Todas as esperanças de Marcus foram jogadas por água abaixo ao ver Amy abraçada com Patrick nos dias que se seguiam. Dias atrás ela o rejeitava por completo, mas de repente tudo mudara. Ele fora um grande idiota em acreditar que finalmente a sua vida ser resolveria. O que teria acontecido para que Amy mudasse assim tão facilmente de ideia a respeito de Patrick? A evitava a todo custo.

Marcus chegara em casa completamente irreconhecível. Ao passar pela grande porta da sala o mesmo se jogou no sofá com brutalidade.

— O que está acontecendo contigo maninho? — Perguntou Evie preocupada com o estado de seu irmão.

— Nada. — Respondeu ele severo.

— Fala comigo! — Implorava a jovem.

— Me esquece Evie. Não quero falar

Evie ficara chocada com a forma que seu irmão a estava tratando. Sentia-se mal por não poder ajudá-lo como desejava naquele momento. Seu coração se comprimia ao pensar no quanto Marcus sofria. Como Evie desejava ajudá-lo. Teria de encontrar algo que o animasse de uma vez por todas. Tristeza não fazia parte de sua vida.

— Esse Marcus só me dá trabalho. Até parece que eu sou a filha mais velha de vez em quando. — Murmurava para si mesma — Eu tenho a solução para os próximos dias se ele não melhorar. É uma pena eu ser vingativa, mas darei o meu melhor.

**********

Alguns dias se passaram desde que Marcus decidira evitar contato com a sua irmã. Falava apenas o necessário. Sabia que não poderia descontar a sua raiva em qualquer pessoa. Não cometeria esse erro para que depois se arrependesse.

Evie convidara Amy para dormir em sua casa. Desde a última semana que estiveram juntos na festa de Patrick; Amy notou o quão diferente Marcus a tratava. Não dirigia uma única palavra para com ela. Precisava de uma única oportunidade para conversar com Marcus e entender o que estava acontecendo. Não queria perder mais alguém na sua vida. Estava cansada de sofrer pelas pessoas.

Em seu quarto Amy organizava sua bolsa com os seus pertences. Uma parte de si concordava com a ideia de passar a noite longe de casa, mas outra insistia em ficar em seu canto, quietinha e sozinha, sem perturbar as pessoas. Depois de tudo pronto Amy saiu de casa. Sabia que Tony a aguardava. Poderia ser uma oportunidade de tentar falar com Marcus. Não era possível que ele a evitasse por tanto tempo. Em algum momento ele teria de ceder.

A noite estava agradável apesar de Amy não se sentir tão bem quanto queria apresentar. Olhou por um breve momento para a lua, estava como gostava. Linda, brilhante e companheira. As poucas estrelas faziam parte do show. A harmonia alinhada que lhe inspirava bons pensamentos. Tony a aguardava parado diante do carro. O homem sempre tinha um sorriso acolhedor quando fazia visitas a Amy.

— Senhorita Jones!

— Olá Tony.

Ele a ajudou a colocar a sua bolsa no porta-malas. Percebeu que a garota não queria manter uma conversa fora do comum.

O caminho foi silencioso até uma parte do trajeto. Era angustiante ela não ter notícias de quem tanto gostava. Tentara conversar com os amigos de Marcus a respeito de algum acontecimento que lhe passara despercebido, infelizmente eles não souberam o que lhe dizer. Quanto mais desejava encontrar uma resposta, mais difícil se tornava. Suas amizades estavam sendo engolidas por um buraco negro e ela nada poderia fazer. Seu esforço não estava adiantando de nada, senão só os afastando. Só queria que tudo estivesse bem como antes. Era algo tão simples.

O caminho até a mansão dos Lancaster’s fora completamente silencioso. Amy permitiu que a sua mente a conduzisse até o desconhecido. Olhava para as casas que iam ficando para trás e desejava que a sua vida não piorasse cada vez mais. Depois de quinze minutos na estrada, Tony dera entrada na mansão. A deixou na porta principal. Amy apertou a campainha e esperou até ser atendida.

— Amy! — Exclamou Evie animada ao abrir a porta.

Evie recebera a amiga carinhosamente. Envolveram-se num abraço forte e cheio de saudades. Evie sentira o bater do coração de Amy.

— Acalme esse seu coração, meu amor!

— Ah Evie, estou tão feliz em te ver. Só você mesmo para me tirar daquele inferno.

— Pode contar sempre comigo. Venha comigo, iremos guardar as suas coisas, quero que fique à vontade.

As duas jovens subiram as escadas animadas. Aquela noite seria inesquecível de algum modo para Amy. Suas amizades sempre tinham o dom de fazê-la esquecer todos os problemas que tinha e que por ironia do destino apareciam. Era necessária essa válvula de escape.

— Bem vinda ao meu santuário.

— Isso é muito lindo. Estou vendo o quanto você ama livros. — Disse Amy enquanto analisava a sua estante repleta de livros particulares.

Evie deu de ombros.

— Gosto de boas histórias, de personagens marcantes... — Suspirava ela — Queria que os personagens se tornassem reais e pudesse me casar com qualquer um deles.

— Todos queriam. Só irei colocar algo mais leve e estarei à sua disposição. — Informou Amy mexendo em sua bolsa.

Evie aguardou Amy realizar a troca de roupa. Enquanto ficara sozinha Evie pensava a respeito de Amy parecer tão nervosa aos seus olhos. Será que ela sabia de algo? Notara que em seu olhar não havia tanto brilho como nas outras vezes em que estiveram juntas. O que estava acontecendo com as pessoas que ela tanto gostava?Já devidamente trocada Amy sorrira para mostrar o quanto se sentia bem, sendo que a verdade não era aquela.

A luz do luar estava encantadora, por isso optaram por ficarem sentadas na beira da piscina. A água gelada nos pés delicados as deixava mais relaxadas. Em primeiro lugar, Evie bombardeara Amy com várias perguntas sobre o procedimento das aulas. Para a jovem tudo era fascinante. Só não gostara quando mencionara o ensaio de Bryana com o seu irmão. Nunca fora contra os relacionamentos de Marcus, mas a jovem com quem ele se envolvia atualmente lhe causava repulsa. Não os enxergava como um casal de verdade. Se pudesse mostraria o quanto Bryna não merecia estar ao lado de Marcus, mas ele deixara bem claro que não queria saber de interferências ou opiniões, já era crescido suficiente para tomar as decisões.

Falavam sobre tudo até mesmo de músicas que cada uma delas gostavam. Um papo bem descontraído.

