Notas iniciais
Esse é pra valer!

A enfermaria, que desde a ocupação do navio pela sua atual tripulação foi convertida em dormitório para os homens, é um espaço um pouco maior e mais amplo do que a cabine do capitão, mas ainda opressor, especialmente em virtude da pouca circulação de ar e do cheiro de enfermidade que emana de suas vítimas no presente momento.

Existe no local um par de beliches estreitos feitos de um material simplório e uma maca improvisada sobre a qual, no presente momento, Hook encontra-se deitado e ao que tudo indica inconsciente. Sentada em um banco de madeira ao seu lado, Ruby segura sua mão enquanto passa uma compressa de água em sua testa, o pano em questão manchado de sangue.

Na parte inferior de um dos beliches, Whale geme em meio a sonhos conturbados e Snow procura acalmá-lo, mas sem sucesso, uma vez que ele não parece sequer ciente de sua presença.

Esta é a cena que Regina encontra após fazer uma breve parada em seus aposentos para se livrar das roupas fétidas bem como qualquer vestígio de sua mais recente missão. Usando uma túnica simples, mas limpa, oferecida por Snow, ela entra no cômodo silenciosamente e imediatamente os olhos suplicantes de Ruby a encontram.

“Snow disse que você se dispôs a ajudar.” A loba confirma, procurando qualquer sinal de confirmação em suas feições, o que Regina oferece através de um aceno simples. O que quer que Ruby enxergue em seus olhos parece ser o suficiente.

“O que nós temos aqui?” A pergunta de Regina é feita ao passo que ela se aproxima dos dois.

“O idiota sofreu um ferimento na cabeça tentando me proteger.” Ruby explica com um misto de exasperação e afeto em seu tom, algo com o que Regina tem alguma familiaridade, embora prefira não pensar muito a respeito. “Eu tentei ao máximo limpar o corte e Snow tentou fechá-lo, mas não tínhamos linha o suficiente e o sangramento não quer parar.”

Inspecionando o mesmo de perto, Regina não contém uma careta, o odor emanado pela ferida indicando que talvez elas encontrem outros problemas em seu tratamento. Mas sentindo a preocupação da loba, Regina prefere não compartilhar suas desconfianças em um primeiro momento. “E quanto ao Victor?”

É Snow quem lhe oferece uma resposta. “Ele sofreu um corte profundo na perna, mas o ferimento está contido. Febril, mas sem sangramento.”

Prendendo seus cabelos em um rabo de cavalo, Regina arregaça as mangas de sua túnica, avaliando seus próximos passos. “Muito bem, Snow pegue todos os panos limpos e secos que puder encontrar. Também precisaremos de água fervida e alguns ingredientes que estão na bolsa que eu trouxe comigo de Storybrooke.” Ela se volta na direção de Ruby então, seu tom mais gentil. “É melhor você esperar lá fora.”

Ruby se mostra disposta a argumentar, mas se depara com um olhar incisivo e uma expressão implacável. “Não foi uma sugestão. Snow e eu temos muito trabalho pela frente.”

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O conceito de que magia pode ser utilizada para algo que não seja vingança ou jogadas de poder é algo quase estrangeiro para Regina, ainda que ela esteja ciente de tal possibilidade.

O pouco que ela sabe, proveniente de leituras esparsas em seus anos enquanto pupila, informações adquiridas quase que por acidente e retidas apenas por um milagre, visto que nunca antes ela teve uso para tais conhecimentos.

Assim, a ex-Rainha Má age mais por instinto do que por memória muscular, e mais vezes do que não, se vê frustrada pela pouca efetividade de suas tentativas em colocar peças no lugar ao invés de arrancá-las.

Em vista de seus esforços, o auxílio de Regina é de fato incomensurável. Contudo, existe um limite mesmo para suas habilidades – uma realidade a qual Regina não está acostumada a confrontar.

Talvez seja sua exaustão física, mas de repente é como se o ar se fizesse rarefeito e após o uso prolongado de suas habilidades, Regina pode sentir seu controle oscilando, como uma lanterna cuja bateria se encontra prestes a apagar.

