A Negociada

6 Capítulo 5 - Um rei de enfeite


Notas iniciais
Oi meus amores, amoras, e fantasminhas camaradas ♥ Cap. quentinho, pra distrair o fim de semana de vcs (me deem crédito por postar duas vezes na semana ) Meu amorzinho que narra esse cap, espero que gostem ♥
Bem-vindo à sua vida. Não há volta. ─ Everybody Wants To Rule The World, Tears for fears

Não consigo fazer minhas mãos pararem de suar e tremer. Hoje em especial, tudo parece me incomodar­ ­─ meu próprio quarto, meu próprio espelho gigante que exibe o reflexo de um rapaz magricelo e alto demais, enfiado num terno chique verde musgo, meus próprios dedos, compridos demais.

Ruth me garantiu durante as provas, que eu estava elegante o suficiente para a coroação e que eu não me sentiria desconfortável com o tecido lustroso, e que a cor realçava o quase verde dos meus olhos, mas não sinto assim, me sinto uma serpente gigante com cabelo cacheado.

Logo terei de descer pra que os rituais se iniciem, e por mais que tenha ensaiado cada passo, tenha cada gesto minuciosamente gravado na memória, sinto meu estômago revirar num enjoo de ansiedade.

“Talvez, se eu sorrir, consiga disfarçar meu desconforto”, penso comigo mesmo, e faço o rapaz do reflexo exibir um sorriso largo. Os dentes da frente levemente separados praticamente saltam à vista, e imediatamente mudo de ideia, voltando a ficar sério.

Tudo parece errado. Eu pareço errado. É óbvio que não estou pronto para assumir as responsabilidades de reger um país, mas, por mais que tenha medo, meu coração diz que devo lutar com tudo que tenho para assegurar meu poder, e conseguir destruir o conselho usurpador. Mesmo que a rainha esteja lutando por nossa família, não posso deixa-la sozinha, afinal, cuidar dos Schreave é minha responsabilidade agora como o homem da família.

Esforço-me para manter o senso de dever em minha mente para servir de motivação, tomo fôlego, e desvio o olhar do rapaz medroso do espelho. Ele não é eu. Eu sou mais forte. Eu sou o rei.

♣♣♣

A missão principal havia sido cumpria. Eu caminhei até lá, ouvi as palavras, fiz os juramentos, ouvi minha voz ecoar por todo o salão cheio de pessoas poderosas do meu país e de fora, caminhei com o manto, o cetro e a pesada coroa, e me sentei no maldito trono, como devia ser.

Depois, acenei cordialmente para centenas de pessoas, posei para fotos e mais fotos, conversei com políticos, e tentei não apertar o pescoço de cada membro do conselho que dirigiu o olhar triunfante para mim, beijei as mãos das senhoras fúteis.

Agora, finalmente estou autorizado a me divertir, dançar e comer. Mas, na realidade, tudo o que mais desejo é poder voltar para meu quarto e pôr a cabeça sobre o travesseiro. E nem isso será possível, já que ainda hoje tenho de tomar posse dos aposentos do rei.

Sento-me na mesa destinada à minha família, vazia no memento exceto por mim. Encaro os pratos finos, algumas das minhas comidas favoritas, especialmente escolhidos por Ruth, e me sinto incapaz de dar uma garfada.

Obviamente não tenho experiência com coroações, mas algo me diz que eu deveria estar um pouco mais animado. Pode ter a ver com o fato de meu pai ter morrido há apenas uma semana e eu ter quase certeza que o conselho teve envolvimento com sua morte. Ou o fato de ser um rei apenas de enfeite. Ou talvez seja porque eu me sinto extremamente desorientado e sozinho.

─ Allen querido, venha dançar comigo. ─ a rainha chama sorridente, com o belo cabelo negro caindo em ondas perfeitas por suas costas, e uma bela tiara dourada presa no alto da cabeça.

Apesar da aparente amabilidade, sei que recusar sua ordem não é uma opção. Levanto-me, fazendo um esforço extra para parecer natural neste momento que deve parecer bonito para os expectadores curiosos.

A música começa, um ritmo calmo e apropriado para nós dois, e começamos a nos movimentar de acordo, ela mal me deixando conduzir.

─ Quero que saiba que estou bastante satisfeita com seu desempenho esta noite. ─ diz ela.

É isso. É o mais próximo de um elogio que ela é capaz de chegar, e isso me irrita. Me irrita ainda mais seu sorrisinho constante, sempre com os lábios virados para cima em sinal de cortesia. Nunca uma gargalhada, nunca mostrando os dentes espontaneamente. Como se o rosto dela estivesse grudado nessa máscara perpétua que beira a perfeição.

