Notas iniciais
Não tenho palavras que justifiquem o porque dessa demora. Começou com férias e depois problemas da vida simplesmente tornaram impossível que eu retomasse as postagens. Se esse capítulo está sendo postado agora, é pelo incentivo de todas as pessoas que pediram, mandaram mensagens de encorajamento! You rock! E obrigada pela paciência!

Pelo que parece a primeira vez em semanas, Regina dorme profundamente. Mas seu sono nunca é pacífico. Não quando uma vida de pesadelos reais desfaz a tênue linha que separa a ilusão da realidade.

Por muito tempo voltar à consciência não ofereceu qualquer alívio a Regina, e mesmo que este seja o caso agora, ainda é difícil para ela se desfazer de uma bagagem tão pesada.

São os espasmos inconscientes, e os gemidos que escapam de seus lábios, o que acorda Emma.

Regina não se debate propriamente, mas o fato de não haver virtualmente quase nenhuma distância entre seus corpos, torna mesmo os batimentos acelerados de seu coração um sonoro alarme.

Quando Emma desperta, é sentindo uma dor de cabeça latejante a se espalhar por suas têmporas e o calor do corpo de Regina, nu, em contato ao seu. Seus cabelos negros, um emaranhado que se espalha pelas suas costas em forte contraste com a tonalidade sua pele, enquanto sua respiração oscilante evidencia sua agitação.

Usando uma das mãos como proteção para seus olhos sensíveis, Emma se permite espiar o cenário que a cerca. Raios do sol que brilha alto lá fora, se insinuam pelas frestas do navio, desfazendo o que antes fora escuridão.

Ela não sabe que horas são, mas se o sol já despontou é apenas uma questão de tempo para que sua mãe ou um dos meninos dê por sua ausência.

Ou para que as peguem em flagrante.

O pânico se espalha pela sua corrente sanguínea deixando uma sensação gelada em seu percurso, e mesmo com os efeitos da noite de bebedeira cobrando seu alto preço, Emma se vê compelida a abandonar o conforto dos braços de Regina, seu senso de urgência falando mais alto.

Com a cabeça recostada em seu ombro e o braço estendido possessivamente sobre seu corpo, Regina, resmunga um protesto ininteligível ante o menor movimento da loira. Mas Emma persiste, e com o máximo de cuidado para não acordá-la, acaba eventualmente conseguindo se desvencilhar.

Apenas não sem acabar caindo da cama estreita dividida pelas duas.

Fazendo uma careta, com a certeza de que será pega em flagrante, Emma fecha os olhos, mas nada acontece. Passados alguns instantes, ela se permite abrir um dos olhos e percebe que, para sua sorte, Regina permanece adormecida, tendo se apoderado do travesseiro que Emma deixou para trás e virado o corpo na direção da parede.

Então, tão discretamente quanto lhe é possível, Emma veste suas roupas apressadamente e sai do quarto, satisfeita por conseguir escapar, ainda que sua ressaca esteja dificultando qualquer raciocínio mais complexo.

Ao ouvir o som da porta se fechando, Regina rola na cama mais uma vez, olhos negros e despertos deparando-se com a visão do teto rebaixado do pequeno cômodo.

As ações de Emma, não pela primeira vez, se revelando incompreensíveis para a ex-Rainha Má.

.::.

O percurso entre a cabine de Regina e a sua nunca pareceu tão longo e com passos ligeiros e silenciosos, Emma cruza o corredor, olhos semi-cerrados, desejando ardentemente não ser interceptada por nenhum dos demais tripulantes do navio.

Ela sabe, com a certeza de quem conhece todos os pequenos hábitos daqueles com quem convive, que Snow provavelmente não estará presente na cabine divida pelas duas. Tal suposição nascida no fato de que sua mãe sempre teve por hábito acordar junto com as galinhas, mas também porque quando Snow acredita estar certa a respeito de alguma coisa, sua postura costuma ser bastante previsível. Uma de suas táticas mais comuns sendo dar tempo ao tempo até que a outra parte compreenda a grandiosidade de suas ações – sempre pelo bem maior – ou a magnitude de seus próprios erros.

