A Mágica De Dentro

2 CAPÍTULO DOIS- O Inesperado.


Acordo escutando meu celular vibrar, mas não é o meu alarme. Pego o meu celular e vejo que ainda são três horas da manhã, suspirei. Desbloqueei o celular e vi seis mensagens novas.

G: Beca me ajuda!

G: Beca não acredito que vc tá dormindo...

G: Vc sempre tá acordada pelo pesadelo.

G: Aff...

G: Beca é sobre o Fe.

G: Beca o Fernando tá me traindo.

R: OQUE?!?!

G: Finalmente miga. Isso mesmo, ele tá me traindo, e pior ainda ele tá me traindo com a puta da Melissa.

R: Vadia. Eu vou “falar” com ele hoje.

G: Você não vai bater nele...

...

G: Beca.

...

G: REBECA. NÃO. BATE. NELE.

G: Porra...

Eu não acredito que ele fez isso com a Gabi, ela é tão fofa... Que merda... Eu vou acabar com ele. Saindo de casa eu recebi outra mensagem.

L: Beca eu vou faltar hj, ok?

R: Não vc não vai.

L: Como assim não vou?

R: A Gabi tá mal e eu vou dar uma lição em alguém.

L: Fernando?

R: Sim.

L: Ok.

Peguei o metrô, só que desta vez fui para o lado oposto, em direção a escola de Fernando. Quando cheguei ele estava passando pelas catracas, fui correndo atrás dele, quando ele me viu sua luz escureceu, demonstrando medo, e ele esboçou uma cara de surpresa. Quando finalmente alcancei ele, chutei seus testículos e ele caiu no chão.

-Por que isso, Rebeca?

-Você sabe muito bem.

-Isso é sobre a Melissa?

-Claro que é sobre ela Fernando. -Digo chateada. -Como você pôde?

-Eu não fiz nada, eu juro.

-ME POUPE! -Grito. -A Gabi me contou tudo, nem adianta mentir, muito menos mentir para mim.

Todo mundo em volta para, encarando a gente, escutando a nossa conversa.

-Rebeca eu juro que não estou mentindo. -Enquanto ela fala isso sua luz fica clara levemente amarelada.

-Droga. -Fico com raiva. -Me conta essa história.

-Você acredita em mim? -Ele pergunta sem acreditar.

-Eu sei que você tá falando a verdade...

-Não acredito, que você acredita em mim, mas a Gabi não.

-Ela tá magoada... Me fala logo a história. -Insisti com raiva.

-Ok... Eu estava voltando da escola, indo encontrar a Gabi no metrô para irmos no shopping e enquanto eu esperava eu senti uma cutucada no ombro, quando eu virei a Melissa me beijou, eu a empurrei imediatamente, mas a Gabi já tinha visto e saiu chorando sem me deixar explicar.

Fico incrédula por um momento.

-Vou matar aquela menina. Tchau.

-Tenta falar com ela por mim.

-Ok.

-Tchau. -Escutei ele falando a trás de mim.

Depois fui correndo para o colégio, já tinha perdido a primeira aula. Cheguei na escola suando, e entrei na sala antes de começar a segunda aula, e vejo que sentado no meu lugar está Enzo.

-Bebeca! Achei que você não ia mais vir...

-Infelizmente tô aqui. -Falo parada na frente dele. -Agora vai pro lado, que esse é meu lugar.

-E você quer que eu sente do seu ladinho? Que fofa. -Ele fala apertando a minha bochecha e movendo suas coisas para o lado.

-Cala a boca. -Falo ficando vermelha. Odeio esse cara.

Durante as aulas Enzo me encarava de vez em quando, e pela primeira vez na minha vida eu queria ver a luz de uma pessoa, queria saber o que se passava naquela cabecinha de vento dele. Quando o sinal toca eu me levanto pronta pra ir falar com a Gabi, mas ele segura o meu pulso.

-Fica. -Ele faz uma cara triste. -Por Favor.

-Eu volto. Mas preciso esclarecer umas coisas, desculpa.

Vou correndo à sala da Gabi e vejo ela chorando enquanto abraça o Leo, que está com uma aura vermelha.

-Gabi! Eu falei com ele.

-E o que ele falou? -Ela disse desesperada.

-A culpa foi dela no final.

-E você acredita nele? -Leo diz com raiva

-Acredita em mim, é verdade dessa vez.

-Beca... -Ela me olha com os olhos cheios de lágrimas. -Você tem certeza?

-Sim... -Ela sorri. – Gente vocês sabem como ela é, ela provavelmente está rindo da gente agora em algum lugar, se vangloriando de ter separado vocês dois. Você sabe que ela sempre gostou dele, e quando ele mudou de escola, ela achava que vocês iam terminar e ela ia ficar com ele.

-Verdade... -Ela diz ficando brava.

-Gente... Tenho que ir.

-Que? -Leo perguntou. -Mas o sinal nem tocou ainda... Vai encontrar alguém? -Ele faz uma carinha de safado.

