A New Chance
16 Capítulo 16 - Eu esperava compreensão!
Notas iniciais
Silêncio, era o que predominava naquela sala anexa ao velório. Ouviam-se alguns cochichos vindos da sala ao lado, juntamente com alguns sopros de preces pelo corpo sem vida exposto ali. Após a movimentação entre Elsa e a viúva de Gold, todos resolveram entrar para conversar. Terence, a viúva de Gold, decidiu conversar com Emma e Elsa, sobre tudo que estava acontecendo, embora não concordasse com nada dito por Elsa, ela aceitou uma conversa. A polícia aguardava do lado de fora, mas o delegado acompanhava aquela reunião.
“Muito bem! Vocês pediram uma reunião para explicar tudo, mas eu preciso levar adiante essa investigação.” O delegado dizia já sem paciência com toda aquela confusão.
“Eu preciso ficar com meu marido, passar as ultimas horas que me restam com ele!” Terence dizia desolada.
“Emma, pelo amor de Deus o que está acontecendo? Seja lá o que você tenha a dizer, diga depois!” Alice tentava arrumar toda aquela situação sem saber que nem a ponta do iceberg havia sido mostrada.
“Alice, deixe Emma falar!” Augusto falou com a voz um pouco mais alterada, não estava gostando de tudo aquilo.
David trocou um olhar com Emma, num sinal claro que estava ali, apoiando-a no que resolvesse fazer. Regina preferiu ficar afastada, sabia que sua desconfiança havia sido algo imperdoável e que provavelmente Emma estivesse muito magoada. Mordia os cantos da boca, apertava o vão da mesa que estava encostada e batia o pé descompassadamente. Talvez estivesse mais nervosa do que a própria Emma. Por ela, nada seria dito, talvez aquele não fosse o momento de Emma abrir o jogo, mas se bem a conhecia, Emma não deixaria Elsa pagar por um crime, injustamente.
“Bem, antes de começar, eu quero dizer que eu não sei exatamente o que aconteceu com Elsa, mas, eu imagino. E quando soube do ocorrido, digo, do que realmente aconteceu, eu decidi que seria a hora de contar a minha versão dos fatos. Não desse que resultou na morte de Gold, mas, de alguns fatos que ocorreram há alguns anos. Não foi fácil tomar essa decisão, porque falar disso é ter a certeza de que os meus fantasmas virão a tona e que eles estarão presentes todos os dias, reavivando minha memória. Por isso eu sumi, para tentar decidir com maturidade e comigo mesma, se eu iria me expor tanto assim.” Emma fez uma pausa e disse a ultima frase com mágoa, olhando fixamente nos olhos de Regina. A morena deglutiu, sentiu seu olho arder com as lágrimas se juntando no canto dos olhos. “Bom! O que eu tenho a dizer, é que Elsa não está mentindo quando diz que Gold abusou sexualmente dela, e que ela o matou para se defender!”
“Pelo amor de Deus! Eu não vou ficar ouvindo esses absurdos sobre o meu marido!” Terence levantou-se preparada para deixar a sala, mas David a impediu.
“Dona Alice, por favor, ouça o que Emma tem a dizer! Por favor, eu lhe imploro!” David pegou levemente no braço da viúva que decidiu ouvir tudo, ainda que contrariada. Trocou um olhar com Emma que a agradeceu com um aceno de cabeça.
“Estou aguardando senhorita Swan!” O delegado insistiu sem paciência alguma.
