A Ninfa da Cascata
6 A melodia da memória
Notas iniciais
A Ninfa da Cascata
Capítulo 6 – A melodia da memória
“M-Mas tu és…” murmurou Seraph ao ver a rapariga…que ainda pouco ou quase nada tinha saído detrás das costas do seu filho, este por sua vez mirou confuso a mãe antes de voltar a olhar para Ninfa e de novo para ela.
“Passa-se alguma coisa?” perguntou o rapaz, a mãe deste saiu do seu transe e olhou para ele
“N-Não…é s-só que ela é tão parecida com a-“
Sulfus rapidamente impediu a mãe de continuar a falar, os seus olhos ficaram de repente frios e duros assim como a sua voz “Mas não é, mãe, não é e não pode ser…por isso esquece esse assunto”
Apanhada de surpresa pela reacção agressiva do filho, Seraph sobressaltou-se um pouco mas rapidamente se lembrou o quão magoava ao seu filho recordar-se daquele assunto “Desculpa” foi tudo o que conseguiu dizer. O rapaz estava prestes a agarrar na mão de Ninfa e subir as escadas quando de repente Edan, o pai de Sulfus, entrou no salão de entrada juntamente com Elisabeth.
Ficou surpreendido ao ver a estranha rapariga de cabelos loiros ao lado do filho “Sulfus…trouxeste uma amiga?” perguntou, de certa forma confuso ao ver no vestido…bem…um pouco velho? Fazia lembrar as roupas dos náufragos. Sulfus congelou, literalmente, ao recordar-se que nunca, e isto era mesmo nunca, tinha falado ao seu pai sobre Ninfa…
Suspirou e virou-se para ele “Bem…”….isto ia ser uma conversa muuuuuuuuito longa…
***
Depois de um quanto esforço, Sulfus lá conseguiu contar toda a história sobre Ninfa ao seu pai. Neste momento a família estava toda reunida na sala de estar, lá tinham conseguido convencer Ninfa de que o sofá não era num monstro que a ia engolir a qualquer momento.
Edan suspirou depois de toda aquela conversa “Portanto deixa ver se eu percebi tudo…ela salvou-te naquele dia que caíste ao rio…tu foste à procura dela mesmo pensando que era uma miragem e ao longo de todos este meses, isto é há já quase duas estações e meia que tu tens ido ter com ela para a ajudares a perceber melhor o mundo…?”
“Sim, sim e sim…” respondeu o rapaz
O pai cruzou os braços “Bom…suponho que deixá-la ficar por cá durante o inverno não seja má ideia…mas sabes que vais ter muito trabalho pela frente não sabes?”
Sulfus coçou a parte detrás da cabeça “Estou bastante consciente disso, aliás não tenho tido outra coisa pela frente senão trabalho com ela…vai ser apenas mais outra fase por assim dizer”
“Bom…desde que isso não te atrapalhe nos estudos…”
“Não vai”
“E já agora…quando estás a pensar contar à Kabale? Conhecendo-a, ela vai ficar cheia de ciúmes quando a vir por cá…” avisou de certa forma Edan, Sulfus não conseguiu conter um suspiro…já não aguentava mais esta relação falsa que mantinha com Kabale e só a ideia do casamento lhe dava já náuseas, não odiava a rapariga mas simplesmente não a queria como esposa…só mesmo o seu pai é que não sabia que este casamento era tudo uma fachada, tudo para conseguir manter o nome da família, o pai orgulhava-se muito dele e não queria tirar-lhe esse orgulho…
“Eu…arranjo maneira…” murmurou o rapaz, pegou então na mão de Ninfa “Vem, eu vou mostrar-te a casa”
“Eu vou pedir à Bianca que prepare o quarto para ela” disse Seraph levantando-se também do sofá e dirigindo-se para o local onde a empregada estava. Sulfus e Ninfa subiram as escadas e caminharam pelos corredores. Este abriu a primeira porta.
“Este é o meu quarto” disse ele, apontando depois para a porta que se encontrava frente à porta do quarto dele “Aquele vai ser o teu, por isso não te preocupes, se precisares de mim é só dares 5 passinhos e estás aqui” ela sorriu ao qual ele retribuiu, a guia pela casa continuou até que ambos estavam de novo no piso de baixo. Entraram de novo na sala de estar “Aqui é a sala, foi onde estivemos à pouco” explicou ele mas foi então que Ninfa reparou numa coisa que não estava ali antes…uma fogueira acesa…os olhos azuis da rapariga arregalaram-se e tão depressa quanto pôde escondeu-se atrás de Sulfus, este foi apanhado de surpresa e estava confuso pelo motivo que a levara a fazer aquilo, virou-se para ela.
