A manhã de domingo começara da pior forma. Enquanto a jovem dormia um sono tranquilo, o mundo do lado de fora já era caótico demais. Um carro bem ornado com flores parara diante d janela de seu quarto. De dentro dele saiu Donnie, com um sorriso imenso estampado em seu rosto. Acreditava que era o seu dia de sorte. Sua pele morena contrastava coma bela manhã animada.

Ingrid ia sair para fazer compras no mercado ali próximo, ficou entusiasmada com o cumprimento de Donnie para com ela. No mesmo instante decidiu que não era o momento de sair de casa. Retornou para casa e correu até o quarto da filha.

— Amy, querida! Acorde. Vamos. — Chamava Ingrid ansiosa.

— Hoje não tem aula... — Disse Amy virando de lado — Estou cansada demais, me deixe dormir.

Ingrid bufou incrédula.

— Deixe de ser preguiçosa, garota. Tem alguém te esperando lá fora.

Furiosa, Amy se levantou bruscamente de sua cama quentinha em pleno domingo. Poderia ser em qualquer outro horário, mas não tão cedo.

— O que pode ser dessa vez?

— Não reclama da vida e da sorte que tem. Finalmente o amor bateu à sua porta. Basta você aceitá-lo de uma vez.

Ainda confusa pela forma que fora acordada, Amy não conseguia compreender uma só palavra que sua mãe lhe dirigira. Se soubesse que o seu dia iria começar de tal forma teria passado a noite na casa de Margareth. Ela lhe daria o devido descanso. Fora até a janela de seu quarto ver o que acontecia de tão importante. O seu rosto esquentara ao ver Donnie parado perto de uma carro de telemensagens segurando um microfone. Seu sorriso estampava todo o rosto. Amy desejava ter um balde de água gelada assim acabaria com a loucura de Donnie.

— Amy, desde o primeiro instante em que nós começamos a conversar no colégio, senti que a amizade não seria o suficiente. Bastou que alguns anos se passassem para que você se sentisse envolvida nos meus carinhos e na atenção que eu lhe dedicava... Durante anos fui feliz ao seu lado, seu amor para comigo sempre me fez sentir alguém especial e desejado...

Donnie só poderia estar maluco ao pedir para um carro de telemensagens parar diante da casa de Amy. Os vizinhos poderia reclamar do barulho. Ao olhar de um lado para outro, notara que eles estavam curiosos para saber a resposta que a garota iria lhe dar. Ele havia pirado de uma vez por todas.

— Amy, hoje estou aqui diante de todo o bairro expondo o meu coração e os meus sentimentos. Permita que eu seja o homem da sua vida. Quer namorar comigo?

A jovem arregalou os olhos surpresa. Já tivera boas experências ao lado de Donnie, mas não poderia lhe dar mais uma chance de magoá-la. Não nutria mais sentimento algum por ele, não poderia voltar atrás de todas as burradas feitas por Donnie.

Ingrid olhara esperançosa para sua filha. Mesmo que Donnie um dia a tivesse traído queria que os dois reatassem e assim, Marcus deixaria de correr atrás de sua filha.

— Qual vai ser a resposta, minha filha?

Amy olhava incrédula para sua mãe. Colocou o roupão por cima do pijama e saiu porta à fora. Tinha de esclarecer muitas coisas antes que a vizinhança a pressionasse ainda mais. As pessoas só sem importavam como o que era belo, mas não procuravam descobrir a verdadeira identidade das pessoas ou dos casos. Ela se aproximara diante dele e o fitava seriamente.

— O que deu em você, Donnie? Acha mesmo que pode vir até a minha casa com um carro de telemensagem e toda essa adornação de flores e me reconquistar? — Ele ia responder, mas não lhe deu muita chance — Nada funciona do jeito que você quer... Nunca será uma festa ou um beijo roubado que fará com que eu mude a respeito do que já aprontou comigo. Sei que você ainda gosta de mim, mas o meu amor por você morreu no dia em que descobri que me traía com a Bryana. Acha mesmo que eu seria tola a ponto de te aceitar novamente em meu coração? Não sou o prêmio de consolação das pessoas, nunca serei. Posso ser desejada por você, por qualquer outra pessoa, mas tem que me conquistar por inteiro. Um coração partido e traído não se cura com flores e mimos. Isso leva tempo e o seu já se esgotou.

