A Máscara

12 Capítulo 12 - Rendição.


Notas iniciais
É mais fácil obter o que se deseja com um sorriso do que à ponta da espada.

Durante o tempo em que fiquei na casa de Raleph, Suzanne me fez companhia sempre que possível e tínhamos conversas divertidas e agradáveis.

Frequentemente me falava sobre a aliança, de quão bem organizados estavam. Visto que os membros eram mais fracos que os vampiros, fabricavam armas específicas para aniquilar as criaturas, fazendo uso da mais avançada tecnologia.

Falou-me sobre os artifícios que usavam para identificar um tótem, e de como conseguiam se apossar dele.

Percebi que era um grupo composto por pessoas inteligentes, unidas e corajosas. Conner não estava brincando quando disse que havia humanos extremamente perigosos que os perseguiam.

Belphegor não voltou a me visitar. Não sei dizer se sua ausência me fez bem ou não. Talvez não estivesse preparada para estar face a face com meu pior tormento nos últimos dias.

Ainda me recuperava do seu ataque de fúria e estava em luto por Conner.

Provavelmente tinha mudado de ideia quanto a sermos amigáveis um com o outro. Como ele mesmo havia dito, eu era dele, e isso em si era o suficiente.

Eram claras as evidencias de que Bel não se importava com nada além dele mesmo, não levando em conta isso me iludi achando possível que nutrisse alguma estima por mim, por menor que fosse. Saber que minha integridade física e meus sentimentos não significavam absolutamente nada pra ele era dolorido. Fiz o possível para não pensar no assunto. Nunca imaginei que um amor não correspondido pudesse ser tão indigesto.

Depois de algumas semanas senti minha saúde se restabelecer.

Suzanne ajudou com meu humor, me distraindo sempre que estávamos juntas. Infelizmente eu comparava sua presença reconfortadora com a de Conner e isso me deprimia secretamente.

Numa tarde enquanto almoçávamos juntas, alguns assuntos que estavam enterrados, até então, vieram à tona.

— Tenho uma boa noticia para você — me informou, sorrindo escancaradamente. Sorri de volta, ansiosa, afinal boas noticias não era algo frequente. — Ontem, sem querer, ouvi uma conversa entre Belphegor e Raleph. Ele disse que havia mandado um grupo de servos fazer a proteção da casa de seus pais. Estão monitorando a região para que nada aconteça a eles — provavelmente minha fisionomia demonstrou meu alivio. Minha família era um dos motivos das minhas muitas preocupações. Não sabia o que Bel pretendia com essa atitude, mas além de me surpreender, me agradou.

— Isso tira um peso das minhas costas — confessei. — Espero que esse grupo seja o suficiente para garantir a segurança deles.

— Acho que é mais do que o suficiente. Provavelmente a atenção dos inimigos de Bel não está voltada para sua família — ela tinha razão, mas de qualquer forma fiquei grata com a iniciativa.

— Não que eu saiba o que se passa na cabeça daquele vampiro — prosseguiu Suzanne. — Mas posso apostar que está com remorso por ter te machucado.

Gargalhei. O que outrora me encheria de esperanças, no momento me parecia cômico.

— É sério — insistiu a carniçal. — Ele anda me fazendo muitas perguntas a seu respeito.

Não queria entrar em pormenores. Queria ser capaz de ignorar o comentário e encerrar o assunto, mas fui vencida por minha curiosidade.

— Que perguntas? — tentei manter a casualidade, dando de ombros.

— Se você está melhor, se fala nele, se reclama por sua ausência, se está se alimentando, o que anda fazendo para se distrair... Esse tipo de coisa.

— Quais suas respostas?

— Sou sincera, Clarice. Digo que está se recuperando a olhos vistos, mas que não fala nele em momento algum — um sorriso vitorioso se instalou em meus lábios. Isso devia o aborrecer de algum modo. Declarei minha paixão por ele há pouco tempo, contudo devia estar convencido de que suas ações tinham acabado com minha quedinha besta.

— Fez bem.

Pensei por um instante no que Suzanne havia dito. Ela ouviu uma conversa entre os príncipes, quem sabe tivesse visto Conner sendo aniquilado por Bel ou por seus servos? Eu precisava saber o que havia acontecido, de fato, a ele. Era muito provável que estivesse morto, mas como eu poderia ter certeza? Belphegor tinha muitos assuntos para se preocupar e talvez tivesse deixado Conner preso para resolver o caso posteriormente. Mais uma vez, tentei parecer despretensiosa:

— Imagino que esteja acostumada a ver vampiros morrerem, quero dizer, tecnicamente já estão mortos, mas vocês da aliança os matam definitivamente, certo?