“H-Hey mas o que é que se passa contigo?” mas a rapariga continuava a segurar com força a camisa do rapaz, e foi aí que ele se apercebeu que ela estava a tremer, como quem estivesse prestes a chorar, colocou as mãos sobre os ombros dela e forçou-a a desencostar-se da sua camisa. “O que é se passa..?” perguntou ele, Ninfa, já com pequenas lágrimas nos olhos e com a mão a tremer, apontou lentamente para a fogueira, este seguiu o seu indicador…”A fogueira? Ah…tens medo do fogo?” ela rapidamente assentiu e foi aí que um pequeno flash se acendeu na cabeça do rapaz, finalmente parecia ter a resposta à pergunta que tinha mantido consigo desde que a conhecera…lembrava-se que ela tinha apontado para os seus olhos quando ele lhe perguntara porque razão tinha fugido dele…e agora percebia porquê…os seus olhos de cor âmbar provavelmente ter-lhe-iam feito lembrar o fogo, ao qual ela tinha tanto medo…
“Então era por isso que tu tinhas medo dos meus olhos? Porque eles te faziam lembrar o fogo?” devagar Ninfa assentiu, Sulfus suspirou e levou-a para fora da sala, para que assim ela não visse mais a fogueira…conseguiu distraí-la a mostrar-lhe mais divisões da casa, até que passaram por uma porta que se encontrava debaixo das escadas. Chamando-lhe a atenção aquela porta fechada, Ninfa puxou um pouco a manga da camisa dele, ele virou-se e viu para onde ela apontava constantemente.
“Ah ali? Não é nada de especial, é apenas a cave-espera aí onde é que tu vais!” gritou ao ver a rapariga a afastar-se dele e a dirigir-se para a porta, abrindo-a e espreitando ali para dentro. Estava escuro mas Sulfus quando ali chegou acendeu a pequena luz de cima, tal como ele tinha dito era uma cave, amontoada com coisas velhas como brinquedos e móveis “Não há aqui nada de especial…a não ser que te interesses por pó…” murmurou ele
Ninfa continuou a observar o interior da cave, espreitando por debaixo dos panos que cobriam os móveis velhos que ali estavam. Foi então que numa dessas espreitadelas que algo lhe chamou a atenção, um objecto não muito grande de uma cor dourada mas com efeitos espirais em tons de azul celeste, tinha a forma de um coração com uma estrela vermelha no meio. Curiosa, a rapariga pegou no objecto e virou-se para Sulfus que a observava.
O rapaz no entanto pareceu ficar sem respiração ao ver o que ela tinha na mão, não conseguia dizer nada, nem uma palavra sequer, muito menos um gesto, apenas conseguia ficar ali a olhar para aquele objecto…
Vendo que ele não reagia, ela ficou um pouco preocupada, voltou a olhar para o objecto que tinha na mão e como se soubesse o que era, abriu-o devagar. Dali começou a soar uma melodia, uma linda e doce, era tão calma e transmitia uma sensação de tranquilidade. Apesar do pó que cobria o objecto e do quão velho parecia ser, este trabalhava na perfeição, nem uma nota musical parecia falhar.
De repente a mão de Sulfus colocou-se sobre a mão de Ninfa e obrigou-a a fechar o objecto, cortando a melodia a meio. A rapariga de cabelos loiros olhou para ele assim que isto aconteceu, confusa, porque o tinha feito? Mas ao ver a dor nos olhos âmbar do rapaz…isso de certa forma também a afectou…
Sem dizer mais uma palavra sequer Sulfus virou-lhe as costas e saiu da cave, ela não tardou muito a segui-lo mas não antes de se preguntar se devia trazer aquele objecto consigo…um lado dela dizia-lhe para o deixar ali no lugar onde sempre esteve e esquecer que alguma vez o tinha encontrado…mas outro lado dizia-lhe que aquele objecto ainda viria a ser importante…a sua teimosia acabou por ceder e correu para fora da cave com o objecto escondido na mão. Ainda conseguiu ver Sulfus a subir as escadas por isso seguiu-o, apesar de cambalear um bocado pelas escadas pois não estava ainda habituada a estas.
E devido a isso já não o conseguiu apanhar no corredor mas rapidamente deduziu que deveria estar no seu quarto, apesar de saber que ele estava mal, ou pelo menos assim parecia quando viu aquele olhar triste e doloroso, ela dirigiu-se até à porta e abriu-a só um bocadinho, espreitando…
E de facto ali estava ele, sentado sobre o parapeito da sua janela a olhar para o pôr-do-sol que o iluminava e lhe dava uma beleza ainda mais do que a que já tinha. Tentando não perturba-lo muito, Ninfa esgueirou-se para dentro do quarto na ponta dos pés, o mais silenciosa possível, no entanto não demorou muito até que Sulfus se apercebesse da sua presença e se virasse para ela. Aquele olhar continuava ali e nem o sorriso que tão habituada a ver ela estava, ali se encontrava…apenas dor…parecia que carregava uma enorme agonia dentro de si que todos os dias escondia, parecendo que estava tudo bem.
