A New Chance
4 Capítulo 04 - Pelo amor de Deus, cala a boca garota
Notas iniciais
O clima de tensão era o que mais predominava no apartamento de Emma.
Regina sentia seu ar indo embora toda vez que se lembrava das palavras de Emma. Que tipo de coisa ela tinha para contar que talvez Regina fugisse? Que espécie de pessoa ela seria se fizesse isso?
"Me conte e então eu penso se fugirei ou não." Regina falou calma, tentando tranquilizar a loira que suava frio.
"Certo, eu me lembro bem que todas as vezes que eu sumia você se desesperava pois achava que eu tinha feito alguma besteira. Mas isso estava longe de acontecer, na verdade ainda está. Eu tenho os meus fantasmas, mas não chegaria a esse extremo. Todas as vezes que eu fugi, foi porque esses fantasmas tinham voltado a me atormentar e eu não queria contaminá-la com a sujeira que é a minha vida. Antes de mais nada, eu quero que você saiba que ninguém sabe da história verdadeira, ninguém, ou melhor, ninguém importante. Ingrid e Zelena sabem apenas a versão que eu contei para minha família." — Emma fez uma pausa para respirar e limpar algumas lágrimas que escorriam, enquanto Regina acompanhava atentamente cada movimento — "Eu nasci numa cidade do interior do Maine chamada Storybrooke, onde Ingrid nasceu também e onde a minha família mora, fica há pouco mais de quatro horas daqui. É uma cidade pequena, todo mundo se conhece e a maioria é católica, seguem a risca tudo que o padre Gepetto fala. Gepetto é meu tio e desde pequena eu estive envolvida em festas beneficentes, bingos e etc.. Fui coroinha e enfim.." Regina apenas sorriu com o fato e Emma sorriu de volta — "Um dos caras que "comandava" a parte beneficente da igreja era Gold, um cara admirado por todos, por dedicar sua vida a sua esposa, filhos e a trabalhos beneficentes na igreja. Todos o amavam naquela cidade e ele era um dos meus heróis na infância. Um dia, eu já tinha 14 anos e estava como líder das crianças as ensinando uma coreografia para apresentação de natal, Gold me pediu ajuda com algumas caixas de mantimentos que haviam chego de doação, eu fui e ficamos só eu e ele na igreja, numa das salas que ficavam as doações. Foi a partir daí que minha vida mudou, para pior." Emma tinha o rosto banhado pela lágrimas e soluçava.
"Emma, se acalme, por Deus, você não precisa fazer isso, está tudo bem!" — Regina falava segurando as mãos frias de Emma por entre as suas. — "Eu vou pegar um copo de água para você, certo?" Regina levantou e foi a procura de copo e água na cozinha. Respirou fundo e voltou para perto de Emma que bebeu tudo de uma vez.
"Continuando, eu o ajudei com as caixas e percebi naquele dia que tinha algo errado, que ele me olhava de uma forma estranha. Ele veio com um papo que sempre prestava atenção em mim, que eu era uma menina muito bonita, principalmente agora que eu tinha um corpo perfeito e.." Enquanto Emma falava em meio as lágrimas Regina só conseguia arregalar os olhos. — "Bom, encurtando e sem entrar em detalhes, sim, ele me estuprou dentro da igreja. Eu gritava, implorava para ele parar, mas claro que isso não acontecia. Desisti de lutar e só pedia para Deus me ajudar a não sentir muita dor. No final ele olhou para mim e disse "Você sabe que se você contar para alguém, ninguém vai acreditar em você, né? Portanto te aconselho a ficar calada!" e saiu com um sorriso vitorioso me deixando completamente suja e ensanguentada naquela sala. Claro que não foi só uma vez, já que eu não contei para ninguém, porque ele tinha razão, ninguém acreditaria em mim, meu pai o admirava, era um de seus melhores amigos e vivia em casa. Seria uma cidade inteira contra mim. Os abusos se tornaram frequentes e minha alma ficava mais escura a cada dia. Ele continuou me estuprando durante anos e quando eu estava prestando vestibular, prestes a me formar ele acertou a bola na caçapa." Emma ainda chorava mas falou com um ar frio.
"Você não está querendo me dizer que.." Regina tentou falar mas Emma a interrompeu.
"Eu engravidei! E por Deus, foi a pior notícia da minha vida. Ninguém sabia, eu fiz milhões de testes de farmácia, comprei tudo na cidade vizinha para ninguém ficar fofocando e todos eles deram positivo. Enfim, escondi durante três meses até que um dia enquanto ele me estuprava eu enjoei e precisei sair correndo e ele juntou os fatos, foi então que a pior parte de todas veio. Ele não me procurou durante um bom tempo e um dia me arrastou até uma área florestal, quando eu cheguei tinha uma barra de ferro fina, com uma lança na ponta, um lençol estendido no chão e algumas amarras. Ele disse que acabaria com aquele problema.." Regina mais uma vez interrompeu Emma.
