A Nova Guardiã
11 Verde e Dourado
Notas iniciais
Eu estava, sinceramente, com medo. O Breu ameaçava o natal e o amor que eu sentia pelo Jack Frost. Eu tinha quase certeza de que ele não desistiria facilmente dos seus propósitos. Quando aquele maldito cismava com alguma coisa, ia até o final. Talvez o cerne dele fosse a teimosia. E o meu? Eu ainda não sabia. Quem sabe fosse a idiotice, porque só alguém tão tola quanto eu para entrar nesse barco furado de ser a nova guardiã.
Eu tentava curtir o Jack Frost e os meus amigos guardiões, porém, eu não conseguia deixar de pensar no Breu e nos seus planos malignos. Ele planejava algo grande. Algo que me tirava o sono. O Jack Frost pareceu ter notado a minha preocupação:
_Há algo de errado, Roberta?
_O Breu. Eu estou muito preocupada com ele. E se ele destruir o natal? E se ele conseguir acabar com o amor que eu sinto por você?
_Ei, calma aí! Você está sofrendo por antecipação! E você não sabe o quanto isso faz mal! Não se preocupe! Nada de ruim vai acontecer. Nós já derrotamos o Breu várias vezes em outros tempos. E não é agora que nós vamos falhar, está bem?
_Você não está entendendo! Ele vai causar um verdadeiro estrago! Eu posso sentir isso! Ele está muito mais forte e com certeza tem todo o poder para acabar com todos nós de uma só vez! Não, eu não consigo dormir sabendo disso! Quais barbaridades ele pode fazer com os guardiões, com as crianças, com você, comigo? Eu estou com medo!
_Enquanto eu estiver aqui, nada acontecerá com você! Isso eu te prometo! – disse, enquanto me abraçava bem forte – Você acredita no que eu estou te dizendo?
_Sim. Obrigada pelo seu apoio...
Quando ele me confortou, eu me senti mais segura. Porém, eu ainda queria saber quais eram os planos do Breu de qualquer forma, senão eu morreria de tanta ansiedade. O Jack Frost tinha me contado há alguns dias onde o Breu se escondia e como chegar lá caso isso realmente fosse preciso. Eu, então, sem que ninguém percebesse, ousei adentrar o esconderijo da besta-fera.
E lá estava ele, sentado em uma cadeira de areia negra, ao lado dos seus medonhos cavalos pesadelos. No início, eu estava com um pouco de medo, mas resolvi tirar logo aquela história a limpo, antes que eu ficasse louca de tanta apreensão.
Ele levou o maior susto com a minha presença.
_Roberta! Você por aqui? Eu... Eu... – Ele parecia um adolescente idiota – A que devo a sua ilustre visita? Você veio dizer que você está arrependida por ter me enxotado da fábrica do Papai Noel como se eu fosse um cachorro pulguento?
_Não se compare a um cachorro, por favor. O cachorro se sentiria ofendido.
_Ora, sua! – disse, segurando o meu braço.
Eu não esbocei reação alguma, afinal ver-me com medo era o que ele realmente queria. E eu não lhe daria o prazer de me assustar. Porque no fundo eu sabia: Eu não tinha medo dele. Eu o encarei demoradamente, sem desviar o olhar, para mostrar que ele não me dominava. Ele, então, largou o meu braço e disse:
_Muito bem, muito bem, Roberta. Vamos parar de agir como duas crianças e vamos direto ao ponto. O que você quer comigo?
_Eu quero que você pare com esse showzinho estúpido de que você vai acabar com o natal e comigo! Fale logo qual é a sua!
_Você quer que eu conte os meus planos? Você acha mesmo que eu sou burro o bastante para fazer isso? Isso seria a mesma coisa que contar o meu ponto fraco ao meu carrasco.
_É que eu não aguento mais! Eu vivo pensando nessa história!
_Então você não para de pensar em mim? Hum, isso significa que esse meu plano está saindo melhor do que a encomenda!
_Chega! Eu não estou pensando em você da forma que você está imaginando!
