A Nova Guardiã
2 O Poder do Fogo
Notas iniciais
_Então você é a Roberta Franco, certo? – disse o Jack Frost.
_Sim, essa sou eu. – disse um pouco envergonhada.
Eu simplesmente não queria admitir, mas tinha me encantado pela beleza dele. Os seus olhos azuis fitavam-me carinhosamente. Como eram profundos aqueles olhos. Fiquei em transe por alguns instantes, admirando o seu belo rosto.
_Ei, Terra chamando Roberta! – disse Jack Frost, tirando-me do transe – Por que você está me olhando desse jeito? Sou tão feio assim?
_Não, claro que não!
_Ufa, ainda bem! Então? O que você acha de travar uma guerrinha de bolas de neve comigo amanhã de manhã? Ou vai dizer que você não gosta de neve?
_Você está brincando? Tudo o mundo adora a neve! Eu vou!
No dia seguinte, eu mal despertei e ele já me pegou pelo braço e alçou voo, como um verdadeiro pássaro, porém, sem asas. Desafiando os limites da gravidade, saímos voando por uma das janelas da fábrica do Papai Noel, ficando do lado de fora, em meio a muita, muita neve mesmo. O frio era intenso. Eu nem sabia se ia aguentar aquele gelo todo. Ainda bem que eu estava de casaco, senão já teria morrido congelada.
_Então toda essa neve é obra sua?
_E de quem mais seria? – disse ele, sorrindo de um jeito travesso – Pensa rápido! – gritou, atirando de repente uma bola de neve no meu rosto.
Dei uma risada do tipo que não soltava há muito tempo. Resolvi revidar atirando mais bolas de neve nele. A minha pontaria era uma droga, pois não acertava uma. Ele, muito pelo contrário, acertava quase todas, enquanto ria de mim. Eu, mesmo assim, não desistia e continuava tentando, em vão, acertá-lo. Ficamos ali brincando por horas e mais horas. Nós nunca nos cansávamos. Aquilo estava divertido demais para ser interrompido. Mais tarde, os outros guardiões também resolveram entrar na brincadeira. Aprontamos muito. Até o Coelhão, que estava todo azedo no dia anterior, resolveu participar da guerrinha de bolas de neve. Aquele dia realmente não poderia ficar melhor.
Contudo, tive um repentino mau pressentimento. Sentia-me observada. Pensei que era impressão minha, mas era real. De repente, várias fagulhas negras e brilhantes caíram do céu. Essas fagulhas se aglomeraram até formar a imagem de um ser humano. Porém não um ser humano qualquer. Ele era pálido e estava de preto, assim como a Fada do Dente descreveu. Com certeza aquele homem era quem eu estava pensando: Breu. A sua voz era sarcástica, o seu sorriso era cínico e o seu semblante era sombrio, medonho e simplesmente assustador. Com a voz amedrontadora, começou a falar, enquanto ria:
_Então vocês estão se divertindo num belo dia de inverno, brincando com bolinhas de neve como se fossem um bando de criancinhas estúpidas e mimadas? Há! Isso quer dizer que vocês já se esqueceram de mim, não é mesmo? Pois vocês não deveriam fazer isso de forma alguma! Estão cometendo um grave equívoco ao acreditarem que eu não sou uma ameaça. Porque eu sou sim. Esperem só o que vai acontecer! Eu ainda vou dominar as crianças, o mundo, vocês! Não sobrará nada para contar a história. Somente a escuridão. E eu, é claro!
Os guardiões tentavam acertar Breu com as suas armas, mas ele conseguia se esquivar de qualquer ataque advindo deles. Rindo assustadoramente, Breu não cansava de zombar dos meus amigos.
_Então isso é o melhor que vocês podem fazer? Pois não pensem que eu sou o velho Breu. Estou mais forte do que nunca. O mundo está ficando cada vez mais violento. E isso deixa as crianças com medo, o que me fortalece. Vim me recuperando desde a minha última derrota, adquirindo forças por meio da criminalidade crescente em várias partes do mundo, que assusta as crianças e as faz ter medo do mundo. E de mim, obviamente. É claro que muitas delas ainda acreditam em vocês, mas... Isso não vai ser por muito tempo. Em breve o caos reinará na Terra. E eu finalmente triunfarei sobre as suas cabeças! Vocês que me aguardem! Eu quero que vocês fiquem sabendo que nessa batalha sangrenta só existirá um vencedor: Eu! – disse ele, desaparecendo numa nuvem de fumaça negra.