-O riquinho tá meio deprê... Vou ver se posso ajudar. -Reviro os olhos.

Quando volto para minha sala vejo ele com a cabeça abaixada e quanto mais eu olho para ele, mais eu tenho uma sensação que eu não consigo explicar.

-Voltei. -Falo cutucando ele.

Ele levanta a cabeça. Me olha com seus olhos grandes, verdes acinzentados, tristes.

-Bebeca...

-O que foi? -Olho para ele meio preocupada.

Ele me abraça e eu fico dura, sem saber o que fazer, odeio abraços.

-Você tá melhor? -Pergunto.

-Sim, valeu.

-Que bom. Agora toma! -Dei um tapa no seu braço. -Não me abrace de novo.

Ele riu.

-Só você mesmo.

-Cala a boca.

O sinal toca. E nós sentamos em nossos lugares. Ele se inclina e fala no meu ouvido:

-Você quer sair comigo?

-Não. -Sussurro. -Eu não saio em encontros mais.

Ele não entende, e eu não consigo mais escutar nada, nem falar nada, só escuto minha respiração e meu coração batendo. Quando o sinal toca eu não me mexo, Enzo fica me olhando, até que eu vejo o Leo e a Gabi, eles olham pra mim preocupados e depois olham para Enzo.

-O que aconteceu? – Gabi pergunta.

-Nada, eu não sei... -Ele pensa. -Eu chamei ela pra sair e ela disse que não sai em mais em encontros.

-Ah não! -Leo me olha. -Beca vai ficar tudo bem... Isso já passou.

-O que? -Enzo pergunta preocupado.

-Essa é uma história que só ela pode contar. -Disse Gabi.

Eu consigo me acalmar, e olho em volta.

-Vamos almoçar? – Digo animada.

Todos me olham preocupados.

-Sim. -Os três respondem.

Depois do almoço, enquanto ainda estávamos sentados eu respiro fundo e começo a falar.

-Ano passado eu gostava de um cara. -Todo mundo me escuta atentamente. -E ele me chamou para sair, para ir no cinema. Fui encontrar ele no metrô de noite, e quando eu cheguei lá tava uma confusão, as pessoas estavam formando um círculo envolta de alguma coisa, quando eu fui ver o que era eu vi o Felipe no chão com sangue ao redor dele e tinha um médico ajoelhado do lado dele, falando que ele tava sem batimento cardíaco, e quando a ambulância chegou ele já tinha perdido muito sangue e ele não tinha mais chance.

Todo mundo fica me encarando, sem saber o que fazer, sem saber o que falar até eu quebrar o silêncio.

-Preciso ir pra casa gente, tchau.

Quando eu saio os três ainda estão sentados. Chego em casa e vejo meu pai e Enrico sentados no sofá vendo um filme qualquer, eu ando até eles e paro na frente da televisão e fico olhando eles, meu pai pausa o filme e olha para mim.

-Tudo bem filha?

-Não... Eu lembrei do Felipe hoje.

Os dois se levantam imediatamente e tentam me confortar, mas eles não conseguem, ninguém consegue, só ele conseguia. Eu vou para o meu quarto e deito na minha cama, caindo no sono imediatamente.

O pesadelo voltou hoje, mas diferente. Dessa vez eu não via a outra versão de mim, eu era ela, olhei para baixo e no lugar do crânio, estava a cabeça do Felipe, eu derrubei a cabeça e cai de joelhos no chão. De repente eu estava num salão, desconhecido, estava usando um vestido longo verde, e um homem pegou minha mão e começou a me conduzir numa valsa, quando olho pra cima vejo o rosto de Enzo.

“-Bebeca, eu sei de tudo, você pode confiar em mim, eu sou como você. ”

Eu acordei assustada, sem saber aonde eu estava, olhei meu celular, que estava cheio de notificações e fui ler as mensagens. Do Leo, da Gabi e até do Enzo.

L: Beca, eu não faço ideia da dor que você está sentindo, mas saiba que qualquer coisa tô aqui pra vc.

G: Baby não fica assim, o passado já aconteceu e a gente não pode mudar, não olhe para trás com remorso ou raiva, se concentra no futuro.

E: Bebeca, eu não fazia ideia que você tinha tanto sofrimento no passado, mas se você deixar quero ser sua luz no futuro. Eu sei disso, eu sei que eu posso te ajudar.

Depois de ler todas essas mensagens, eu sinto como um peso saísse do meu peito e eu finalmente pudesse respirar. Eu vou para sala aonde encontro Enrico arrumando as coisas para ir dormir, eu chego perto dele.

-Desculpa, por tudo, principalmente pela forma que eu te tratei nesses últimos meses.

Ele vira chocado, olha bem para mim.

-Não se preocupe, isso tudo deve ter sido muito difícil para você. Sua mãe e seu pai se separando, e ele se assumindo, não deve ter sido fácil.

-A “minha mãe” tá morta pra mim.

-Rebeca...

-É Beca... pode me chamar de Beca.

Ele sorri.

-Boa Noite, Beca.

-Boa Noite.