Não é preciso ser um gênio para perceber um grande problema com essa tática: a teimosia que Emma herdou da própria Snow.

Talvez por isso, ao invés de chegarem a uma solução a respeito do que aconteceu com Charming, as duas tenham acabado empurrando o assunto com a barriga por tanto tempo, colocando band-aids em panos quentes sobre uma situação que inevitavelmente se colocaria entre mãe e filha.

Ao entrar na cabine, basta um rápido olhar para que Emma confirme suas suspeitas. De fato Snow não se encontra no cômodo.

Infelizmente, existe mais alguém ciente de sua ausência. E pacientemente aguardando seu retorno.

Sentado em sua cama, com uma caneca em uma das mãos e uma expressão enigmática, Henry a cumprimenta com um simples,

“Hey, ma.”

.::.

“Killian,” A voz de Ruby é quase um sussurro, se arrastando pelo quarto e gentilmente tentando despertar seu companheiro.

Ele permanece imóvel feito uma montanha.

Ruby revira os olhos. Paciência nunca foi mesmo uma de suas virtudes.

“KILLIAN!” Ela enuncia seu nome com firmeza e para garantir que ele acorde, acrescenta um nada discreto beliscão.

Ele pula da cama empunhando o braço no qual normalmente se encontraria seu famigerado gancho – objeto que passou a ser devidamente guardado todas as noites em uma pequena caixa de madeira após um incidente envolvendo pesadelos e um lobo enraivecido.

“Avante!” Ele se move em um semi-círculo com os olhos ainda fechados.

“Para com isso, seu idiota,” Ruby ordena, pouco impressionada com seus movimentos, sua voz suavizada pelo que a compeliu a acordá-lo para começo de conversa. “Agora, vem logo aqui ou você vai perder!”

Hook abre os olhos então, tentando conciliar os eventos que o cercam. “Red, o que houve?”

Impaciente, Ruby o puxa pelo braço e coloca a única mão do pirata em contato com sua barriga.

A ficha não cai de imediato, mas passados alguns instantes, seus esforços são recompensados quando Ruby se depara com a expressão abobalhada que toma conta das feições de Hook.

“Isso é...” Ele se perde entre palavras, o que poderia muito bem ser um evento marcante por si só, um sorriso cada vez maior brotando em seus lábios.

Ruby sorri também, completando seu pensamento. “Esse é o nosso bebê.”

Por um instante que parece durar uma eternidade, os dois permanecem imóveis, sorriso idênticos fixados em seus rostos, enquanto olhares compartilham uma alegria que não pode ser descrita.

Com a mão ainda sobre a de Killian, Ruby morde o lábio inferior antes de dizer, “Acho que isso significa que estamos prontos para partir.”

Hook ainda tem os olhos fixos na barriga de Ruby, como se pudesse enxergar naquele momento tudo o que o futuro tem a lhes oferecer.

“Hora de zarpar.” Ele confirma, ainda sorrindo.

.::.

Com os cabelos completamente desgrenhados e usando as mesmas roupas da noite anterior, Emma permanece congelada em um primeiro instante, sua boca aberta a espera de uma explicação plausível que deveria estar a caminho.

Infelizmente seu cérebro não está funcionando em sintonia com o restante de seu corpo, e o resultado é um constrangedor momento de silêncio.

“Wow, você está mesmo acabada.” O garoto faz uma careta e estende o braço, lhe oferecendo a xícara contendo um líquido fumegante.

“Valeu.” O gesto arranca Emma de seu torpor, e dando um passo adiante, ela aceita a xícara. “Sua avó te mandou?”

“É, ela disse que você não estaria se sentindo muito bem.” Emma sente uma vontade quase incontrolável de esbravejar, mas policia suas reações procurando deixar sua expressão neutra.

“Ela disse isso, é?”

