A Morte não é o Final
2 A Divida
Polly abriu os olhos com dificuldade. Uma luz estranha vinha de um longo tapete vermelho que surgia e sumia em plena escuridão. Nas laterais do tapete, grandes e assustadores pilares meio esfumaçados seguravam um teto alto e negro. Além dos pilares existia apenas um breu, um assustador e tentador abismo.
A garota deu alguns passos para ver o que havia entorno do caminho, mas não via nada. Quando pensou em pisar para ver se era solido, uma voz soou do fundo direito do corredor, e soava como se raspassem uma pedra em ossos finos:
-Sugiro que não faça isso, Senhorita.
Ela se virou para onde vinha a voz. Havia uma alta mesa de madeira marrom escuro e, atrás dela, um homem de capuz negro escrevia algo com uma pena vermelha em um livro realmente grande. Polly se aproximou hesitante e disse:
-Onde estou? Quem é você?
-Bem, você esta na Sala do Juízo e eu sou o Juiz. É para cá que todos vêm quando morrem, para saber qual caminho devem seguir. – Ele fez uma pausa para virar a grande pagina e molhar novamente a tinta – Certo, Pollyana, você tem uma grande...
-O que tem lá? – Ela o interrompeu, apontando para o breu – E aonde vai dar este tapete?
-Oh, certo. A Senhorita não sabe nada sobre a Sala do Juízo... – Ele molhou novamente a pena e começou a explicar, sem tirar os olhos do livro – Este tapete, que nos impede de cair, é feito pelo sangue derramado dos injustos, dos maus e cruéis, e, se quiser seguir da direção contraria, nunca chegara a nada, mas não terá volta. Os dez pilares da esquerda são feitos pelos pecados cometidos e os da direita originaram dos desejos que não foram conquistados, os sonhos perdidos. O abismo que nos cerca é o inferno, quem cai lá, nunca conseguirá sair... E o teto que nos protege do que for que estiver por cima de nós, é feito pelos princípios e culturas ainda existentes na Terra e respeitados, e devo dizer que logo vou comprar um guarda-chuva. Alguma duvida?
A garota negou, assustada com tudo aquilo.
-Bom, Senhorita Pollyana, vamos ao que interessa. Você cometeu vários erros, erros graves hoje! Terá uma divida longa a pagar! Acho que...
-Espera! Dividas? Erros? O que fiz?
-Oh, minha querida, o simples fato de se matar já lhe daria alguns anos de divida, mas você fez muito mais! Bom, já que não sabia da Sala do Juízo, terei de lhe explicar isso também... — Ele fez outra pausa para molhar a pena novamente, e prosseguiu - Existi um livro, que não é este, e nele está escrito tudo que todos devem passar, é conhecido como Destino por vocês, mortais. A partir dele, cada um escreve o seu próprio e pequeno livro antes de vir ao mundo, e se ele não é seguido, deve-se pagar. E o que você fez foi muito grave!
-Mas o que fiz de tão errado?
-Você não respeitou o Destino! Interferiu com Magia Negra no livro! E mexeu com vários outros! Veja, estava escrito que o seu amado Derek deveria morrer, e este era o fim da história dele! Não tem mais nada escrito! O que será dele agora? – Ele fez uma pausa para virar a pagina do livro – Você deveria passar por isso, pela perda de um grande amigo, você e todos a volta dele, principalmente os pais! – Por estranho que parecesse, a voz do Juiz não se alterava, embora agora demonstrasse muito mais autoridade – O seu livro era longo, Pollyana! Ia ajudar muita gente e fazer muita coisa! Com este seu “ato de heroísmo”, acabou com a própria vida, arruinando assim o livro de centenas de pessoas que você ia ajudar, fez com que seus pais, amigos e parentes passassem por algo que não deveriam, negou aos pais do Derek uma experiência que eles vão ter de reencarnar para poder ter de novo e principalmente acabou com a vida do seu amado, já que agora ele não tem mais Destino! A única coisa boa nisso, é que essa tradição que a sua família tinha de passar os aprendizados com Magia Negra de avó para neta agora acabou, uma família a menos no mundo interferindo no Destino! Bom, entendeu agora por que o que fez estava tão errado?
-Sim... – Disse a garota pasma. Pensava nos pais que agora deviam ainda estar chorando sob seu corpo por causa de sua grande besteira.
-Certo, vamos ao ponto, todos tem uma divida a pagar e a sua acho justo ser de 30 anos de trabalho no inicio. Após este período, você voltará aqui e conversaremos novamente, então decidirei se vou aumentar sua divida ou lhe mandar para o próximo nível. Entendera tudo isso com o passar do tempo. Agora precisa escolher o que vai querer ser, em que área prestar serviço... Bom, não vou usar os termos técnicos por que ira desconhecê-los e vou ter de ficar explicando todos... Então, temos vaga para um anjo da guarda infantil, mensa...
-Este! Quero ser um anjo da guarda!
-Ok, então, Senhorita que adora interromper... – Ele anotou algumas coisas no seu livro – Vá por ali e boa sorte, Senhorita Polly, vai precisar!
Uma porta de carvalho negro surgiu do lado direito da mesa. Ela lançou um olhar para o Juiz, que permanecia focado em seu livro. Então ergueu a mão, girou a maçaneta e deu um passo.
E tudo virou trevas.
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