A Night Like This
1 Capítulo Único.
Era noite na barricada.
Todos tinham direito a duas horas de sono, como havia ordenado Enjolras. Mesmo que alguns acatassem o conselho, para a maioria era simplesmente impossível se quer fechar os olhos, muito menos dormir. Enjolras era uma dessas pessoas.
Cansaço e exaustão existiam em si, mas não se manifestavam, pois só havia em si espaço para mostrar esperança, ansiedade e expectativa resultado da mais pura adrenalina.
Tudo junto, ao mesmo tempo, pois não havia mais como voltar atrás nesse ponto.
Cada palavra do que dissera durante todo aquele período, desde quando surgiu a ideia entre estudantes e trabalhadores, até aquela noite inquietante na barricada, tudo que planejara, tudo que conversara, tudo que tinham feito até ali, absolutamente tudo tinha valido a pena, mesmo que os destinos de todos ali presentes já estivesse selado. Nada havia sido em vão. Enjolras sabia disso, antes mesmo de viver a dura realidade da situação.
O que o cético ainda fazia nas barricadas, isso Enjolras não sabia dizer. Suas motivações eram um mistério, e talvez para sempre fossem, dada às circunstâncias. Nada mais justo, cada cidadão ali morreria por uma causa nobre, e seria enterrado com seus mistérios — inclusive Enjolras.
A noite virava e em um momento naquela madrugada, a tensão começava a dar lugar à aceitação e saudade. Todos em comunhão começavam a expressar seus anseios e, para a surpresa de Enjolras, Grantaire não foi nada mais, nada menos, do que sincero.
Enjolras nunca o havia visto daquele jeito.
'In vino veritas', o Líder pensou, tocado pela forma que Grantaire expressava seus medos e dúvidas entre as vozes. Aquela cena, naquele momento, despertou em si tudo que estava guardado.
Tocado pelo momento, Enjolras se aproximou de Grantaire, que estava ajoelhado no chão da barricada abraçado à sua garrafa, tão frágil e vulnerável que passava despercebido aos demais também frágeis, e também vulneráveis.
Fosse uma mistura de emoções que pairavam no ar, fosse adrenalina, fosse outra coisa; Enjolras não sabia de onde o impulso vinha, mas foi quase que instintivo o que fez a seguir.
Os outros continuavam a compartilhar, enquanto Enjolras se abaixava e envolvia o cético em seus braços.
Grantaire pareceu em choque num primeiro momento, até que o abraçou forte, ainda que hesitante. Enjolras foi firme, ao mesmo tempo em que delicado, tentando passar-lhe conforto. Por um momento se deixou notar como parecia certo abraçá-lo, como se seus corpos tivessem sido feitos para aquilo. Talvez os dois precisassem do abraço, afinal.
Enjolras o guiou para dentro, onde teriam mais privacidade por alguns instantes. Ninguém ao redor pareceu notar, e se notou, guardou para si.
Dentro do Musain, pessoas feridas trocavam curativos, alguns descansavam, outros se encontravam parados, quase em estado meditativo, olhavam para o nada. Na parte de trás, havia corpos. Ninguém os via dali de dentro, porém todos sabiam onde os mortos dormiam naquela fatídica noite.
Os dois nada disseram, pois não havia muito o que dizer. Grantaire nem parecia estar cem por cento ali. Tinha perdido muito na luta para alguém que não acreditava em nada, e a luta nem havia acabado. A Luta os antecedia, e os sucederia quando a manhã chegasse. Independente, as baixas afetavam, pois vidas eram insubstituíveis.
Grantaire era alguém que aparentemente nem queria estar ali, e mesmo assim ali se encontrava.
Os dois encostaram-se à parede, distante dos outros, sentando no chão de madeira. Enjolras sabia que era estranho continuar a abraçá-lo, pois mal trocavam palavras fora das reuniões normalmente– já que Enjolras enxergava Grantaire como uma distração, e mantinha certa distância; mas Grantaire precisava disso agora. Os dois precisavam. Enjolras precisava, admitiu se sentindo um pouco egoísta.
Grantaire sempre foi distração demais. Quando Enjolras percebeu que gastava muito de seu tempo pensando nele, neles e em seus diálogos barra suas discussões; automaticamente se fechou e guardou tudo, pois não admitia estar distraído. Tinha um compromisso, e tinha medo que Grantaire o fizesse descumprir caso cedesse e passasse o tempo tentando entendê-lo ao invés de focar em suas responsabilidades com o grupo, com a luta, com o povo e com a França.
Quanto tempo havia ganhado, e quanto havia perdido. Grantaire parecia frágil em seus braços e o coração de Enjolras doía com isso. Enjolras gostaria de estar em um melhor momento e ter um jeito melhor de expressar que durante todo aquele tempo, mantinha uma secreta afeição por Grantaire, e o mantinha longe propositalmente por priorizar a Revolução.