Henry se acomoda mais uma vez em sua cama, recostando-se na parede enquanto suas pernas compridas quase tocam o chão. Emma não pode deixar de se impressionar pelo quanto ele cresceu nos últimos dois anos.

Ele já está mais alto do que Regina e se ganhar mais alguns centímetros passará ela também. O garotinho que bateu à sua porta há tanto tempo, agora apenas uma lembrança.

“O que aconteceu?” Ele pergunta com os olhos fixos na colcha da cama, mas Emma sabe que ele estará atento à sua resposta, sua natureza observadora e curiosa sempre falando mais alto.

Isso certamente não mudou a seu respeito.

Todos esses anos vivendo juntos, e Emma sabe que embora o garoto lhe conceda o título mãe, uma posição delicada uma vez que a relação dele com Regina é muito mais complexa do que ele gostaria de admitir, Henry a vê principalmente como alguém em quem ele pode confiar, o forte laço de amizade que existe entre os dois fortalecido principalmente pelo fato de Emma jamais mentir para ele.

É por isso que mentir agora está longe de ser uma opção. Mas isso também não significa que ela esteja pronta para conversar a respeito. Seja sobre sua relação com Regina ou sobre sua relação com sua própria mãe.

Sendo assim, Emma fala a verdade, mas com cuidado para não esbarrar em terrenos nos quais não está preparada para pisar ainda. “Foi o rum do Killian. Aquilo é pior do que um veneno, sinceramente não sei como ele ainda está vivo.”

Henry não contesta sua resposta, pelo que Emma é grata, mas sua testa franze por um breve instante e seus olhos parecem enxergar dentro de Emma tudo o que ela está tentando ocultar.

Ele pode não saber exato o que seja, mas é perceptivo demais para não perceber que algo está fora de lugar.

Com a caneca em mãos, Emma desvia o olhar para o seu conteúdo, cheirando o mesmo antes de tomar um gole cauteloso.

Sua careta é um retrato perfeito do quão desagradável a bebida é.

Ela bebe tudo em um gole só, limpando a boca com as costas da mão uma vez que a caneca encontra-se vazia. “Já arrumou suas coisas?”

“Não tinha muita coisa pra arrumar.” Henry dá de ombros, sem elaborar, e Emma percebe então que existe algo mais por trás dessa pequena visita.

Algo que ela provavelmente teria percebido antes se não tivesse passado os últimos dias tão envolvida em suas questões pessoais.

Regina a chamaria de idiota se estivesse ali, e Emma é obrigada a concordar.

“Então...” Ela começa meio sem jeito. Palavras nunca foram seu forte, afinal. “Não tem problema nenhum em ficar apreensivo, sabe? Estamos prestes a dar um grande passo sem saber exatamente pra onde. Isso definitivamente é algo a se pensar.”

“Puxa, isso me faz sentir tão confiante.” Ele debocha sem encontrar seus olhos, e Emma sabe que se trata apenas de uma fachada. Principalmente porque ele não a desmente. “Para onde você acha que o portal vai nos levar?”

Trata-se de uma pergunta interessante e Emma reflete um pouco a respeito antes de responder.

Eles estiveram tão preocupados em escapar a qualquer custo que até o presente momento, não lhe ocorrera pensar sobre qual seria a destinação, ou mesmo o que pode estar aguardando por eles do outro lado.

“Pra falar a verdade eu também não sei. Talvez a Floresta Encantada, se ela ainda existir. Mas se bobear poderíamos muito bem acabar em qualquer outro lugar. O País das Maravilhas, Terra do Nunca, Oz, Hogwarts... Você sabe como mágica pode ser pouco confiável, especialmente agora. É provável que nem mesmo a Regina saiba ao certo qual será nossa parada final.”

“Bom, se não tiverem zumbis já vai ser um avanço, né? E pelo menos nós vamos estar juntos.” As palavras de Henry cortam Emma por dentro, e ela apenas lhe oferece um sorriso triste e cansado. Sua mão acariciando um de seus joelhos ossudos.

“Não poderia concordar mais, garoto.”

.::.

