A Mulher ao Avesso

1 A Mulher ao Avesso - Um conto


Aquela mulher que enamorou-se daquele homem, já se havia esgotado toda a possibilidade de algum dia ser amada por ele. Mas aquele homem, via apenas naquela mulher uma boa amiga e um ser humano reluzente por dentro. Aquele homem não conseguia apaixonar-se por aquela mulher, mesmo se o desejasse.

Um dia, quando costurava uma de suas vestes, aquela mulher havia ferido acidentalmente o próprio umbigo com a agulha. Mas tão inesperado quanto a ferida, foi o brilho que jorrara do pequeno orifício que se fizera ali. Algo amedrontador e, ao mesmo tempo, encantador...

De modo que, ela apaixonou-se por si mesma ao mirar-se no espelho. E algo tão surpreendente quanto o brilho, foi a ideia que lhe veio à mente: se aquele mísero buraquinho, lhe causara despropositado encanto.. e se o todo estivesse exposto?

Sem hesitar, tomou de uma tesoura, agulha e linha, rasgou-se de ponta a ponta e virou-se ao avesso. E aquela mulher se tornou em outra mulher, não em uma mulher como as outras, tampouco como qualquer outro ser humano vivo naquele tempo ou outro. Ela se tornara em um ser transcendental. Qualquer pessoa que visse aquela mulher era persuadida pela figura luminosa e sublime.

Não esperava, aquela mulher, que uma multidão se arrebanhasse ao seu redor em adoração à sua figura e muito menos que todas as pessoas enfeitiçadas erguessem templos sagrados, estátuas colossais e criassem rezas e mantras em sua homenagem.

Mas, em verdade, aquela mulher desejava o amor de apenas um homem. Este homem, evitava aproximar-se, pois estava carregado por um ciúme adocicado de inveja. Aquele homem tornara-se sozinho, sem amigos. A única pessoa que por ele nutria qualquer tipo de afeto, era aquela mulher, que naquele momento não lhe tinha aparentemente, mais devotamento. Aquele homem sentia falta das aprazíveis conversas, dos segredos trocados e das risadas compartilhadas. Mal sabia aquele homem que aquela mulher dedicaria-lhe toda uma vida para ele, porém seus amantes e fiéis seguidores não lhe davam espaço para respirar solitária.

Uma vez, cansado de estar só, aquele homem foi atrás daquela mulher, para pedir-lhe um pedaço da atenção, ou mesmo, um pedaço dela para levar consigo, para os momentos solitários.

Depois de muitos empurrões e acrobacias, aquele homem conseguiu aproximar-se daquela mulher e fez-lhe o pedido de amigo.

Aquela mulher, ainda esperançosa, viu nesse pedido uma chance de conquistar aquele homem. Imaginou que, talvez, ao entregar-lhe um pedaço de si, o que mais lhe tivesse significado, faria daquele homem também um apaixonado seguidor e o mais querido de todos. Arrancou, assim, o próprio coração e entregou-o a aquele homem.

E este homem com o coração daquela mulher foi-se com o seu mais novo tesouro. Estava feliz e satisfeito pelo mísero pedaço. Mas esta felicidade não durara muito, quando percebera que aquele coração não era a mesma coisa de estar com aquela mulher. O coração não lhe dava os sábios conselhos, nem lhe abraçava ou lhe sorria quando precisava.

Desesperado, aquele homem viu no coração daquela mulher, o meio de ser admirado e adorado por todos os seres do mundo, assim como acontecia com aquela mulher.

Ele pegou o coração e alimentou-se dele com um prazer orgástico. E algo de diferente tomou conta do espírito daquele homem, mas não fora aquilo que ele almejara.

As pessoas não começaram a vê-lo com os mesmos olhos que viam aquela mulher, não era o mesmo encanto, não era a mesma beleza. Aliás a única mudança que acontecera, foi dentro de si. Cresceu-lhe um desejo de ter consigo aquela mulher, um desejo carnal. De ter na sua carne aquela mulher, de beijá-la, de tocá-la e de adentrá-la. Uma paixão arrebatadora desceu-lhe pela goela abaixo, rasgando suas entranhas, até hospedar-se em sua alma.

Aquele homem seguiu a multidão que cercava aquela mulher. Passou por cima, atropelou, chutou, até que enfim, alcançou o seu tão precioso bem.

Ao chegar lá, viu estirado no chão o cadáver daquela mulher, mergulhada no sangue que jorrava sem parar de seu seio... de onde faltava-lhe um coração.

Louco, torto, assombrado, com o coração na boca, aquele homem correu... correu... correu para não se sabia aonde.

Correu, correu... Segundo rezam as bocas sabidas de tal fato, ainda corre feito lobo, aquele homem.

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