— Tudo bem, eu gosto muito de uma música, mas não gosto de cantar para as pessoas. — Confessou Amy.

— Não sou qualquer pessoa Amy, sou sua amiga. Cante para mim, por favor.

Amy respirou fundo e pensou numa música que pudesse fazer parte daquele momento de cumplicidade.

“Strangers waiting

Up and down the boulevard

Their shadows searching in the night

Streetlights people

Living to find emotiion

Hiding somewhere in the night

Working hard to get my fill

Everybody wants a thrill

Payin’ anything to roll the dice

Just one more time

Some wiil win, some Will lose

Some weew Born to sing the blues

Oh, the movie never ends

It goes on and on and on and on”

— Sua voz é linda demais. Por que não vira cantora de vez?

— Não consigo cantar na frente de muitas pessoas.

— Não deveria ter vergonha de cantar em publico, afinal você é atriz.

Amy sorriu torto.

— Deveria ser mais fácil, mas é diferente. Quando estou cantando é como me expor, único momento em que tenho que ser quem sou de verdade, algumas pessoas podem aceitar outras não e isso faz com que me retraia. Quando estou atuando sob a perspectiva de um personagem sou livre, consigo encarar os meus próprios medos, fujo completamente da minha realidade. Eu amo atuar.

Da janela do quarto, Marcus assistia tudo o que acontecia na piscina. Infelizmente apenas Evie estava animada. Não conseguia decifrar o que Amy fazia ou sentia pela sua expressão. Notando a movimentação estranha de sua irmãs, Marcus logo siau da janela.

— Amiga fica à vontade. Vou buscar algumas coisas para nós.

— Vai tranquila.

Em sua mente, Evie acreditava que conseguiria fazer com que Marcus saísse do quarto de uma vez por todas. Evie não iria desistir tão fácil. Queria que ele se juntasse a elas naquela noite maravilhosa, mas infelizmente ele estava agindo como uma criança birrenta. Sentia saudades da sua companhia, de suas loucuras principalmente do seu sorriso. Ficou parada na frente da porta tomando coragem para bater.

Finalmente seguira a sua intuição.

— Marcus, abre essa porta, por favor! — Pedi Evie preocupada — Precisamos conversar. Eu sei que o silêncio nos ajuda a refletir melhor, mas você tem a mim. Posso te ajudar no que precisar.

— Me deixe em paz, Evie! Eu não quero sair desse quarto, não quero ver ninguém.

— Tudo bem! Eu vou chamar o Tony para arrombar essa maldita porta.

Assim que Evie se virou para descer as escadas ouviu a porta ser destrancada. A garota sorriu vitoriosa. Sabia o quanto seu irmão precisava de um ombro amigo e ali estava ela apara ajudá-lo. Esse momento entre irmãos era necessário. Um conhecia os segredos do outro e a união fazia a força. Não era legal ver Marcus desanimado pela casa, na escola... em lugar nenhum. Ele não era daquele jeito, nunca foi.

O quarto estava todo escuro e no meio da cama Marcus. Ele tentava disfarçar as lágrimas que escorriam pelo seu rosto. Evie nunca presenciara uma cena como aquela. Normalmente eram as garotas que choravam desesperadas por ele.

— O que você tem? — Perguntou Evie sentando-se na beira da cama.

— Uma alma entregue às sombras.

— Só isso?

— Um coração despedaçado.

— Por quem?

— Amy.

Tudo ficava mais claro. Evie sabia o quanto seu irmão nutria algum sentimento por Amy, só não imaginava que pudesse ser algo forte e intenso.

— Pode desabafar se quiser — Aconselhou a jovem.

Marcus respirou profundamente.

— Nunca pensei que poderia me apaixonar por alguém dessa forma. Parece loucura, mas desde a primeira vez que a vi algo diferente em mim aconteceu. Fiquei impressionado com a sua delicadeza e a forma como ela enxerga o mundo — Marcus sorria docemente — A Amy é aquela garota que te encanta várias vezes sem ter noção do que faz. Quando sorri, o corpo todo estremece... Eu a desejo, mas sei que ela nunca poderá ser minha.

— Por quê? O que acontece?

— Porque eu vi o Patrick beijando-a e ela o retribuía com a mesma intensidade. Odiei ter presenciado aquela maldita cena. Se eu pudesse matava o Patrick por ter beijado a garota por quem me encantei. Meu coração dói muito. Já é tarde demais para ela ser minha.

— Pode ser que não seja nada sério entre eles, e sim apenas um beijo inesperado. Ela está pra baixo desde que chegou.

— Sério?

— É sério! Só não fique sem conversar com ela.

Marcus pensava a respeito da proposta feita pela irmã. Afinal de contas ele não poderia ser tão rude com Amy.

— Onde ela está? — Perguntou ele curioso.

— Sentada na beira da piscina. Eu deveria levar vinho e uma tábua de frios. Noite de garotas pede algo refinado. — Brincou Evie.

Marcus levantou-se imediatamente. Sabia exatamente o que fazer. Colocou sua camisa xadrez e passou na cozinha para pegar a garrafa de vinho. Seu coração batia descompassadamente. Ao abrir a porta de vidro que os separava, sentiu um arrepio percorrer-lhe todo o corpo.

A luz da lua a deixava ainda mais encantadora. Não queria que os seus pensamentos o iludisse naquele momento, mas não conseguia negar o que via e sentia. Gostava daquela visão maravilhosa que contemplava com graça.

— Amy? — Chamou ele ao aproximar-se ainda mais.

Notou que ela limpava o rosto. Provavelmente estaria chorando. Como ele se sentia culpado por encontrá-la naquele estado.

— Posso ficar aqui com você?

— A casa é sua — Respondeu ela simplesmente.

Marcus sentou-se ao seu lado. Ele procurou o foco para onde a garota observava. Seus belos olhos castanhos se encontravam penetrados na lua.

— Tudo bem?

— Eu não sei... responde você.

Ele riu levemente.

— Eu não sei. Está tudo tão confuso. Pensamentos desordenados...

— Bem vindo ao clube. Cadê a Evie?

Marcus corou diante da pergunta da jovem. Sabia que não deveria estar ali, mas não conseguia evitar.

— Essa é uma boa pergunta. Eu trouxe o vinho...

Amy sorriu. Um bom vinho trazia lembranças de seu pai, da sua paixão pela bebida. Desejava tanto a sua companhia.

Não demorou para que ela novamente estivesse saboreando o vinho. Marcus a acompanhava. Seus pensamentos ficavam claros a medida que o tempo passava.

— Por que você está aqui comigo? — Questionou ela quebrando o silêncio.