"Por Deus, para.. para.. você não precisa relembrar isso. Eu já entendi!" Regina tentava se manter firme, mas estava se desesperando com aquilo tudo.
"Por favor, me deixa terminar." — Emma pediu e a morena então assentiu. — "Sim, ele fez exatamente isso que você imagina, me estuprou com aquela lança com um papo de "Se você não se mexer muito, a lança só vai atingir onde eu quero", por Deus eu nunca senti tanta dor na minha vida, tanto física, como psicológica. Obviamente eu perdi o meu bebe e além de tudo o meu útero foi dilacerado, por isso até hoje não posso ter filhos. Enfim, aquele dia ele me disse que eu não teria um filho dele e nem de ninguém. Aquela foi a ultima vez que ele me tocou. Ele foi embora e me deixou lá, sangrando e chorando de dor. Eu me desesperei porque eu não sabia o que fazer, eu precisava ir para um hospital, mas qualquer médico que me examinasse descobriria da gravidez e eu estava perdida. Até que um cara, que certeza foi deus que mandou, passava por ali, ele praticava a caça esportiva e estava voltando de uma caçada. Ele me ajudou e eu implorei para que ele me levasse para um hospital fora dali, por sorte ele tinha um irmão médico recém formado que trabalhava na cidade vizinha, ele me examinou e disse que eu precisaria operar, fiz uma cirurgia para tirar a placenta e reconstituir o útero e quando tudo acabou foi quando eu me desesperei pois meus pais tinham sido chamados já que eu era menor e Graham não poderia assinar a minha alta. Ele conseguiu que o irmão escondesse o fato da gravidez no laudo, mas souberam do útero dilacerado. Voltei para a casa em silêncio e me tornei a louca da família." Emma falou com um tom irônico.
"Como assim?" Foi a única coisa que Regina conseguiu perguntar.
"Desde que tudo começou eu fui me fechando cada vez mais, eu não suportava as festas em família e nem as da igreja, pois eu teria que lidar com o fato do herói Gold estar posando com a família como o homem perfeito. Me afastei de tudo, inclusive dos amigos. Meus pais me colocaram na terapia achando que era depressão ou algo assim. Depois da cirurgia eu tive que inventar que foi tentativa de suicídio, porque eu ia falar o que? Aí achavam que eu estava louca, me levaram pro psiquiatra, que sabe da verdadeira história, fiz um tratamento leve com ele, pois ele sabia que meu caso não era nada demais, diante de seus pacientes e diante do que minha família achava que era. Com muito custo consegui liberação para vir estudar em Boston e conheci você. Quando eu te conheci, era como se eu tivesse uma salvação, sabe? Você me fazia bem, me fazia esquecer tudo e fazia me sentir especial. Mas Gold um dia me encontrou na porta da universidade e sabe-se Deus como, descobriu de você, me disse que se você descobrisse a verdade eu te perderia, pois você sentiria nojo de mim. Por mais que eu soubesse que você não era esse tipo de pessoa, eu tinha medo. Medo de te envolver nessa sujeira, de estragar sua vida, de te fazer perder a vida com alguém muito quebrada como eu. Por isso minhas crises, meus sumiços que sempre vinham depois que brigávamos e nos reconciliávamos, já que todas as brigas eram por você não querer nos assumir, por ser professora, mais velha e etc.. quando nos reconciliávamos, eu lembrava das palavras dele e me sentia egoísta, por isso depois que você finalmente colocou um ponto final na nossa história, porque eu era fraca demais para tomar essa decisão, eu fui embora para Paris, nem meus pais tinham meu endereço, morria de medo de Gold descobrir e ir até lá. Enfim, hoje eu sou a estranha da família, a suicida que fez tratamento com psiquiatra." Emma contou essa ultima parte mais tranquila e num folego só. Fitou Regina que tinha uma expressão indecifrável.
"Eu não sei o que te dizer!" Regina até tentou falar algo, mas estava chocada demais para isso.
"Não pense que eu simplesmente joguei a bomba no seu colo, eu só precisava te fazer entender que você não era o problema, mas eu não podia simplesmente inventar uma história, tive que te dizer a verdade. Não quero você se culpando por algo que a culpa toda é minha, por ser fraca, por ser egoísta e ter te enfiado na podridão que é a minha vida, eu só quero.." Emma não conseguiu terminar por que Regina simplesmente pulou nela a abraçando. Era como se a vida de ambas dependesse daquele abraço. Emma voltou a chorar compulsivamente se apertando naquele abraço e ouvindo Regina chorar junto com ela.