Lembrou-se de Marius, enquanto mantinha Grantaire perto. Ao contrário do que pensavam, Enjolras admirava a parte de Marius que era corajosa o suficiente para amar e expressar amor romântico, em tempos tão críticos como aqueles. Até mesmo os motivos de Marius estar lá, na barricada, eram nobres. O Amor é a maior nobreza, afinal.
Os motivos de Enjolras também eram nobres, apesar de diferentes. Amava a Pátria, o Povo, seus irmãos e irmãs de luta, e até mesmo aqueles que ainda não tinham acordado. Enjolras amava, incondicionalmente, e acreditava com a força de uma paixão e determinação intensas, mas seu amor não era solo. Enjolras não acreditava que conseguiria amar mais uma coisa só. Grantaire era seu ponto cego.
Enjolras afagava os cabelos de Grantaire, que parecia menos tenso agora, encostado ao seu lado. O silêncio começou a pesar, e Enjolras ouviu Grantaire fungar. Queria ser capaz de confortá-lo apropriadamente, de aliviar seu sofrimento mesmo que um pouco, levando em conta todos os pesares que estavam vivenciando.
"Não importa quão sombria, fria e escura seja a noite; o sol há de nascer e brilhar na manhã seguinte. A Revolução é só uma ponte que nos conecta com a promessa desse amanhecer, por isso não perca a fé ainda, Grantaire, se é que ainda a tem ou a teve um dia. Essa é a madrugada de um promissor futuro, e nos fazemos parte dela." disse baixinho, ouvindo Grantaire rir sem humor em resposta.
"Impossível que, mesmo depois de tudo, você ainda acredite nisso." Grantaire respondeu com a voz rouca, sem intenção real de o atacar.
"Desde o começo, até o final." Afirmou um pouco melancólico, suspirando em seguida. Grantaire também suspirou.
Enjolras o trouxe mais para perto de si, virando-se e ajeitando-se a fim de poder olhar em seus olhos. "Grantaire, por que continuou aqui?" perguntou, com genuína curiosidade, tentando encontrar a resposta no olhar do outro.
Grantaire pareceu derreter em seus braços, devolvendo-lhe o olhar como se a resposta fosse óbvia, e Enjolras esperou que falasse, mas seja lá o que fosse, Grantaire preferiu guardar para si. Enjolras entendeu, apesar de discordar.
Ao invés de insistir, se calou também, preferindo se perder no infinito do olhar do outro cruzando o seu.
Reinava o silêncio, novamente. Confortável, apesar de estranho e familiar, apesar de tudo.
Enjolras desviou o olhar, suspirando, tentando se convencer que era melhor voltar e vigiar a barricada agora. Antes que cruzassem uma linha. Antes que pudesse se mover, Grantaire se mexeu, fazendo-o voltar seu olhar para ele novamente.
Hesitante então, o cético levou uma mão até o rosto de Enjolras, acariciando-o com o polegar bem de leve. Um leve pedido para que permanecesse mais um pouco.
Enjolras permitiu o toque, se sentindo meio tímido de repente. O toque era tão leve em sua pele, que nem parecia real. A temperatura do corpo do outro em contraste com seu próprio calor era o que lhe garantia que aquilo não era um sonho.
Quem dera pudesse fazer daquele momento, infinito. Outro pensamento egoísta, só mais essa vez.
Só mais uma última vez.
Ambos já tinham perdido tanto, tanto...
"O deus de mármore, tão divino, tão humano..." sussurrou Grantaire, parecendo que conversava com si mesmo mais do que com o outro. Enjolras ensaiou um sorriso triste, ainda consciente do contato e do brilho enigmático no olhar de Grantaire.
Inclinou levemente a cabeça, cansado. Quis confortar Grantaire e acabou sendo confortado. Suas mãos eram quentes, e pareciam encaixar perfeitamente no lado do rosto de Enjolras, que levou uma das mãos até a dele, sentindo-o arrepiar com o contato.
O Líder se aproximou para beijar o outro, arrepiando-se também quando lábios se tocaram, despertando-os.
Grantaire congelou no lugar, tenso e trêmulo de início, e por um segundo Enjolras se arrependeu desse momento egoísta, esse beijo roubado na impulsividade. Suas desculpas estavam na ponta da língua, porém Grantaire as roubou, correspondendo ao beijo como se sua vida dependesse daquilo, substituindo a tensão momentânea por um desespero ainda mais intenso.
Não foi um beijo muito romântico, mas Enjolras não tinha como saber, e Grantaire não tinha como discernir. Ainda assim, fez ambos os corações baterem acelerados, conectados como um só naquele eterno momento.
Os dois tinham os olhos fechados quando se separaram. A mão de Enjolras estava agora na nuca de Grantaire, que encostou a testa em seu peito agitado, buscando por ar.
