se eu provoco isso nas mulheres!
_Moleque exibido! Epa, espera um pouco... Como assim você provoca isso nas mulheres? O que você quer dizer com isso, hein? Você anda provocando outras por aí, é isso?
_Oh, calminha aí, não fala assim! Eu juro que eu não tenho mais ninguém! Eu só tenho você e não quero mais ninguém!
_Hum, é bom saber disso!
_Sua ciumenta sexy!
_Não sou ciumenta! – disse, fazendo uma careta.
_Ah, mas é claro que você não é... Eu que sou! – disse, irônico e com aquele sorriso besta que eu adorava demais.
_Você não perde tempo em ficar de boca fechada, menino bobo! – falei, em tom de brincadeira.
_Eu gosto de te irritar, sua besta! – falou ele, rindo.
_Ah, então você gosta de me irritar? Sabe, isso é bem a sua cara! – falei, dando um empurrãozinho nele.
_Ah, você quer saber, garota? Cala a boca e me beija! – disse, pegando-me de surpresa em seus braços e me beijando profundamente. Ele sabia mesmo como me deixar maluca. Mas eu acho que eu também o deixava maluco de certa forma. E eu amava quando nós dois nos entregávamos um ao outro, assim, sem medo ou vergonha. Aquilo provava que o amor era muito mais forte do que qualquer outro sentimento. E eu ficava feliz por ser a prova viva disso.
O beijo, então, terminou infelizmente. Ah, que pena, eu queria que ele durasse para sempre. Quando aquele momento de puríssima paixão e loucura passou, os meus olhos se encontraram aos dele. E como eram lindos aqueles olhos azuis. O mundo sempre parecia girar quando eu os via brilhando para mim. O chão virava céu e o céu virava chão. Ele me provocava de um jeito que nenhum outro garoto jamais conseguiria fazer. Nenhum mesmo.
_Você... Você promete que nós vamos ficar juntos para sempre? – disse ele.
_Eu prometo! – falei, abraçando-o fortemente.
De repente uma terceira voz surgiu para rasgar aquele momento incrível e quebrar o nosso clima: O Breu. E não tinha mais ninguém na fábrica naquele momento para expulsá-lo de lá. Pois é, nós teríamos que dar um jeito nele sozinhos.
_Como vocês podem estar assim, tão apaixonados e felizes, sabendo que eu destruí a tão querida fábrica do Norte? Eu estou simplesmente incrédulo com o seu descaso com a situação, minha Íris! Agarrando um cara que nem te merece, enquanto os problemas desabam sobre a sua cabeça!
_Eu não estava agarrando ninguém! – falei – Eu só o amo, afinal ele é o meu namorado! E não me chame de Íris, Breu! Eu não sei se você sabe, mas o meu nome é Roberta, você não entende?
_O que você viu nele?
_E o que você viu em mim? – falei.
_A Íris.
_Ela não é a Íris! – disse o Jack Frost – Ela é a Roberta, a minha Roberta, Breu!
_Não! Ela é a Íris, a minha Íris, você não entende? – falou o Breu.
_PAREM! – gritei alto até demais – Breu, por favor, você está sendo muito infantil. Eu só queria que você entendesse que um dia alguma garota vai te querer da mesma forma que você a quer. Você não precisa ficar com essa obsessão besta comigo!
_A verdade é que nenhuma garota me quer!
_Você já pensou em mudar e ser uma pessoa melhor? Por que está difícil alguém te amar desse jeito!
_Você não sabe o que é ser odiado!
_Ah, já chega, Breu, vai embora! – disse o Jack Frost, já bem nervoso com aquela situação.
O Breu, furioso, acertou o Jack Frost com uma rajada de areia negra, fazendo-o desmaiar.
_Sem esse chato a conversa vai ficar bem mais interessante! – disse ele, cínico como sempre.
_O que você quer, Breu, para nos deixar em paz? – falei.
_Isso é óbvio, Íris... Eu quero o seu amor e se você me der, eu nunca mais importunarei as crianças ou os guardiões! Simples assim!
Eu agarrei o Breu pelo pescoço e disse:
_Eu nunca realizarei esse seu desejo ridículo, Breu, nunca!
_Se você não vai por bem, você vai por mal! – disse, tentando me beijar a força, embora eu estivesse fazendo o possível para afastá-lo.
_Era só isso o que me faltava! Você está querendo me assediar? – falei.
_Não diga essa palavra!
_Qual palavra, Breu? Assediar?
_Sim!
_Não vai me dizer que você já foi assediado!
_Eu não gosto de falar sobre isso... – disse, sentando-se no sofá, com cara de triste, muito triste. Ele realmente parecia ter sofrido um assédio daqueles que deixam marcas muito profundas.
_Você tem um trauma? – falei – Um trauma relacionado a isso?
_Sim... Ah, eu vou te contar, Íris... Eu tinha apenas dez anos... Dez anos, eu era apenas uma criancinha inocente... Eu... – e começou a chorar.