Com evidente frustração Regina trata primeiro de Hook; Com suas mãos nuas e um esforço maior do que o normal, ela consegue reparar o ferimento em sua cabeça, mas ainda lhe restam algumas costelas quebradas – que se mostram mais resistentes, assim como um sangramento interno que ela não consegue conter sem o uso de ervas que eles não dispõem nas reservas do navio.

Ao seu lado, Snow opera como seu braço direito, auxiliando principalmente nas tarefas mais braçais que envolvem conter o pirata quando ele volta a si, atordoado pela concussão e se recusando a permanecer imóvel, apesar da necessidade impelida por sua condição física.

Do lado de fora da enfermaria, Emma vê a tensão de Ruby aumentar quando o som da voz de Hook chamando por Milah chega ao ouvido das duas.

“Ele provavelmente está delirando.” A ex-xerife tenta oferecer algum conforto à amiga, mas não pode deixar de notar o quão lastimáveis são suas tentativas.

Até mesmo Pongo, com seu focinho molhado e seus ganidos baixinhos, parece estar mais capacitado a oferecer a Ruby algum suporte nesse momento – e é o que ele faz deitando aos seus pés, enquanto ela acaricia suas orelhas distraidamente.

“Eu sei.” Ruby suspira longamente, o cansaço evidente em suas feições. Emma tenta oferecer uma distração.

“Já pensaram em nomes pro bebê?” A menção coloca o mais imperceptível dos sorrisos nos lábios da loba.

“As sugestões do Killian são ridículas. Você não acreditaria se eu lhe contasse.”

“Oh, tem muito que eu não acreditaria se você me contasse.” As duas compartilham um sorriso.

“Acho que nem mesmo eu acreditaria.” Ruby comenta, seu tom de repente sóbrio. “Ter um filho com o Capitão Hook? Definitivamente algo que eu jamais imaginei. Ainda mais nas atuais circunstâncias.”

“Hey,” Emma coloca a mão em seu braço, “Circunstâncias temporárias, ok? Regina vai encontrar uma saída pra gente.”

“Você realmente acredita que sim?” Ruby tenta não soar esperançosa, mas falha.

“Existem duas coisas que eu acredito sem sombra de dúvida: A primeira é que se existe alguém capaz de encontrar uma saída, esse alguém é a Regina.” Emma declara com a mais absoluta seriedade.

“E a segunda?” Ruby pergunta com olhos esperançosos, coçando a cabeça de Pongo.

“Que você e o Hook vão fazer bebês ridiculamente lindos!” As duas riem então, Ruby secando as lágrimas que escorrem sem o seu consentimento, enquanto Emma completa em tom conspiratório. “Mas não ouse repetir isso pra ele!”

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O maior desafio enfrentado por Regina e Snow, no entanto, acaba não sendo o pirata com alta resistência a drogas medicinais alternativas e tampouco sua teimosia em seguir recomendações médicas, mas Whale, que tendo sofrido uma lesão menos grave em um primeiro momento, desenvolve uma série de complicações quando esta rapidamente evolui para uma infecção perigosa e quase imbatível.

A exaustão que acomete Regina em virtude do ritmo insano em que vem operando desde o momento em que abandonou o navio pela primeira vez, além de condições pré-existentes como má nutrição e noites mal dormidas, tornam seus poderes instáveis e ineficazes quando, mais de uma vez, Regina tenta romper a infecção apenas para que esta ceda por algumas horas, retornando cada vez mais forte e violenta.

Nesse ritmo, já se vão quase dois dias, e deitado em seu leito, Whale continua suando em bicas e delirante por uma febre que não cede, quando Snow sugere que elas amputem a perna enferma.

Exausta demais para relutar e dolorosamente consciente de já ter ultrapassado seus limites, Regina aquiesce.

O procedimento acaba sendo feito de uma forma bastante arcaica e dolorosa, a qual Regina se recusa a reviver os detalhes posteriormente, embora possivelmente jamais possa apagar tais imagens de sua consciência. Ou mesmo os gemidos de Victor, quando os efeitos da poção que ela preparou para anestesiá-lo começaram a perder a força.

