A Nova Geração
10 Capítulo 9 - Animal I Have Become
Notas iniciais
Layla [FLASHBACK]
Ele era como um daqueles príncipes que retratavam nos livros que tinha na minha antiga casa, perfeito demais para ser real. Suas madeixas escuras caindo em seu rosto me impediam de prestar atenção no que quer que ele estivesse dizendo, provavelmente me alertava sobre ser a hora de subir ao palco, pois era para lá que ele e seus amigos estavam indo.
Sacudi a cabeça para me lembrar de que tudo aquilo era real e deveria me comportar como alguém normal, ninguém poderia pensar que aquela era minha primeira vez em um bar. Enquanto arrumava o cabelo vendo Eduardo checar se a guitarra estava afinada, uma garota de longos cabelos encaracolados tingidos de verde e azul, bem alta – mais parecia uma modelo – parou ao meu lado e se virou para mim.
—Também conhece o Edu?
Me voltei para ela e sorri em afirmação, me sentindo um pouco incomodada por ela ter usado seu apelido.
—Ele sempre me chama para os shows – ela olhou de cima a baixo para mim – mas nunca te vi em nenhum deles.
Senti uma leve pontada de ciúmes, mas não me deixei abalar.
—Nos conhecemos essa semana, ele também me chamou – respondi, tentando não soar tão tímida quanto era.
A garota não pareceu satisfeita com minha resposta.
—Vou ser direta – prosseguiu sem ao menos virar o tronco – eu estou a fim do Eduardo, e sei que ele também gosta de mim, proteja seu coraçãozinho e fique fora do caminho dele.
Fiquei revoltada com o jeito que falou comigo, ao mesmo tempo senti uma facada no coração. Ele gostava dela? Uma parte de mim gritava que era mentira, ele não teria me chamado para o show se não estivesse nem um pouco a fim de mim, mas a outra dizia que um garoto bonito como ele nunca escolheria eu a uma modelo.
Acho que acabei baixando a cabeça, pois ela me deu um olhar vitorioso.
—A propósito... – ela mudou totalmente o tom de voz, parecendo muito mais amigável de repente – meu nome é Sofia, prazer! – ela estendeu a mão, que eu demorei um pouco para aceitar.
Antes que um silêncio constrangedor se formasse, o som dos instrumentos se espalhou pelo ambiente. Ele era mesmo bom naquilo, seus dedos pareciam feitos para tocar a guitarra e era impossível não sorrir ao ver como ele mergulhava em cada acorde.
Durante a música, me esqueci de tudo: da saudade da família, do fardo que estava sendo para Anthea, da ameaça da garota bipolar e até da minha sede crescente. Mas, quando acabou, tudo veio a tona de uma vez e ainda mais intensamente.
A vontade de beber sangue aumentava e trazia consigo pensamentos negativos, uma mente irritada e impulsiva. Nem percebi quando Eduardo chegou a minha frente, perguntando se tinha gostado do show.
—Layla, está tudo bem? — ele estranhou
—Si-sim, só um pouco tonta... – disfarcei, me sentando em uma cadeira vaga atrás de mim.
—Está com sede? Quer beber alguma coisa? – ele tentou ser atencioso, mas me lembrou exatamente do que tentava esquecer.
Minha visão ficava mais turva cada vez que lembrava do sangue, era como se tudo que eu enxergasse fosse ficando vermelho aos poucos, fechei os olhos com força ao perceber que focava no pescoço de Eduardo, que estava próximo tentando me ajudar – mas não conseguia me concentrar em suas palavras.
Não sei se fechar os olhos ajudou ou piorou a situação, pois foi como abrir espaço para minha mente imaginar o que eu mais queria no momento: sangue. Não podia machuca-lo, de jeito nenhum!
Levantei bruscamente da cadeira, dando uma explicação tosca enquanto corria para fora e torcia para ele não me seguir.
—Preciso de um ar...e ficar sozinha!
Entrei em um beco próximo do bar, mas longe o suficiente para não ter ninguém além de mim. Me sentei em um canto e cruzei as pernas, tentando relaxar e espantar todos os pensamentos da minha cabeça, como fazia nos tempos difíceis na vila.
Porém, na floresta eu tinha silêncio e calma, na cidade haviam carros e mais carros, buzinas e luzes – inclusive vermelhas — piscando a todo momento. Não consegui me controlar e soltei um grito abafado, não sabia o que fazer!
—Layla, o que está acontecendo?!
Temi olhar para quem falava, tinha certeza de quem era, mas queria estar totalmente errada.
—Eduardo, sai daqui, por favor! – supliquei, impaciente.