Após passar toda a parte da manhã enfiada em sua cabine – o que nem por um momento, Regina admite ser devido a uma certa apreensão de sua parte em se deparar com uma certa ex-xerife – a morena pode sentir seu estômago reclamando em alto e bom som, enquanto ela teimosamente insiste em continuar a leitura de seu caderno de anotações mais uma vez, revisando os detalhes mais específicos de seu grande plano.

Na verdade, ela está relendo o mesmo parágrafo pela terceira vez, sua atenção lhe escapando com destreza entre os rabiscos das páginas e memórias que persistem a assombrá-la da forma mais inconveniente possível, quando seus ouvidos captam os primeiros sinais do tumulto que toma forma fora de seus aposentos.

Intrigada pelo que possa estar acontecendo – e em parte temendo que se trate de mais um ataque – Regina imediatamente abandona sua cabine, e à medida que se aproxima do convés do navio, as vozes se tornam cada vez mais agitadas e claras.

A primeira coisa que Regina nota é a presença de Henry e seu estado visivelmente alterado. Seu instinto maternal desperta com violência, todos os seus sentidos parecendo despertar de uma só vez, enquanto Regina tenta juntar as peças que possam revelar o principal motivo para o sofrimento de seu filho. Talvez seja a força do hábito, mas imediatamente a atenção de Regina recai sobre a figura de Snow.

Ela deveria ter imaginado.

Com os braços cruzados sobre o peito como uma espécie de escudo, Snow balança a cabeça, recusando-se a deixar que os apelos de seu neto e sua melhor amiga promovam fissuras em sua resolução.

A expressão em seu rosto, aquele irritante olhar de mártir que Regina reconhece sem esforços, é ao mesmo tempo uma súplica e uma barreira que se interpõe entre as duas partes, enquanto sua voz se perde, entrecortada; suas tentativas de se explicar falhando miseravelmente.

Grams, você não pode fazer isso!” Henry argumenta com paixão e fúria, e Regina não pode evitar senão sentir um aperto familiar em seu peito, lembranças de todas as vezes em que ela esteve no lado oposto daquela fala, em confronto direto com sua teimosia e determinação de ferro. “Você não pode simplesmente ficar pra trás!”

“Snow, eu sei que você acredita estar fazendo a coisa certa. Mas por favor, reconsidere!” Ruby implora, e a atenção de Regina imediatamente recai sobre a figura do lobo, que segura a barriga em uma tentativa vã de proteger o bebê que carrega de suas próprias emoções. O estresse da discussão provavelmente afetando a ambos.

Hook parece ter o mesmo pensamento em mente, pois permanece há apenas alguns passos de distância de Ruby, sua testa franzida embora ele tenha o bom senso de não se inserir na discussão. Ao invés disso, sua mão delicadamente busca o ombro de Ruby em sinal de apoio e ao mesmo tempo, buscando afastá-la sutilmente do ambiente conturbado.

“Eu lamento muito, do fundo do meu coração. Mas vocês sabem por que eu tenho que ficar. Não há outra forma.” Snow declara com resignação, ainda que sua voz oscile, embargada.

“Mas você não pode! Nós precisamos ficar juntos!” Henry luta obstinadamente, seus olhos cinzentos repletos de um desespero fervoroso e súplica, e ele acrescenta em um fio de voz. “Nós não podemos perder você também.”

A agonia que floresce no peito de Regina, é devastadora.

Todo esse tempo desde o seu retorno e seus olhos sempre estiveram tão preocupados em tomar nota de todos os detalhes que adornam essa versão tão diferente do garoto que ela viu pela última vez antes de ser condenada por seus crimes. A cadência de sua voz, mais grave; Os traços de seu rosto, mais angulosos e duros. As mãos cheias de calos e a pele queimada de sol. O cabelo desbotado, ganhando um tom mais próximo ao de sua mãe biológica.

Em tantos aspectos ela parecia ter perdido vista do menino que tinha como seu filho.

