A Mosca Visitante
1 A Mosca Visitante
Eu estava em casa, tomando meu chá da tarde – uma antiga receita chinesa, criada pelos mesopotâmicos, que incluía lágrima de peixe, escama de vaca sagrada e uma pitada de Dollynho, meu amiguinho.
De repente, notei o sumiço de um objeto, só não sabia qual era. Larguei minha xícara, fazendo o chá derramar por todo o chão, que evaporou em contato com o líquido. Tateei a mesinha de centro desesperadamente, tentando achar o dito cujo. Olhei para as prateleiras na parede e percebi que não as enxergava muito bem.
Então eu saquei.
Virei pra minha companheira de chá e perguntei:
— Juliana, você viu meu óculos?
Mas, infelizmente, Juliana estava des-mai-ada. Peguei meu hiPhone, que Jordana dera-me no verão passado, e rapidamente disquei pro Xamu.
— Alô, com quem eu falo?
— Jailson Mendes.
— Jailson, de onde você tá falando?
— É um país da Europa...
— Ah, entendo. Mas agora me diz, Jailson, vai querer o que da roleta, mil reais ou pleisteixo?
— Como assim, cara? Que loucura...
Desliguei. Acho que disquei errado, pensei. Tentei de novo.
— Alô? É da Xamu?
— Me responde uma coisa...
Apesar de não ter entendido a finalidade daquilo, concordei em responder, balançando a cabeça positivamente. O homem do outro lado da linha continuou:
— Eu quero saber quem é que transa nessa porra...
Desliguei novamente. Definitivamente, aquele não era um dia delícia.
Enquanto eu pensava para quem ligaria a seguir, quase cogitando em telefonar para meu amigo Xablau, ouvi a campainha tocar ao longe. Quem será que pode ser? Eu me perguntei.
Desci as escadas correndo, passei pelo corredor principal, dobrei a esquina, cheguei à casa da Sônia do Cláudio. Desci de rapel até a montanha mais colorida que encontrei no Club Penguin. Peguei uma carona com o Bonde da Stronda, fizemos um rap, fiquei monstrão. Joguei uma partida de Gartic e uma de Stop com meu amigo China, que vendia pastéis de cane, quejo, flango. Inês Brasil estava lá e, por alguma razão ainda não estudada pela ciência da zoeira, na partida de Stop, ela sempre colocava “inhame” nas respostas. Terminamos o jogo à meia-noite daquela manhã chuvosa e, quando isso aconteceu, saí de baixo de um sol escaldante, rumo à porta da minha casa. Peguei um táxi e o motorista virou-se para mim e disse “Luke, eu sou seu pai!”. Desci do táxi apavorado e entrei em um portal mortífero. Ao sair, percebi que estava em um quarto bem gay e que Tony Ramos esfregava vários bifes Friboi em seu corpo peludo, em uma tentativa fracassada de me seduzir. Tentei voltar ao portal, mas era tarde demais. Dormi com Tony – a noite foi maravilhosa – e, quando acordei, estava tomando meu chá da tarde.
Abri a porta. Lá estava a mosca. Elegante. Pomposa. Mandando beijinho no ombro pra lacrar o cu dazinimiga.
— Meu caro amigo Jailson, você não sabe o que aconteceu! — Ela dramatizava.
— Realmente.
— Meu filho, Samba, foi internado ontem à noite!
— Seu filho Samba? — Era inacreditável.
— Não, idiota, meu filho Pagode. Besta...
Olhei pra cara dela e percebi: é latinha paixão por mim!
— Prossiga.
— Mas os médicos foram heroicos! Começaram o movimento “Não deixa o Samba morrer!”. Fomos todos pra rua, com pandeiros na mão, gritando frases como “vem pra rua” e “o gigante acordou”. Demos uma coça na PM. O país não mudou bosta nenhuma e ainda assistimos à Copa...
— Mas e seu filho, como ele está?
— Aquela tralha? Morreu, finalmente...
Ignorei a última fala da mosca, tomando mais um gole do meu refrescante chá. O que eu ainda não entendia era o porquê da presença da mosca ali, em minha residência. Resolvi perguntar:
— Mas então... O que te traz aqui?
— É um assunto muito importante e profundo, meu filho... Já ouviu falar da iniciativa “A Praça é Nossa”?
— Não, por quê?
— Nossa, cara, que burrice... Burrice!
— Mas eu conheço a iniciativa “Minha Praça, Minha Vida”.
— Pô, parabéns, fera, tu quer um balão?
— Tem pó?
Ela não respondeu. Fiquei observando seu corpo despido e, curiosamente, ela sentava na pica caucasiana e sentava na pica afrodescendente. Ela queria ter dois aparelhos reprodutores femininos, pra sentar, ao mesmo tempo, na pica caucasiana e na pica afrodescendente.
— Olha, vou me já andando, que meu tempo é curto igual teu... Bem, eu vou indo.
Andei com ela até a porta de minha casa, fechando-a elegantemente, enquanto a mosca voava, suave como pôneis, para fora de minha humilde residência.
Ai, ai, aquela brisa tava muito forte...
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