As pessoas que esperavam uma resposta positiva da jovem se chocaram com o seu discurso. Poderia soar grosseiro, mas ela nunca fora tão sincera em toda a sua vida. Nenhuma mulher merecia ser enganada da mesma forma que ela fora um dia.

— Isso é um "não"?

— Exatamente. Não perca mais seu tempo correndo atrás de mim. Não quero ser chata ou ignorante, mas também não posso ficar te iludindo.

Donnie começava a se irritar.

— É ele, não é? É aquele playboy da escola de artes. Deveria suspeitar que já estava se envolvendo com outro imbecil.

— Não. Não é ele, ninguém está envolvido comigo. Cansei de sofrer, apenas isso.

Amy virou as costas e voltou para sua casa. Ingrid reprovava o comportamento de sua filha. Queria que ela tivesse a oportunidade de ao menos ser feliz. Nem que para isso acontecer, Amy tivesse de sofrer em alguns pontos. Depois de escutar a porta sendo trancada, Ingrid correu para a rua atrás de Donnie. Seria bom se ele a acompanhasse até o mercado.

— Meu jovem, está livre?

— Claro, dona Ingrid. O que a senhora deseja?

— Me acompanhe até o mercado. Tenho algo muito importante a ser conversado contigo.

Donnie sabia que poderia esperar noticias boas vindas de Ingrid, afinal ela conseguiria convencer a filha a reatar o namoro com ele. Conseguiria o que desejava com o apoio e ajuda daquela mulher. Ingrid conversaria e mostraria o que Amy estaria perdendo da vida. Reatar o namoro com Donnie seria motivo de alegria para Bernard também, afinal ele acreditava que toda a raiva que a jovem sentia se resumia ao fato de não poder compartilhar as suas frustações e seus desejos oprimidos.

**********

Amy estava furiosa pela situação que passara com Donnie. Não queria acreditar na cena ridícula que ele lhe fizer passar. Até onde poderia ir com essa ideia maluca de retomarem o namoro? Ela não queria saber de mais ninguém na sua vida. Era tão difícil de entenderem a mensagem ou ela teria que começar a desenhar? A vontade de Amy era a de desaparecer para sempre. Não queria mais viver naquela casa, levar a mesma vida de sempre ou sequer estar perto de pessoas que sempre a estressava e que lhe causavam sérios problemas.

Onde foi que ela estava com a cabeça quando aceitara namorar com Donnie? Não poderia estar desesperada. Ele lhe fizera sorrir, crescer e compreender a vida quando estavam juntos, mas o que ela sentia por ele nunca foi o suficiente para querer acabar num altar. Amava a sua companhia, mas sabia o que ele tanto desejava. Amy não se sentia segura para ir para cama com alguém. Principalmente com ela. Infelizmente Donnie sempre a pressionava, talvez fosse por esse motivo que ele a traíra, mas nada justificava quem fora a sua presa.

A fim de deixar todos aqueles pensamentos de lado, Amy decidira começar a preparar o almoço. Não queria que a sua mãe voltasse e lhe pedisse ajuda, não seria um dia agradável. Amy queria ir até a casa de Demetria e quem sabe chamarem Helena para passarem o dia juntas. Precisava de um momento “mulherzinha”. Havia tanto a ser conversado com aquelas pessoas. Começou a cuidar das saladas e das carnes. Gostava de tudo bem temperado. Gostava de passar o seu tempo cozinhando, a ajudava a manter-se calma. Seus pensamentos voavam com a força do vento de uma tarde tranquila. Conseguia se imaginar tendo uma vida longe de toda aquela confusão e dos atritos que tinha com Bernard. Sonhar não custava nada.

