O clima era agradável e fantástico entre Amy e Marcus. Ambos conversavam a respeito daquele ensaio breve que realizaram. Não era o tipo de atração que Marcus estava acostumado a presenciar, muitas garotas gostavam de usar a dança como forma de conquistar os rapazes, mas enquanto as observava havia algo mais, uma paixão inexplicável.

— Por que está quieto, Marcus?

— Não é nada, gosto de te ouvir falar a respeito das artes. Você ama o que faz.

— Sempre tive um grande incentivo quando era criança... meu pai é o meu herói nessa vida. Ele sempre gostou de escrever, e nesse mundo da magia de escrever, eu encenava as suas poesias, cartas de amor e dava vida a todas aquelas palavras repletas de amor.

— Você já encenava? — Indagou Marcus entusiasmado.

— Sim, mas apenas para ele. Meu quarto virava um teatro e meu pai sempre comaprecia as minhas apresentações e me incentivava a lutar por aquilo que me fazia bem. Viver a vida intensamente nos palcos era o que mais desejava. Se consigo continuar firme nas aulas é porque eu devo tudo a ele.

— Qual é o nome do seu pai? — Quis saber ele.

— Raymond. — Respondeu Amy com o pesar em sua voz.

— Amy e Raymond contra o mundo. — Brincou Marcus sem saber que ela costumava ouvir aquela frase de seu pai.

Amy tentou se afastar um pouco dele, mas seus braços a seguraram fortemente. À principio ele não conseguiu entender, mas notou que o semblante da garota estava caído, fechado numa máscara de tristeza.

— O que houve? Falei algo que não devia? — Perguntou ele preocupado.

Amy respirou fundo.

— Só falou a frase que marcou a minha vida.

— Seu pai...— Amy o interrompeu antes que pudesse continuar com o seu pensamento.

— Não, meu pai não morreu ou algo do gênero, pelo menos eu espero que não. Ele apenas desapareceu — Mentiu ela — Nunca tive noticias dele. As lembranças são a única certeza de que ele ainda está vivo.

— Onde quer que ele esteja ele deve estar pensando na sua filha que ele tanto ama.

Marcus a puxou para um abraço confortante. Estar envolvida nos braços daquele estranho não era tão ruim. Era estranho pensar que seu corpo se ajustara perfeitamente ao dele.

— Agradeço Marcus — Disse elase afastando — Podemos ir? Preciso de um pouco de chocolate.

— Sério?

— Ah qual é? Eu sou uma garota. Preciso de chocolate na minha vida.

— Vamos então. Iremos atender o seu pedido.

Marcus a levou para uma sorveteria muito famosa na cidade. Sempre caprichavam nas coberturas e ainda escolhiam se queriam frutas ou pedaços de chocolate. Ambos malucos por doces e frutas fizeram uma combinação muito louca, colocavam tudo o que os agradavam como por exemplo, morango, uva, cereja e amora. O funcionário que os atendeu ficou surpreso com o pedido inesperado dos jovens. Um pedido muito elaborado que exigia um estômago grande para caber todo aquele sorvete.

— Esses adolescente são loucos! — Exclamou o gerente animado com o pedido — Se todos fossem assim acabariamos indo à falência, mas lucrariamos bastante.

— Sim senhor. Esses dois estão mais para um casal apaixonado do que para amigos.

O gerente analisava os jovens.

— Talvez ele sinta algo por ela, mas tem medo de arriscar tudo.

— Vamos fazer uma aposta? — Perguntou o funcionário.

— Adoro apostas.

— Daqui a dois meses, eles irão voltar aqui como namorados. — Apostou o funcionário.

— Combinado, e se isso acontecer eu dobro o seu salário.

O funcionário parou para pensar na aposta que acabara de realizar.

— E se isso não acontecer? — Perguntou preocupado.

— Aumento do mesmo jeito.

O rapaz sorriu confiante. De uma forma ou de outra acabaria se dando bem na aposta.

