A Morte tem cheiro de flores
1 Capitulo único
Notas iniciais
A morte tem cheiro de flores
Não. Esta não é uma história sobre um lindo romance ou sobre um cachorrinho e o seu dono amoroso. Esta é uma história sobre William Berry.
Provável que você não faça ideia de quem é William Berry, mas tudo bem isso não faz diferença.
Contudo eu o conheci e posso afirmar sem sobra de dúvidas que ele foi uma das melhores pessoas que um dia eu conheci.
Ele não foi um ilustre médico, ganhador do prêmio Nobel da paz, ator famoso ou grande cientista, mas são as coisas pequenas que fazem as grandes pessoas.
E com certeza ele era pequeno. Consigo até mesmo imaginar nitidamente que se ele estivesse aqui me olharia com aquela cara de quem está ofendido dizendo “Você que é grande demais”.
William era uma pessoa pequena, um nariz de batata, o formato engraçado dos olhos cor de café. Mas nada disso fazia dele o que ele era e eu nem mesmo nunca me importei com nada disso.
Ele foi tão importante para algumas pessoa dentre os 7 bilhões do mundo, que cá estou eu escrevendo isto, que infelizmente ele nunca chegará a ler.
Suponho que você já tenha entendido. Will morreu faz alguns meses. E sim eu irei contar sobre isso, irei contar sobre a morte de William Berry.
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Ele foi uma das pessoas escolhidas pela vida para apanhar da mesma.
William com certeza passou por mais coisas do que seria possível contar em um dos volumes da Guerra dos Tronos.
A verdade é que não sei bem como nem quando, mas de alguma forma ele conseguiu se tornar muito importante para mim. Ele esteve comigo nos melhores e nos piores momentos, era ele que saltitava pelas ruas comigo, que cantava sobre flores e que tomava café em dias frios,
Will foi o autor de célebres frases que até hoje tantos anos depois eu ainda me lembro, como por exemplo, “Cuide bem da sua saúde, pois os mortos não tomam café.” Foi ele também o brilhante inventor do Mr. Tetê, nosso super-herói favorito. Will do seu jeito pequeno foi grande para o mundo, para o meu mundo.
Lembro de certa vez em que ele havia me dito uma verdade estranhamente inegável, a qual penso até hoje e que com certeza se provou mais verdadeira no dia em que recebi aquelas duas únicas palavras.
Will Morreu
Não tenho certeza de como eu deveria ter me sentido, sei que primeiro meneei a cabeça e reli a mensagem algumas vezes. Parecia tão improvável que ele tivesse morrido, todos morrem algum dia é claro, mas parecia-me impossível que ele pudesse morrer, era como se ele pudesse ser imortal ou algo assim.
Só não parecia provável que o mesmo menininho pequeno e magricela que havia disparado rua abaixo com um cone laranja quase do seu tamanho simplesmente agora estivesse morto. O mesmo menininho desajustado com quem eu tanto havia me importado.
Sentei-me no sofá, os olhos parados em algum ponto desfocado.
Com as mãos tremulas peguei o telefone e disquei o número levando o aparelho até a orelha.
Will tinha morrido em sua casa em Londres, fora encontrado naquela noite, sentado na poltrona, a lareira acesa, o olhos fechados, a pele ainda morna e a cabeça pendida para o lado.
E fora assim que o pequeno e inusitado William Berry havia morrido. E eu não conseguia pensar numa maneira melhor para morrer.
Não tive outra reação além do que fiz em seu velório na manhã seguinte. E de fato eu não queria ter dito outra reação.
Eu sorri. Lembrando-me do que ele havia me dito.
“A morte tem cheiro de flores”
Eu ainda conseguia ouvir sua voz me dizendo isso. E por mais que parecesse absurdamente ridículo e uma grande mentira, era a mais inegável verdade sobre a morte, talvez me ache maluca e diga que Will também não batia bem da cabeça, mas eu não ligo para se concorda ou não comigo, só estou lhe dizendo a verdade.
Então sim vendo a sala cinzenta repleta de pessoas em preto, que era invadida por uma série de cores inusitadas providas das flores entorno do caixão de mogno, eu sorri genuinamente.
Sorri, porque a morte de William Berry tinha cheiro de flores.
Apoiada contra a parede observei o punhado de flores coloridas, Mr.Khonë (O cone que tantos anos antes tínhamos pego) com uma coroa de margaridas sobre o topo, as pessoas cabisbaixas, e então eu sabia que sentiria sua falta, mas ele havia vivido sua vida, e o seu último dia tinha chegado, como eu sabia que chegaria para todos.
Não chorei, ou fiz um discurso fúnebre sobre o quanto sentiria sua falta e aquilo tudo não ser justo, apenas me peguei lembrando de tantas coisas que tínhamos vivido. Não havia porque chorar.
Porque quando chegar a hora, o inevitável final de cada qual, nessa hora todas as mortes terão cheiro de flores. Apenas isso nada mais...
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