A Morte vive
1 Capítulo único (Oneshot)
Notas iniciais
— Por favor, tenha piedade. Eu não sabia o que estava fazendo! Por favor, não me mate!
— Não implore misericórdia. Olhe os cadáveres à sua volta. Você não teve pena de nenhum deles. E sabia muito bem o que estava fazendo. Ninguém dilacera uma aorta sem querer. Ninguém leva um menino de 8 anos para um abatedouro com o fim de vê-lo sangrar até a morte. Ninguém devora um fígado humano sem querer. Você não é doente. Você é mal e se alimenta da dor alheia. Devora os órgãos de sua vítima por puro narcisismo. Gosta de se olhar no espelho banhado no sangue e lágrimas dos pobres coitados. Tudo o que você fez, nos trouxe a esse momento.
A cabana isolada na parte longínqua da estrada se encheu com uma névoa fria, de cor cinzenta. Um cheiro metálico que queimava as narinas se instalou ali. É o cheiro da vingança. É o cheiro que me faz acordar pela manhã. A névoa tomava a forma dos que foram mortos por ele, Julian "o Cara Vermelha". O temido assassino que cacei com tanto afinco. Caído diante de mim com as pernas quebradas e as costelas trincadas. O que se aproxima não é o fim. É o início...
Ele recebeu esse nome por ter o hábito de pintar tanto o próprio rosto quanto o de suas vítimas com o sangue delas mesmas. Era o seu deleite. Era um homem de aparência muito boa e cujo nome real era Olaf. 1,90, porte físico forte, cabelos loiros e olhos azuis. Sua descendência nórdica o colocava acima de qualquer suspeita. Um homem discreto, sem muitos hobbies e muito tempo livre. Isso me fez achá-lo.
O cara vermelha assombrava essa cidade há tempo demais. As autoridades estavam desesperadas com a ausência de evidência que ele deixava. Era como um fantasma. Era chamado até de demônio. Suas vítimas não possuíam nada em comum e eram totalmente aleatórias. Mulheres, homens, idosos, crianças. Todas as etnias, todas as religiões, todas as nacionalidades. Pelos infernos, até animais. Uma de suas vítimas foi o falcão em extinção que estava no zoológico da cidade. Um animal majestoso, cartão postal da cidade. Até mesmo o tigre que vivia lá foi morto. Não havia como encontrá-lo. Somente suas vítimas sabiam como e ninguém sabia falar com os mortos. Até agora...
— O que é isso? Fantasmas não existem. Que truque é esse?
— Não os reconhece, Olaf? Nem mesmo o pequeno Richard? Cujo sangue fresco está a pintar o seu rosto?
— Isso não é possível! O QUE ESTÁ ACONTECENDO AQUI?!?!
Seus gritos de pavor eram ensurdecedores. Suas lágrimas eram tantas, que poderiam lavar tudo aquilo que ele havia sujado. Seus soluços traziam da essência do meu ser, um prazer sádico. Ele ia passar pela pior experiência que um ser humano já passou. Não há nada para se comparar. O inferno será um alívio.
— Sabe o que é ectoplasma, Olaf? Já ouviu falar desse termo?
Era óbvio que ele não responderia. Estava ocupado demais com o seu tormento. Eu sabia disso. Mas, esse monólogo era um deleite que eu passei dias procurando. Uma última tortura mental antes do prato principal.
— Os estudantes do paranormal dizem que é a substância que compõe o espírito. Essa substância poderia ser visível para médiuns de extrema sensibilidade, mas, é tudo mentira. Sabe Olaf, eu já morri uma vez. Um cidadão resolveu me esfaquear pelas costas pelo mero prazer me ver morrer. Ele só teve o desprazer de escolher a faca errada.
Puxei do meu bolso o objeto que fez tudo mudar. Que me libertou da casca em que eu vivia antes. Uma faca curta, com a lâmina de prata e no final da empunhadura, um olho. Nas mãos de uma pessoa comum, seria apenas um enfeite. Nas minhas mãos, o olho se movia freneticamente. Piscava muito e procurava uma vítima para se alimentar.