A eterna criança que existia dentro de Amy cada vez mais ia se expondo trazendo alegria para o seu dia. Era como se estivesse passeando com alguém da sua família em dia de férias quando criança. Havia a liberdade de sorrir, de esquecer todos os seus problemas mesmo que fosse por apenas algumas horas, o que já valia a pena. O sorvete com muita cobertura de chocolate deixava Amy agitada e animada. Uma animação fora do comum que contagiava Marcus.

Amy não sabia o que esperar de Marcus naquele exato momento. Poderia ser uma boa ideia levá-lo para conhecer a sua casa, assistirem a um bom filme, terem a oportunidade de se conhecerem melhor. Ela por sua vez tomou conta do trajeto, o conduzia para o ponto de ônibus.

— Tem mesmo que ir para casa? — Questionou Marcus.

— Por acaso tem algum compromisso?

— Não, por que?

— Vamos até a minha casa, podemos assistir algum filme, conversar. Se quiser, é claro.

— Uma oferta e tanta. Será que a sua mãe não vai achar ruim pelo fato de ter um garoto na sua casa?

Amy rolou os olhos.

— Nunca foi nenhum problema levar amigos lá pra casa. Sempre nos entedemos nessa questão. Será bom para ela ver pessoas novas também.

— Tem certeza?

Amy assentiu esperançosa. Por fim Marcus decidiu atender ao pedido da garota, afinal ele mesmo não queria deixá-la ir para casa sozinha. Ficaram esperando em silêncio até que o ônibus chegasse. Não estava tão cheio quando embarcaram, mas não havia lugares disponiveis para que eles pudessem se sentar. Alguns dos rapazes olhavam interessados por Amy, mas Marcus assumia posição sem que ela percebesse que estava marcando o terrritório fazendo com que todos os olhares fossem completamente desviados.

Mesmo que fosse errado Marcus apenas queria que Amy não chamasse tanto a atenção de outros rapazes mesmo não sendo a sua intenção.

O fim de tarde caia pela cidade, o por do sol era sempre um espetáculo a parte que encantava Amy. Era como se estivesse contemplando a obra de um grande pintor. O momento em que ela se imaginava encontrando seu pai depois de tanto tempo.

— Posso fazer uma pergunta?

— Claro!

— Você não se sente incomodada com os olhares das pessoas sobre você?

Ela pensou um pouco.

— Depende do momento que estou vivendo. Às vezes é bom ter alguém que possa te fazer algum elogio, te colocar pra cima quando menos se espera.

Marcus não disse nada, preferiu ficar com os seus pensamentos para não falar o que não devia. Quanto mais tempo passava com ela, maior era o seu envolvimento. Nunca se sentira tão bem. Em alguns momentos soltavam alguma piada, mas voltavam a sua realidade. Riram principalmente do tombo de um garoto que estava tentando chamar a atenção, mas pararam logo para não causarem nenhum problema. Não precisavam serem expulsos do ônibus.

Ao chegar em casa, Amy estranhou a música tocando alto demais. Reconhecia aquela música mesmo se estivesse a muitos quilômetros de distância. Por causa de sua avó Amy cresceu ouvindo todo o tipo de música antiga. Acima de tudo ela conseguia se divertir como ninguém. Marcus a encarava desentendido, pois ela estava parecendo uma criminosa no meio da madrugada. Ele se deu por vencido e entrou na brincadeira. O ambiente da casa era leve e animado como se ele mesmo estivesse na sua casa.

Foram tranquilamente para a sala, lá Amy pode contemplar a sua mãe cantando e dançando como uma verdadeira criança. Sorria docemente, espantava a tristeza de si. O sorriso mais belo estampava o rosto de Ingrid, tocava a sua filha sem que precebesse.

— Quanta animação, dona Ingrid! — Exclamou Amy animada abraçando sua mãe.