— Só queria saber como estava. — Respondeu ele sem desviar o olhar da piscina. Encará-la poderia ser mais difícil do que pensava.

— Como sempre... Tento viver a cada dia. — Havia a necessidade de fazer a pergunta que a dilacerava cada dia — Marcus, por que você está se afastando de mim? Me sinto mal em não saber o verdadeiro motivo. Fiz algo de errado?

— Não Amy. Não fique se torturando por minha causa, continue levando a sua vida como se nunca tivesse me conhecido. Será melhor para todos nós.

— Marcus... eu sei que tem algo errado. — Seus olhos marejavam — Eu pensei que confiasse em mim, mas me enganei. Sempre cometo o mesmo erro.

Marcus controlava-se para não abraçá-la, para consolá-la em seus braços. Todas as palavras pronunciadas por Amy o machucavam. Não queria vê-la sofrendo.

— Amy, não chore! Não quero te ver desse jeito. Me dê apenas um tempo para colocar tudo em ordem. Só preciso de tempo.

Ela o encarou seriamente.

— Não, você não quer resolver tudo, Marcus. Tempo? Tempo pra quê? Pra ver você e a Bryana todos os dias sorrindo como tudo estivesse perfeitamente bem sendo que algumas de suas amizades estão se dissolvendo? Se isso é valorizar os amigos, não quero fazer parte desse seu jogo.

Amy se levantou rapidamente já caminhando em direção à porta que vidro que os separaria por algum tempo. Temendo que ela pudesse fazer algo de pior Marcus a seguiu. Antes mesmo que ela pudesse ir mais longe a puxou pelo braço. Não queria machucá-la. Com um movimento leve fez com que os olhares se encontrassem. Seu coração se partia por cada lágrima que rolava o seu rosto.

— Um dia você irá entender tudo o que está acontecendo, Amy. Só não diga que a nossa amizade está acabando aqui e agora desse jeito. Eu... eu...

— Você o que?

— Eu quero estar sempre na sua vida... — Ele fora interrompido pelo toque do celular. Olhou para Amy e de volta para o aparelho.

— Esquece ela por essa noite! Eu preciso de você, Marcus. Só esta noite, é tudo o que eu lhe peço.

Como resistir a um pedido daqueles? De imediato desligou o aparelho. Se era assim que ela queria, Marcus estava pronto para atender. Num impulso Amy se jogou nos braços dele e por ali permaneceu até que as suas lágrimas parassem de rolar. O perfume de Amy era inebriante, gostoso de sentir assim como o abraço que estava recebendo. Como é que ele fora capaz de esquecer as coisas boas que sempre aconteciam quando estava com Amy? Só poderia ser um tolo se não atendesse ao pedido de Amy.

— Vai ficar tudo bem, Amy. Aproveite a sua noite com a Evie.

— Desculpa estar parecendo uma idiota, mas os meus amigos são tudo para mim. Não suporto vê-lo se afastando sem saber o motivo.

Marcus se afastou para olhar em seu rosto.

— Sempre estarei por perto, confie em mim.

A jovem já conseguia conter mais as suas lágrimas. Limpou o rastro das lágrimas e depositou um beijo carinhoso em sua testa.

— Voltei! — Exclamou Evie quebrando o clima que ali surgira.

— Preciso voltar para o quarto. — Dissera ele simplesmente.

Ela se encaravam sem saber o que fazer. Deram de ombros, pois a crise de Marcus logo iria passar. A sua seriedade logo acabaria, não era do feitio de Marcus ficar tanto tempo sério.

Horas se passaram desde Evie aparecera novamente. A noite entre as garotas se animava cada vez mais. A bebida estava deixando Amy cada vez mais leve, mais sincera. Contava-lhe segredos sobre a sua vida, seus medos e suas verdadeiras paixões, mas nenhuma delas que envolvesse rapazes.

— Amy, o que você acha do meu irmão? De verdade. — Implorava Evie.

— Se ele não fosse meu amigo... Talvez eu tivesse coragem de namorar... Quem não gostaria de ter alguém que te faz se sentir bem, te faz sorrir e ainda por cima é gentil e educado?

Evie tentava conduzir Amy para o quarto. A bebida já não estava ajudando-as, era necessário que repousassem um pouco antes de fazerem alguma loucura. Uma se apoiava na outra para poderem ir para o quarto que ficava no andar de cima, mas não estava dando certo, pois Amy estava tropeçando demais em suas próprias pernas. A jovem notara que uma luz estranha vinha da sala. Tinha de pedir ajuda, de um jeito ou de outro.

— Marcus me ajuda.

Evie estava toda descabelada ao entrar na sala.

Todo aquele agito deixou o rapaz preocupado. Ficara mais branco que o normal.

— O que houve?

— Preciso levar a Amy para o quarto, mas ela bebeu uma garrafa e meia de vinho. Sozinha não consigo.

Marcus passou a mão pelo cabelo preocupado.

— Prepara um café forte pra vocês duas. Vou dar um banho nela, preciso que ela acorde um pouco.

Marcus a conduziu para o banheiro mais perto. Ela não reclamava por estar sendo conduzida. Falava sem parar, era diferente presenciar Amy numa situação daquelas.

— Por... Por que eu nunca encontro alguém...como você, Marcus? — Ele apenas a ouvia sem interromper. — Sério! Eu só consigo atrair idiotas... Preciso de alguém que me ame pelo o que sou e...e... não pelo que represento. Eu não posso me apaixonar pelos meus amigos, isso é errado. Seria diferente ter alguém como você para me fazer sentir bem...

Sem hesitar, Marcus a empurrou para debaixo do chuveiro.

— Quero alguém que me diga o quanto sou especial... que me faça sorrir como uma idiota. Todas garotas falam que sentem borboletas no estômago...quando estão com os namorados...eu não sinto essa porcaria. — Marcus a tirou por alguns segundos debaixo da água, queria saber até onde ela iria — Uma vez só eu senti essas malditas borboletas, mas não foi com namorado...

— Com quem foi?

— Foi com um louco... ele tem o dom de me fazer sentir bem quando estou na merda, ele acredita em mim. A melhor pessoa desse mundo que eu já conheci, mas ele é só meu amigo.

Era uma pena ela não ter citado nomes. As malditas borboletas quem sentia era ele por estar tanto tempo perto dela e não poder ao menos sentir os seus lábios nos dela. Se quisesse poderia roubar um beijo ali mesmo, mas isso seria abuso. Não faria nada com ela estando vulnerável.

