Não podendo mais adiar o caso de Bryana uma reunião foi marcada com urgência. Todos os professores e funcionários da escola foram convocados, principalmente pelo fato do diretor Moores desconhecer o assunto.

— Do que se trata essa reunião? — perguntou o diretor Moores serio.

— Há algum tempo o comportamento da Bryana vem deixando o Marcus assustado e ele me contou tudo o que tem presenciado nos últimos meses. — começou ela com cuidado — Bryana se automutila por não conseguir ser perfeita, desconta a sua raiva na comida e depois vomita tudo. Não é um vomito comum, mas ela força.

Margareth ficou chocada.

— Ela sempre parecia tão bem, era participativa em tudo.

— Sim, pode parecer bem para todos, mas o psicológico dela está bagunçado, uma verdadeira desordem. A mãe é uma grande influenciadora. Sempre diz o que a filha deve comer e tomar. A faz se sentir um verdadeiro lixo perante todos. — olhou para Margareth preocupada — Sei o quanto vai ser difícil não ter uma garota a mais na turma, mas é pelo bem dela. Juntos podemos mostrar que ela terá uma vida melhor se fizer os tratamentos adequados. Bulimia é um caso serio.

O diretor passava a mão pela cabeça desorientado. Era uma informação dificil de ser digerida com facilidade.

— Querida, você tem certeza do que está falando? — indagou ele querendo encontrar uma alternativa.

— Tenho sim. Conversamos com médicos no nosso tempo livre e estamos seguindo a recomendação. Precisamos dar todo apoio a Bryana.

Os professores os olhavam incrédulos. Confiavam na teoria de seus alunos.

— Façam o que for necessário. Cuidaremos de tudo para que ninguém se exalte e diga o que não deve.

Marcus sorriu confiante. Segurou a mão de Amy querendo lhe dizer que tudo ira dar certo. Bryana iria escutá-los de uma forma ou de outra. Ao menos tentariam convencê-la de que era o certo a ser feito.

**********

Depois da reunião explicativa era hora de Marcus tomar a decisão certa. Queria ter certeza de que ela iria se cuidar enquanto ainda tinha tempo. Ela não queria acreditar no que lhe falavam. Havia tantas perguntas que gostaria de fazer.

Dois enfermeiros da clinica os acompanhavam, mesmo que talvez não fose necessário a presença deles.

Tocaram a campainha e aguardaram serem atendidos. Não esperavam ser atendidos por uma Bryana chorosa. Seus olhos vermelhos deixou Marcus desconcertado. Só depois de alguns segundos foi que ela notou a presença de Amy. Era perceptível as milhares de perguntas que queria fazer a ele.

— Por que Marcus? Por que ela e não eu? — chorava ela — O que a Amy tem de tão especial?

Marcus passou a mão pelo cabelo. Não queria que as suas palavras a machucassem.

Automaticamente ela deu espaço para que eles entrassem em sua casa. Não seria bom ser ouvida por algum vizinho.

— Simplesmente aconteceu Bryana... Quando fui me dar conta já estava apaixonado por ela. Mas saiba que gostei do tempo que passamos juntos, e com a ajuda dela consegui fazer com que você entendesse a gravidade do seu caso.

Amy se aproximou, já estava cansada de sempre ter brigas com Bryana. Era hora de por um ponto final.

— Bryana, eu sei que nunca fomos amigas, mas você precisa se cuidar. Você é linda e vai encontrar alguém que te aceite como você é... — disse Amy sensiblizada pelo estado emocional de Bryana.

Bryana olhou em seus rostos e viu o quanto estavam preocupados.

— Marcus, será que podemos ser amigos? — indagou Bryana.

Ele olhou para Amy que concordou de imediato.

— Claro que podemos! — Marcus lhe deu um abraço apertado.

O carro a aguardava. Para Bryana era dificil aceitar que estava doente e que precisaria se afastar da escola, dos amigos e principalmente do seu lar. Olhava para a sala já sentindo o seu coração se apertar. Ela não entendia porque uma despedida machucava tanto.

Antes mesmo que ela pudesse sair de vez daquela casa, pegou alguns de seus pertences e deu uma última olhada no lugar que lhe servia como um porto seguro. Só queria ter a oportunidade de mudar e ser uma pessoa mais ajuizada e responsável por tudo.