_No fundo, no fundo, eu acho que você sente algo por mim, do contrário você não estaria aqui. Você é uma garota esperta, jamais teria vindo aqui só para me obrigar a confessar o meu plano, afinal você já sabia muito bem que eu jamais faria isso. Você tem outro motivo, com certeza, mesmo que inconscientemente! Eu aposto que você só veio aqui para me ver, certo?
_Ah, mas que convencido mais estúpido! É claro que não!
_Tudo bem, tudo bem... Você pode ter vindo aqui sem um bom motivo. Mas, já que nós estamos sozinhos e, digamos, tão próximos... Eu que não vou perder essa oportunidade!
E me beijou profundamente de um jeito simplesmente inimaginável e assustador. Quando aquele momento medonho acabou, os seus belos olhos dourados foram de encontro aos meus olhos verdes. Eu estava perplexa. Eu não acreditei que fui beijada por ele. Eu me sentia culpada, mesmo sabendo que aquele beijo ocorreu sem o meu consentimento. Para mostrar que eu não queria nada com aquele miserável, chutei as partes baixas dele.
_Estúpido! – falei.
Eu, então, fui embora, com algumas lágrimas nos olhos. O meu coração se encheu de ódio. Por que ele tinha que me beijar? Por quê?
Quando eu cheguei à fábrica do Papai Noel, o Jack Frost parecia preocupado comigo:
_O que houve? Você está com cara de choro!
_Eu estava chorando porque... Você não vai contar isso para ninguém, certo?
_Você sabe que pode confiar em mim!
_Está bem, eu vou te contar... Eu... Eu fui ao esconderijo do Breu para ver se eu conseguia arrancar dele alguma coisa sobre o plano maligno dele, porque eu já não estava mais aguentando de tanta curiosidade. Eu sinceramente precisava saber.
_Você... Você esteve com o Breu? E... Ele fez algo com você? O que ele fez?
_Ele... Ele... Ele me beijou... Eu juro que eu não queria fazer aquilo! Por favor, não... Não fique bravo comigo! Depois que ele me beijou, eu o chutei e fui embora, com muita raiva e ao mesmo tempo bem triste.
_Não se preocupe! Em você eu confio! Eu sei muito bem que você não teve a intenção de beijá-lo, é claro. Já ele foi o verdadeiro culpado! Ah, pois eu irei lá e vou fazer picadinho daquele aproveitador barato! Eu vou mostrar para aquele idiota que ele não pode fazer isso com a MINHA namorada!
E antes que eu pudesse impedi-lo, ele se foi, mordendo-se de raiva. Eu fui atrás dele e disse:
_Ele vai acabar com você! Não faça isso!
_Pois eu que vou acabar com ele!
Nós chegamos ao covil do maldito. Eu fiquei do lado de fora, enquanto o Jack Frost ia lá embaixo, resolver aquele abacaxi. Lá de cima era possível ouvir claramente os dois discutindo.
_Por que você beijou a minha namorada? Ela não é sua, ou será que você se esqueceu? – disse o Jack Frost.
_Mas, você quer que eu te conte um segredo? Eu tenho quase certeza de que ela gostou! – retrucou o Breu.
Quando ele disse isso, eu fiquei vermelha. Não, aquilo era mentira. Ou será que no fundo eu havia mesmo gostado daquele beijo? Não, o Breu estava só me confundindo! Claro que aquele beijo tinha sido uma completa merda! Mas e se eu estivesse simplesmente tentando me enganar? Não, não, nada disso! Argh, porque aquilo tinha que ser tão complicado assim?
_Ela não gostou, Breu! Cara, ela te chutou! – disse o Jack Frost.
_Mas alguns segundos antes de eu levar aquele chute do capeta que quase me matou, ela me olhou nos olhos de um jeito que eu nunca vou esquecer... Ela pode até ser sua, mas você não pode negar que o beijo que eu dei nela mexeu muito com ela. Você tem que entender que nenhuma garota é tão fria a ponto de não sentir nada quando é beijada profundamente. Ela... Ela estava tão perfeita... Naquele momento eu pude sentir que nós pertencíamos um ao outro, independente de qualquer coisa... De qualquer coisa mesmo...