Marcus estava ficando ensopado pelo esforço que estava fazendo. Infelizmente Amy perdera o equilíbrio e caíra sentada. Seu maior medo era que ela tivesse se machucado. Não havia sentido em ficar com a camisa toda molhada, arrancou a mesma sem muito esforço. Quanto mais olhava para Amy notava que o cansaço a estava derrubando por completo.

— Fica aqui Amy. Vou trazer uma toalha para você.

A campainha da casa tocava sem parar. Marcus não sabia o que fazer. Se sentia perdido entre Amy e a maldita campainha. Quem quer que fosse seria logo mandado embora. Entrara em choque ao ver de quem se tratava.

— Amor? Por que não atendeu o celular? Esqueceu que essa noite passaríamos juntos? — Bryana o analisava por completo — Por que você está todo molhado e sem camisa?

Bryana mal fechara a boca e fora surpreendida.

— Marcus cadê a toalha? — Perguntou Amy aparecendo só de sutiã na sala.

Bryana estava vermelha de raiva. Já conseguia imaginar o que estava acontecendo entre eles, o porquê da demora para ser atendida.

Por mais que tentasse se controlar o olhar de Marcus o traiu por completo. Seu sangue subia por todo o corpo o deixando ainda mais ansioso por ter Amy para si, mas a situação não estava favorável para eles.

— O que ela está fazendo sem uma roupa decente?

— Ela estava fazendo companhia para a minha irmã e acabou tropeçando e caiu na piscina. Evie, desesperada me chamou, mas ela já estava assim quando cheguei. A Amy não sabe nadar... — Precisava sair da saia justa em que estava — Evie, pega logo a Amy e sobe para o quarto. Ela precisa descansar.

— Tudo bem! Já cheguei. Vem amiga. Sua loucura não tem limites.

Marcus esperou que as duas desaparecessem.

— Não precisa ficar com raiva Bryana, não aconteceu nada entre nós. Eu juro.

— Tudo bem, mas será que podemos sair daqui? Precisamos de um tempo só nosso.

Marcus sorriu amarelo.

— Claro! Não iremos perturbar as meninas lá em cima. Podemos ficar no quarto de hospedes daqui de baixo, é mais reservado.

— Perfeito.

Dito isso, Bryana o agarrou com voracidade. Distribuia beijos por todo o seu corpo. Mesmo que estivesse retribuindo toda a atenção que Bryana lhe dirigia algo não saía da cabeça de Marcus. Não era a noite que ele tanto desejava ao lado dela, não estava com quem desejava. Seus pensamentos estavam mais perdidos e descontrolados que antes. Poderia ele ter uma noite tranquila sabendo que a pessoa por quem seu coração batia aceleradamente descansava ali perto? Poderia ser tão fácil.

**********

Oito da manhã do dia seguinte. Evie prestava atenção ao ver sua amiga dormir. Um leve sorriso pousava em seus lábios. Sua vontade era saber se estava tudo bem com a sua amiga, afinal a sua noite fora mais complicada do que poderia prever. Lidar com uma Amy mais séria e calada fazia com que Evie se divertisse um pouco. Tudo era motivo de diversão para a jovem.

Amy sentia a sua cabeça doer. Qualquer barulho já a deixava estressada por completo. Evie e ela foram para a sala de jantar. Os empregados da mansão já haviam deixado a mesa preparada.

— Bom dia! — Desejou Marcus sentando-se à mesa para o café da manhã.

— Bom dia. — Respondeu Amy de mau humor.

Não houve conversas entre eles, Evie disfarçadamente sentia vontade de rir. Cenas da noite anterior povoavam a sua mente.

— Bom dia povo lindo! — Gritava Bryana animada.

A vontade de Amy era a de socar aquela garota imediatamente, mas se controlaria. Não estava em condições de gerar violência em um ser humano como aquela que estava diante de si.

— Perdi o apetite. — Murmurou Amy levantando-se — Evie estarei lá na piscina.

Evie apenas assentira.

— Cuidado para não se machucar, meu amor — Provocou Bryana.

Para Amy nada daquilo fazia sentido. Não sabia ao que aquela louca se referia. Só queria ficar em paz por algum momento. Seu pedido não era difícil de ser atendido. O café da manhã transcorreu tranquilamente. Cada um dos jovens mantinha para si os próprios pensamentos. Estava fácil suportar Bryana, porém de vez em quando ela tinha de soltar algumas de suas perolas. Fingir que ela não estava por ali foi a melhor sugestão que Evie poderia ter lhe dado.

Logo uma invasão de adolescentes agitados tomou conta da sala. Marcus não entendia o que estava acontecendo. Não esperava que seus amigos o visitassem inesperadamente. Sempre marcavam os encontros com antecedência, mas fora diferente desta vez. Para não parecer indelicado, Marcus os cumprimentou com vontade como das outras vezes quando se sentia animado para um dia de loucuras.

— Novidades rapazes? — Perguntou Marcus sem jeito.

— Nenhuma, mas poderíamos ir lá para piscina, está abafado. — Reclamou Gregory.

— Como quiser!

Logo se puseram a caminhar em direção à piscina. Notaram que Evie e Amy curtiam o sol. Infelizmente ao olharem para a sua direita perceberam que Bryana também se encontrava no local.

— Estou achando que a noite de alguém foi cheia. — Comentou Bruno.

— Como você é sem graça — Murmurou Marcus.

— Essa sua raiva está relacionado a algo que poderia ter acontecido com alguém em especial. — Observou Leonardo.

Todos os rapazes olharam discretamente em direção a Amy que ria baixo de algo que Evie lhe contara.

— Foi uma noite insana, mas que logo teve um fim trevoso por uma visita inesperada. — Desabafou Marcus cobrindo o rosto com as mãos — Por que quando se trata dela eu não consigo dizer o que sinto? Não era para ser tão difícil.

— Logo mais surgirá a oportunidade que tanto deseja! — Desejou Gregory — O destino se encarregará de dar todas as forças que tanto precisa.

— Que ele então comece tirando esse encosto de mim.

Todos riram. A sinceridade deles fazia com que Marcus tivesse coragem de desabafar. Como esquecer as palavras de Amy na noite anterior? Da sua quase suplica para que a atenção fosse apenas dela na noite anterior. Mesmo que ela estivesse bêbada, parecia estar ciente do que falava. Suas palavras possuíam um poder indescritível sobre ele. Já errara tantas vezes no passado que acreditava que não deveria fazer o mesmo com Amy. Uma moça como ela deveria ser cortejada com todo respeito, amor e dedicação.