Ao voltar, parou diante de Amy e estendeu-lhe um envelope vermelho.

— Leia quando eu não estiver mais aqui, por favor. — entregou-lhe a carta antes de sair de casa.

E assim Bryana saiu de casa em busca de uma nova vida, de novos hábitos para que pudesse ser forte como nunca.

Um suspiro aliviado saiu de Marcus. Sua preocupação iria diminuir com o tempo por saber que Bryana aceitou encarar o tratamento.

— Podemos ir para casa? — perguntou ele triste — Não sabia que despedidas poderiam nos deixar péssimos.

— Marcus, vai ficar tudo bem. Isso não é um adeus definitivo. Sinta-se livre para visitá-la sempre que puder, só assim ela sentirá que ninguém a abandonou.

Um leve sorriso brotou em seus lábios.

— Eu tenho sorte por ter a melhor namorada do mundo.

Depois do dia que tiveram Marcus deixou Amy em casa e logo retornou para a mansão. Sentia-se estranho como se algo lhe fizesse muita falta.

Em casa Amy se sentia perdida. Segurar o envelope que Bryna lhe dera parecia queimar e pesar. Ainda não conseguiu ter coragem para ler a carta mesmo que a curiosidade estivesse gritando dentro de si.

A curiosidade tomava conta, precisava saber o que havia naquela carta. Abriu o envelope e se pôs a ler. Analisava a caligrafia perfeita da garota como se nunca tivesse visto. Era perfeitamente delicada.

“Oi Amy...

Isso é tão estranho, mas quero tentar escrever algo decente... Sei que nós nunca tivemos uma oportunidade de sermos amigas como qualquer outra garota, mas tudo bem. Não é fácil viver à sombra de um talento como o seu. Talvez com a sua chegada à escola, percebi que teria que me esforçar muito para chegar ao seu nível, mesmo que minha experiência tenha sido de outras escolas renomadas. Corri o risco de ser esquecida por todos da escola... e quase aconteceu.

Contar à minha mãe que eu tinha uma concorrente, minha vida se transformou. Ela me dizia coisas horríveis, queria que eu fosse magra, bela e perfeita como ela foi um dia. Acreditei em tudo. Não queria ser uma filha perdedora.

Não quero me estender... Te peço desculpas por tudo o que fiz de ruim na sua vida. Não foi fácil viver todos esses anos querendo te dizer isso, mas talvez um dia me perdoe. Desejo toda a felicidade do mundo e que seja capaz de cuidar bem do Marcus. Ele é um ótimo rapaz, e sei que merece ser feliz. Pelo menos ele te escolheu...

Sem mais, Bryana!

**********

Duas semanas se passaram desde que Byana havia ido para a reabilitação. Os alunos da escola de artes faziam questão de visitá-la sempre que possível. Contavam-lhe as novidades e isso a deixava animada, pronta para sair daquele lugar o quanto antes. Mas ainda havia algo que deixava os alunos intrigados, principalmente Marcus.

O tão temido dia estava chegando. Em poucas semanas Amy completaria mais um ano de vida e ninguém parecia perceber que ela não queria falar. Todo assunto que envolvia aniversário Amy logo se afastava.

Enquanto Amy repassava o ensaio com o restante da turma, Marcus puxou Demetria para conversar.

— Demi, o aniversário da Amy já passou? — perguntou ele curioso — Ela nunca fala nada a respeito do aniversário.

Demetria fechou a cara. Não era um assunto que ela gostasse de falar, principalmente quando a própria Amy lhe implorara no passado.

— Ainda não. Ela faz vinte e um no sábado, mas ela não gosta de comemorar. Afinal, foi no aniversário que o pai dela foi preso.

Ele ficou incrédulo.

— Ela não me contou sobre isso. Há alguma maneira de fazermos algo para que ela mude de ideia?

Demetria mordia o lábio inferior. Finalmente alguém poderia ajudar a mudar aquela realidade de sua amiga.

— Podemos reunir as pessoas para combinarmos algo. Uma festa surpresa! Não tem como ela recusar uma noite ao lado das amigas, principalmente se formos para “um teatro”.