— Pois é, minha filha, tenho de tentar esquecer os últimos acontecimentos — Ela parou ao ver Marcus Parado na porta da sala — Quem é esse?

Amy notou a diferença na voz de sua mãe. Havia uma certa indignação como se ela não gostasse de ver sua filha interagindo com rapazes.

— Esse é o Marcus, ele é da minha turma de artes cênicas. Somos apenas amigos mãe, só vamos fazer algumas tarefas juntos.

— Prazer em conhecê-la dona Ingrid. Deve ter muito orgulho da sua filha. Uma garota muito educada e talentosa.

— Sim, tenho orgulho. Ela faz por merecer. — Respondeu Ingrid rispida.

A vontade de Amy era de afundar a sua cabeça na terra, sua mãe não precisava ser tão rispida com o rapaz. Não tinha o direito de tratá-lo daquela forma, pelo menos à principio. Disfarçadamente, Amy pediu para que Marcus fosse com ela para o seu quarto.

— Fique à vontade, Marcus. Me desculpa por algo que a minha mãe falou. Impossivel controlar tudo o que ela fala.

— Relaxa garota! Estou acostumada a lidar com esse tipo de situação. Ninguém gosta de mim à primeira vista. Até parece que sou um monstro.

— Não pense assim, Marcus! — Exclamou ela aproximando tocando em seu tórax — Você não é um monstro, mas as pessoas tem problemas em aceitar o novo e o desconhecido. Eu gostei de você, menos quando entrou na minha sala atrapalhando a minha aula.

— Está flertando comigo enquanto tenta tocar o meu corpo? — Brincou ele.

— Não mesmo — Respondeu ela retirando as mãos — Foi impulso. Às vezes esqueço que estou em casa e não na aula de interpretação.

— Pode me tocar quando quiser. — Murmurou Marcus.

Ela jogou sua bolsa na cama e apenas o observava.

— Eu vou preparar algo pra nós, pode escolher o filme que quiser. Eu não demoro.

Algo de errado estava acontecendo com Amy, pois ela sentia a sua pele queimar e não era do mesmo jetio quando estava com Donnie. Não, ela não rira sentir nada por Marcus. Sua carreira em primeiro lugar era a sua prioridade.

Para melhor servir a sua visita, ela optou por pegar dois potes de nutella, preparou pipoca e outras guloseimas, mesmo tendo tomado um bom sorvete repleto de chocolate, Amy precisava de muito mais. O dia seguinte seria como um balsamo para ela, pois iria para um lugar muito importante.

— Não gostei daquele rapaz — Esbravejou Ingrid entrando na cozinha.

Amy revirou os olhos enquanto ajeitava tudo numa bandeja.

— E quando foi que você gostou de alguém?

— Será que você não percebe que aquele rapaz tem segundas intenções? Ele quer brincar com os seus sentimentos.

— Mãe, eu não quero ser grossa, mas a senhora nunca me deu ouvido quando eu falava sobre sentimentos, principalmente quando era os seus. Aceitou o Donnie com muito esforço, mas eu não vou voltar com ele. Não preciso de ninguém para ser feliz.

— Então deixe claro para o Marcus. O olhar dele não me engana.

— Bom, que eu não consiga enxergar o que a senhora vê, porque de decepções estou cansada.

— O que está acontecendo com você, filha? Nunca foi assim.

— Nada, só estou cansada de ficar aqui, sempre as mesmas pessoas, nada fora do comum. Preciso dar atenção a minha visita, com licença.

Ingrid ficou irritada com a forma que sua filha a tratou. Talvez seria melhor deixá-la desfrutando de uma "boa" companhia. Amy carregava muitos problemas e tinha de extravasar em alguns momentos. Se sentia culpada por trazer tanto sofrimento a vida de uma jovem.

Ao voltar para o seu quarto, Amy notou que Marcus segurava uma foto. Ele a observava detalhadamente.

— Seu irmão? — Perguntou ele apontando.

Amy respirou fundo antes de responder.