Era para ser mais uma tarde tranquila na beira da piscina, pelo menos as garotas estavam se divertindo entre si, exceto Bryana. Quanto mais os minutos avançavam, mais incomodado Marcus se sentia. Por um breve momento fora necessário a sua ausência, mas ao retornar sentira-se sem chão. Bufava de tanta raiva.

— O que o Patrick veio fazer aqui? — Resmungou Marcus.

— A Bryana disse que a Amy estaria aqui. Ele não quis nos ouvir quando dissermos que você estava com raiva. Veio a todo custo.

Marcus olhou furioso para Bryana. Não era para o seu dia ser estragado da pior forma. Já não se sentia bem em ter de ir para as aulas de interpretação com Patrick, agora teria de suportar suas provocações em casa. Desde que não arrumasse confusão estava tudo certo. Por sorte ele conversava com Bryana descontraidamente.

Evie por sua vez não conseguia desviar a atenção de Amy. Até aquele momento não haviam conversado sobre a noite anterior, havia tanto a ser esclarecido.

— Por que está me olhando assim, Evie? — Perguntou Amy sem tirar atenção do livro.

— Não se lembra do que aconteceu ontem?

—Não.

— Você estava só de sutiã andando pela casa — Amy ruborizava de vergonha a cada palavra pronunciada — Só que a Bryana veio e passou a imagem errada para ela.

— Ah não! Ela não pode estar pensando que seu irmão e eu tivemos alguma coisa.

Evie ria divertida.

— Seria um sonho se realizando... Todo mundo sabe que eu não gosto dessa bruxa.

— Quem é que gosta?

— O Patrick está vindo para cá. Quer que eu os deixe à vontade?

— Nem pense nisso.

Evie piscara discretamente. Adorava ser a suíça em todos os relacionamentos de seu irmão. Ser inconveniente se tornava sua tarefa mais divertida.

**********

Um pouco depois do almoço todos os convidados foram para suas respectivas casas. Em partes o dia fora agradável e divertido, pelo menos para Evie que conversava com todos os presentes. Para ela o dia havia sido proveitoso. Uma pena Marcus ter nascido homem.

— Graças à Deus os chatos foram embora. É uma pena a Amy ter ido também.

— Aconteceu algo entre você e a Amy antes da bruxa chegar ontem a noite? Se é que eu posso saber...

— Não aconteceu nada.

— Sério? Por que não roubou um beijo?

— Não. Ela tem de estar consciente do que está fazendo e se quiser poderá retribuir, mas não quis abusar do momento.

A verdade é que Marcus não estava encontrando formas de esconder o que sentia por ela. Já não poderia ficar tanto tempo à sós ou correria todos os riscos possíveis. Estar apaixonado era surpreendentemente assustador. Todos os dias, Marcus se apaixonava por tudo o que Amy fazia e representava. Sua personalidade o cativava de forma intensa. Tinha de aprender a esquecê-la.

**********

A cada evento que acontecia, mais decepções Marcus era obrigado a colher. Soubera que Patrick estava formalizando seu relacionamento com Amy, fizera questão de preparar um jantar para apresentá-la como namorada aos seus pais. Amy estava sendo tratada como um objeto valioso para Patrick. Dava-lhe presentes desnecessários. Não era desses mimos que uma garota precisava, pelo menos não ela.

Quanto mais semanas se passavam mais Marcus tinha certeza de que o relacionamento de Patrick estava fluindo bem. Aceitava o fato de perder Amy desde que não fosse para sempre. Acreditava que num futuro distante a pudesse fazer feliz. Não a perturbaria ou sequer a manteria em seus sonhos despedaçados. Bryana o ajudaria a esquecê-la. Só esperava que o seu coração compreendesse o que estava acontecendo.

Marcus não queria saber de Amy. Simplesmente fora se afastando sem dar-lhe nenhuma justificativa. Nunca pensara que era esse o sofrimento que ele causava nas moças com quem se relacionara ao longo dos anos. Quando finalmente achava que poderia mudar r ser uma pessoa melhor, o destino mudava tudo. Se odiava pelo simples fato de ter de vela durante as aulas. Se pudesse simplesmente teria desistido de tudo enquanto ainda lhe restava algum tempo.

Notava durante as aulas o quanto Amy estava perturbada por ele não lhe dirigir uma única palavra. Desde a festa já havia se passado três semanas. Vinte e um dias sem saber o que era ter uma conversa empolgante com quem sempre lhe entendera.

Marcus não sabia mais o que fazer. Queria não ser tão fraco, precisava seguir em frente. De algum jeito a situação só piorava. Não conseguira assistir a aula por completo. Tivera de inventar a desculpa de que estava morrendo de dor de cabeça. Como boa pessoa que Margareth era permitiu que o jovem fosse para casa. Tony quando o buscara estranhou a expressão do jovem. Não era o mesmo Marcus de antes. Seu andar era mais lento, passava o maior tempo com as mãos nos bolsos, olhava frequentemente para o chão.

No trajeto para casa, Tony já não aguentava mais se segurar.

— Quer desabafar meu jovem?

— Tony, você já sofreu por gostar tanto de alguém a ponto de não poder viver mais sem ela na sua vida todos os dias? — Começou Marcus tímido.

— Já! Quando eu tinha a sua idade me apaixonei sem querer pela minha melhor amiga. Sempre saíamos juntos, tínhamos os mesmos gostos, os mesmos círculos sociais e sempre arrumávamos encontros um para o outro — Ele sorriu com a lembrança — Confiávamos um no outro. Quando ela disse que estava namorando sério, algo estranho aconteceu em mim. Todos os dias eu sonhava que ela chegava em mim e dizia que estava infeliz. Não é legal desejar a infelicidade do próximo, mas era como se fosse um aviso. Para uma garota tão animada como ela logo notei a diferença. A tristeza tomou conta daquela que sempre encantava todos ao seu redor. Meus pais na época fizeram uma grande festa e obviamente a convidei. Meu coração disparou ao vê-la sorrindo uma vez mais. Corri para o seu encontro e abracei forte querendo juntar todos os pedaços dela novamente. Me contara que o relacionamento havia acabado de forma desastrosa, mas que finalmente conseguira abrir os olhos para a realidade. Ela sempre tivera o amor da sua vida por perto e só aceitava sair com outras pessoas porque achava que eu não ligava e não sentia nada por ela.

— Vocês tiveram o final feliz.

— Sim, mas antes de tomarmos a coragem para falar dos sentimentos sofremos bastante. Não foi fácil Marcus, mas porque nunca desistimos um do outro e isso nos tornou especiais demais. Se sente algo por alguém que faz o seu dia ser sempre diferente demonstre a ela.