E ainda assim, nesse momento, Regina não pode ignorar o menino que ela abandonou. E todos os acontecimentos, a maior parte consequências de suas próprias ações, o que o transformou nessa criatura feroz e ferida. Principalmente, ela já não pode ignorar a marca deixada pela sobrevivência em uma realidade tão dura, e todas as perdas sofridas, das quais ela sabe muito bem, ter sido a primeira.

Contudo, ainda que todos os seus instintos se manifestem de forma voraz, Regina permanece firmemente aonde está, resistindo bravamente aos seus impulsos – o que revela muito das marcas deixadas nela também. Todo aquele fogo que sempre explodia a consumindo no caminho, agora uma pequena brasa sob uma vastidão de cinzas.

Ao invés de tirar conclusões, ela busca sinais, pistas, respostas.

E acima de tudo, ela espera.

“Henry, Killian estava certo. Por mais que me doa, eu sei que levar o David junto não é uma opção. Não quando precisamos pensar no bem-estar do grupo como um todo. Mas deixá-lo para trás não é uma opção para mim.” Snow dá um passo adiante e tenta tocar o rosto do neto, mas o garoto se afasta, zangado demais para aceitar o gesto.

“Mas Snow, aquele não é mais o David.” Ruby argumenta, as lágrimas agora escorrendo livremente pelo seu rosto. “Você não consegue ver isso?”

“Talvez não agora, Red. Mas não foi sempre assim. Algo horrível aconteceu e o transformou no que ele é agora. Mas quem pode dizer o que acontecerá amanhã? Talvez ainda exista uma cura. Nós apenas precisamos encontrá-la.” Regina estremece ante o otimismo cego de Snow que, por sua vez, oferece uma das mãos à sua melhor amiga. “Eu nunca poderia desistir dele. Ele ainda é meu amor verdadeiro e isso nunca irá mudar. Não importa o que aconteça.”

“Mas como eu posso te deixar pra trás, Snow? Você é a única família que eu ainda tenho!” Ruby segura a mão dela entre as suas, e se sua confissão afeta Hook, é impossível dizer. Ele apenas permanece ao seu lado, impassível.

“Não mais.” A mão de Snow toca a barriga de Ruby, um sorriso genuíno tomando esboço em seus lábios rosados. “Você está prestes a se tornar mãe. E agora você tem que pensar no que é o melhor para a sua família.”

“E quanto à sua família?” Henry questiona amargamente, sua voz grossa, como se cada palavra tivesse escapado passando por arame farpado.

Snow franze a testa por um breve instante, como se estivesse procurando decifrar um enigma no fundo de seus olhos e quando ela fala, é com uma voz repleta de serenidade e melancolia.

A voz de alguém que refletiu muito a respeito para chegar à conclusão de uma inevitável derrota. “Eu estou pensando na minha família, Henry. É por isso que você, sua mãe e Evan precisam ir. Por mais que me doa me separar de vocês, eu jamais aceitaria que fosse de qualquer outra forma.”

Henry soluça então, como um garotinho, incapaz de conter suas lágrimas por mais tempo apesar de todos os seus esforços e por fim aceitando o conforto no toque de Snow, quando ela as enxuga com as próprias mãos. “Eu amo vocês com todo meu coração. E peço que vocês nunca se esqueçam disso.”

“Emma, você não vai dizer nada?” Seguindo a voz de Ruby, Regina se volta para trás para se deparar com a figura de Emma, somente então dando-se conta de sua presença.

Em pé, junto à proa do navio, a loira parece ter testemunhado à toda a cena, embora suas feições endurecidas não revelem qualquer emoção.

Ansiosamente, os olhos de Henry buscam a figura de sua mãe biológica, esperando que mais uma vez ela assuma seu papel de salvadora, esperando o que poderia muito bem ser o equivalente a uma intervenção divina.

Na verdade, todos os presentes fazem o mesmo, incluindo Regina.

A reação de Emma, entretanto, se revela aquém das expectativas.

Com um tom definitivo, Emma declara sem emoção. “Eu não tenho mais nada a dizer a ela.”

