A Nova Guardiã
3 O Pecado e o Pecador
Notas iniciais
Eu estava observando o gigante globo terrestre que ficava no centro da fábrica do Papai Noel. Ele estava cheio de luzes brilhantes. Os guardiões já haviam me explicado que cada uma daquelas luzes representava uma criança que acreditava nos guardiões. Fiquei feliz ao ver que um dia as crianças acreditariam em mim também, quando eu finalmente me tornasse uma verdadeira guardiã. Eu chegava a imaginar como eu seria chamada pelas crianças: A fada do fogo. Sim, esse seria o meu codinome. E particularmente, eu achava que ele combinava comigo. Sempre gostei do fogo. O mais atraente de todos os quatro elementos. Importante e ao mesmo tempo perigoso. Algo realmente muito especial. Mas eu não sabia se estava mesmo pronta para domar tal elemento aparentemente indomável. Eu estava com medo de fazer alguma besteira. Porém, afastei esse pensamento ruim e comecei a imaginar como seria incrível ter poderes e ajudar as pessoas com isso. Aquilo seria uma honra para mim. Eu me sentiria uma alma infinita. Sempre.
De repente senti um par de mãos cobrir os meus olhos. Aquelas mãos eram geladas. Elas só poderiam ser de uma pessoa:
_Jack Frost – falei, com toda a certeza.
_Acertou! – disse ele, tirando as mãos dos meus olhos e virando-me de frente para ele — Sei que a resposta era óbvia, mas queria brincar um pouco com você.
_Brincar comigo? Pois é, você adora brincar com as pessoas. Os outros guardiões já disseram que o seu cerne é a diversão. Ótimo cerne, a propósito. Adoro diversão!
_Então você também me adora, certo? – disse ele, dando aquele sorriso travesso de novo, deixando-me vermelha.
_Sim – disse baixinho, um pouco envergonhada.
_Também te adoro. E já que estamos falando em cerne... Qual você acha que seja o seu?
_Eu... Eu não sei...
Ele pôs uma das suas mãos em meu ombro e disse:
_Não se preocupe, você ainda vai descobrir. Eu também demorei um pouco para descobrir o meu. Mas tudo bem, quando você menos esperar, a descoberta virá. Tenho certeza de que você deve ter algo muito especial para ter sido escolhida. Você deve ser mesmo uma ótima pessoa.
_Na verdade, não sou. – disse, desviando o olhar – Sou uma pessoa revoltada e um pouco de mal com a vida. Na escola eu consegui poucos amigos. Aprontava muito quando pequena. Tudo isso porque perdi os meus pais muito cedo, quando eu tinha apenas quatro anos. Essa mágoa me corrompeu. Eu daria tudo para tê-los de volta. Tudo. Mas isso é simplesmente impossível, afinal infelizmente eles já estão mortos. Foram assassinados cruelmente. Aquela era uma noite de inverno. Eu estava no meu quarto brincando com as minhas bonecas, quando de repente ouvi vários gritos que vinham do quarto dos meus pais. Apesar do medo, tomei coragem e entrei no quarto deles para ver o que estava acontecendo e me choquei com a cena: Lá estavam os dois estirados no chão, completamente inertes. Estavam mortos. Aquela cena era de cortar o coração e ficou gravada em minha mente até os dias de hoje. Corri para a casa da minha vizinha para pedir ajuda. Ela chamou a polícia. Mas o culpado nunca foi encontrado. O caso estagnou. E foi esquecido pela polícia. Mas eu jamais o esqueci. Aquilo mudou a minha vida completamente. Passei a ser criada pelos meus avós. Porém, nada me conformava. A partir do dia da morte dos meus pais, eu nunca mais seria a mesma. Tornei-me amarga, fria, seca. E me consumi em minha própria revolta. Mas no dia em que eu encontrar o culpado, eu vou...
_Pare com isso! – disse ele, me interrompendo.
_O que foi? – perguntei, com raiva, por ele ter cortado o meu assunto.