“Bem, como todos aqui sabem, o saudoso padre Gepetto era meu tio, e foi por conta dele que me tornei coroinha ainda menininha e também participava de bingos, festas beneficentes e etc... Como todos também sabem, Gold era o responsável e o grande incentivador desse tipo de eventos. Um dia, eu já tinha 14 anos e estava como líder das crianças ensinando uma coreografia para apresentação de natal, Gold me pediu ajuda com algumas caixas de mantimentos que haviam chego para doação, eu fui e ficamos sozinhos na igreja, numa das salas que ficavam as doações. Eu o ajudei com as caixas e percebi naquele dia que tinha algo errado, que ele me olhava de uma forma estranha. Ele veio com um papo que sempre prestava atenção em mim, que eu era uma menina muito bonita, principalmente agora que eu tinha um corpo perfeito e...” Fez uma pausa, tentando buscar ar, evitou olhar para todos, sabia que se olhasse para seu pai, perderia a coragem. “Bom, encurtando e sem entrar em detalhes, sim, ele me estuprou dentro da igreja. Eu gritava, implorava para ele parar, mas obviamente isso não aconteceu. Desisti de lutar e só pedia para Deus me ajudar a não sentir muita dor. No final ele olhou para mim e disse "Você sabe que se você contar para alguém, ninguém vai acreditar em você, né? Portanto te aconselho a ficar calada!" e saiu com um sorriso vitorioso me deixando completamente suja e ensanguentada naquela sala da igreja, me fazendo sentir a menina mais suja no local mais puro que se possa existir. Claro que não foi só uma vez, já que eu não contei para ninguém, porque ele tinha razão, ninguém acreditaria em mim, meu pai o admirava, era um de seus melhores amigos e vivia em casa. Seria uma cidade inteira contra mim. Assim como está acontecendo com Elsa. Os abusos se tornaram frequentes e minha alma ficava mais escura a cada dia. Ele continuou me estuprando durante anos e quando eu estava prestando vestibular, prestes a me formar, ele conseguiu o que queria. Eu engravidei!” Fez uma pausa para engolir o bolo que se formou na garganta e fechou os olhos ao ouvir seu pai soluçar após soltar um suspiro acompanhado de lágrimas. “Continuando... Por Deus, aquele bebê foi a pior notícia da minha vida. Ninguém sabia, eu fiz milhões de testes de farmácia, comprei tudo na cidade vizinha para ninguém ficar fofocando e todos eles deram positivo. Escondi durante três meses até que um dia enquanto ele me estuprava eu enjoei e precisei sair correndo e daí, claro, ele juntou os fatos, foi então que a pior parte de todas veio. Ele não me procurou durante um bom tempo e um dia me arrastou até a floresta daqui, quando eu cheguei tinha uma barra de ferro fina, com uma lança na ponta, um lençol estendido no chão e algumas amarras. Ele disse que acabaria com aquele problema.. Então, ele acabou com o problema, me estuprou com aquela lança com um papo de "Se você não se mexer muito, a lança só vai atingir onde eu quero", por Deus eu nunca senti tanta dor na minha vida, tanto física, como psicológica. Obviamente eu perdi o bebe e além de tudo o meu útero foi dilacerado, e por esse motivo, eu disse que poderia provar que Elsa estava falando a verdade...”
“Senhorita Swan, isso tudo são acusações vagas, a senhorita também pode ser presa.” O delegado mantinha uma voz autoritária, mas era visível sua surpresa com tudo aquilo.
“Sim, eu ainda não terminei. Enfim, ele foi embora e me deixou lá, sangrando e chorando de dor. Eu me desesperei porque eu não sabia o que fazer, eu precisava ir para um hospital, mas qualquer médico que me examinasse descobriria da gravidez e eu estava perdida. Até que um cara, que passava por ali, me ajudou e eu implorei para que ele me levasse para um hospital fora dali, por sorte ele tinha um irmão médico recém formado que trabalhava na cidade vizinha, ele me examinou e disse que eu precisaria operar, fiz uma cirurgia para tirar a placenta e reconstituir o útero e quando tudo acabou foi quando eu me desesperei pois meus pais tinham sido chamados já que eu era menor e Graham, o cara que me ajudou, não poderia assinar a minha alta. Ele conseguiu que o irmão escondesse o fato da gravidez, mas meus pais ficaram sabendo do útero dilacerado, e eu tive que inventar simplesmente que eu havia surtado e que não queria ter filho e por isso destruí meu útero. Embora, naquele dia eu tenha conseguido esconder a verdade dos meus pais, e fazer com que eles assinassem minha alta sem ler o prontuário, ele existe e conta tudo detalhadamente. Tive que fazer vários exames para que constasse no prontuário que tudo havia sido decorrente de estupro e sodomização. Por isso, eu posso provar que Elsa não está mentindo quando diz que Gold a abusava. Porque eu também fui abusada e sabe-se lá quantas meninas também não foram.”