— Vi algumas vezes — ela piscou confusa com a brusca mudança de assunto. — Não é uma coisa bonita de ser ver — completou.

Lembrei-me da morte da linda vampira loira no apartamento de Conner em Zurique. Suzanne tinha razão, não era uma das minhas melhores lembranças.

— Sabe de algum vampiro que foi aniquilado recentemente? — prossegui com meu interrogatório.

— Clarice, não tenho mais contato com os membros da aliança.

A ruiva respondeu como se minha capacidade de raciocínio fosse questionável, com minha excessiva inocência.

— Digo, — me corrigi. — vampiros também matam vampiros. Algum morreu aqui, por esses dias?

— Não que eu tenha visto — ela ainda parecia desconfiada.

— Ouviu falar? — teimei.

Suzanne me analisou como se quisesse entender a motivação por trás das minhas perguntas. — Com quem está preocupada? — me pegou.

— Tenho um amigo que foi capturado. Acho que o mataram aqui, no dia em que Belphegor me atacou.

Era a primeira vez que tocava no assunto. Já sofria sem dizer em alta voz, no entanto falar sobre isso era a confirmação de que jamais o veria. Isso me atingiu como um martelo contra o prego. A violência da sensação me arrancou lágrimas dos olhos. Ele realmente me faria muita falta.

A ruiva me abraçou, compadecida. Ficou me consolando sem nada dizer, apenas afagava meus cabelos com ternura. Só decidiu falar quando me recompus.

— Um amigo vampiro? Não sei de que planeta você veio — brincou.

— Nada é impossível quando se trata de mim. Se sou um tótem humano, então posso ter um amigo vampiro, na verdade, sou casada com ele — zombei. — E nos casamos escondidos, por isso foi capturado.

— C – a – s – a – d – a? — Suzanne estava perplexa. Assenti.

A ruiva ficou pensativa até perguntar:

— Ele era servo de Belphegor e se casou com você na ausência dele? — a carniçal parecia juntar peças de um quebra cabeça imaginário.

— Sim — ela gargalhou. Não compreendi.

— Você deve ser mais do que um tótem humano — considerou. — Por que cargas d’agua esse vampiro faria isso? O que não sabemos?

— Não sei o que não sabemos — continuei mantendo o tom de brincadeira.

Ficamos em silêncio por um tempo. Suzanne ainda confabulava a respeito do meu casamento. Quando achei que não voltaríamos a tocar no assunto ela recomeçou.

— Acho que seu marido não foi exterminado.

Tive um sobressalto. Como isso seria possível? Antes que eu perguntasse ela passou a explicar:

— Para cada crime humano existe uma sentença. Alguém que rouba um produto no super-mercado não tem a mesma pena que um assassino em série. O mesmo se dá no caso dos vampiros. Naturalmente são punidos com a segunda morte, a definitiva, mas depende do tipo de delito que cometem. Se foi um insulto, perjúrio, são aniquilados prontamente. Se for algo mais grave, como afronta a alguma autoridade, podem ser amarrados ao sol, para ter uma morte mais dolorosa. Entretanto, quando se trata de traição crassa, aí são petrificados pela estaca e deixados para morrer de fome. É a mais angustiante morte, o vampiro pode levar décadas definhando antes de virar pó. Pelo que disse, o último caso se aplicaria ao seu amigo. – meu coração transbordou de esperança. Conner poderia estar vivo? Se é que vivo se aplicava no seu caso.

— Se ele estiver paralisado pela estaca e faminto, pode ser salvo? – não escondi minha empolgação.

— Sim. Mas, para isso alguém teria que desafiar a autoridade de quem condenou a criatura. Quem seria tão idiota a esse ponto? — eu seria.

— O que é preciso pra salvar alguém nessas condições?

— Teria que arrancar a estaca do peito do infeliz e dar sangue humano a ele — a carniçal me olhava com descrença.

— Será que ele está em algum lugar desse casarão? Onde seria o lugar ideal aqui para manter alguém preso?