E assim ela vira as costas, sem esperar as reações dos demais, a frieza de suas palavras suspensa no ar.

.::.

O último lugar aonde Regina espera se deparar com Emma é em sua própria cabine.

E no instante em que Emma percebe sua chegada, a julgar pelo que Regina conhece ao seu respeito, também a loira não está inteiramente ciente do que faz ali. Muito provavelmente movida por um subconsciente ainda em batalha com tudo o que tem acontecido e o que ainda está por vir.

Sentada em sua cama, Emma brinca com uma maçã, jogando a mesma para o alto somente para capturá-la em seguida. Um jogo tedioso, com intuito de distrair seus reflexos e talvez até mesmo disfarçar o nervosismo de mãos inquietas.

Regina não se mostra impressionada por suas habilidades. E menos ainda pelo fato de ela estar ali, especialmente em vista de como o último encontro entre as duas terminou.

“Você não deveria estar aqui.” Ela declara secamente, fechando a porta ao entrar, seus passos silenciosos sem o barulho do salto alto que costumava ser sua assinatura.

Emma sente uma pontada de nostalgia ao lembrar deles. E então joga a maçã para o alto mais uma vez. Desta vez, ao capturá-la, ela leva a fruta à boca, dando uma generosa mordida. “Você realmente sabe como fazer uma garota se sentir especial.”

Ela fala com a boca cheia, sua postura casual e mesmo relaxada – como alguém que já passou tempo suficiente naquele ambiente para sentir-se em casa. Algo em seus olhos, indicando apenas uma vaga consciência do impacto de suas ações e do que sua presença ali, mais uma vez, representa.

Regina não responde de imediato, contemplando a mulher que tem diante de si e as implicações desta visita, sem conseguir determinar qual o propósito disso tudo. Aquela brasa que ainda reside em seu interior, parece reascender subitamente, quando as palavras facilmente abandonam sua boca.

“Isso vindo de alguém que costuma sair pela manhã sem ao menos um adeus ou obrigada pela noite. Que esclarecedor.”

A expressão no rosto de Emma muda de imediato, evidenciando seu desconforto.

Como Regina já suspeitava, ela não está interessada em encarar os fatos. O que apenas a compele a pressionar o delicado tópico. “Agora eu entendo o que a trouxe aqui na noite passada.”

O comentário é feito por Regina sem malícia ou qualquer sombra de crítica, sua irritação tendo se dissipado com a mesma velocidade em que se formou.

Ela está apenas sendo honesta, embora exista algo em seu tom que insinue um sentimento de conformismo e talvez, até mesmo tristeza (ainda que a morena camufle esta última com destreza).

Seja como for, suas palavras acertam Emma em cheio, o tópico em questão uma ferida ainda aberta e pulsante, embora ela se esforce para demonstrar o contrário.

Com o coração batendo rápido em seu peito, a loira senta na cama, sua postura rígida e tensa enquanto ela se contém para não despejar sobre Regina a longa lista de palavrões que lhe enchem a mente em enxurrada.

É preciso que Emma lembre a si mesma que Regina, por incrível que pareça, não é a pessoa responsável por toda essa sua fúria – embora ela não evite esbarrar na mesma de uma forma que não parece exatamente acidental (o que, em se tratando da ex-prefeita e o tipo de dinâmica estabelecida entre as duas, não chega a ser uma novidade).

Refreando seus impulsos, Emma procura se acalmar respirando fundo.

“De que diabos você está falando?” Talvez seus esforços não sejam tão bem sucedidos assim. Seu tom apenas vagamente comedido, quando ela cospe as palavras.

“Está me dizendo não tem qualquer recordação do que aconteceu ontem?” Regina ergue uma sobrancelha, sabendo muito bem a resposta. Emma se contorce em seu lugar, o rubor que se espalha pelo seu pescoço e faces fornecendo toda a confirmação que Regina precisa. “Foi o que pensei.”

“O que você quer, Regina?” É a vez de Emma perguntar, embora desta vez sua voz soe apenas muito cansada, sem qualquer indício dos ânimos que costumam acompanhá-la quando as duas se encontram às vias de um confronto direto.