Quando por fim Regina abandona seu posto, as roupas que havia trocado em sua chegada cobertas por sangue seco e seus cabelos negros e compridos presos em um rabo de cavalo prestes a se desfazer, o Sol já está a raiar e se ela se lembra de encontrar Emma à espreita no corredor, olheiras fundas acompanhando seus passos, não é possível dizer.

Em silêncio ela se arrasta até o cômodo em que passou sua primeira noite e Emma não se sente compelida a informá-la que a cabine em questão na verdade é sua.

Ao invés disso, ela se pergunta se tão elevado grau de exaustão será o suficiente para embalar Regina em um sono sem sonhos.

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Com o passar dos dias, o fantasma do ataque sofrido torna-se cada vez mais fosco e a tripulação vai se recuperando e retomando sua rotina, dentro do possível.

Snow acompanha a convalescença de Whale mais de perto uma vez que o mesmo parece culpar Regina diretamente pela perda de sua perna, acusando-a de ter se aproveitado da situação para se vingar. Emma e Snow tentam argumentar, mas ele parece decidido a acreditar em sua própria versão da história, enquanto Regina não parece sequer remotamente inclinada em advogar em sua própria defesa.

De fato, Emma não pode deixar de notar que ela se mostra mais confortável ante à hostilidade de Whale, do que à gratidão demonstrada por Ruby – que tenta demonstrar seu apreço pelos esforços de Regina ao lhe emprestar algumas peças de seu escasso guarda-roupa, bem como um de seus pares de bota. Apesar de aceitar os itens com surpreendente resignação, Regina ainda se esquiva de sua presença sempre que possível.

O clima no navio segue, por tempo indeterminado, tenso e desconfortável – no melhor dos dias, e sombrio e silencioso nos demais.

São somente eventos corriqueiros, como Henry conseguindo abater sua primeira gaivota com o arco e flecha (graças a lições tomadas com sua avó) — o que significa ter algo além de peixe para o jantar — e Evan perguntando por que a barriga de Ruby está tão grande e em seguida entoando a temida pergunta sobre de onde vem os bebês, o que ajuda a restabelecer algum senso de normalidade, dentro do possível.

Mantendo uma vigilância constante, entretanto, Emma se pega mais de uma vez a observar Regina em seus menores passos, não necessariamente por considerá-la uma ameaça a qualquer um no navio – o que aos seus olhos ela já provou não ser da forma mais categórica possível – mas por ainda ter fresca em sua memória a expressão de terror e alienação que a acometeram na noite em que passaram no mausoléu.

O que não acontece de novo.

Ao menos não que Emma tome conhecimento, embora seja impossível saber ao certo, especialmente quando Regina passa a maior parte de seus dias e noites trancada na cabine de Emma — que em algum momento, sem qualquer conversa ou discussão, passou a ser sua – dedicando-se de corpo e alma ao seu trabalho com a reanimação dos brotos de feijão.

E se ela usa isso como uma forma de evitar a todos e principalmente a si mesma, Emma tem mais do que sua generosa parcela de desconfiança de que seja o caso, ainda que seus instintos lhe digam que sua postura não seja necessariamente premeditada ou mesmo consciente.

É isso o que a faz procurar Regina nas primeiras vezes, e nas vezes subsequentes. Com desculpas esfarrapadas e comentários desnecessários a princípio, e depois com nada além de simples familiaridade e às vezes um prato de comida. É assim que, sem perceber ao certo como aconteceu, Emma encontra-se a desfrutar de sua companhia muito mais do que ousaria admitir para si mesma.

"Então, você e minha mãe, hein? Trabalhando juntas para salvar o doutor Frankenstein. Quem diria..."

"Não me faça me arrepender, Senhorita Swan." Regina lhe avisa, sua concentração dedicada em maior parte aos manuscritos que ela trouxe consigo de sua jornada à Storybrooke, de modo que não há nenhum indício de malícia em seu tom ou mesmo incômodo. "Como Hook está passando?"

"Estava reclamando da dor nas costelas mais uma vez, feito um bebê chorão. Imagino que seja boa prática pra Ruby. Mas há pouco ele apagou, depois de tomar aquela mistura de ervas que você deu pra ele. Deve ter sido coisa pesada pra conseguir um efeito assim."