— Obrigado Tony.

**********

Marcus não queria saber de visitas, mas ninguém aprecia dar a mínima de importância para a opinião dele. Ficar sozinho era tudo o que ele mais queria, mas ninguém permitia.

Bruno e Leonardo entraram no quarto dele sem serem anunciados.

— Animo cara! — Brincava Bruno — A vida é uma montanha russa. Um dia você está no topo, no outro no chão. Não sou bom em palavras, mas...

— Mas o quê? — Rosnou Marcus.

— Todos irão para a praia. Todos os alunos, pelo menos é o que todos esperam que aconteça.

— Não quero ir. Eu sei que a Amy estará lá com o Patrick. Não quero ter de vê-los aos beijos e abraços.

Leonardo começou a gargalhar.

— Meu amigo, nunca seja tão apressado em querer ir para casa, no fim da aula aconteceu coisas maravilhosas, mas você não estava lá. — Comentou Leonardo divertido.

— A Amy brigou com o Patrick. Foi fria, mas no fundo ele sobreviveu. Talvez ela não esteja tão acompanhada quanto imagina.

Ele franziu o cenho.

— Isso não faz diferença, pois eu estou com a Bryana. É dela que eu gosto. — Murmurou Marcus.

Bruno e Leonardo já estavam perdendo a paciência.

— Para de ser besta e cego ao menos uma vez na sua vida. Todos nós sabemos o quanto você era cafajeste e que queria apenas aproveitar a sua vida, mas nós, os seus amigos gostamos da mudança. Nunca acreditaríamos que sentiria algo por alguma garota e que fosse sofrer por ela. Marcus, tudo isso é novo e assustador, eu sei. Sabemos o quanto esta sendo forte para não falar com Amy, mas saiba que não deve pensar apenas no seu sofrimento. A coitada está sofrendo sem ter noção do verdadeiro motivo que os afastou. Sempre que parece estar tudo bem entre vocês uma nova bomba explode e fode tudo.— Desabafou Leonardo.

— Seja mais forte e tome coragem de dizer à Amy o que sente por ela. Ou outro panaca a tomará para sempre de verdade.

Marcus ficou pensando acerca dos desabafos de seus amigos.

— Eu vou pensar no que devo fazer. Agradeço por serem leais e companheiros. Agora me dêem uma carona até a praia.

Marcus trocou rapidamente de roupa. Seus amigos já o esperavam no carro. Seria apenas mais um passeio como qualquer outro, não iria se abalar pelo o que poderia acontecer. Se é que poderia acontecer algo.

Durante o trajeto os rapazes cantavam a plenos pulmões suas músicas animadas. Nada poderia pará-los num momento como aquele. Leonardo ia sempre pelos atalhos assim chegariam o quanto antes à praia.

Bem como haviam avisado a Marcus todos os seus colegas da escola de artes estavam na praia. O que era bom, assim não precisaria encontrar alguma maneira de conversar com Amy. Ela fizera sua escolha, tinha de aceitar. Bruno e Leonardo trataram logo de conseguir algo para tomarem. Já era uma boa maneira de extravasar todo aquele sentimento ruim. Várias garotas que passavam por perto sorriam admiradas para o trio, principalmente para Marcus. Infelizmente ele não dava atenção párea nenhuma delas, afinal não queria ter motivos para brigar com Bryana num dia tão legal.

Os grupos estavam espalhados por todo o espaço. Riam e conversavam de forma descontraída. Demetria tentava manter algum tipo de conversa com Amy. Nos últimos dias ela estava muito quieta, pensativa demais. Não gostava quando ficava desse jeito. Era como se a vida perdesse as cores e sons mais belos. Se pudesse faria de tudo para que sua amiga voltasse a sorrir.

— O Leo chegou! — Exclamou Demetria batendo palmas animada.

— Não me diga que está interessada nele.

— Amy eu tentei não me sucumbir ao lado negro da força, mas toda vez que conversamos me sinto como uma verdadeira criança, as borboletas fazem a festa no meu estômago e... — Demetria não parava de falar de tão nervosa — Só quero alguém que possa ser capaz de me compreender em todos os momentos.

Amy a abraçou.

— Você está certa amiga. Tem que aproveitar enquanto é nova, enquanto ainda pode viver tudo o que sonhou.

— Se importa de me acompanhar? Quero cumprimentar-los.

— Vamos?

Ainda empolgadas com a conversa, Demetria lhe contara um pouco sobre como estava conhecendo melhor Leonardo ao longo das semanas que se passaram. Ambos eram muito parecidos. O relacionamento entre eles deixava Amy cada vez mais empolgada. Desejava a felicidade da amiga.

— Oi Leo, oi rapazes. — Cumprimentou Demetria.

— Oi Demi. — Responderam em uníssono.

Não demorou para que Marcus logo saísse de perto do grupo. Olharam para Amy, mas ela não se abalara quanto imaginavam.

— Vou deixá-los à vontade. — Murmurou ela saindo.

Leonardo esperou que a jovem se afastasse para comentar:

— Ela deve estar se perguntando o que fez de errado para ser tratada assim, não é? — Arriscou ele.

— Ela vai superar isso. Sempre supera.

— Eu sei, mas o que o Marcus está fazendo com ela é extremamente errado. Ele prometeu que dessa vez seria diferente, que não faria nenhuma garota derramar lágrimas por ele.

Demetria o encarava.

— Só quero que ele tome juízo enquanto ainda resta tempo. Tenho medo de que a Amy acabe se metendo em encrenca sem motivos.

— Ela não é esse tipo de pessoa.

Leonardo levara Demetria para caminhar um pouco pela praia. Reconhecia que a sua companheira estava preocupada com o bem estar de sua amiga. Também deveras. Quem é que não estranharia o comportamento de seus amigos? Uma hora estava tudo bem e de repente uma onda gigante vinha e derrubava os castelos de areia construídos. A vida era uma máquina de surpresa. O que Marcus estava fazendo não era correto, se algo o fazia se sentir mal deveria chegar na jovem e contar, mas sentia-se péssimo ao tentar fazê-lo.

Marcus não queria saber de fazer companhia a Bryana. Queria se sentir livre. Vira Amy conversando com outros rapazes, mas nada que parecesse comprometedor. Sorria como se não houvesse problemas em sua vida. Como ele amava aquele sorriso espontâneo que fazia os olhos brilharem. Por que era tão difícil lutar contra o orgulho? Em algum momento o silêncio teria de ter um fim. Ele acreditava nisso.