“Eu só queria ter certeza de que--” Regina hesita. Seus olhos castanhos se perdendo em um ponto qualquer na parede quando ela completa. “De que você ainda está disposta a executar o plano que arquitetamos.”

“E por que eu não estaria?” Emma refuta desafiadoramente e Regina quase deixa sua frustração vencer apesar de seus esforços. Mas antes que ela possa dizer mais qualquer coisa, Emma dá a conversa como encerrada. “Vou avisar a todos para se prepararem. Quanto antes partirmos, melhor.”

Emma então se levanta de uma vez e já se encontra em frente a porta quando as palavras de Regina a alcançam, a gentileza em seu tom vencendo sua resistência.

“Emma, antes que você vá...” Ela hesita, como se estivesse reconsiderando o que está prestes a dizer. “Sei que a decisão da Snow não está sendo fácil para você aceitar, mas lembre-se de que você não é a única que será obrigada a dizer adeus.”

Oferecendo nada além de um categórico silêncio, Emma abandona a cabine sem olhar para trás, mas Regina sabe que foi ouvida, mesmo que seja apenas pela forma como a loira bate a porta com força ao sair.

.::.

Com os pés plantados diante da porta, Emma escuta uma voz que ressona pelas paredes ao seu encontro, seu timbre dolorosamente familiar.

Ao invés de bater e entrar, ela permanece imóvel, suas mãos tocando a madeira que serve de barreira e proteção entre ela e o que está acontecendo do outro lado, dentro da cabine.

Mesmo ciente da vulnerabilidade de sua posição, podendo ser pega em flagrante a qualquer instante, Emma não consegue se forçar a abandonar seu posto na galeria, sua atenção fixada nas palavras que estão sendo ditas para ouvidos que não são os seus.

No interior do cômodo, sentada ao lado de seu filho com as mãos acariciando suas longas madeixas louras, Snow se permite gravar os menores detalhes daquele momento, ao passo em que suas palavras são articuladas. “Evan, você sabe que dia é hoje, não sabe?”

Sem olhar para a mãe, Evan parece ter toda sua atenção voltada aos brinquedos que tem espalhados sobre a cama, um coelho de pelúcia que parece prestes a se desfazer tamanho desgaste e o cavalinho de madeira que Grumpy fez para ele em seu último aniversário. Contudo, a voz de Snow parece ser registrada quando ele acena afirmativamente com a cabeça.

“Muito bem.” Snow confirma com um sorriso que não chega aos seus olhos. “Mas existe algo mais que você precisa saber.”

Algo em seu tom denuncia a seriedade do momento pois o menino olha para ela então, curiosos olhos esverdeados analisando suas feições enquanto esperam suas próximas palavras.

A expressão no rosto de Evan tão familiar e distinta – tão igual ao pai – que Snow sente uma batida irregular em seu coração, como se o órgão de repente fosse um pássaro tentando escapar de sua gaiola.

A semelhança entre os dois, um detalhe que ela se esforça imensamente para não deixar abalá-la, motivo pelo qual de uma forma ou de outra, seus olhos sempre evitem repousar muito tempo sobre a figura de seu próprio filho – uma verdade horrível e brutal que tem pesado sobre sua consciência nos últimos 5 anos.

Só que desta vez ela não pode se esquivar.

“Evan, a mamãe não vai fazer parte dessa grande aventura em que vocês estão prestes a embarcar.”

Evan continua calado, mas em sua testa surge uma pequena ruga, na altura dos olhos, quando sua cabecinha tenta absorver o sentido do que sua mãe está lhe dizendo.

A expressão tão natural que imediatamente aos olhos de Snow as semelhanças com David desaparecem, dando lugar ao semblante de Emma. O que de forma alguma torna a situação menos impossível.

Engolindo em seco, Snow fecha os olhos, forçando sua voz a sair mesmo com o nó em sua garganta.