_Eu não gosto de te ver assim... Revoltada, querendo vingar a morte dos seus pais. Não fique pensando no que você vai fazer com o culpado quando encontra-lo. Isso só te fará sofrer ainda mais. E mais: Não te acho amarga, fria ou seca. Você é uma pessoa maravilhosa! Não deixe essa história da morte dos seus pais destruir essa menina incrível que existe dentro de você. Isso é justamente o que o assassino dos seus pais quer. Ele quer te ver assim: Triste, revoltada, sem vontade de viver. Mas não fique assim. Os guardiões estão com você. Eu estou com você – disse, tocando a minha mão – E não vou deixar de forma alguma que você se sinta mal. Eu quero te ver feliz. Porque eu gosto muito de você. Sempre vou gostar.
_Obrigada pelas suas palavras. Gosto muito do seu apoio. – disse, derramando algumas lágrimas – Nunca alguém me disse palavras tão bonitas. Você é mesmo uma pessoa fascinante.
_Não, não sou nada disso. Você é que é.
Nós estávamos muito próximos. Ele olhava profundamente em meus olhos. Eu estava com um pouco de vergonha. Sinceramente, eu não sabia o que ele pretendia. Era simplesmente indescritível aquela cena. Eu estava sem fala, de mãos atadas, sem saber o que fazer. Ele acariciou o meu rosto e os meus cabelos negros. Olhamo-nos por alguns instantes quando percebi que ele estava aproximando o seu rosto do meu bem devagar. Foi naquele momento que eu percebi o que ele queria comigo. Não sabia o que fazer, mas senti que eu também queria.
De repente, antes que pudéssemos nos beijar, a Fada do Dente apareceu e não nos deixou completar o que estávamos prestes a fazer:
_Roberta, você viu o Nor... – ela me viu bem próxima do Jack Frost e percebeu o que nós íamos fazer – Oh, eu sinto muito! Interrompi alguma coisa?
_Não, não, claro que não! – falei, afastando-me dele – O Norte? Bom... Ele está lá fora, descansando com os seus duendes.
_Obrigada, amiga! Desculpa alguma coisa, sou uma seguradora de vela mesmo, eu...
_Não diga isso, aquilo não era nada do que você estava pensando, eu...
_Tudo bem, tudo bem. Com licença, eu preciso ir.
Ela então se retirou da sala. O clima ficou muito chato entre o Jack Frost e eu. Ele parecia envergonhado. E eu mais ainda. Que besteira nós fizemos! Mas nós não podíamos nos culpar. Aquilo foi apenas uma obra do acaso. Rolou um clima e só. Nada demais. Ou talvez ele gostasse de mim. Mas eu não sabia se gostava dele. Eu tinha muito medo de amar. Depois que os meus pais morreram, fiquei com medo de confiar nas pessoas. Claro que o Jack Frost era um guardião e era realmente uma boa pessoa, mas mesmo assim eu não tinha total confiança nele. Eu não tinha total confiança em ninguém. As janelas do meu coração estavam fechadas. E aquele garotinho das neves teria que fazer bastante esforço se quisesse abri-las.
_Desculpa, Roberta. Eu te constrangi, eu sei... – disse ele, um pouco triste e ao mesmo tempo bastante confuso.
_Não se preocupe. Está tudo bem. Vamos parar de confundir os sentimentos. Só assim as coisas se acertarão.
_Não estou confundindo os sentimentos! – disse ele, olhando bem nos meus olhos.
De repente começou a ventar na fábrica do Papai Noel. Vários brinquedos até mesmo caíram no chão com aquela ventania toda. Dois segundos e pouco se passaram, até que o chão começou a tremer, quebrando mais alguns brinquedos. Eu fiquei nos braços do Jack Frost, com medo de que algum tipo de terremoto estivesse começando. Uma nuvem negra de fumaça se formou no meio da sala. Eu estava com medo. E onde havia medo, lá estava ele: O Breu. E isso era óbvio.
_Hum, então existe um casalzinho apaixonado entre os guardiões? Isso é mesmo muito interessante. A propósito, Roberta Franco, não sei porque o Homem da Lua te escolheu como a nova guardiã. Tão fraca, tão sem graça, tão bobinha, tão estúpida... Enfim, eu nem sei onde o coitado estava com a cabeça quando te escolheu. Afinal, o que você tem de tão bom para ser uma guardiã? Eu acho que um rostinho bonito não é o suficiente para que você seja um deles.
_Vá embora! Não aguento mais ouvir essa sua voz irritante!
_Voz irritante? Coitadinha, você nem sabe humilhar alguém. Mas tudo bem, você vai ver quem vai humilhar quem, quando eu acabar com você e com os guardiões. Não fique botando banca antes da hora, mocinha. Você nem ao menos ativou o seu poder ainda, então fica quietinha, antes que eu perca a paciência, está bem?