Enquanto a carne tomava sal e cozinhava, Amy ligou a tevê num de seus canais favoritos. Gostava de ver os clipes mais antigos, de lembrar de seu pai, de sonhar como poderia ter sido caso ela fosse mais velha.

Ingrid chegara das compras e não ousou dirigir uma palavra sequer para a própria filha. Guardou as compras e logo foi lavar-se. Sabia que Amy prepararia o almoço de qualquer forma. A mesa já estava posta, só faltava elas se servirem. De longe Amy apenas observava a mãe se servir. Todo aquele silêncio era estranho. Esperou que Ingrid comesse um pouco dos alimentos que estava em seu prato para logo acompanhá-la. Não sentia fome, mas se serviria apenas para agradar a própria mãe.

Após sentar-se de frente para Ingrid o silêncio se tornara dominante. Olhares desconcertantes até então estavam sendo evitados de todas as formas. A intuição de Amy não queria enganá-la. Seu corpo todo se arrepiava só de imaginar o momento em que sua mãe iria lhe dirigir a palavra. Todo aquele silêncio não era bem vindo. Não no momento em que se encontrava. O almoço de domingo até aquele momento estava tranquilo. Não havia sequer a presença de Bernard. Com o relacionamento conturbado entre mãe e filha, Amy ficava quieta e nada mais acontecia. Como se a casa estivesse vazia.

— No que está pensando? — Perguntou Ingrid quebrando o silêncio instalado na cozinha.

— Em nada. — Respondeu Amy simplesmente deliciando-se com a sua salada de frutas.

— Estava pensando no fato do Donnie ter sido gentil em contratar um serviço de telemensagens só para te conquistar, e no entanto, você nem se deu ao luxo de notar o verdadeiro sentimento que ele nutre por ti.

— Mas eu não gosto dele. Quando é que vai entender. Acabou! Não tem mais porque insistir em algo que nunca vai dar certo.

Ingrid sorria divertida.

— Claro que vai dar certo. Ou você aceita reatar esse namoro de uma vez por todas ou nunca mais sairá dessa casa. Sou capaz de pedir ao Bernard para te levar a algum onde não exista escolas de arte, nem tecnologia o suficiente para pedir ajuda ou sequer pensar em conversar com o tal de Marcus.

Amy não conseguia absorver todas aquelas informações. Era demais para a sua realidade.

— Não estou entendendo. Por que essa loucura agora?

— Entendeu sim... Você não é burra e não nasceu ontem. Você só sairá dessa casa se reatar com o Donnie. Sempre o desejei como genro e quero aproveitar a oportunidade dele ainda estar interessado em você. Quanto às suas aulas na escola de artes ficará ao seu critério. Espero que seja uma boa filha ao menos uma vez e escute o que lhe digo. Acredito que não queira deixar de ser a boa aluna por causa de uma regra imposta.

— Isso é golpe baixo, mãe. Por que não pode ser como as mães das minhas amigas? Só quero ser feliz sem depender das pessoas ou sequer me envolver com quem eu não gosto. — Amenizava Amy para não descontrolar-se ainda mais.

— Eu poderia ser, mas você não tem me dado ouvidos. Eu sei que um dia será grata a tudo o que eu tenho feito por você. De qualquer forma, eu sei que ainda ama o Donnie, só disse o contrário porque ficaram algum tempo sem se falar, sem ter as caricias que os envolviam. Antes que eu tivesse a oportunidade de me encontrar com Bernard antes de me separar de seu pai foi exatamente assim. Pensava que não sentia mais nada por ele, mas a chama do amor se acende novamente com as caricias e beijos avassaladores.

— A senhora só pode estar louca! Como você reagiria se descobrisse que o Bernard a traiu com alguém mais nova e mais bonita?

Amy não conseguia controlar a sua raiva, sabia o quanto poderia arriscar contando toda a verdade, mas Ingrid tinha de enxergar o que estava diante de seus próprios olhos. Ingrid cerrava os punhos para não cometer alguma loucura. Não iria ser a primeira a bater em sua filha. Poderia ser chata, ignorante, mas jamais a chamariam de violenta.