Logo a professora mudou o ensaio para um exercício. Precisava que eles mantivessem a calma e a respiração controlada. Marcus e Demetria se juntaram ao grupo. A sala de dança estava tranquila. A maioria dos alunos daquela turma estava praticando exercícios de confiança. Era importante que cada um deles entendesse o quanto era importante o trabalho em equipe.

Ninguém desconfiava que dali boas ideias iriam surgir.

**********

Depois da aula, Marcus combinou de ir até a casa de Bruno para juntos discutirem as ideias que ele teve. Juntos sempre encontravam as melhores soluções para os problemas. Obviamente que o restante da turma também participaria das decisões a serem tomadas.

— Acho que seria legal fazermos uma festa surpresa para a Amy. — sugeriu Leonardo — É uma data muito importante mesmo sabendo o real motivo para que ela não comemore.

Gregory andava pensativo de um lado para o outro. Queria ter uma alternativa para que ela aceitasse ao menos se vestir elegantemente naquela data. Todo o esforço valeria a pena. Recebeu uma mensagem de Demetria, ela informava a ideia que tivera. Agora só restava que cuidassem dos preparativos finais.

Os amigos estavam empolgados com os preparativos, afinal a união faz a força. Tudo era diferente com os amigos certos. Juntos conseguiam ajudar todos que precisavam.

**********

O fim de semana chegou. Não havia nenhum compromisso que pudesse tirar Amy de casa. O silêncio reinava na casa, mas ao mesmo tempo era sufocante. Olhar para cada parte da sua casa lembrava a ida definitiva de seu pai para longe dela. Sem ter muito o que fazer, ela optou por fazer maratona dos seus seriados favoritos. Precisava colocá-los em dia.

Sentou-se no sofá confortávelmente. Não havia ninguém que pudesse atrapalhá-la nem mesmo Bernard. O dia estava a seu favor.

As horas passavam lentamente e Amy não se dava conta do belo dia queestava sendo do lado de fora. A campainha da casa tocava desesperadamente.

— Está pronta? — indagou Demetria já entrando na casa.

— Oi? Pronta para o que?

— Para irmos até o teatro. O Leonardo comprou os ingressos e achou que seria legal irmos juntos.

— Eu não quero saber de desculpas Amy! Você irá nessa apresentação conosco. Vai ser divertido. — insistia Demetria.

— Tudo bem. Eu vou, agora vou me arrumar antes que eu mude de ideia.

Demetria conseguiu fazer com que Amy aceitasse o seu convite para ir ao teatro. Obviamente Marcus dissera que não poderia ir, pois tinha alguns compromissos. Mesmo assim ele se sentia feliz por saber que Amy sairia de casa. De carro, o caminho parecia mais curto ou talvez fosse a conversa animada que fez com que perdessem a noção do tempo.

— Ah qual é? Por que eu tenho que estar vendada? — questionava Amy — Isso não é justo.

— Claro que é amiga. Leonardo e eu já vimos esse espetáculo duas vezes. Também passamos pelo mesmo que você. Dizem que essa ideia do diretor foi para criar expectativa na platéia. Afinal, fala sobre a cegueira.

Leonardo respirou fundo. Estavam tão perto de revelar a verdade que o seu coração só faltava sair pela boca.

— Já pode tirar a venda, querida.

— Surpresa!

Todas aquelas pessoas reunidas a fizeram sorrir mesmo que ela não apreciasse a data.

Ela não esperava por uma festa surpresa. Deveria ter notado a insistência de seus amigos para sair de casa. Não era de um todo ruim a festa, sentia saudades de comemorar seu aniversário mesmo que fosse sozinha. Só não apreciava o que acontecera anos antes, levou muito tempo até que ela aprendesse a viver sem o pai. Não havia palavras que pudessem descrever o que Amy sentia naquele momento.

Margareth caminhava em direção a jovem com suavidade. Seu caminhar elegante fazia com que a seda do seu vestido se tornasse leve e gracioso.

— Feliz aniversário minha fofucha. Peço desculpas por não lhe contar sobre a festa. A culpa foi toda dos seus amigos.

Amy sorriu agradecida. Seus olhos castanhos brilhavam com intensidade. Havia um misto de sentimentos se apoderando dela. Cada uma daquelas pessoas eram importantes em sua vida e tê-los naquele momento a fazia ter vontade de viver a noite de seu aniversário para sempre.