— Meu ex. — Disse ela simplesmente — Deceria ter tirado essa foto desse lugar.

— Tudo bem... achei que talvez pudessemos assistir "Um Amor pra Recordar". Sempre tive vontade de assistir, mas nunca tive companhia, talvez possa me explicar o que eu não entender.

— Será um prazer.

Dito isso, Amy colocou a bandeja na cama e correu para ligar os aparelhos de seu quarto. Marcus por sua vez já ia se sentando na cama da garota. O quarto que antes estava claro começou a ficar escuro, pois ela gostava de que tudo ficasse mais aconchegante para desfrutar o momento. Ficaram lado a lado como se fossem um casal recém formado.

De momentos em momentos ambos se encaravam e tentavam entender o que se passava em seus pensamentos. Amy era curiosa e gostava de saber tudo o que as pessoas pensavam. Se sentia mais conectada, mais humana. Marcus apenas esperava que Amy lhe dissesse algo, mas o silêncio permanecia enquanto se deliciava com o seu pote de nutella. Queria entender o que acontecia para aquela garota gostar de tantas guloseimas. Onde iria parar tudo aquilo? Seu corpo estonteante não parecia sofrer diante de tais abusos. Seus cuidados pareciam ser minimos.

As horas passavam rapidamente, naquele fim de tarde conseguiram assistir mais de dois filmes. No primeiro todas as emoções de Amy vieram a tona. Não conseguia se controlar quando se deparava com a bela história de amor entre Jamie Sullivan e Landon Carter. Um tipo de amor que não poderia criar tantas expectativas. A luta entre um amor e as amizades. Um amor inexplicável. Sempre que ela assistia chorava feito uma louca. Sonhava em um dia viver um amor intenso como o de Jamie.

— Eu não acredito que a Jamie morreu! — Exclamou Marcus emburrecido.

— Infelizmente ela morreu, mas o amor deles foi mais forte do que tudo. Quando as pessoas querem elas são capazes de mudar a realidade das outras.

— Se todas as garotas fossem como ela haveria respeito. Acho que não haveria suicidios por causa de amor.

— Concordo!

— Está ficando tarde! Preciso ir para casa. — Comentou Marcus.

— Perdemos a noção do tempo. Amanhã temos aula.

Marcus passava a mão pelo cabelo de maneira sensual sem que ele mesmo se desse conta de que possuia tal qualidade. Ela gostou do que viu, mas preferiu continuar disfarçando.

Amy logo se preparou para conduzi-lo até a porta. Já era tarde e seu padrasto poderia chegar a qualquer momento. Seria melhor que Marcus não o conhecesse. Tudo o que ela menos desejava era que mais algum problema pudesse surgir na sua vida e que acabasse envolvendo os seus amigos.

— Ainda bem que ele foi embora! Na próxima vez não traga ninguém para esta casa. Não confio nesses garotos metidos a besta. Só querem se aproveitar de sua inocência.

Amy rolou os olhos.

— Seja como quiser, mãe. Não vou mais viver então! Já não é nada agradável ter um padrasto e quando trago amigos acha ruim. Não vejo a hora de seguir a minha vida sozinha.

— Claro! Minha querida, Amy você só sairá dessa casa no dia em que casar com o Donnie.

Ingrid só poderia estar louca, jamais que ela se casaria com Donnie. Ele não merecia fazer parte da sua vida novamente e muito emnos como o seu futuro marido. O problema é que ele não entendia que não haviam possibilidades deles voltarem e sempre que ela cogitava a ideia, o comportamento de Donnie mostrava o contrário.

— Só se for em sonhos! Irei me casar com quem eu ame de verdade e não com quem deseja!

Dito isso Amy subiu para o seu quarto e de lá sairia mais. Não desejava ter alguma discussão com sua mãe. No fundo ela só queria proteger a sua garota. Não queria que ela cometesse o mesmo erro que ela quando mais nova.