O silêncio predominava naquela sala. Todos encaravam Emma com admiração, embora algumas pessoas estivessem horrorizadas com tudo que ouviram, todos estavam admirados. Aquilo era realmente um ato de coragem e de solidariedade. Emma não precisava expor aquilo, mas, fez tudo por Elsa.
“Senhorita Swan, eu sinto muito, mas como todos sabem, eu trabalho com provas e eu vou precisar de todas que a senhorita tiver e preciso também do seu depoimento, hoje ainda. E vou ter que levar Elsa comigo, mas só vou tomar o depoimento por enquanto.” O delegado continuava surpreso com tudo e tentava fazer seu trabalho da melhor forma, sem parecer insensível aquela situação. Era amigo da família há anos.
“Emma, eu não sei o que te dizer! Eu não imaginava que outra pessoa tivesse passado por isso que eu passei durante anos. Muito obrigada! Você está me salvando!” Elsa disse emocionada, abraçou sua prima que não conseguia dizer nada, apenas passou a mão por seu cabelo e sorriu em resposta. Elsa saiu acompanhando o delegado para que pudesse depor.
“Meu Deus, o que foi tudo isso? Eu não sei o que dizer! Eu... meu Deus, que horror! Eu fui casada com um monstro durante mais de trinta anos. O pior é ele ser mentiroso, se passar por bom homem e usar disso para calar as meninas que ele abusava! Meu Deus, o que eu fiz para merecer tanta dor?” Terence dizia com a voz sofrida, embargada por lágrimas que rolavam desenfreadamente por seu rosto. “Eu preciso de um tempo! Eu preciso digerir tudo!” Saiu apressadamente daquela sala, completamente desesperada com tudo que acabara de ouvir.
David apertava a mão de Regina que mantinha seus olhos fechados, chorando em silêncio com tudo que ela teve que ouvir novamente. Augusto mantinha-se na mesma posição, de costa para todos em silêncio. Alice tinha a mão no peito enquanto a outra repousava como um peso morto em seu colo.
“Me desculpem, eu não queria ter que contar assim, na verdade, eu nunca quis contar!” Emma disse encolhendo-se. Não haviam lágrimas em seus olhos, apenas preocupação com todos que ali estavam. Eram as pessoas que ela mais amava e que ela mentiu durante anos para não fazê-los sofrer. Mudou sua atenção completamente para seu pai, quando o viu vindo em sua direção.
“Me perdoa minha filha! Me perdoa! Me perdoa por nunca ter desconfiado de nada! Me perdoa!” O velho Augusto soltou o choro preso em sua garganta abraçando sua filha o mais apertado que podia
“Está tudo bem! Agora vai ficar tudo bem, eu sei que alguns dias turbulentos virão por aí, por essa escolha que eu fiz, mas, parece que agora, minha paz está se aproximando.
“Minha menina, eu não sei o que lhe dizer, eu só preciso que me perdoe por nunca ter desconfiado de nada e por ter te culpado quando tivemos que lhe buscar no hospital!” Alice disse com lágrimas caindo de seus olhos abraçando sua caçula ternamente.
“Vamos para casa! Vamos sair desse lugar!” David se pronunciou pela primeira vez, com a voz mansa e aliviada com tudo aquilo. Não largou da mão de Regina em momento algum. Ela permanecia em silêncio, não fazia questão alguma de esconder ou limpar suas lágrimas que caiam silenciosas.