"Pelo amor de Deus, cala a boca garota!" Regina falou em meio ao choro e Emma sorriu ao ouvir a chamando assim. Era assim que Regina a chamava e ela detestava.
"Eu sinceramente não sei o que te dizer. Não vou nem entrar no mérito que você deveria ter se aberto comigo anos atrás porque talvez tudo piorasse pelo fato de nosso relacionamento ser cheio de altos e baixos, mas, eu não consigo nem imaginar o seu sofrimento porque eu sei que é uma coisa que você carrega até hoje. Eu deveria ficar feliz por você se sentir bem ao meu lado?" Regina falou um pouco confusa. Tinha as mãos de Emma em meio as delas e seus olhares estavam fixos um no outro.
"Sim, com certeza. Me desculpe por isso?" Emma falou com um sorriso fraco.
"Vamos esquecer isso. Mas eu só peço que se esses seus fantasmas voltarem a te assombrar, converse comigo, ou com alguém. Já que ninguém sabe da verdadeira história, talvez eu possa te ajudar, mesmo que seja para ficar em silêncio sem saber o que dizer. E quanto a essa história de ficar pedindo desculpa por isso, para com isso que você está me irritando garota!" Regina falou sorrindo e Emma revirou os olhos.
"Você nunca vai parar de me chamar assim? Não sou mais uma garota, já tenho 30 anos!" Emma falou limpando as lágrimas e rindo. Dessa vez foi Regina quem revirou os olhos.
"Ok EM-MA, tá bom assim?" — Regina perguntou rindo e Emma assentiu — "Sério, não sofra mais sozinha com isso. Por favor!" Regina pediu apertando as mãos da loira que ainda estavam entrelaçadas as suas.
"Tudo bem. Hoje em dia eu convivo bem com tudo isso. O encontrei duas ou três vezes em festas que meu pai deu de aniversário e fiquei bem na medida do possível. Aos poucos tudo vai se acalmando." Emma falou dando de ombros e então as duas ficaram em silêncio. Um silêncio nem um pouco incomodo para as duas que trocavam olhares intensos.
"Bem, eu tenho que ir. Acho que já está bem tarde! Você vai ficar bem?" Regina por fim se manifestou quebrando o clima, a troca de olhares e o contato das mãos.
"Sim!" Foi o que Emma conseguiu responder enquanto recuperava o folego daquela troca de olhares.
Emma acompanhou Regina até a porta e decidiu que a acompanharia até a portaria de seu prédio. No elevador trocaram apenas algumas palavras sobre algo que passava na TV.
"Se você precisar de qualquer coisa me liga, ok?" Regina falou e logo viu o olhar de dúvida em Emma.
"Se eu tivesse seu telefone professora, poderia até te ligar!" Emma falou provocando Regina que odiava ser chamada de professora.
"Insuportável como sempre! Espero que tenha memória boa porque eu só direi uma vez." Regina falou com seu ar superior, aquele que Emma amava e a fazia ficar com as pernas bambas. Passou seu número e tinha certeza que ela não guardaria, despediu-se de Emma apenas com um aceno de cabeça e saiu em direção ao carro. Antes de dar partida, ainda olhou mais uma vez para a loira que a observava e acenou um tchau.
Regina chegou em casa completamente estressada e tensa. Aquele tinha sido um dos dias mais difíceis para ela. A correria do trabalho, o primeiro dia de aula da nova turma, o reencontro com Emma, o jantar, o telefonema de Henry, o apartamento de Emma, as revelações... tudo o que ela queria era tomar um banho e se jogar na cama. E foi exatamente o que ela fez, saiu direto pro banheiro, tomou um banho bem quente e logo depois se jogou na cama, mesmo de cabelos molhados, não tinha forças nem para tirar o roupão, quanto mais secar os cabelos. Escutou o toque de seu celular na bolsa e quase quis morrer por ter que levantar, foi até ele e era uma mensagem de Emma.
"Professora, não duvide da minha memória. Anote meu número.
Boa noite e obrigada!
Beijos,
Garota"
Regina leu, releu e por fim deixou escapar um suspirou acompanhado de um sorriso enquanto se jogava na cama novamente.
"Ai Emma Swan, não acredito que isso esteja acontecendo!" Falou para ela mesma enquanto pensava em algo para responder para a loira.
"Vai dormir garota! Isso não é hora de criança estar acordada!
Boa noite, cuide-se!
Beijos,
Regina, meu nome é R E G I N A e eu não sou professora!"
Regina respondeu e então deixou-se levar pelo sono, resolveu dormir e por fim relaxar.
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