— O que você quer dizer com isso? — Esbravejou a senhora empurrando o prato para longe de si.

— Estou apenas perguntando. Pelo que posso perceber a senhora não aprovaria. Só quero que pense no que eu passei e que um dia talvez possa ser a senhora nessa situação. — Explicava a jovem calmamente — Só me dê a chance de ser feliz do meu jeito.

Ingrid pareceu pensar a respeito por alguns instantes. Em seu interior Amy queria acreditar que ao menos uma vez sua mãe lhe dera a devida atenção que ela merecia. Precisava que ela enxergasse o mundo à sua volta.

— A sua felicidade só existirá se estiver com o Donnie! Aceita logo a minha proposta e tudo ficará bem. Aquele rapaz tem tudo o que possa lhe oferecer de melhor, te levará ao céu.

— Não! Eu não vou aceitar essa proposta maluca. Não é assim que eu quero viver a minha vida. — Gritava Amy.

— Azar seu! Esqueça as aulas naquela escola de artes.

Amy foi para o seu quarto sentindo todo o seu rosto queimar. A vontade de quebrar algo e gritar para o nada tomava conta de si. Por que a vida tinha de ser tão injusta com ela? O que ela poderia fazer da vida sendo que ninguém a compreendia? Sentou-se no chão e abraçou os próprios joelhos. Ali ela se tornava minúscula. Conseguia sentir-se envolvida num abraço que ela desejava receber imediatamente. Todo o seu ser sofria o por ter uma mãe que não dava a mínima de importância para o que pensava ou sentia. Por que Ingrid ainda insistia em mantê-la ao seu lado? Poderia muito bem pedir para Amy sair de casa já que ela era um incomodo.

— Um dia esse pesadelo vai acabar! — Sussurrava Amy para si mesma — Eu vou vencer a minha batalha pessoal. Eu acredito na minha capacidade. Minha realidade vai mudar.

Amy desejava verdadeiramente. Enxugou as lágrimas e deitou-se na cama. Olhava para o nada imaginando Raymond ao seu lado. Com o seu abraço ele conseguiria reunir todos os pedaços de Amy, suas lágrimas se tornariam risadas e os pesadelos em sonhos encantadores. Levar aquela vida cheia de erros e enganos estava deixando a jovem desconfortável e sufocada.

Decidida Amy se levantou, trocou de roupa para ir até a casa de suas amigas. Ao passar pela sala Ingrid lhe segurara pelo braço fortemente.

— Onde pensa que vai?

— Vou dar uma volta. Preciso pensar na sua proposta irritante.

Depois de prestar muita atenção no que Amy lhe dissera, Ingrid sorrira vitoriosa. Sabia que a resposta seria positiva. Ali mesmo a pobre senhora ficou imaginando a sorte que teria ao ter Donnie novamente como futuro genro.

**********

Pelas ruas tranquilas Amy andava com os pensamentos nas alturas. Nunca que a sua vida seria do jeito que ela imaginava. Poderiam tirar tudo o que quisessem dela, menos a liberdade que ela tinha em ir para a escola de artes cênicas. Lutara desde o começo para merecer o seu espaço, para mostrar o quanto possuía capacidade e qualificações necessárias para permanecer ali. Ao longo de sua vida estudantil aprendera com erros e tropeços, aprendera se virar sozinha, seguia a sua vida sem incomodar as pessoas. Por que quando se tratava de sua vida, de suas escolhas tudo parecia complicado, como se uma grande bola de neve estivesse para desabar em sua cabeça?

Enquanto ela pudesse lutar pela arte que a mantinha viva, assim ela faria. Não deixaria que uma atitude mal pensada de sua mãe atrapalhasse todo o seu futuro. Ser humano nenhum tem o direito de interferir nos seus sonhos. Amy era livre para seguir os seus sonhos com determinação. Alguém precisava compreender que a arte muitas vezes a salvara de cometer atrocidades contra a própria vida. Sem o apoio necessário de Ingrid; Amy se sentia sozinha no mundo. Não tinha um membro da família com quem pudesse desabafar, exceto sua tia Joana, mas a distância entre elas era maior. Precisava de alguém próximo.