Eu não acreditei no que o Breu tinha dito. Eu não sabia que ele reparava em detalhes tão pequenos e bobos. Será que ele tinha algum tipo de sensibilidade no coração dele, bem lá no fundo da sua escuridão? Uma ótima questão para ser levantada, mas não naquele momento, pois eu ouvi alguns barulhos de socos lá embaixo. Eu logo percebi que o Jack Frost tinha resolvido partir para a pancadaria. Eu fiquei com medo. Eu resolvi descer e me esconder atrás de uma coluna, sem que nenhum dos dois pudesse me ver. A cena era chocante. Os dois travavam uma batalha surpreendente. Eu não podia ficar ali, apenas observando. E os meus poderes? Afinal, para quem eles serviam? Para proteger quem eu amava, obviamente! Eu, então, entrei em cena, de repente, dizendo:
_Jack Frost, não se preocupe... Eu vou te ajudar!
Eu lancei uma bola de fogo em Breu, mas ele conseguiu desviar. Ele parecia furioso com a minha presença:
_Então, agora você vai negar o que sentiu quando nós nos beijamos? Não, nada disso! Admita! – disse tentando me acertar com as suas bolas de areia negra.
_Pois saiba que eu não senti nada! Nada mesmo! – gritei, acertando-o finalmente com uma gigantesca rajada de fogo, fazendo-o cair, porém este se levantou, cambaleando.
_Você precisa muito mais do que isso para me derrubar! – disse ele.
O Jack Frost perdeu a paciência e lançou um enorme bloco de gelo no Breu, fazendo-o cair novamente. Porém, dessa vez ele não se levantou.
_Pois eu aposto que isso é o suficiente para te derrubar! – disse o meu namorado.
Eu pus um dos meus pés sobre a barriga de Breu, dizendo:
_E não volte nunca mais a mexer comigo, seu miserável!
_Será que é tão duro assim para você, uma garota de coragem, dizer que você sentiu algo durante o nosso beijo? – disse o maldito.
_Talvez eu tenha sentido algo, Breu. Mas perto do que eu sinto pelo Jack Frost, a pessoa que eu realmente amo, o seu beijo teve efeito nulo sobre o meu coração. Passar bem.
Ele se levantou e disse, furioso:
_Isso não vai ficar assim!
_Ah, mas realmente isso não vai ficar assim! – respondi – Eu não esqueci o que você fez com os meus pais, está bem? Por isso eu afirmo que eu ainda tenho contas a acertar contigo. Mas eu já te humilhei demais por hoje. Eu deixarei o resto para depois... Breu...
Ele tentou me acertar, usando a sua areia negra, mas eu fui mais rápida e me desviei. Eu e o meu namorado, então, saímos rapidamente do esconderijo do Breu, vitoriosos.
_Eu preciso te pedir desculpas... – falei ao Jack Frost, um pouco triste – Você deve estar muito bravo por causa do meu beijo com o Breu...
_Eu tenho que admitir que eu morri de raiva, mas não de você e sim do Breu. De você eu senti ciúmes, bastante mesmo!
_Ah, não seja bobo, aquele beijo pode ter feito com que eu confundisse um pouco os sentimentos, mas eu tenho certeza de que ele não significou nada para mim. Você sabe por quê?
_Por quê?
_A resposta é simples... – falei, ao pé do ouvido dele, baixinho – Porque a única pessoa que eu amo nesse mundo é você!
_Eu também te amo, Bebetinha!
E naquele momento eu percebi que o Jack Frost era mesmo alguém muito especial. Por me compreender de um jeito que nenhum outro garoto faria. Por ter se arriscado ao enfrentar o Breu por minha causa. E por me amar verdadeiramente, criando um laço entre nós que jamais seria rompido pelo Breu nem por ninguém. Ninguém mesmo.
Boa sorte tentando nos separar, Breu, porque de uma coisa eu estou certa: Para que você possa destruir o amor que eu sinto pelo Jack Frost, você terá muito, muito trabalho mesmo.
E... O caso está encerrado, maldito Bicho Papão!
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