Enjolras tinha tanto para lhe falar, percebeu, mas não sabia como. Nem por onde começar.
E não teve tempo para descobrir. Gentilmente, Grantaire se desvencilhou do abraço sem olhá-lo, pegando sua garrafa e se levantando, indo para outro lugar.
Enjolras o observou ir, sem se achar no direito de pará-lo. Seu coração ainda bateu acelerado por uns bons minutos, vivendo um pouco mais a extensão daquele momento, seu terceiro beijo na vida; antes dele finalmente se mover e voltar para o lado de fora do Musain, na barricada, onde mais alguns cochilavam enquanto outros compartilhavam do silêncio da noite, agitados demais para dormir.
Mesmo com a chuva fina e fria da madrugada, Enjolras ainda sentia o calor de Grantaire em si.
Não o procurou mais, de qualquer forma, e se manteve focado na expectativa que pairava no ar. Esperava pela promessa do amanhã, sem saber em detalhes o que lhe aguardava.
Grantaire, abalado demais para perguntar qualquer coisa a Enjolras, e incrédulo demais para acreditar em sua sorte, escondeu-se no Musain para beber sua vergonha. Naquele ponto, achava impossível que aquele momento tivesse partido de qualquer sentimento de amor, amizade ou afeição. Grantaire estava certo de que Enjolras o desprezava, e não via nada além dessa crença. Quem poderia culpá-lo? Convenceu-se de que as ações de Enjolras vinham de pena, da agitação do momento, ou de uma estranha busca por conforto. Grantaire nunca saberia a verdade, e talvez não quisesse saber.
Ele quase disse, por um momento, quando tocou o rosto do Líder pela primeira vez naquela noite, que sempre esteve ali e continuava ali, até o final, por causa dele. Enjolras era o Norte de Grantaire, que o amava, mas às vezes o odiava, e na maioria do tempo não sabia como administrar seus sentimentos.
Havia perdido tudo, visto amigos queridos morrer e desconhecidos darem a vida por tudo aquilo, e estava tenso, de saco cheio, vivendo um pesadelo. Qual era o significado de tudo aquilo, afinal? Do que valeria o sacrifício?
O que era uma vida, uma ideia, uma noite, o Amanhã ou o beijo, acontecendo naquele contexto? Enjolras estava tão certo de que tudo tinha uma razão de ser, de que nada seria em vão, que Grantaire se sentia quase acreditando nisso também.
Seu Deus de Mármore, que numa ação misericordiosa lhe presenteou com um beijo, muito mais do que Grantaire podia esperar, e muito mais do que acreditava merecer. Era simplesmente demais. Era pouco e era muito, era confortador e amedrontador ao mesmo tempo.
Era tudo que ele sempre quis.
Grantaire tinha plena certeza de que ia morrer. Ponto. Embriagado pelo vinho, dormiu sem sonhar, sem ver o resto da noite virar madrugada, nem a madrugada virar dia.
Grantaire acordou um bom tempo depois, subitamente sóbrio, sem noção real de quanto tempo havia se passado e estranhando o silêncio que o cercava.
Enjolras acreditava que Grantaire já havia morrido como todos os outros, ou simplesmente desistido e sumido. Por isso aquela aparição repentina encheu seu coração de maneira peculiar, como sempre fazia. Grantaire não parecia o cético de antes, nem o bêbado de ontem. Era algo completamente diferente, e ainda assim idêntico ao que sempre foi.
Gritando pela República, ele brilhava. Grantaire acreditava, afinal.
O sorriso que Enjolras lhe deu após permitir, foi o mais verdadeiro e espontâneo que dera em toda sua vida. Grantaire parecia surpreso, e vivo como nunca antes. Enjolras também se sentia vivo como jamais havia se sentido antes.
Que ironia do destino, trazer a tona todo esse sentimento quando estavam segundos perto de morrer.
Morreriam juntos. Enjolras entrelaçava os dedos de Grantaire nos seus, compartilhando o brilho em seu olhar com ele, antes de encarar a guarda com a Determinação que nunca o deixava.
Grantaire só tinha olhos para Enjolras. Correspondendo ao toque, partilhou de sua determinação ao virar-se para a guarda novamente.
Enjolras levantou a bandeira vermelha com a mão que não segurava a de Grantaire, apertando-o forte, e o coração de Grantaire encheu-se antes de balas atravessarem os dois corpos, deixando tudo escuro.
O Mártir sangrava pregado na parede e o Cético morria aos seus pés, suas mãos ainda unidas.
Os dois corações tão distintos e tão iguais, tão opostos e tão completos um do outro, pulsariam em sincronia até o último segundo, até o Nada virar Tudo, até deixarem de ser. Ninguém saberia disso, esse fato menor se perderia na história como tantos outros, mas a luta que travaram com coragem por Justiça e Liberdade, pela Pátria e pelo Povo, seria para sempre lembrada.
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