Só conseguia olhar para seu pescoço e sentir o fluxo do sangue pulsando por sua jugular, naquele momento de insanidade só via uma fonte de comida na minha frente. Em desespero, comecei a chorar arduamente. Sem que eu pudesse, ou pensasse em impedir, ele se aproximou ainda mais de mim e me puxou para um abraço.
Meus olhos quase brancos focavam desesperadamente em sua jugular, e em um impulso inconsciente, cravei meus caninos em seu pescoço, sugando seu sangue e impedindo que ele fizesse qualquer barulho.
Me deliciei por um tempo muito maior do que devia, e quando a consciência voltou ao meu ser, estava mais perdida do que nunca. Empurrei depressa o corpo de Eduardo dos meus braços, mal acreditando no que tinha feito.
Os olhos do garoto estavam cerrados, e seu corpo caiu direto no chão. Fiquei paralisada sentindo as lagrimas caírem de meus olhos, sem coragem de checar se ele ainda tinha vida.
—Não pode ser! – era Sofia, extremamente preocupada.
Sequer me preocupei com a presença da garota, eu era a real ameaça ali. Ela já estava ajoelhada ao lado do corpo de Eduardo, checando seu pulso. Ouvi um suspiro aliviado e senti um pingo de esperança.
—Ele ainda não morreu! – ela parecia igualmente feliz, mas estranhamente não estava surpresa com a situação.
Eu não me pronunciei, continuava chorando e chocada com tudo que tinha feito, será que no mundo existia alguém mais impulsiva que eu?! Sofia virou a cara para mim.
—Estava suspeitando que era vampira, você tem que tomar cuidado com a sua sede. Na cidade ela não afeta apenas você. – me dava um sermão, ainda segurando o pulso do garoto.
—Para de fazer tanto barulho com esses soluços, não tenho poções para nos encobrir aqui. – ela disse em um tom baixo.
Eu sussurrei entre lágrimas.
—Você é uma feiticeira?
—Não, sou lobisomem, mas tenho alguns amigos... – ela olhou para mim, como se não devesse estar ali – não que eu concorde com o que fizeram a vocês, mas é melhor ir embora, se te acharem aqui não será bom para nenhuma de nós.
Eu tentava secar minhas lágrimas, sem sucesso, pois logo novas apareciam, para responder que ficaria ali, não o deixaria sozinho quando acordasse pensando que eu era um monstro – o que começava a pensar que podia ser verdade.
—Eu tenho uma poção capaz de trocar lembranças — a lobisomem pareceu ler meus pensamentos e tirou um pequeno frasco da bolsa – basta colocar uma gotinha na boca que ele vai acordar pensando que foi picado por uma cobra e desmaiou.
Assenti com a cabeça, acho que eu deveria saber da existência dessas poções...me aproximei do corpo e peguei seu braço livre, disposta a leva-lo a um lugar seguro para que acordasse bem. Sofia me repreendeu com o olhar.
—Acho que nós duas sabemos que é mais seguro para ele ficar comigo.
Ia retrucar, mas senti algo pingar do meu queixo e as lágrimas subitamente voltaram quando vi sangue cair na camiseta de Eduardo.
—Até aprender a se controlar, é melhor ficar longe dele – ela olhou para o corpo dele no chão, dando a entender que não queria que isso acontecesse de novo.
Eu engoli em seco e senti as lágrimas aumentarem cada vez. Monstro. Eu era um monstro. Mais um pouco e eu teria o matado, eu fiz isso com a pessoa de quem eu gostava, imagina o que poderia fazer com um desconhecido! Será que era possível ser eu sem machucar ninguém?
Sai correndo sem destino, evitando qualquer olhar, enquanto chorava pensando no que faria dali em diante.
[FIM DO FLASHBACK]
Aurore POV
Sol e eu saímos apressadas do quarto ao ouvir Reece gritando por nós.
—Uma garota toda ensanguentada apareceu na portaria! – ele exclamou, esperando que alguém dissesse o que devia ser feito.
Antes que eu pudesse assimilar a situação, Victorique saiu de trás do balcão e foi em direção a saída, olhando para nós.
—Venham comigo se quiserem.
Nós três a seguimos para fora, encontrando uma garota pálida com olhos azuis esbranquiçados sentada na grama, tentando conter as lágrimas. Me abaixei para tentar reconfortá-la, mas me assustei quando percebi que havia sangue fresco pingando de seu rosto e me levantei rapidamente.
Victorique não ficou amedrontada, se ajoelhou ao lado da menina e colocou uma mão em seu ombro – a menor permaneceu imóvel.
Pensei que estivesse tentando ajudar a garota, mas não era bem isso.
—É uma vampira – constatou, se erguendo do chão.