— Não sei. Talvez no porão. Estive lá algumas vezes. É um lugar escuro que abriga velharias, antiguidades que alguns vampiros gostam de acumular. Seria um bom lugar para isso.

— Preciso ir até esse porão — pensei em voz alta.

— Não posso permitir que saia desse quarto, isso desagradaria Raleph.

— E se eu saísse por um “acidente”? — tentei.

— Que acidente?

— E se eu aprendesse a destrancar uma fechadura. Que culpa você teria?

Tentei convencê-la.

— Como faria isso?

— Você poderia me ensinar — sugeri.

— Não sei fazer isso — ela voltou a falar de forma piedosa com minha limitada capacidade mental.

— Suzi, você tem acesso à internet. Tenho certeza que explicam passo a passo. É só aprender e me ensinar. Simples assim! Isso não é do interesse de Raleph, só de Belphegor e você não deve nada a ele.

— Tudo bem! — rendeu-se. — Vou pesquisar sobre isso na internet. Mas por favor, não me comprometa, Clarice.

— Não vou! — estava sorrindo e contente.

No dia seguinte, Suzanne me trouxe a refeição, junto com ela um garfo quebrado, havia só um dente nele, também grampos de cabelo.

Depois do almoço fomos praticar os conhecimentos que ela adquiriu na fechadura da porta do banheiro.

Suzanne trancou a porta com a chave e me mostrou como destrancá-la com os objetos. Depois da explicação, foi minha vez. Admito que foi muito cansativo e bem mais complicado do que imaginava, mas consegui e mal pude controlar meu contentamento. Parecia uma criança que andou sozinha na bicicleta pela primeira vez.

— Pois bem... — disse a ruiva — Caso seja pega, vai dizer que aprendeu isso na TV. Dirá que esses grampos eram seus e que você quebrou o garfo.

Ela parecia preocupada com o que eu faria.

— Outra coisa, só sairá desse quarto lá pelas 4 da manhã. Nesse horário os vampiros costumam sair para caçar, provavelmente a casa vai estar mais vazia. Esconda-se, não deixe que te peguem.

— Tudo bem! — concordei. Estava ansiosa para que chegasse a madrugada.

Agi normalmente durante todo o dia. Às 21 horas estava deitada em minha cama, ansiosa demais para dormir.

Os objetos estavam embaixo do meu travesseiro, eu só esperava que chegasse o horário para que eu pudesse destrancar a porta.

Olhei para o relógio de parede que marcava 2:30 da manhã. Talvez minha inquietude fizesse com que eu me adiantasse.

Foi nesse momento que a porta se abriu. Sentei-me na cama, puxando o edredom para cobrir minha fina camisola de seda.

Bel acendeu as luzes.

Meu coração parecia que saltaria do peito. O que ele estava fazendo aqui? Havia dias que não aparecia. Tinha descoberto meu plano? Torci para que minha fisionomia não me denunciasse. Dessa vez ele me mataria.

— O que faz acorrdada uma horra dessas? — perguntou o vampiro, desconfiado.

— Insônia — tentei convencê-lo, sem o encarar. Bel era a última pessoa que eu queria ver agora. — E você, o que faz aqui há essa hora? — quis que meu tom deixasse claro o quão desagradável ele estava sendo.

— Prrecisamos converrsar — o príncipe se aproximou e sentou-se na cama. Senti um calafrio percorrer minha espinha, o que ele queria comigo? Boa coisa não podia ser.

— E não havia hora mais apropriada, imagino — ironizei. Ele não se importou em ser inconveniente.

Ficou em silêncio por um tempo. Não ousei interrompê-lo, deixei que encontrasse as palavras.

— Clarrice, eu só querria que me entendesse — suspirou.

Imaginei que estivesse curada dos efeitos que ele causava em mim depois dos acontecimentos recentes, entretanto a visão dele, sem jeito, na minha cama, fez minhas mãos transpirarem. Desviei o olhar para não ser enfeitiçada por sua beleza inumana.

— O que posso fazer? Nóm sou um bom rapaz — completou.

— Vá logo ao ponto — disse impaciente. Olhei para o relógio inconscientemente. Arrependi-me por ter feito isso. Temi que ele desconfiasse de alguma coisa.

O silêncio tornava-se incomodo quando ele disse:

— Tenho sentido sua falta — encarei-o descrente. Preciso confessar que essa declaração me atingiu como um soco no estômago. Não estava preparada para ouvir isso dele, mesmo sabendo que não era verdade.