Como é que ela poderia ser forte com tantas coisas acontecendo ao mesmo tempo? Será que Ingrid não conseguia enxergar as preocupações que cercavam a própria filha? Não! Para Ingrid nunca haveria uma garota de dezoito anos que precisava de atenção, de carinho ou sequer de amor. Bernard era a pessoa com quem ela mais se preocupava, se necessário ela daria a vida por ele.

A jovem já não aguentava mais seguir daquela forma. Controlou as lágrimas que insistiam em deixarem um rastro em seu rosto. Não seria fraca. Não dessa vez. Quando se deu conta, já estava na frente da casa de Helena. Moravam próximas e assim sempre podia estar com uma companhia maravilhosa. Tocara a campainha uma vez e não demorou para que Helena surgisse toda sorridente ao lado da mãe. Como Amy sentira inveja daquele momento.

— Amy, sua linda! Que bom que você veio! — Exclamou Helena animada abrindo o portão — A Demetria já está aqui há quase duas horas.

— Desculpa a demora, mas tive um contratempo lá em casa. — Amy virou a atenção para a senhora — Como a senhora está dona Adriana?

— Muito bem, querida. Fique à vontade. Preciso fazer umas comprinhas.

A senhora saiu sorridente. Helena dera passagem para sua amiga. Caminharam em silêncio até a sala. Demetria estava empolgada com o filme que assistiam.

— Nossa Demi. — Murmurou Amy — Já está me traindo de novo?

Demetria gargalhou.

— Claro que não! Só evitei de passar na sua casa. Todo mundo já sabe do mico que o Donnie passou com aquele carro de telemensagens. — Explicava Demetria — Ele mereceu. Nunca deveria ter te traído com a vaca da Bryana. Eu sei que ela é boa em algumas vezes, mas a atitude dela em aceitar as investidas de Donnie foi o pior erro.

Helena sentara-se no sofá colocando uma almofada sob suas pernas.

— Ele é um panaca. Sempre disse isso, mas... — Amy a interrompeu.

— Agradeceria se não falássemos nesse idiota. — Ironizava Amy — Preciso apagar aquela cena ridícula.

— Como quiser.

Helena recebera Amy amavelmente. Gostava da sua visita e do seu jeito brincalhão de ser, mas notara que havia algo de errado. O silêncio da jovem estava fora do normal, o seu olhar perdido no vazio da imensidão.

— Não gosto de te ver assim amiga! Quer contar o que se passa nesse seu coração?

Amy arqueou a sobrancelha.

— Nesse meu coração nem vento está passando direito.

Demetria e Helena riram.

— Não é nada demais, meus amores. Só preciso de um tempo com vocês e tudo ficará bem. — Ela estava abraçada a uma almofada lilás felpuda — O que iremos fazer?

Helena e Demetria se entreolharam.

— Como foi a festa na casa do Marcus? Você não contou anda desde que passara a noite se divertindo na casa dele. — Murmurava Helena.

— Foi normal. A festa era da irmã dele. A Evie é bem legal, assim como as pessoas que trabalham naquela mansão.

— O Marcus tem um jeito bem louco de ser, mas ele se preocupa bastante contigo, Amy.

— Isso é o que os bons amigos fazem. Eles cuidam um do outro. — Respondeu ela simplesmente. — Vocês também cuidam de mim. Sou grata por sempre serem as melhores pessoas com quem eu posso conversar.

Helena queria que Amy se soltasse um pouco mais. Ela estava escondendo algo das amigas.

— Amy? — Chamava Helena paciente — Conta pra nós o que está acontecendo. Pelo seu olhar sei que você quer chorar, mas está se segurando o tempo todo. Somos amigas e entre nós não existe segredos.

Amy respirou fundo. Sentia as suas costelas doerem.

— Minha mãe está com uma idéia absurda e não vou conseguir fazê-la esquecer — Começou ela a explicar.

Demetria e Helena ficaram preocupadas pelo tom sério de Amy.