"Nada que ele não dê conta."

"Claro... Agora tudo o que precisamos fazer é sobreviver os comentários dele sobre como esse grupo está finalmente completo com um pirata, um anão e um perna-de-pau." Ela se senta na poltrona surrada que em algum momento passou a fazer parte da mobília, fazendo-se confortável enquanto assiste Regina trabalhar. "Eu, particularmente, acho que ele está confundindo a tripulação de um navio pirata com a de um circo."

E se a sombra de um sorriso permeia as feições de Regina é só porque esta tem certeza de Emma não pode vê-la.

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Ainda que em momento algum Emma coloque esse peso diretamente sobre os ombros de Regina, o ataque sofrido serve a todos como um aviso sobre os perigos que ainda os cercam, o que apenas aumenta as expectativas quanto a uma possível rota de fuga.

Mais do que isso, o hematoma que somente dias mais tarde começa a perder a cor no rosto de Henry, pode até ser para o garoto um distintivo, símbolo de sua bravura e coragem, mas aos olhos de Regina, não passa de um constante lembrete de que esse mundo não é seguro para o seu menino. Isto, somado ao débito incalculável que ela sente em relação a ele, apenas aumenta sua dedicação ao seu grande plano, no qual ela mergulha de forma quase obsessiva.

Em meio aos seus esforços, quase passa despercebido à Regina o exponencial interesse que o pequeno Charming passa a demonstrar em relação à ela e suas habilidades mágicas.

A princípio Evan apenas a observa de longe. Como se Regina fosse algum tipo de animal exótico e ele temesse assustá-la com sua aproximação, mas ao mesmo tempo sendo incapaz de manter distância, hipnotizado pelas possibilidades e mistérios que residem em sua figura mística.

Cerca de uma semana mais tarde, ele fala com Regina pela primeira vez.

É uma das poucas manhãs onde Emma é capaz de convencê-la a juntar-se à todos na cozinha, para o café da manhã e como na maior parte dos dias, a refeição é feita pelo grupo de forma rotineira, quase indigna de atenção.

Isto é, claro, até que a voz rouca de Evan interrompa as conversas triviais que tomam parte à mesa e que, ante a sua incomum manifestação, são imediatamente relegadas à segundo plano.

"É verdade que você poderia transformar o Leroy em um macaco?" O menino pergunta com interesse genuíno e Emma tem que engolir seu chá de uma só vez para não engasgar. Ao redor da mesa uma série de tosses e sons similares espelha a sua reação, tornando-a menos perceptível, mas apenas por pouco.

Da parte de Regina, leva de fato uma longa pausa antes que ela registre não apenas a pergunta, mas o fato desta estar sendo dirigida à sua pessoa. Sua principal evidência revelando-se nos olhos curiosos de Evan que permanecem fixados em sua figura uma vez que ela ergue os olhos de seu prato. "Perdão?"

"Eu ouvi o Henry dizendo para o Leroy parar de ser malvado com você ou você iria transformar ele num macaco e a Emma não ia fazer nada pra proteger ele." Emma imediatamente lança um olhar incisivo na direção de Henry, que convenientemente parece encontrar algo em seus livros que toma sua atenção por completo. O menino, por sua vez, insiste em uma resposta. "Você pode realmente fazer isso?"

"Evan, essa não é uma pergunta muito educada." Snow lhe diz tentando suprimir um sorriso nervoso, mas Regina a interrompe, impassível mesmo sendo alvo de uma careta feiosa por parte do anão.

"Tudo bem, Snow. Eu posso perfeitamente responder essa pergunta." Regina declara com um sorriso apertado e único consolo de Emma encontra nesse momento é o fato de que esta manhã Ruby não estava se sentindo bem devido a enjoos matinais, razão pela qual o Hook não se encontra entre eles; Caso contrário, esta situação teria um potencial ainda mais catastrófico.

"Eu acredito que poderia de fato transformar o Leroy em um macaco. Eu certamente tenho habilidade para tanto. Mas isso exigiria algum empenho, e para ser sincera, eu não acho que as observações do anão, ainda que bastante rudes, valham semelhante esforço."