Coloquei uma mecha do meu cabelo atrás da orelha, demoradamente. Usei o gesto para ganhar tempo e me livrar da sensação de ter ouvido isso.

Ele ficou em silêncio e prestava atenção a minha reação. Devia estar deliciado ao ver que ainda conseguia me perturbar com seus joguinhos. Tentei formar uma frase ríspida para respondê-lo, mas não fui capaz. Engoli a seco e sorri, demonstrando que acreditava tanto nessa afirmação quanto no Papai Noel.

Quando percebeu que eu não diria nada, prosseguiu:

— Nóm há justificativa parra o que eu fiz a você, mas acrredite que nóm querria machucá-la. Perrdoe-me por isso. Perrco o limite da forrça quando estou zangado e já sabe como tenho dificuldade em contrrolar meu gênio. Por favor, Clarrice, nóm me castigue, minha consciência já tem feito isso. Lamento nóm poder prrometer que isso jamais voltarrá acontecer, mas te peço novamente que evite me prrovocar— fez uma pausa para analisar minha expressão. Tinha toda minha atenção, porém não me comovia ou cativava com sua cena teatral.

— Todos esperravam que eu fizesse alguma coisa. Você me desmorralizou. Desejei que se calasse parra que eu nóm tivesse que chegar ao ponto em que cheguei, mas nada te fazia calar. Devia me obedecer. Se fizesse como eu digo, terria tudo comigo, tudo — apesar de tentar manter o tom gentil, doce, sua voz começou a se elevar no final do discurso. Quando notou que isso acontecia parou de falar e massageou as têmporas, respirando profundamente, tentando manter a coisa leve. Era difícil para ele se conter.

Parecia tenso.

Assim que me encarou tinha uma expressão serena. O azul dos seus olhos parecia a calmaria depois de um maremoto. Era impressionante a paz repentina que se instalou nele.

Minha respiração já estava irregular bem como as batidas do meu coração. O que ele queria afinal? Me enlouquecer? Quão idiota ele me julgava ser? Tudo tinha um limite e já tínhamos alcançado o nosso. Era idiotice continuarmos nos torturando dessa maneira. A distância entre nós era a melhor solução, a mais cômoda para ambas as partes.

— Bel, deixe as coisas como estão. Sou sua, lembra? O que mais pode querer? O que mais posso te oferecer? Estou aqui, não estou? Quanto menos contato tivermos mais saudável será, pelo menos para mim. Não temos que ser amigos, amantes, colegas... Não precisamos nos tolerar. Estou onde você quer que eu esteja. Não posso fazer nada a esse respeito. Você venceu — não estava nem próxima de acabar, mas Belphegor enrugou a testa enquanto eu falava e olhou para o chão. Parecia-me tão... Triste. Senti uma vontade urgente de confortá-lo. Quase acaricie sua face. Tive que segurar minhas mãos para que não me traíssem.

Não consegui completar meu discurso. Eu era muito idiota em me preocupar com os possíveis sentimentos dele, se é que tinha algum. Cogitei a possibilidade de pedir que saísse do quarto, era mais fácil quando não tinha que encará-lo, mas não pude. Ele me daria às costas, me deixando dias sem vê-lo novamente, perturbada com a conversa mais intensa que tivemos até o momento. Simplesmente me calei. Fugir dele seria a solução mais fácil, mas não a mais esclarecedora. Gostaria que ele lesse em meus olhos o quanto queria que concordasse em mantermos distância um do outro.

Ser arremessada contra uma parede, ser mordida por um ancião, nada disso me machucava tanto quanto nosso jogo de gato e rato. Ser perseguida por vampiros ensandecidos, por caçadores implacáveis não me assustava tanto quanto esse par de olhos claros, rasos como uma piscina e profundos como o oceano.

— Nóm querro que seja assim. Podemos ter uma convivência pacífica, basta nos adaptarmos. Você só prrecisa relevar meu jeito rude e eu a sua imperrtinência — sorriu satisfeito, achando que eu concordaria em fazer mudanças para satisfazer seu desejo egoísta.

—Bem, — me recostei à cabeceira da cama, puxando o edredom comigo, mantendo meu corpo oculto por baixo dele. — se assim quiser, majestade, o que posso fazer? Mesmo que essa não seja minha vontade, pode impor sua presença para que mantenhamos convivência. O que decidir, será feito.