Olhei para Sol e percebi que ela dava um olhar admirado para Victorique, Reece parecia mais entretido com a nova vampira. Antes de tirarmos mais conclusões, Lúcifer apareceu, saindo bruscamente do prédio.
—O que está acontecendo?!
—Essa vampira apareceu aqui – Victorique apontou para a menina chocada no chão – provavelmente não é experiente e acabou matando a presa.
—E está chorando por isso? – Lúcifer revirou os olhos.
A vampira resolveu se manifestar pela primeira vez ao ouvir as palavras do “assassino valentão”.
—Eu não matei! Ele está vivo... – ela parecia se agarrar a última palavra.
Lúcifer deu uma risada sarcástica, parecia já não gostar muito da garota.
Sol POV
Estava com dó da menina, ainda mais depois dos comentários maldosos de Lúcifer. Não sabia bem o que ela tinha feito, mas qualquer um que a visse naquele estado sabia que estava arrependida. Me aproximei e estendi a mão, ela demorou um pouco, mas a aceitou e se levantou do chão, secando as lágrimas do rosto.
Não é que eu já confiasse nela, ainda julgava muito cedo para ter uma opinião, mas também não seria certo de minha parte deixa-la estirada sozinha no chão. Iria conhece-la melhor antes de qualquer coisa.
Aos poucos, seus olhos perderam o tom esbranquiçado e se tornaram um azul cristalino, ela ainda soluçava um pouco, mas parecia conformada. Ao ver seu olhar perdido, Victorique se pronunciou.
—Entre um pouco, tenho alguns chás que podem te acalmar – ela fez uma pausa e olhou nos olhos da garota – Layla, certo?
Me entusiasmei novamente com a facilidade com que ela usava magia, queria poder dominar meus dons também...Layla analisou a situação por um tempo, mas acabou cedendo e foi a primeira a entrar no prédio, sendo seguida por Lúcifer – de quem ela vinha mantendo certa distância.
—Como você sabe que ela não é perigosa? – Reece indagou à Victorique, preocupado.
—Os espíritos me disseram que ela não está envolvida com os deuses – ela deu de ombros, me deixando ainda mais fascinada.
Todos entramos na recepção, Layla estava sentada em uma cadeira esperando por Vicky, que tinha ido buscar algum chá. Lúcifer já tinha sumido novamente, provavelmente estava junto de Eleanor, Reece estava ao meu lado, mas quieto, como quase sempre.
—Você já pensou em aprender mais sobre magia? – comecei.
—Já tentei, mas todos dizem que não levo o jeito... – ele parecia um tanto incomodado com o assunto.
—Deve ser por que nunca insistiu, ou talvez por que não teve o treinamento ou o professor adequado... – falei olhando para Victorique, Reece pareceu se assustar com a insinuação.
—Você está brincando? Ela me dá medo! Não ouviu que pratica magia negra?
Dei de ombros, encerando o assunto, na verdade, a magia negra foi um dos pontos que me fez interessar ainda mais por ela, e se estivesse certa e não fosse algo ruim? Só...poderoso.
Não duvidava mais de nada vindo dos deuses, eles poderiam proibir qualquer ameaça à supremacia deles...
Já era tarde e todos estávamos exaustos pela correria dos últimos dias, em pouco tempo estava cada um em seu quarto já no décimo terceiro sono. Me mantinha acordada pensando que talvez Victorique ainda estivesse em sua sala, levantei cuidadosamente e fui o mais silenciosamente possível para fora do quarto, não queria acordar Aurore e Reece nas outras camas.
Abri um sorriso ao ver que a luz da sala por onde ela transitava mais cedo continuava acesa, adentrei o local e me maravilhei com o tanto de feitiços engarrafados e livros estranhos existiam ali.
—O que está fazendo aqui? – Victorique me repreendeu.
—Desculpa...queria falar sozinha com você. – tentei soar madura.
Victorique suspirou e voltou o olhar para mim, indicando que prosseguisse.
—Por favor, você pode me ensinar magia negra?
Ela olhou no fundo dos meus olhos, como fez com Layla, e começou a rir, me deixando envergonhada.
—Você não domina a magia branca, como quer partir para a negra?!
Fiquei vermelha, era verdade, eu ainda tinha muito o que aprender. Mas queria ficar forte, ai poderia enfrentar deuses prepotentes como Alex e ajudar minha família a se reerguer e mostrar que podíamos ser alguém sem a ajuda deles.
—Então me ensina magia branca, não me importo! Só ajude a me tornar forte como você.
Ela parecia séria dessa vez, olhou meus olhos ainda mais profundamente.
—Começamos amanhã.
Abri um sorriso maior que o habitual.
—Não pense que será fácil!
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