"O que Regina está tentando dizer, Evan" Emma tenta assumir o controle da situação antes que o estrago seja grande demais. "É que, embora ela tenha os poderes, não seria correto fazer isso. Não é mesmo, Regina?"

"Claro, querida." Regina concorda levando a boca a última colherada de seu mingau. “Se você prefere colocar dessa forma...”

Contudo, antes de retornar aos seus aposentos, tendo a maior parte do grupo se dispersado para dar início a sua rotina diária, Regina encontra Evan sentado às escadas, brincando com um cavalinho de madeira.

Ele olha para ela, e talvez seja algo na familiaridade de seus traços, ou no seu ar infantil, mas Regina não consegue se conter, lhe confessando em um tom sussurrado. "Mas só entre você e eu, se eu fosse transformar o anão em algum animal, provavelmente seria um porco.”

Ela lhe oferece uma piscada e um sorriso conspiratório que é recebido com um leve rubor. “Agora isso sim, não exigiria esforço algum.”

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Depois disso, Evan começa a sentar ao seu lado sempre que Regina se reúne aos demais para as refeições, ou quando ela visita o convés do navio. E eventualmente, visitas diárias aos seus aposentos se tornam uma espécie de rotina.

Ocasionalmente, estando em sua presença apenas, o menino a enche de perguntas, o que não a surpreende uma vez que esta não é a primeira vez que Regina se vê obrigada a lidar com a curiosidade de um garotinho de 5 anos.

Entretanto, na maior parte das vezes, Evan parece mais do que contente em apenas observá-la em seus afazeres. Seu olhar atento acompanhando seus menores gestos, como se estivesse à espera de um passe de mágica.

Snow é a primeira a perceber o ávido interesse do filho pela ex-Rainha, e não se importa em partilhar suas impressões com a própria, na primeira oportunidade que surge.

Ela encontra Regina trabalhando atrás de uma mesa grande cheia de diferentes engenhocas, pergaminhos empoeirados e pilhas de papéis cheios de anotações em uma caligrafia frenética.

"Eu notei que você não se juntou a nós para o jantar ontem à noite. Ou hoje, para o café da manhã." Snow pontua de forma comedida. "Então eu trouxe um pouco de caldo."

"Obrigada." Regina responde ressabiada, nunca completamente confiante quando se trata de Snow White. Em seguida, ela acrescenta, como para dispensá-la oficialmente. "Pode deixar aí na mesa."

Snow segue a instrução, mas deliberadamente ignora o tom final oferecido. Então, ao invés de se retirar, ela toma um passo à frente, se aproximando do trabalho de Regina com velado interesse. "O Evan já esteve aqui hoje?"

Aí está — Regina reconhece de imediato — a razão pela qual Snow está a rodeá-la. A ex-rainha, no entanto, não tem energia ou interesse em engajar em qualquer tipo de disputa com a mulher mais jovem.

"Se você se opõe a ideia de tê-lo em minha presença--" Snow a interrompe, balançando a cabeça em sinal negativo.

"A presença dele te incomoda?"

Regina quer dizer que sim. Que o menino que é quase uma réplica perfeita de seu pai, com seu cabelo loiro, olhos azuis-esverdeados vívidos e sorriso fácil, é por sua vez igualmente impertinente.

Mas isso não seria inteiramente verdade.

Ocorre que, ainda que nem tanto fisicamente, o menino a faz recordar muito mais de Henry quando este tinha sua idade.

Ele é inteligente e doce, alegre e curioso.

E de alguma forma, ao mesmo tempo, ele parece ter algumas características pessoais que passam bem longe de sua educação e mesmo herança genética.

Para começo de conversa ele não demonstra qualquer dificuldade em permanecer em silêncio, além de não ser tão irritante quanto sua irmã mais velha, por exemplo.

Ou mesmo seus pais.

Regina, no entanto, nunca admitiria isso para ninguém, declarando, no máximo que a presença da criança é apenas um pouco mais do que tolerável, de modo que sua resposta é um simples: "Não completamente".

Apesar de ter sua dúvida sanada, Snow não demonstra qualquer intenção em partir de imediato, para desgosto de Regina.