Horas se passaram e todos os jovens cantavam e dançavam durante as músicas que eram tocadas. Para Amy já estava ficando tarde. Precisava ir para casa antes que Bernard pudesse chegar. Não queria saber de arrumar confusão. Não estava com paciência. Queria despedir-se de Demetria, mas ao notá-la tão feliz ao lado de Leonardo preferiu deixar do jeito que estava. Iria embora assim mesmo. Ninguém notaria a sua ausência.

**********

Já passava um pouco mais da sete da noite e Amy estava sozinha em casa estudando os livros e apostilas para alguma prova que pudesse surgir de repente. Aproveitava o tempo livre que tinha, afinal seu dia na praia já não havia sido um dos melhores. Pelo menos tinha como distrair a mente em casa. O silêncio reinava a sua casa.

Talvez não tão silenciosa como desejava. Seu celular tocava. Era de se estranhar, pois Demetria sempre mandava mensagens quando precisava comunicar algo. Era necessário que atendesse.

— Amiga, preciso que fique calma, mas tenho que te dar um noticia.

Amy não gostou do tom de voz de Demétria.

— O que aconteceu?

— O Bruno e o Leonardo sofreram um acidente de carro... E o Marcus estava junto. Não foi culpa deles, ninguém ingeriu álcool a noite toda, mas um louco estava dirigindo embriagado na mais alta velocidade e bateu no carro dos meninos.

— Demi? Diga que isso é apenas uma brincadeira. Diga que todos estão bem.

— Em partes, o Marcus precisa tomar sangue.

Amy se perdia em palavras, tantas palavras vinham à sua mente, mas nenhuma delas parecia coerente para serem externadas. Já não sentia mais suas pernas como antes, tinha de sentar-se antes que acabasse perdendo o equilíbrio de uma vez por todas.

— Eu estou indo para o hospital, me passa o endereço.

Suas mãos trêmulas não permitiam que a sua caligrafia saísse perfeita como sempre, felizmente apenas ela conseguia entender o endereço anotado no papel. Pouco importava a sua aparência, apenas pegou a sua bolsa e saiu de casa. Tinha de chegar o quanto antes no hospital. Se pudesse fazer algo para ajudá-los assim o faria. Não queria deixar seus amigos na mão. Não seria um acidente que a faria mudar de repente. Suas lágrimas insistiam em sair uma atrás da outra. A quentura do rastro de cada uma delas a deixava estressada. Chorar não a levaria a lugar nenhum. Tinha de ser forte pelos rapazes.

Agradeceu por ter um táxi vago naquele horário.Não havia trânsito que os impedisse de circular o mais rápido em direção ao hospital. Sua mente não parava de girar ao imaginar como cada um deles estavam. Não poderia ser nada grave. Pedia tanto para ter sido apenas um susto.

Amy deu o dinheiro da corrida do táxi e saiu o mais rápido que pode. Apresentara-se rapidamente para a recepcionista que logo indicou para onde ela deveria seguir. Ficara feliz pela agilidade no atendimento. A ideia de estar em meio aos corredores brancos com aquele forte cheiro de álcool revirava o estômago da jovem. Hospitais nunca lhe trouxeram sentimentos bons, afinal tinha pavor de ficar doente e ter passar horas e talvez alguns dias em observação.

— Amor, vamos pra casa. Sua mãe deve estar preocupada. — Murmurou Patrick pegando em sua mão.

Bruscamente Amy se soltou dele.

— Não! Eu não vou a lugar algum com você. Minha mãe deve estar bem com o Bernard.

— Não seja grossa.

— Grossa? Eu? — Questionava ela incrédula — Eu sou a grossa? Pois saiba que você foi pior do que eu em relação aos seus amigos. Pensei que se importasse com as pessoas que sempre estiveram ao seu lado. Patrick eu te odeio. Poderia ter ajudado os seus amigos.

— Ajudar por quê? — Indagou ele irônico — Eu estou te perdendo aos poucos por culpa daqueles que diziam serem meus amigos.

Com esforço Marcus pediu ao seu pai para que no ajudasse ir até a porta. Queria entender o que estava acontecendo de errado. Não era uma conversa em tom amigável, muito menos em uma altura agradável. Nunca ouvira Amy falar daquele jeito.

— Você já me perdeu. — Informou Amy nervosa — Qual era o problema em doar um pouco de sangue?

— Nenhum deles mereciam, principalmente o Marcus.

— Todos merecem independente de ser quem são. O Marcus foi mais uma vitima, eu sei que ele não quer me ver ou sequer saber da minha existência, mas jamais abandono um amigo quando precisa. Fico feliz de que eu tenha tido a capacidade de salvar a vida de alguém. Eu sofro por não ter todas as pessoas que são especiais por perto, mas eu não suportaria perder uma alma sabendo que poderia ter mudado a realidade em que ela estava vivendo. E dai que o Marcus erra, errou, sei lá... A verdade é que eu não consigo levar a vivida adiante sem lembrar dos bons momentos que tivemos. Amigos de verdade estão prontos para ajudar sempre.

— Tudo bem, o caminho está livre. Está tudo acabado entre nós.

— Ótimo!

Patrick saiu a passos largos sem olhar para trás uma única vez.

Amy ao se virar logo esbarrou em alguém. Piscara algumas vezes para ter certeza de que era verdade o que contemplava.

— Eu também senti saudades Amy, mais do que pode imaginar. Obrigado por salvar a minha vida. — Um breve silêncio se formou — Será que podemos esquecer essa fase ruim? Não direi para recomeçarmos do zero, mas esquecer a tempestade que se formou na nossa vida.

— Adoraria.

Amy não hesitou em dar-lhe um abraço carinhoso. Todos os pedaços de si estavam reunindo-se novamente. O leve afagar em seus cabelos negros lhe mostrava o quanto a amizade se renovava, do quanto se sentia bem por estar perto de Marcus novamente.

— Podemos voltar para o quarto? — Questionou Hilbert — Não será legal para a sua recuperação.

Marcus assentiu e se apoiou mais uma vez em seu pai até que estivessem no quarto. Voltar para a cama não era complicado. Amy apenas os assistia tomarem suas posições. Hilbert fizera a última verificação no quarto do filho antes de se pronunciar:

— Queridos, preciso voltar para casa, amanhã tenho uma reunião importante.

— Fica tranquilo pai. Vou ficar bem.

— Passarei a noite com ele. — Afirmava a jovem na tentativa de acalmar o pai.

Hilbert entendera o recado. Se Amy lhe faria companhia já ficava despreocupado. Ambos precisavam desse momento à sós, havia muito a ser conversado.