Eu estava com muito medo. Arrependi-me de ter aceitado aquela missão. Ela era muito mais perigosa do que eu pensava. Porém, não poderia recuar, apesar de estar com saudade da minha vida antiga, que não era tão maluca assim. Eu queria estar com os meus amigos, na minha escola, ou nos braços dos meus avós naquele momento. Chorei. Os guardiões pareciam preocupados comigo e me perguntaram o que estava acontecendo.
_Quero a minha vida normal de volta! Quero os meus avós! – disse, enquanto me afogava em lágrimas.
_Não fique assim! – disse o Norte – Essa missão é muito importante! E se o Homem da Lua te escolheu, foi porque tinha certeza de que você estaria pronta para isso. Você precisa nos ajudar a salvar o mundo das garras do Breu. Não se preocupe, pois você vai conseguir!
_Mas eu sinto saudades dos meus avós!
_Eu sei que isso tudo é muito complicado, mas você precisa se tornar independente deles. Precisa aprender a lutar por si só! – disse a Fada do Dente – E lembre-se, onde quer que você esteja, eles sempre te amarão.
_Obrigada, amigos. Já estou me sentindo melhor. Vocês têm razão. Não posso desistir agora. Preciso lutar, criar coragem. – disse, já um pouco menos triste – Farei o possível para deixar os meus avós orgulhosos de mim.
_É assim que se fala — disse o Jack Frost – Você é mesmo uma menina de coragem! Tenho certeza de que não vai nos decepcionar!
_Obrigada, Jack Frost, você é uma ótima pessoa! Adorei a guerrinha de bolinhas de neve.
_Sabia que você ia adorar! – disse ele, com aquele sorriso de menino bagunceiro que só ele conseguia fazer.
_Então, agora que já tivemos um pequeno momento de descontração, preciso entender um pouco mais essa história de ser a nova guardiã. O Jack Frost produz a neve. O Coelhão é o símbolo da páscoa e o Norte além de entregar os presentes durante o natal, sabe lutar muito bem. A Fada do Dente incentiva as crianças a fazerem a higiene bucal e o Sandman traz o mundo dos sonhos às crianças. Mas e eu? Qual será a minha função? O que eu farei pela humanidade?
_O Homem da Lua nos disse que você será a Fada do Fogo. Usará o seu poder do fogo para defender as crianças do mal do mundo. Porém, você ainda não é capaz de ativar o seu poder. Só o Homem da Lua saberá a hora em que você estará pronta para usá-lo. – disse o Coelhão.
_O quê? Você quer dizer que eu tinha esse poder dentro de mim o tempo todo, mas não sabia?
_Sim, ele sempre esteve em sua alma, mas, como eu disse antes, só o Homem da Lua saberá a hora em que você estará apta a utilizá-lo. A partir do momento em que usá-lo pela primeira vez, o que pode acontecer a qualquer hora, você terá total controle sobre o seu poder e aos poucos aprenderá a usá-lo. Com esse poder, você poderá controlar tudo relacionado ao fogo, como os vulcões por exemplo. Também será capaz de lançar bolas de fogo e afins. E o melhor de tudo: Você terá asas e poderá voar, assim como a Fada do Dente! Com certeza esse poder é fundamental para derrotar o Breu! Se você conseguir derrotá-lo usando toda essa força que existe dentro de você, obviamente as crianças ficarão seguras por um bom tempo. É esse o seu dever: Proteger as crianças do Breu a qualquer custo, usando o seu poder.
_O Breu? Mas mesmo com esse tal poder do fogo eu não sou tão forte quanto ele!
_É isso o que ele quer que você pense, Bebetinha! – disse o Jack Frost, sorrindo como sempre.
_Bebetinha?
_É isso aí, esse é o seu novo apelido! Gostou?
_Adorei! – disse, abraçando-o. Ele correspondeu o abraço e disse ao pé do meu ouvido que tudo daria certo, não importando o que estaria por vir. E que eu era muito mais forte do que eu pensava.
Eu estava quase morrendo congelada. Nossa, como o corpo dele era gelado. Pudera, afinal ele era o Jack Frost, ora essa! Saí do abraço devido ao choque térmico e disse:
_Caramba, você é uma pedra de gelo!
_É verdade, todo o mundo diz isso, mas não fique preocupada. Com o tempo você se acostuma. Mas o difícil mesmo vai ser quando você ativar esse seu poder do fogo. O seu corpo vai ficar quente como o inferno! Não poderei nem chegar perto, senão vou derreter! – disse, rindo bastante. Não resisti e ri também. Ele era simplesmente hilário. Um anjo, um amor de pessoa. Mas só havia um problema entre nós:
Ele era gelo e eu era fogo.
Nós éramos completamente opostos.
Mas não vivem dizendo por aí que os opostos se atraem?
Fale com o autor