A rapariga rapidamente escondeu o objecto atrás das suas costas ao aperceber-se que ele já o tinha visto, olhou para baixo como quem dizia que estava arrependida, tanto de ter entrado naquela cave como de ter trazido dali o objecto…Sulfus suspirou, levantou-se do parapeito e sentou-se na sua cama…hesitando por uns momentos, Ninfa acabou por se sentar com ele, mirando-o, como quem esperasse que ele falasse…de novo os olhos âmbar do rapaz colocaram-se sobre o objecto que ela tinha na mão…a pequena caixinha de música…
“Pertencia a ela…” falou finalmente…a sua voz mal se ouvia mas visto que ela estava mesmo ao seu lado, ouviu-o “À minha melhor amiga…” apertou os punhos mas então ela colocou uma mão sobre estes, em sinal de se acalmar, ele olhou para ela e viu o sorriso que ela tinha no rosto…
Suspirou e continuou “Mas ela está morta…” fechou os olhos quando as imagens daquele dia voltavam à sua memoria “Aconteceu tudo à 10 anos, quase 11…dentro de algumas semanas cumpre-se o 11º aniversário do incidente que a matou…a ela e à família…”
Ele olhou para ela “Sabes…tal como tu…por uns tempos também eu tive medo do fogo” ela parecia surpreendida ao ouvir isto “Porque…eu estive lá…naquele dia…eu vi tudo o que aconteceu…e é algo que eu nunca vou conseguir esquecer…tínhamos ambos apenas 6 anos…” retirou a caixa de música das mãos de Ninfa e abriu-o, deixando a melodia voltar a soltar-se onde tinha sido parada.
“Nós os dois éramos muito chegados, e de vez em quando dormíamos na casa um do outro, vês ali?” apontou para uma colina bem visível da janela, ali não estavam nada mais do que árvores cobertas de neve “Agora cresceram árvores mas antes era ali a casa dela, vivíamos bem perto um do outro…de qualquer forma, naquele dia foi a minha vez de dormir na casa dela, eu dormia num colchão ao lado da cama dela. Tinha sido uma noite como tantas outras…se aquele incêndio não tivesse surgido…
O pequeno Sulfus acordou com o cheiro a algo queimado, e isto bloqueava-lhe a respiração, começou a tossir e levantou-se e abriu os olhos âmbar, a visão estava turva devido ao sono que tinha por isso viu-se obrigado a esfrega-los com as mãos pequenas. E foi aí que viu…fumo que vinha por debaixo da porta.
Tão rápido como pôde, saltou do colchão onde estava deitado e saltou para a cama da amiga que continuava a dormir, abanou-a umas quantas vezes “Raf, Raf! Acorda!” gemendo no sono, a menina abriu os seus olhos azuis e bocejou, antes de começar a tossir
“O que foi Sulfus…? É tarde…”
“Eu acho que há fogo!” disse o rapaz, a rapariga virou-se para ele, olhando-o como se ele fosse maluco
“Deixa-te de disparates!”
“Não são disparates, olha o fumo que vem por debaixo da porta!” exclamou apontando para o sítio referido, Raf seguiu o seu indicador e viu que o amigo tinha razão, de facto havia fumo e uma luz entre o amarelo e o laranja iluminava os cantos da porta. O fumo que se começava a acumular dentro do quarto só fazia as duas crianças tossirem ainda mais.
Levantaram-se da cama e correram até à porta, abriram a porta e viram aterrorizados o fogo que cobria já metade da casa “Como é que escapamos daqui…?” perguntou a pequena Raf, agarrando-se à mão do amigo que a segurou com força
“Deve haver algum sítio que não esteja coberto pelo fogo…por ali!” apontou para uma janela, começou a correr naquela direcção mas a amiga agarrou-o pela manga do pijama, parando-o
“Espera! A minha mamã e o meu papá, tenho de os ajudar!” exclamou a rapariga, correndo então na direcção do quarto dos pais, a porta desta abriu-se então revelando os dois adultos que também tinham acordado entretanto com o fumo, ao ver a mãe, Raf agarrou-se logo à suas pernas assustada, Sulfus tinha-a seguido de imediato.