A família Lancaster aproveitou a oportunidade para se aproximar da aniversariante. Sorriam como quem estava aprontando alguma. Estavam deslumbrantes.

— Temos um presente para você — começou Hilbert — Não foi fácil de achar o presente ideal, mas nos esforçamos. Ele é de uma edição limitada, muito rara. Receba de todos nós esse presente com muito carinho.

Marcus e Evie correram a fim de colocarem uma venda nela. Os convidados assistiam toda aquela movimentação curiosos.

Gregory, Leonardo e Bruno conduziam o presente com cuidado, pois era muito frágil e pesado. Todo o silêncio deixava a garota nervosa, pois a sua ansiedade gritava. Não era muito fã de suspense.

Os rapazes o colocaram diante dela. Era maior do que ela poderia imaginar.

— Marcus, não precisa ficar na minha frente. Não estou vendo nada, eu te garanto.

Ela esperou até que houvesse alguma resposta, mas não obteve. De novo o maldito silêncio.

— Oi estrelinha!

Ao ouvir a voz levemente rouca uma alegria explodiu por dentro da garota. Sem querer esperar mais ela arrancou a venda e perdeu a fala diante do que via. Nada daquilo parecia real para Amy ou para qualquer outra pessoa que os contemplava.

— Pai?

— Feliz aniversário, estrelinha.

Ela chorava de emoção.

— Como... Como é que...?

Hilbert e Estella se aproximaram.

— Desculpa querida, deveríamos ter contado. Conseguimos um pedido do juiz para que liberassem o seu pai na data de hoje. Não é definitivo. Ele passará a noite conosco e logo de manhã terá de voltar para o presídio.

— Hilbert e Estella esse é o melhor presente de toda a minha vida. — ela chorava emocionada — Devo tanto a vocês.

Raymond contemplava a filha sorrir como nunca. Seu coração transbordava felicidade. Mesmo não sendo a decisão final, ao menos tivera a chance de trazer algum motivo para que ela sempre comemorasse o aniversário nos próximos anos.

Horas depois a festa continuava animada. Todas aquelas pessoas não conseguiam deixar de admirar a felicidade que Amy sentia em ter o seu pai por perto. Compreendiam o porquê dela nunca desistir de lutar pela liberdade do pai. A felicidade combinava com ela. Tudo a sua volta se transformava e contagiava a todos.

Um pouco mais afastado da pista de dança, Marcus assistia todos serem envolvidos por uma conversa amistosa e leve. Quanto mais ele olhava Para Amy, mais tinha certeza do seu próximo. Tinha que tê-la para sempre em sua vida. Sentia em seu intimo a vontade tornar todos os seus dias especiais e alegres, juntos poderiam ser o casal que muitos sonhavam ser. Assim seria para Marcus, sua nova decisão estava tomada.

Ao longe Patrick se aproximou de Marcus. O conhecia a ponto de saber onde era o seu ponto fraco.

— Chateado pela Amy não te dar atenção? — provocava Patrick.

— Não! A felicidade da Amy é também a minha.

— Incrível como você parece um panaca falando desse jeito. A Amy nem é tudo isso. — insistia Patrick.

— Não ligo para o que você pensa a meu respeito, mas nunca fale mal da Amy perto de mim.

A passos largos Marcus caminhou até onde sua amada se encontrava. Por sorte Hilbert conversava com o amigo de longa data. Aproximou-se de Amy abraçando-a pelas costas.

— Tem um minuto? — sussurrou ele em seu ouvido.

— O que foi Marcus?Está tão agitado.

— Só preciso ficar perto de você. — ele a envolveu num abraço carregado de saudade e proteção.

— Eu te amo, Marcus. — sussurrou ela em seu ouvido.

Ele não conseguia acreditar no que ouviu. Seu coração bateu com mais força.

— Eu te amo, Amy.

Antes mesmo de a festa terminar, Hilbert prometera que levaria Raynond de volta. Seria mais fácil se obedecessem às regras. Amy não queria que o seu pai partisse novamente, mas confiava que em breve ele estaria para sempre por perto. Se conseguiu sair uma vez logo mais seria a saída definitiva.