— Que idéia, Amy? Nós sabemos o quanto a sua mãe é louca e como isso te afeta, mas pode confiar em nós.

— Ela quer que eu volte com o Donnie.

Ambas riram exceto Amy. O pior ainda por vir.

— Sonhar, mais um sonho impossível... — Cantarolava as meninas.

— Não terminei de contar. Se não reatarmos o namoro, não poderei mais frequentar as aulas da Margareth. Serei privada de seguir o meu sonho.

Demetria e Helena ficaram boquiabertas. Não havia como acreditarem no que acabaram de ouvir.

— Só pode ser brincadeira! — Reclamava Demetria — Sua mãe só pode estar louca. Em pouco tempo começaremos a ensaiar os espetáculos a serem apresentados ainda esse ano e ela quer te privar de estudar.

— Já tentou conversar com a sua mãe? Uma conversa pode resolver tudo — Murmurou Helena.

Amy se sentia perdida.

— Já tentei uma conversa, mas nada parece ser capaz de fazer com que ela mude de idéia.

— Só espero que tudo se resolva na sua casa. Você irá tomar a decisão certa. Não podemos interferir na sua vida, mas desejamos que faça a escolha certa.

— Obrigado meninas, sem vocês a minha vida não seria tão leve. Não queria deixá-las preocupadas com a situação, mas eu não tenho com quem desabafar e apenas vocês me entenderiam. — Comentou Amy — Vocês são as melhores amigas que alguém poderia ter.

Juntas se abraçaram calorosamente.

Amy decidiu que não deveria comentar nada a respeito de sua decisão. Pediu também para que as garotas não comentassem com outras pessoas. Sozinha ela chegaria a um veredicto. Continuou na companhia delas até que fossem oito horas da noite. Juntas elas não viam o correr das horas. Faziam uma a outra esquecer os próprios problemas.

**********

Bernard acabara de chegar da rua completamente animado. Procurara por sua mulher pela casa toda, mas a encontrara na sala aproveitando a noite. Assistia a um bom filme de comédia.

— Cadê a pirralha? — Perguntava Bernard. — Era apara ela estar em casa.

— Eu sei, meu amor. Ela está na casa das amigas refletindo. Tivemos uma conversa muito séria hoje.

— Amém ­— Ironizava Bernard — Será que agora ela toma jeito? Nunca foram de terem uma conversa séria. Posso saber o que aconteceu?

Ingrid sorriu amarelo.

— Nada demais. Finalmente tivemos um tempo só para nós duas e decidimos tomar algumas providências quanto à nossa distância. Tudo o que a minha filha precisava era de um momento comigo. Consegui descobrir o que se passava em sua mente e no coração.

Bernard sorria maliciosamente para a mulher à sua frente.

— Por que não esquecemos a sua filha um pouco? Podemos nos dedicar um ao outro agora.

Sorrindo divertidamente Ingrid não conseguiu resistir ao charme de Bernard. Seu corpo já estava em chamas apenas pelo seu toque intenso.

O barulho da porta da frente se abrindo tirou o casal do seu encanto. Amy andava tranquilamente em direção ao seu quarto.

— Preciso da resposta minha filha. — Forçava Ingrid.

— Amanhã te dou a resposta — Respondeu a garota simplesmente sem dar a devida atenção.

Ingrid e Bernard deram de ombros.

— Onde estávamos?

Em seu quarto Amy não queria saber de mais nada naquele fim de noite. Só desejava tomar um banho e dormir. O dia seguinte poderia ser bem melhor. Era o que ela desejava. Durante todo o dia tentar não pensar na resposta que daria à sua mãe. Só queria fechar os olhos e sair daquela realidade. Era pedir demais? Em todo aquele espaço Amy se sentia sozinha. Por um momento ela desejou ser filha de outra mulher assim seria compreendida e não precisaria passar pelas provações que insistiam em acabar com a sua alegria. Ser invisível poderia resolver muito das situações que ela passava. Quem sentiria a sua falta caso desaparecesse e não deixasse recado algum? Doía pensar desta forma, mas era o único meio que ela pensava ser eficaz.