"Chega a ser engraçado se você parar para pensar, o quão encantado por você ele está. Na verdade, eu diria que as crianças em minha família parecem ter algum tipo de ponto fraco quando se trata de você, Regina." Snow comenta com simplicidade, sem qualquer sombra de ironia ou mágoa, e Regina não consegue enxergar aonde ela quer chegar com tudo isso.

"Você não tem medo do que eu poderia fazer contra o seu filho?"

Não se trata de uma ameaça propriamente e sim uma dúvida sincera, embora o tom de voz de Regina escape mais grave e suas palavras mais frias do que era sua pretensão. "Se eu fosse você, jamais perderia um filho meu de vista, tampouco permitiria que ele ficasse a rodear minha inimiga mais antiga.”

Snow parece ponderar sobre suas palavras com uma expressão impassível e um suspiro cansado quando Regina termina de falar. "Será mesmo que ainda precisamos viver sob os mesmos estigmas? Você não é mais uma rainha má, Regina. Não mais do que eu sou uma princesa. Esta simplesmente não é a realidade em que vivemos..."

Enquanto Regina absorve suas palavras de forma contida, Snow continua.

"E já que estamos sendo honestas, eu não posso dizer que seja propriamente uma mãe para o Evan; certamente não mais do que Emma podia em relação ao Henry quando ela apareceu pela primeira vez em nossas vidas."

Trata-se de uma confissão bastante sólida, e ainda assim, de alguma forma, esta não surpreende Regina. Snow sempre gostou de falar sobre seus sentimentos, um hábito irritante ao qual, aparentemente, Regina não consegue escapar não importa quanto tempo passe.

"Até onde me recordo isso nunca a impediu de reclamar o título de mãe. Muito antes inclusive do que o de salvadora, se bem me recordo." Regina rebate com firmeza, seus olhos escuros abrasadores sobre a figura de Snow. "Na verdade, isso tampouco impediu você.”

"É verdade...” Snow admite, parte essa que de fato surpreende Regina. “Bem... Acredito que grande parte de nossas opiniões mudaram ao longo dos últimos anos."

Ela encolhe os ombros, um véu de tristeza e sombras nublando seus olhos cinzentos.

"Veja bem, quando engravidei de novo, eu realmente acreditei que se tratasse de uma segunda chance. Que eu seria capaz de criar e amar o Evan da maneira que eu nunca pude com a Emma." O tom adotado por Snow fica cada vez mais distante, desconectado. "Mas em seguida o Charming foi contaminado. E tudo mudou. Se houve uma lição que eu aprendi com isso tudo é que não adianta tentar lutar contra o destino, algumas coisas apenas não devem ser..."

Regina pensa em Henry então. O menino que ela adotou e escolheu para ser seu filho. E que, apesar de esperar que ela salve o mundo, mesmo agora, não mostra qualquer sinal de estar disposto a perdoar suas falhas, seu passado, quem ela é.

Mesmo quando é somente isso o que a torna apta a atender seu pedido.

Um menino que preferiu uma completa estranha à mulher que o havia acolhido quando ninguém mais o quis. E que provavelmente, ainda hoje, faria a mesma escolha.

Um menino por quem Regina daria a vida, e que mal pode tolerar sua presença. O que a faz pensar em Cora e seus próprios esforços para se tornar tudo menos a sua mãe. Esforços vãos e caminhos inteiros percorridos para acabar sempre no mesmo lugar.

Nisso Regina é obrigada a concordar com Snow — algo que ela jamais achou que poderia acontecer.

Algumas coisas simplesmente não fazem parte de nossos destinos. E no final, ser mãe, revelou-se apenas mais uma dessas coisas para Snow.

E de muitas formas, Regina não pode deixar de pensar, para ela também.

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Continua...

Notas finais
Primeiramente, àqueles que receberam a notificação de um capítulo novo e se depararam com uma página em branco, sinto muito. Eu apenas realmente achei que esse capítulo merecia um tratamento melhor e ainda que não esteja 100% satisfeita, já estou bem mais do que antes. De modo que aqui estamos. Obrigada a quem ainda lê e acompanha, aguardo como sempre ansiosa para saber das impressões de vocês. Um abraço e até a próxima ;)