— Quando essa faca perfurou meu pulmão, imediatamente senti meu espírito deixar o meu corpo. Vi vários outros espíritos ao meu redor e achei que era minha hora. Só pude aceitar. Porém, ainda ali, vi que eu não sangrava e que meu algoz continuava a me esfaquear. Não surgia nenhum ferimento e ele, por algum motivo, estava aos prantos. Os espíritos o viam e ele também os via. Eles aguardavam meu comando. Só uma palavra me veio à boca: vingança. Todos aqueles espíritos começaram a atacá-lo. Achei que veria um banho de sangue, mas, foi ainda melhor. Arrancavam seu tecido ectoplasmático e ao dilacerá-lo, sua mente também era afetada.
Lembro como se fosse hoje. Assim que o corpo e mente destruídos do assassino caíram no chão e eu voltei ao meu corpo, peguei a faca. Foi aí que tudo mudou. Aquele olho se abriu e começou a me olhar fixamente. O conhecimento arrombou as portas da minha mente e esse saber nefasto foi queimado no meu cérebro, como ferro quente na pele de um boi. Desse momento em diante, eu sabia a verdade da vida. Quando alguém morre, sua alma vai para o lugar que merece. Mas, o espírito é uma matéria semelhante ao gás. É pequeno e ao abandonar o corpo, vaga por milhares de anos até que seja "evaporado". Este gás retém as memórias, os sentimentos, os hábitos e tudo que faz que a pessoa seja ela mesma. A faca me deu o poder de alterar esse gás. Aumentá-lo, dá-lo forma e submetê-lo à minha vontade. Foi aí que resolvi começar minha cruzada. Torturar aqueles que trazem tormenta aos pequenos. Dar à eles a vingança que merecem.
— Depois disso, deixei o meu antigo eu para trás. Sempre fui ensinado a ser gentil, benevolente e justo. Esse nunca fui eu. Sempre fui um animal selvagem, cruel e sem misericórdia. Sempre estudei os mistérios da mente e me tornei psiquiatra apenas para me alimentar da mente doente e fraca dos meus pacientes. Controlá-los era a melhor coisa que eu tinha na minha vida. Eu os curava, mas, da forma que eu achava melhor. Eles achavam que eu era seu salvador, quando na verdade, era seu carrasco. Sádico e sem humanidade. Agora, com esse dom que recebi, os pobres coitados estão livres das minhas garras. Não preciso fingir ser quem sou. Pessoas como você são meus novos brinquedos.
Essa é a parte favorita do meu discurso. Fazia que meu corpo tremesse e deixava minha psiquê em êxtase.
— Veja, pobre maldito! Estes são os fantasmas dos inocentes! Aqueles cujo sangue mancham seu corpo e espírito! Regozijem, espectros! A morte caminha entre os vivos e dá a vocês o que mais desejam! O que os trouxe aqui! A vingança pertence a vocês!
Todos aqueles fantasmas arrancavam enormes pedaços do espírito do seu assassino com as unhas e dentes. Apenas eu podia ouví-lo gritar. Sua mente sendo devorada pedaço por pedaço e apenas eu para ouvir. Não há sensação mais agradável. Se há, é saber que ele permanecerá vivo e atormentado para sempre. O tecido ectoplasmático dura muito tempo, sabe? Para sempre preso no cativeiro de suas vítimas. Ah, a ironia...
Antes do amanhecer, chamei a polícia e indiquei como chegar até aquele lugar ermo. O infeliz guardou todos os cadáveres na cabana. Sentia prazer em vê-los sempre que ia até lá. Lembrar da sensação que teve ao matá-los. Não há nada que possa salvá-lo da justiça dos homens. Ele irá confessar e procurar redenção. Acha que poderá ser perdoado de alguma forma. Mal sabe ele, que apenas Deus perdoa. Os homens ressentem para sempre. As presas dos mortos jamais irão largá-lo.
Deixei um papel junto do criminoso com apenas um recado. Esse, seria divulgado nas notícias do dia seguinte, quando disserem que "O Cara Vermelha" foi pego. Minhas próximas vítimas entenderão a mensagem. Irei caçá-los como os animais que são. Não levarei justiça a eles. Esta, pertence aos vivos. Para os mortos, só há vingança. Que Deus tenha piedade de suas almas. Pois eu não terei...
"A Morte vive."
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