— Obrigado por estar aqui Amy. Você é uma garota especial.

— Pode ficar tranquilo, Hilbert. O Marcus não irá fazer gracinha alguma.

— Juizo. — Disse Hilbert ao se despedir de cada um dos jovens.

Depois que Hilbert deixara o leito, os jovens ficaram se encarando sem dizer uma única palavra sequer. Sentiam-se completamente estranhos e diferentes. Marcus estendera a mão para que Amy o tocasse. A jovem hesitou por um tempo, mas logo aceitou o convite. Marcus a puxou para um abraço forte e caloroso.

— Me desculpa por ser um babaca. Você não merecia ser amiga de um cara como eu. — Disse ele afastando-se.

— Faz parte da vida sermos babacas. Você errou comigo e admitir já é um bom começo. O que deu em você? Me ignorou todo esse tempo.

— Vai por mim, foi mais difícil do que parecia. Estava com a cabeça no mundo da lua, via e ouvia coisas desagradáveis e perdi o controle de tudo.

— Marcus, você poderia ter me contado, falado, desabafado. Afinal somos amigos. Pensei que confiasse em mim.

— Eu sei... Só estava perdido e não sabia o que fazer.

Durante horas Marcus esclareceu algumas das situações que o fizeram se afastar de Amy. Apenas evitava entrar no detalhe de que estava sentindo ciúmes por ela estar se envolvendo com Patrick. Não queria que ela se sentisse culpada por tudo o que estava fazendo.

Já estava ficando tarde e, no entanto Amy não queria ir para casa. Prometera que não abandonaria seus amigos.

— Deita aqui, Amy. Não quero que fique com dor no corpo quando acordar.

— As enfermeiras podem me expulsar.

— Vão ter que me expulsar também.

Amy deitou-se ao lado de Marcus. Havia tanto a ser conversado, a ser esclarecido. Só de saber que todo aquele silêncio arrasador acabara ambos respiravam com mais leveza. Alguém tinha de dar o primeiro passo para que tudo ficasse bem. Estava do jeito que Marcus gostava, apenas os dois novamente. Era estranho pensar no quanto se sentia bem quando estava ao lado de Amy. Aquela garota tinha o dom de transformar a realidade de todos fosse apenas com o seu olhar, suas doces palavras ou simplesmente bem oferecer um sorriso acolhedor. Amy era a confiança em pessoa Aceitava tudo e todos que estivessem na mesma situação que ela. Não se importava em esquecer os seus problemas para ajudar quem quer que fosse.

Marcus notara que ela já não se comunicava, acreditava que ela poderia estar pensando em algo mais importante ao invés de ouvir suas histórias loucas. Surpreendera-se ao vê-la dormindo. O dia sempre a deixava exausta. Com vinte anos ela já assumia tantas responsabilidades de gente grande. Num movimento involuntário ela aconchegara-se mais ao corpo quente dele. Uma de suas mãos descansava sobre o tórax do mesmo.

— Você ainda vai me causar um ataque cardíaco — Sussurrou ele — Se eu pudesse te contaria como me sinto quando estou contigo minha pequena adulta.

Não demorou para que Marcus logo adormecesse. Seria a melhor noite que teria em anos. Sua vida finalmente estava tomando o caminho que tanto desejava. Só restava-lhe ser cuidadoso para não estragar o momento em que estava vivenciando.

**********

Já se passavam das oito da manhã e Marcus contemplava Amy enquanto dormia. Gostava do que via. Nunca imaginara que sua noite pudesse ser tão perfeita ao lado de uma garota. Se tornaria inesquecível se pudesse dizer que ela era a sua namorada e que em breve todas as suas intenções se concretizaram. Amy não era apenas uma garota com sonhos, mas ela se tornava o sonho de muitos. Para ele, valia a pena arriscar tudo para fazê-la feliz.

— Bom dia dorminhoca! — Brincou ele.

— Nossa! Nunca dormi tão bem em toda a minha vida.

O coração de Marcus quase saltou para fora com aquela declaração.

— E não queria deitar comigo... Sua noite foi boa porque eu estava contigo.

Amy levantou a sobrancelha.

— Como é que você nunca perde o humor?

Ele deu de ombros.

— Também não sei... Simplesmente acontece.

— Ah claro. Simplesmente acontece. Queria ser assim também, mas a minha "família" não coopera.

Marcus deslizou um de seus dedos sobre o rosto da jovem.

— Nem sempre a família coopera, mas o meu bom humor se dá pelas pessoas que são especiais, que me fazem sentir bem... Elas me ajudam de uma forma ou de outra. Cada uma delas cativa o melhor de mim.

— E o que eu cativo em você? — Perguntou ela se aproximando cada vez mais do rosto dele.

Marcus reconhecia a zona de perigo. Por fora ele poderia parecer tranquilo, mas por dentro só pensava em ter Amy em seus braços, em tê-la de uma vez por todas para si, de nunca mais ter de esconder os seus sentimentos. Nunca se intimidara tanto com uma situação.

— Você... — Ele procurava as palavras certas. Ali não seria um bom lugar para falar sobre os seus sentimentos — Amy, você é a minha primeira amiga mulher... Sempre aprendo coisas novas contigo. A nossa amizade me transformou numa pessoa melhor.

— Assim não vale... Fico feliz que tenha voltado a falar comigo. Meus dias estavam se tornando sombrios, quase me mudo para a Romênia.

— Como você é dramática. Também prefiro a nossa realidade. É uma pena que tenha terminado o breve namoro com o Patrick.

Amy respirou fundo.

— Tudo bem... Depois do que passei não quero saber de relacionamento com mais ninguém. Quero paz e sossego. — Percebera o quanto ele havia mudado diante de sua declaração — Quero dedicar o meu tempo aos meus amigos, aproveitar cada uma das oportunidades que possam surgir.

— Promete que será assim, Amy? Seu tempo será administrado para os amigos.

— É o que eu mais quero.

Dito isso, Amy levantou-se e deu um jeito no visual. Encantado Marcus apenas a admirava. Pegou a sua bolsa e virou a atenção novamente para ele.

— Depois eu volto. Preciso resolver algumas pendências.

— Se cuida.

Amy aproximou-se e deu-lhe um beijo no rosto.

— Obedeça as enfermeiras.

Marcus sorriu largamente ao ver Amy sair de seu quarto. Até parecia um sonho tê-la tão perto novamente. Desta vez Amy não escaparia dele. Faria tudo o que pudesse para mantê-la de uma vez por todas em seus braços.