Eu não suportava o jeito cínico dele. Ele era simplesmente insuportável. Os guardiões ouviram a voz dele e entraram na sala. A Fada do Dente pediu que ele me deixasse em paz. O Norte e o Coelhão estavam furiosos e o Sandman mais ainda. Ele tentava acertar o Breu, mas não conseguiu. Com raiva, Breu lançou uma rajada de areia negra em Sandman, fazendo-o desmaiar. Norte o socorreu, levando-o para outro cômodo, onde pudesse se recuperar.
_Estúpidos! Eu tinha dito que estou mais forte e isso não foi um blefe! Essa é a mais pura verdade! Vejam só o número exorbitante de notícias ruins comparado ao número de notícias boas! A violência, a falta de boa vontade, os acidentes, os roubos, tudo isso ainda existe e vocês não podem simplesmente ignorar o que está acontecendo, afinal é isso o que me fortalece. Ah, e é claro que a Roberta foi uma ótima fonte de poder para mim. Depois que os seus pais morreram, ela viveu com medo e com revolta. E não há nada melhor do que isso para me ajudar em meus planos! Sim, a cada assassinato eu estou mais forte! E isso ninguém pode negar! Ninguém! Digamos que eu esteja em minha melhor fase, obrigado, obrigado. Sim, eu sei, eu sou mesmo genial.
_Breu, eu quero te fazer uma pergunta. – falei, com coragem – Como você sabe tanto assim sobre o assassinato dos meus pais?
_Você já ouviu dizer que se diz o pecado, mas não se diz o pecador?
_Eu estou falando sério, Breu! Diga-me, você matou os meus pais?
_Bom, digamos que eu tenha aparecido para eles e os matado através da minha magia. A perícia não encontrou os rastros de areia negra que deixei próximos aos corpos deles? Provavelmente nem se importaram com esse detalhe, afinal ninguém conhece a minha areia negra e o poder que ela possui. Mas enfim, o que importou foi que com aquele assassinato, tornei-me o dono da sua alma, pois te corrompi, acabei com a sua vida. E isso foi simplesmente maravilhoso. Você não sabe a felicidade que aquilo me trouxe. A sensação de ver os seus pais mortos era deliciosamente incrível. Desculpe pelo sadismo, mas você sabe, eu não sou nenhum santinho, muito pelo contrário, aliás. Ok, agora que eu já expliquei tudo o que eu já tinha que explicar, o que você tem a fazer? Matar-me também?
A raiva me consumiu completamente naquele momento. Como ele foi capaz de matar os meus pais? Por que justo os meus pais? Aquilo foi simplesmente um baque para mim. Por isso que a polícia nunca conseguiu descobrir o culpado! Porque o culpado não era uma pessoa, era um espírito! O Breu tinha acabado de confessar o seu perverso e doentio crime, mas não havia como denunciá-lo à polícia. Ninguém acreditaria. Além disso, como alguém poderia castiga-lo? Ele era mais forte do que qualquer outra pessoa! Então ele ficaria simplesmente impune, mesmo depois de tudo o que fez? Não, eu não conseguia suportar aquela gigantesca injustiça. Eu precisava fazer alguma coisa, mas o quê? O quê? Mesmo chorando de raiva e com muito medo da frieza e da malícia de Breu, bradei, para que todo o mundo ouvisse alto e claro:
_Breu, você é o mais vil e nojento dos seres! O que você fez com os meus pais não tem e nunca terá perdão! Nunca!
Repentinamente, enquanto eu estava com muita raiva, sem querer, conjurei uma bola de fogo e esta foi lançada na direção do Breu, sem que eu me desse conta do que havia acabado de fazer. Parecia que eu não tinha total controle do que estava fazendo, como se aquela bola de fogo tivesse sido guiada por um desejo inconsciente e não por vontade própria. Após ser atingido pela minha bola de fogo, ele ficou tonto por um tempo, mas logo depois se recuperou e disse:
_Então você finalmente ativou o seu poder de fogo? Mas não fique se achando. Eu voltarei! E não haverá chances para ninguém. Nem para você, Roberta Franco. Adeus, ou melhor, até logo!
E desapareceu numa nuvem negra de fumaça.
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