~~X~~
Todos chegaram na casa dos Swan e reuniram-se na sala. Alice e Augusto logo foram para o quarto, a mãe de Emma estava um pouco indisposta e decidiu deitar um pouco. David ficou na sala com Emma e Regina, enquanto conversava com o delegado por telefone. Conseguiu que a irmã só prestasse depoimento no dia seguinte, para que pudesse descansar. Emma e Regina não trocaram olhares ou palavras durante o caminho. Emma não fazia questão alguma de buscar o olhar de Regina e quando fazia, deparava com os olhos da morena perdidos em qualquer canto, mas bem longe dela. Sentaram em lados opostos na sala e ambas prestavam atenção em David que falava no celular com o delegado.
“Consegui mudar seu depoimento para amanhã! Você descansa por hoje!” David disse alternando seu olhar entre Regina e Emma. “Bom, eu vou subir, porque vocês duas precisam conversar, qualquer coisa, estou no meu quarto!” Saiu após dar um beijo carinho na testa de ambas.
O silêncio desconfortável se fez presente entre as duas, um silêncio pesado, cheio de palavras mudas.
“Me desculpa!” Regina arriscou começar a conversa que ela tinha certeza que seria rápida. Tinha os olhos inchados e vermelhos, uma voz rouca, quase que inaudível.
“Só me responda uma coisa: Você realmente acha que eu teria coragem de matar alguém?” Emma perguntou a queima roupa.
“Emma...”
“Me responda!”
“Você sumiu caramba! Estava toda estranha e não me respondia o que eu te perguntava, se esquivava de tudo, o que você queria que eu pensasse?” Regina soltou um pouco mais alto, mas tentou manter seu tom baixo, para que ninguém as ouvisse.
“Eu esperava compreensão, era o mínimo! E você ainda quer que eu te perdoe?” Emma tinha lágrimas nos olhos, mas fez questão de não deixa-las cair.
“Eu sei, talvez se eu estivesse no seu lugar, eu não perdoaria também!” Respirou fundo afim antes de continuar. “Eu vou voltar para Boston e lá conversamos melhor.” Saiu em direção ao quarto, sem dar chance de Emma lhe responder, mas talvez, Emma não quisesse lhe responder ou impedir.
~~X~~
Regina voltou para Boston logo após arrumar suas coisas, David ainda tentou convencê-la a ficar, mas ela sabia que se ficasse tudo iria piorar. Pegou o primeiro ônibus, e no caminho escreveu um email, que ela tinha certeza que mudaria o rumo de sua vida.
"De: Regina Mills
Para: Emma Swan
Garota, não existe outra forma para eu começar esse email, a não ser dizendo que eu estou muito orgulhosa de você! Você não tinha obrigação nenhuma de fazer tudo o que você fez, mas, você fez, para ajudar outra pessoa. Essa é a menina que conheci há dez anos atrás. Quando eu te pedi desculpas mais cedo, foi um pedido de perdão vago. Eu estava pedindo desculpas por desconfiar de você, e isso realmente me magoou e talvez eu não vá parar de me martirizar tão cedo, mas, eu também estava pedindo desculpas por não cumprir o que eu te prometi. Eu simplesmente não consigo suportar tudo isso, não agora, não assim tão próximo de mim. Eu sei que eu não vou conseguir te ajudar e que na primeira oportunidade eu vou te afastar e me afastar. Eu tenho meus próprios fantasmas, lembra? E talvez esse peso seja demais para mim!
Me perdoe por não ser completamente sua!
Me perdoe a ausência!
Fique bem e encontre alguém que te faça bem!
Regina"
Ao contrário do que Regina imaginou, a resposta de seu email veio rápida, como um corte de foice.
"De: Emma Swan
Para: Regina Mills
Eu achei que você pudesse me mostrar o amor, e como suportar e dividir a dor, mas me enganei, novamente, se não me falha a memória!"
Talvez Emma tenha razão.
Talvez Regina tenha razão.
Mas quem um dia irá dizer que não existe razão nas coisas feitas pelo coração?
“Nossas dúvidas são traidoras e nos fazem perder o que, com frequência, poderíamos ganhar, por simples medo de arriscar.” William Shakespeare
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