“Você, Henry e Emma ainda irão fazer essa jornada. Assim como a tia Red, o Killian, o Pongo... E também a Regina. Mas a mamãe não vai, meu querido. Infelizmente eu terei que ficar.”

Ao abrir os olhos, Snow precisa usar de todo seu domínio e auto-controle para que sua resolução não desabe como um castelo de cartas. “Veja bem, há uma boa razão para que a mamãe não vá com vocês. Existe uma missão especial que eu recebi. Algo que ninguém mais pode fazer além de mim. Algo que você só poderá entender quando estiver mais velho.”

A imagem de um Evan crescido surge na mente de Snow sem o seu consentimento.

Snow o vê aos oito, dez, dezesseis anos. Com os cabelos loiros a caírem sobre seus ombros, o sorriso de seu pai, a desenvoltura de sua irmã, a curiosidade que sempre a faz lembra da garota que ela já foi um dia. Todo um futuro do qual ela não fará parte.

Ela faz o seu melhor para não chorar, o que não significa que algumas lágrimas não escapem mesmo assim.

“Eu tenho que ficar Evan, para preservar o que resta de amor verdadeiro nesse mundo.” Ela lhe oferece seu sorriso mais brilhante, as lágrimas agora escorrendo livremente apesar de seus esforços. “Agora, filho eu sei do fundo do meu coração que não preciso me preocupar. Você, meu querido, está indo para um lugar onde finalmente terá a vida que sempre mereceu! E eu sei que, não importa o que aconteça, Emma e Henry sempre estarão ao seu lado. Eu só preciso que você saiba que a mamãe te ama muito, ok? E que você me prometa que, não importa o que aconteça, jamais irá duvidar disso. Você pode fazer isso? Pode me prometer?”

O menino parece refletir por alguns instantes, mas então acena afirmativamente com a cabeça e, com um gesto que tranquiliza Snow, se refugia em um abraço apertado.

Ela o segura então, com força, como que para compensar todos os momentos em que não teve coragem para fazer isso. E todos os outros em que não mais será possível fazê-lo.

Passado algum tempo, quando Snow abre a porta para sair do quarto, o rosto vermelho e os olhos inchados por todas as lágrimas que derramou, ela se vê de frente à frente com Emma.

Nunca antes Snow viu a filha com um aspecto tão devastador.

Por fora Emma parece fria, sua expressão fechada colocando uma distância intransponível entre as duas. Mas em seus olhos Snow enxerga com clareza o calor de toda a mágoa e ressentimento lançados em sua direção. Ela apenas gostaria que houvesse algo que ela pudesse fazer à respeito. Um bálsamo que ela pudesse oferecer para livrá-la da dor que claramente a está devorando de dentro para fora.

Infelizmente, esta não é uma opção diante de sua escolha.

“Eu não entendo como você é capaz de fazer isso.” Emma declara com desprezo, sua voz rouca e um olhar afiado como uma navalha, seu efeito, certamente tão letal quanto a arma. O tom de sua voz, suficientemente duro para dilacerar o coração de Snow em mais um milhão de pedaços.

Talvez Emma sentisse algum conforto se soubesse disso. Sua raiva, no entanto, não permite que ela enxergue nada além do simples fato de que sua mãe está escolhendo abandoná-la.

Mais uma vez.

Então, com a afeição que tem pela filha vencendo qualquer bom senso, Snow se arrisca a lhe dirigir a palavra uma última vez, entregando-lhe um monte de palavras embrulhadas com seus melhores e mais sinceros desejos.

“Quando você encontrar seu verdadeiro amor, Emma, você vai entender.”

.::.

Às dez da manhã eles partem.

A pequena e triste caravana deixando para trás o navio, o mar e três membros de sua tripulação; Snow decide ficar por amor. Grumpy, por lealdade. E Whale, muito provavelmente abrigando ambições mais obscuras, afirma estar decidido a ficar em prol da ciência e seu interesse em encontrar uma cura.

Emma segue em frente com passos duros, e em momento algum se permite olhar para trás.

Na verdade, nenhum deles o faz.

.::.

Continua...