“Mamã tenho medo!” disse a menina, a mãe agachou-se e segurou a filha nos braços enquanto o marido segurava a mão do rapaz
“Tem calma nós vamos tirar-vos daqui” disse a mãe, voltando a entrar no quarto juntamente com o marido e Sulfus, a mulher agachou-se e abriu uma porta pequena que se encontrava por detrás do armário “Vocês os dois entrem aqui dentro, esta porta vai levar-vos até ao exterior” disse a mãe apontando para a entrada
“M-Mas então tu e o papá…?” disse a menina com a voz trémula
“Não te preocupes, eu e a mamã vamos também encontrar uma saída, mas agora vocês os dois têm de entrar ali dentro” assegurou-a o pai, a mãe foi até à sua mesa-de-cabeceira, abriu a gaveta desta e retirou de lá qualquer coisa, então entregou-o à filha.
“É a tua caixinha de música…” disse Raf olhando para o objecto, a mãe sorriu-lhe e beijou-lhe o rosto
“E agora é tua. Agora vão” empurrou as duas crianças para dentro da entrada, elas agacharam-se e começaram a caminhar pela o corredor fora…rapidamente chegando ao exterior e começaram a correr o mais longe que podiam da casa…
Tinha toda a certeza que ela estava mesmo atrás de mim…mas quando cheguei a uma zona mais segura, olhei para trás e vi que não estava ali…tentei voltar atrás e encontra-la mas nesse preciso momento houve uma explosão que acabou com a casa toda…ainda tentei ir até lá mas as pessoas que tinham visto o incêndio e tinham chamado os bombeiros, tinham entretanto chegado ao local e seguraram-se…disseram-me que já não podia fazer nada…e eu não quis acreditar nisso…”
“Não, NÃO!! Eu tenho que ir busca-la!!” gritou Sulfus, lutando para se livrar dos braços de uma senhora que o segurava nos braços para evitar que cometesse uma loucura e entrasse no incêndio
“Já não há nada que podes fazer para os salvar!”
“NÃO, NÃO!!! RAAAAAAAFFFFF!!!!”
Sulfus fechou os olhos dolorosamente e fechou a mão que continha a caixinha de música, fechando-a e cancelando a música que tocava “Nunca encontraram o corpo dela…tudo o que encontraram foi isto…” disse indicando o objecto que tinha na mão “Não a consegui salvar e nem sequer me pude despedir dela…” Ninfa apertou o toque que tinha sobre a mão dele
“Durante anos tive medo do fogo…não conseguia estar perto dele sem me recordar daquele fatídico dia…e durante dias depois daquele acontecimento, chorei…mas depois prometi a mim mesmo que nunca mais deixaria cair uma lágrima que fosse…e desde então que não tenho chorado…nem mesmo quando me lembro daquele dia…”
De repente Ninfa abraçou-o, apanhando-o de surpresa, não estava de facto à espera que ela fizesse isso…apesar de ela o fazer sempre quando via que estava triste, era algo que já estava habituado mas não o esperava que o fizesse agora mesmo. Mas então relaxou-se e colocou os braços em roda da cintura desta, fechando os olhos e sorrindo…
Então a rapariga soltou-se do abraço e colocou ambos os seus dedos indicadores nos cantos da boca do rapaz, forçando-as para cima, tentando criar o máximo que conseguia um sorriso. Sulfus piscou os olhos tentando perceber o que a rapariga estava a tentar fazer…depois começou a rir.
“Tu não existes mesmo!” riu-se ele, ela no entanto sorriu, feliz por vê-lo a sorrir de novo “No entanto…obrigado…consegues sempre fazer-me sorrir. Além disso…tu recordas-me muito a Raf…não sei porquê mas quando estou contigo…sinto que também ela está aqui…”
Passadas mais ou menos duas horas, os dois foram chamados para jantar…bem…pode-se dizer que foi um humor total pois primeiro que Ninfa percebesse como se usavam os talheres…foi bastante difícil mas muito divertido, algo que aquela família já não fazia há muito tempo em conjunto. Depois da refeição, a família dirigiu-se para a sala onde uns liam, outros viam televisão, outros brincavam…enfim, várias coisas.
Quando o relógio bateu as 11 horas da noite, Sulfus ia-se dirigir para o quarto quando reparou que Ninfa havia adormecido enroscada ao lado dele no sofá. Não conseguiu conter um sorriso ao ver aquela cena…bem…adorável? Pegou então nela ao colo e sem dificuldade alguma, transportou-a até ao piso de cima, dirigindo-se para aquele que agora era o quarto dela. Deitou-a sobre a cama que agora tinha lençóis novos e tapou-a, aconchegando-a nos cobertores para a manter quente naquela noite fria de inverno.
Antes de sair do quarto, beijou-lhe o rosto e sorriu…proferindo umas últimas palavras…
“Obrigado”
TBC…
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