Deixo escapar um som de desdém.

─ Sei que seu pai era muito mais entusiasmado em ocasiões assim, e que ele riria e lhe abraçaria, mas acredite quando digo que estou orgulhosa de você hoje.

─ Hoje. ─ repito como um eco.

─ Ora, vamos! ─ ela se permite um revirar de olhos ─ Está soando implicante e sensível exatamente como sua irmã.

─ Que pecado, não? ─ giramos no meio do salão ─ Parecer com a minha melhor amiga.

─ Allen, ─ ela me encara, seriamente desta vez ─ entendo que crescer num palácio é em parte solitário, e que vocês encontram um no outro um aliado, mas agora você tem responsabilidades sérias. Não permita que sua irmã o influencie.

A música ainda está no meio, mas não suporto ficar nem mais um segundo escutando a velha ladainha de minha mãe. Tento me desvencilhar, mas ela crava as unhas no meu ombro e em minha mão, tornando impossível uma saída discreta.

─ Não se atreva a me deixar no meio do salão como uma tola. ─ ela volta a sorrir ─ Bem, eu estava esperando para lhe contar amanhã, mas talvez a notícia ajude a melhorar seu humor arisco.

Não digo uma palavra, apenas me concentro em nossos passos e em controlar minha respiração.

─ Acontece que o senhor Thorne irá comunicar oficialmente, ainda essa semana, sua renúncia ao cargo no conselho interno do rei. ─ ela comenta, após meu silêncio.

É impossível esconder minha incredulidade. Edmus Thorne está no conselho desde o inicio do reinado de meu pai, e é um dos homens mais poderosos de Illea. Não consigo imaginar nada que o fizesse abdicar da posição especial que o cargo lhe oferecia, ainda mais agora, quando o poder em suas mãos estava crescendo a cada dia.

─ Como conseguiu? ─ pergunto, tendo perfeita consciência que algo assim só seria possível com um plano muito bem elaborado e uma moeda de barganha muito poderosa.

─ Oh querido! Quer mesmo saber? ─ ela levanta uma sobrancelha inquisidoramente. Penso um pouco e fica claro.

─ Não, na verdade não.

─ Agora um assento está vazio por desistência, e como rei, tem o direito de escolher alguém para substituí-lo. É um dos poucos poderes que tem com os conselheiros sendo regentes, e é necessário escolher com cuidado, alguém de confiança, e...

─ Você. ─ respondo imediatamente, a cortando.

Ninguém defenderia os interesses da família como a rainha, e ninguém tem o poder ou o conhecimento que ela possui para me ajudar a combater o conselho. Mesmo não sendo minha companhia favorita, é o sensato a se fazer. Ela assente, como se já esperasse essa decisão.

A música termina, e começamos a nos retirar, ela para cumprimentar algumas pessoas que já estão indo embora, e eu para a mesa da família, onde agora Ruth e Cecile estão sentadas, massageando os pés doídos de tanto dançar. Ao menos alguém está se divertindo.

Avisto um guarda em especial, em seu terno de gala, parecendo extremamente desconfortável.

─ Guarda William Texas! ─ ele se curva em silêncio, parecendo ainda mais incomodado por ter sido notado ─ vejo que a prisão não lhe arrancou nenhum pedaço.

─ Allen, você está sendo desagradável. ─ Ruth me lança um olhar de repreensão ─ Venha, dance comigo! E talvez possa lhe perdoar por me ignorar a noite inteira.

Suspiro, sabendo que protestar será em vão. É incrível como as mulheres dessa família aparentemente sempre conseguem o que querem. Nos posicionamos, e uma valsa começa.

─ Se divertindo com seu novo guarda costas enquanto o outro está no conserto? ─ ironizo.

─ Isso não é engraçado. ─ ela estapeia meu ombro ─ Sabe que tenho North como um amigo!

─ Mesmo após de ele ter sido desrespeitoso a ponto de merecer a perda permanente de sua posição no castelo?

─ Amigos podem se perdoar, sabia? ─ ela pergunta retoricamente.

─ Você se apega demais à criadagem.

─ O suficiente para garantir que serei bem servida. ─ ela sorri, confiante ─ Seu guarda costas, sabe o nome dele?

─ Não ao certo. ─ confesso ─ Acho que começa com F...

─ E acredita que “F” levaria um tiro de bom grado por você? ─ ela levanta uma sobrancelha, igualzinho a rainha fizera mais cedo. Sorrio e sacudo a cabeça ─ Foi o que pensei.