O vampiro comprimiu os olhos e os lábios, me encarando de um jeito insatisfeito. Inclinou-se diminuindo a distância entre nossas faces, talvez para me intimidar com seu rosto perfeitamente esculpido a centímetros do meu.

— Entóm tenho que impor minha presença, pois ela nóm te agrrada? — apesar de tentar manter seu tom casual, não pode esconder o ressentimento na pergunta.

— Desde quando minha vontade importa, meu Senhor? Que a sua seja feita, a cima de qualquer coisa — Bel agarrou meu pulso, me fazendo afundar na cama. Estava com medo que fosse me machucar outra vez, ele deve ter visto o susto em meus olhos e afrouxou os dedos, por fim me soltou. Havia confusão em sua expressão.

Parecia pesaroso por minha atitude.

Saltei da cama imediatamente quando me vi livre, tentando manter uma distância confortável.

Não imaginei que ficaria traumatizada dessa forma, mas estava. O príncipe parecia arrasado com minha ação.

Ficamos em silêncio até alguns minutos além do constrangimento. Belphegor permanecia sentado estático e eu respirando com urgência, longe dele.

Quando falei, minha voz estava fraca pelo choro que reprimia.

— O que quer afinal? Não disse que eu precisava ser menos insolente para socializarmos? Estou sendo tão submissa quanto gostaria que eu fosse, realizando passivamente seus caprichos, te aceitando como a autoridade suprema.

Como num passe de mágica ele se materializou a minha frente, segurando meus ombros para que eu não me afastasse. Estremeci de pavor.

— Entóm, humildemente me retifico. Nóm tem que mudar nada. Continue sendo a mesma Clarrice boba, ingênua, atrrevida e tola — segurou meu queixo, me obrigando a encará-lo. — E continue me temendo, mas nóm a ponto de fugir de mim — desviei meu olhar do dele, estavam muito intensos. Ainda me sentia desconfortável sentindo sua mão sobre meu corpo. A impressão que eu tinha é que poderia me rasgar como papel, e podia.

Bel percebeu como estava incomodada e me soltou. Espiava-me com o canto dos olhos, tentando decifrar meus gestos.

— O que houve com a paixóm que disse sentir por mim? E a parte do me possua? — rimos juntos com a lembrança.

— Você sabe como os seres humanos são volúveis. Nos iludimos e desiludimos. Nos encantamos e desencantamos. Faz parte de nosso espírito frívolo — sorri, sendo um pouco mais natural, agora que tinha certo espaço entre nós.

Mais uma vez ele enrugou a testa, talvez preocupado com minha afirmação. Não demorou até que o ar convencido voltasse a ele.

— Vamos superrar isso — disse confiante, girando nos calcanhares para deixar o quarto.

Virou-se em minha direção no instante em que alcançou a porta. — A prropósito, está belíssima, como nunca antes — ouvi uma risada curta e infame escapar de seus lábios. Seu jeito sempre tão adoravelmente perverso me causava as sensações mais desconhecidas e esquisitas, eu adorava.

Percebi como minha roupa de dormir era reveladora e cruzei os braços, tentando me proteger de alguma forma. Suzanne ainda me mataria de vergonha com as roupas que escolhia para mim.

— Sei que estou — disse, metida. — Afinal, não é a toa que está tão desesperado para que eu te perdoe — ao contrário do que imaginava ele sorriu abertamente, de uma forma tão contagiante que sorri também.

— Acha que eu gosto de você, oui? — disparou.

— Não — respondi convicta. — Tenho certeza.

Um sorriso enviesado se fixou em seus lábios. Seu olhar adquiriu um tom quente, febril. De repente ele me pareceu tão jovem e despreocupado.

— Quem sabe? — foi o que disse antes de sair e me trancar no quarto.

Sentei-me na cama e respirei profundamente, sentindo que a cada dia o efeito que ele tinha sobre mim se intensificava de uma maneira absurda. E mesmo que eu não gostasse de estar à mercê de um homem, por mais lindo e atrevido que fosse, minha rendição a ele era inquestionável e intangível.

Contudo precisava abandonar meus pensamentos e me concentrar na tarefa que eu teria que desempenhar em poucos minutos: salvar Conner, minha intuição dizia que Suzanne tinha razão e o encontraria vivo.

***