Notas iniciais
Boa leitura!

As velas mal iluminavam o oratório da igreja de São João Batista, quando Louise terminou sua oração, beijou os pés da Virgem e ia embora. Como boa cristã que era, parou em frente ao altar para se benzer quando sentiu um vento frio gelar-lhe a espinha.

Se encolhendo diante da brusca mudança de temperatura, ela se encaminhava em direção às portas de saída, quando viu de canto de olho uma senhora – vestida de totalmente de preto—sentada num dos bancos do meio da igreja. Os dedos da curvada velhinha mexiam-se rapidamente em volta do terço, enquanto os lábios murmuravam uma prece silenciosa.

Espantando a curiosidade ante a figura de preto, Louise saiu da igreja, enfrentando o ar congelante da cidade, sentindo as bochechas queimarem. Seguiu pela calçada ao lado da padaria, e distraída com a beleza da lua, não se deu conta de que o caminho que seguia era perigoso durante a noite.

Quando deu por si, passara pelo beco e estava em uma rua desconhecida, o que era impossível, já que crescera na cidade. “Deve ser a lua, fazendo-me fantasiar!”, pensou.

Apesar da confusão, continuou seguindo as árvores que ladeavam a rua. Pensava em Lord Basille, que há dias a cortejava, quando ouviu o que parecia ser o choro de uma criança, que parou em seguida.

Agora assustada, Louise andava rápido e tinha a respiração acelerada. De repente, o choro recomeçou. A jovem parara, esperando o choro cessar, o que não aconteceu.

Pensando apenas em acudir a criança, Louise se encaminhou em direção ao velho portão de madeira, que se abriu facilmente. Temendo haver sem tetos na casa, foi silenciosamente subindo as escadas de entrada. Após abrir a pesada porta, viu apenas móveis virados e teias de aranha.

– Alguém aqui? — perguntou, mais por medo que por educação. Como resposta, teve apenas a volta do choro da criança. Ao tentar subir a escada principal, sentiu um vento gelado passar e uma voz feminina clamar: – Por favor, salve meu filho!- Quando procurou, não encontrou ninguém.

Ponderava se devia ir embora ou não, quando viu um vulto passar. Seguiu tolamente a direção que tomou a sombra, até a sala de jantar e, como um vislumbre do que foi um dia, percebeu tudo iluminado pelas chamas das velas, bem cuidado e belo. Sob a mesa havia um bebê descoberto, e a sua frente, uma mulher com um punhal levantado ameaçadoramente em direção de seu corpo frágil.

—Desgraça de minha família! — gritava raivosamente a mulher – um filho sem pai…- desviou o olhar da criança e mirou o corpo desacordado de uma jovem, jogado no canto do aposento.

Horrorizada, Louise apenas assistia a cena – Minha filha, te livrarei desta vergonha! — Dizendo isso, a mulher levantou ainda mais o punhal, e Louse, levada por um instinto maternal maior do que pensava, tirou a criança da mesa.

E como se o tempo parasse, Ela apertou a criança contra si, sem se importar com a imóvel senhora. Porém, de repente, tudo desapareceu: a iluminação, a jovem desacordada, a ensandecida mulher e o bebê que tinha em seus braços. Louise se viu novamente na velha e mal cuidada sala de jantar.

Agora sem se importar com o que julgou um delírio, a jovem levantou as saias e correu, abandonando a velha mansão.

Quando chegou do lado de fora, em pleno horror, viu uma procissão à luz de velas.

Pessoas vestidas de branco, das mais variadas idades caminhavam juntas, como que hipnoticamente.

Aquietou o pranto copioso e devagar se abaixou, numa tentativa de se esconder dos estranhos caminhantes. A noite, agora com a luz escondida nas nuvens, a protegia.

Sentiu as pernas fraquejarem e caiu nos galhos e matos do quintal. Procurou ver se fora descoberta, e com pavor doentio, viu um rosto masculino. O homem, cadavericamente branco, de olhos grandes e rosto com expressão assustadora a olhava. Aterrorizada, Louise fechou os olhos.

Porém, sentiu-se estranhamente mais leve, e quando decidiu olhar em volta, se viu no meio da procissão que outrora observava com temor. Estava agora no meio de uma densa floresta, com uma vela na mão.

Sem terror ou emoção alguma, apenas seguia o ritmo de todos aqueles outros seres.

ιΩ

A senhora Flaubert terminou suas orações, e ainda com o terço na mão rogou à Virgem Maria que protegesse a jovem que a pouco saíra da igreja. Afinal, aquela era a noite de todas as almas, onde os errantes que vagam finalmente alcançariam o descanço, levando aqueles cujos olhos eram curiosos. Ou, pelo menos, era assim que diziam os mais velhos.

Notas finais
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Abençoados sejam!
Você chegou ao fim do livro. Parabéns!