_Calma, Breu! – disse, enquanto o abraçava para acalmá-lo – Você pode me contar isso, confie em mim, ok?
_Está bem, eu vou te dizer o meu problema, mas eu só vou fazer isso porque, bom... Porque eu te amo... Enfim... Eu estava passeando numa boa, como toda criança normal e feliz, quando de repente alguém me puxou para o meio do mato. Eu só lembro de que ele era um homem de mais ou menos uns quarenta anos e, ele destruiu a minha inocência, os meus sonhos, a minha infância... Eu não tive coragem de contar aquilo para ninguém, eu sempre vivia com medo e me tornei um rapaz fechado para o mundo. Eu tinha medo de andar sozinho na rua e de conversar com os outros, principalmente com os desconhecidos. Mas com dezesseis anos eu conheci você, Íris... Você era um ano mais nova do que eu... Nós nos tornamos amigos... E eu senti que você era a única pessoa em quem eu podia confiar realmente, sabe? Eu, então, te contei o meu problema... Você foi a única pessoa para quem eu contei o meu trauma... Você me deu vários conselhos e com o tempo eu consegui me reerguer, senti-me feliz outra vez! Alguns meses se passaram e nós começamos a namorar... E o resto, bom, você já sabe...
Eu estava impressionada! O Breu já foi abusado! Eu não podia acreditar no que eu havia acabado de ouvir da boca dele. Ele chorava bastante, aquela cena era realmente de cortar o coração. As suas lágrimas expressavam toda a dor que ele guardava em seu coração durante todos aqueles anos sofridos... Eu não suportava vê-lo assim, sinceramente... Ele... Ele chorava assim como uma criança... E eu não podia fazer nada para ajuda-lo! Eu, então, também comecei a chorar e o abracei bem forte, em solidariedade ao pobre coitado que não tinha nem ao menos um ombro para chorar enquanto revelava as sombras mais escuras que cobriam o seu passado.
_Pare de sofrer, Breu... Eu... Eu te entendo... Isso é mesmo traumatizante... Esqueça isso... Eu estou aqui... E não vou deixar que nada te aconteça... Nada... – Eu nem podia acreditar que estava abraçando o cara que matou os meus pais, mas ele realmente merecia alguém para ajudá-lo naquele momento. Eu nunca havia sido abusada, mas sentia que a dor dele era muito profunda e que não ajudá-lo seria uma completa falta de humanidade da minha parte.
_Você... – disse ele – Você fala como a Íris... Como a minha Íris...
_Talvez eu ainda tenha um pouco dela dentro de mim...
_Eu te amo, Íris...
É, eu não me importei em ter sido chamada de Íris... Aquele não era o momento adequado para reclamar do fato de que ele sempre me chamava pelo nome errado...
_Você também me ama? – disse ele, olhando bem no fundo dos meu olhos.
_Não! Eu amo o Jack Frost, eu já disse isso! – falei, um pouco nervosa.
_É nessas horas que eu me lembro de que você não é a Íris... Adeus, Roberta. – finalmente ele me chamou pelo meu nome verdadeiro.
_Adeus... – falei, um pouco triste – vê se larga essa vida de escuridão, está bem?
_Isso nunca vai acontecer, Roberta! – essa foi a última coisa que ele disse, antes de partir e me deixar ali, sem palavras.
Alguns minutos depois, o Jack Frost acordou, completamente perdido:
_O que aconteceu, hein?
_Essa é uma longa história... – falei.
Eu então lhe contei toda aquela história complicada, desde o início. Procurei ser o mais breve possível, pois aquilo tudo me fazia chorar e a última coisa que eu queria era chorar, pois eu não gostava muito de expor as minhas fraquezas.
_Isso é... Isso é simplesmente impressionante! – disse ele.
_Mas não conte isso a ninguém! Em respeito ao passado dele, essa história só fica entre nós, está bem?
_Está bem. Nossa, surpreendentemente agora eu estou até sentindo dó do Breu, nossa, mas que cara mais azarado! Ele é cheio de problemas terríveis e o seu passado é triste demais... Sabendo disso eu até dou razão para ele ser revoltado daquele jeito...
_Eu só queria que ele abandonasse a escuridão e se tornasse uma pessoa boa na qual os outros pudessem confiar... Eu sinto que ele é uma boa pessoa, mas se nega a aceitar isso... Ele pensa que o mal e as sombras podem lhe trazer alguma vantagem, mas a verdade é que se ele continuar mal daquele jeito, o pobre coitado só afundará cada vez mais nas suas próprias trevas...
_Mas afinal, porque você se preocupa tanto assim com o Breu?
_Você está com ciúmes do Breu, cara? Por favor, né?
_Ufa, por um segundo eu pensei que você e ele, bom, se amassem!
_Quantas vezes eu tenho que dizer que você é o único cara que eu amo nesse mundo?
_Tudo bem, se você está dizendo eu acredito em você!
_Seu ciumento sexy! – falei, fazendo uma careta.
E rimos do jeito mais fofo e idiota possível.
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