─ Acha mesmo que eu acredito que você não nutre nenhum carinho por eles? ! Por favor, irmãzinha, logo comigo que sei que você tem um coração gigante? ─ ela faz uma careta aborrecida. Ruth sempre detestou demostrar fraqueza, especialmente quando se trata das pessoas que ama.

─ Allen irmãozinho! ─ ela dá aquele risinho travesso de quando está dizendo algo que não deve, encerrando o assunto anterior ─ Todas as moças do salão estão caidinhas por você! Já estou ficando com ciúmes.

─ Não se preocupe Rue, ─ a conduzo para girar, como a música pede ─ elas estão caidinhas por minha coroa, não por mim.

─ Não diga uma coisa dessas, você é a pessoa mais maravilhosa que conheço! ─ ela se inclina para trás graciosamente no ritmo da canção ─ E está especialmente bonito hoje.

─ Pareço uma serpente gigante com cabelo cacheado, isso sim. ─ digo em voz alta as palavras que estive guardando a noite inteira.

─ Então, por favor, não me morda. ─ ela ri, ignorando minha declaração de desconforto ─ O fato é que, hoje você atravessou a delicada linha que existia entre ser um rapaz, e ser um homem. E eu não poderia estar mais orgulhosa de lhe chamar de meu irmão.

─ Não me sinto um “homem”, mas obrigado mesmo assim. ─ suas palavras são bem vindas, aquecendo meu peito e dando uma sensação gostosa de segurança, algo que só Ruth é capaz de me fazer sentir. A única outra pessoa que possuía essa habilidade nos deixou uma semana atrás.

─ Ele também estaria orgulhoso. ─ ela balança a cabeça afirmativamente após um giro, como se pudesse ler meus pensamentos. Também afirmo com a cabeça e ficamos em silêncio por alguns segundos.

─ A rainha está fazendo um ótimo trabalho com o conselho. ─ comento ─ Sinto que logo terei plenos poderes. O problema é, como vou administrar tanto poder assim?! É uma responsabilidade que pode virar uma maldição se lidar do jeito errado.

─ Mas é para isso que o conselho serve afinal. ─ ela se inclina mais uma vez ─ Quero dizer, um conselho de verdade, um em que se possa confiar.

─ Tem razão. ─ concordo.

─ Eu costumo ter. ─ ela pisca, sem tom de brincadeira, e depois sussurra ─ Sobre aquilo que havia me dito sobre o conselho e o papai... Há alguma novidade em suas investigações?

─ Ainda não, ─ a raiva que me toma faz meus olhos arderem, mas sussurro em resposta ─ acho que é muito cedo, e se minhas suspeitas estiverem corretas, ainda estão em estado de alerta, dificilmente darão algum deslize. Meu palpite é que com o tempo saberemos, se nos mantermos atentos aos detalhes.

─ Tudo bem. ─ ela tenta encerrar o assunto, mas ainda há algo que quero lhe dizer.

─ Eu te juro Rue, que se eles mataram nosso pai, irão sofrer. Juro pelo meu sobrenome, pelo meu sangue, pela minha honra. Minha promessa não pode ser quebrada. O que foi dito não pode ser esquecido, o que foi feito não pode ser anulado. Minha promessa é meu fardo até meu último suspiro. Eles vão pagar.

Notas finais
Gostaram? Espero que sim. Querem conhecer alguns personagens de A Negociada? Cliquem nos links correspondentes ♥ Ruth- https://66.media.tumblr.com/25b49b9b422bccce1fe3412ba140b618/tumblr_o9p6cbstP81u2vrp1o4_400.jpg Allen- https://65.media.tumblr.com/5e5a0bfdc26cd06ec012cfcad1359762/tumblr_o9p6cbstP81u2vrp1o2_500.png A rainha- https://65.media.tumblr.com/78a52ff6c42caaac64fc1f74ecb21ccf/tumblr_o9p6cbstP81u2vrp1o5_250.jpg Cece- https://67.media.tumblr.com/3c950413447b778d2cd10edc26adef9d/tumblr_o9p6cbstP81u2vrp1o3_400.jpg North- https://67.media.tumblr.com/91c6fa1013f968d7b1e0bb4ae467b400/tumblr_o9p6cbstP81u2vrp1o6_1280.jpg Texas- https://66.media.tumblr.com/724600db916b5f7341438f38c0d06ce7/tumblr_o9p6cbstP81u2vrp1o7_400.jpg E é isso aí amores ♥ Espero suas opiniões ok? Kisses ♥
Este é o último capítulo disponível... por enquanto! A história ainda não acabou.