A Morte do Ponto de Vista da Morte.
1 Capítulo 1
Os humanos me chamam de Morte, tratam-me como um destino terrível, como um abraço reconfortante até, um sono, um descanso bem-vindo depois de uma vida atormentada. Eles não sabem que “Morte” não é só uma coisa, mas sim várias. A Morte é dividida em setores que cuidam das mais diversificadas formas que os humanos encontram seu fim. Mas, para não se confundir, me chame de Sr. Fonseca ou, se tiver preguiça, Rô está bom. Apesar de me agradar mais o primeiro.
Para mim era só mais um dia de trabalho comum, sangue nas paredes, mortes nada agradáveis e um tanto quanto sujas. Bem, os melhores dias de trabalho são assim. Meu queridíssimo chefe (note o sarcasmo, por favor) me colocou para trabalhar com a morte de bichinhos de estimação. Oras, eu, Rodolfo Fonseca, cuidando da morte de meros animais? Faça-me o favor.
Resignado, dei um suspiro cansado e balbuciando algumas ameaças, prevendo a chatice da situação, peguei meu celular (um modelo exclusivo no mercado) para ver o próximo trabalho. A modernidade de hoje em dia, tão simples e metalizada! Era de suma importância estarmos atualizados no mundo de hoje, e confesso que meu amor por tecnologia foram as alturas quando comprei este novo mimo. O meu chef, claramente, não gostou, pois estava “denigrindo a honra dos ceifadores” Que honra tem a morte? Pois é, nada.
Usei o elevador do portal para chegar à casa dos Alabardas, como todas as casas da região, era pintada de cores claras e um jardinzinho com insetos nojentos. Minhas mãos com minhas unhas bem cuidadas e pintadas de preto abanaram em desgosto. Só de imaginar insetos, ah, eca. Meus ombros se chacoalharam.
A tal criança era de pele morena, uma graça fisicamente. Sua pele era negra e os cabelos estavam trançados. Ela estava abaixada, os joelhos rentes ao peito. Usava um vestidinho amarelinho de babados. Mona chorava baixinho, o corpinho tremia cada vez que um soluço (que eram muitos, diga-se de passagem) vinha. O peixe morto estava na beira de um rio cristalino, o cenário era rodeado de árvores e flores silvestres. Aquilo era um belo lugar para uma cena tão mórbida e deprimente.
Me aproximei calmamente, sem perturbar o clima depressivo e envolvi o peixinho em um véu negro que eu usava. Os grandes olhos da cor de chocolate derretido estavam vermelhos, a criança ainda soluçava copiosamente. Sem dizer uma palavra se quer, fui embora envolvido no silêncio sepulcral.
Ou tentei, Mona, aquela filhote de praga, me viu e eu, como um bom samaritano, respondi ao fraco “quem está ai?” vindo dela. Aproximei-me de Mona que me olhou com uma esperança cintilante.
“Você é aquele que a mamãe e o papai falam?” Fiz uma careta e ela me imitou, soltando um risinho.
“O anjo?” Questionou me novamente. Mona secava os olhos com a mão mesmo. Parecia mostrar uma postura de adulta, mesmo que falha.
“Uh, não, estou mais para o que não te falam” Balancei minha cabeça em concordância.
“Ah, que pena. Mas então...” Ela me chamou com a mãozinha pequena “Quem é você?” Ela pronunciou o “c” como “x”, igual a uma criança pequena de cinco ou quatros anos. Não tenho certeza, afinal, sou babá de adultos.
“Quando crescer vai descobrir” Respondi, desgostoso. Mona A que Pergunta Muito olhou-me com os olhos de cachorrinho e reclamou.
“Quando vai me devolver o Azuzi?”
“Oras, criança metida, não vou devolver-te!”
Tapei os ouvidos rapidamente, Mona gritava e esperneava tanto que me dava nos nervos. Ela era mais que insistente, assustando até os pobres pássaros azuis com seu lamento.
“Mona, sua praga, irei lhe devolver mas fique quieta” Tirei o capuz negro que envolvia meus cabelos platinados (as vezes eram brancos também). Cansado de tanta gritaria, sentei no chão, não me importando se iria usar a calça, pasmem, preta.
“Jura?” Perguntou, parando de chorar em um piscar de olhos. “De dedinho?” A menina arqueou a sobrancelha, duvidando de minha palavra. Revirando os olhos, estendi meu mindinho selando nosso acordo.
“Bem, moço bonito, o meu peixinho vai ficar em segurança com você, não é?” Assenti calmamente, tentando não corar com o elogio singelo. Que por sinal, um esforço inútil. Já que puxei, ah, meu criador? Enfim, não pensamos na coisa que nos criou ou em quem é nosso parente.
A morena dobrou os joelhos, na famosa pose perninha de índio.
“Moço” Ela me chamou baixinho, apesar de aparentar ser uma criança calma, ela mexia os dedinhos como uma criança hiperativa “foi você quem levou meu vôzinho?’
“Ele morreu de que?” Perguntei-lhe desinteressado, minhas unhas iriam precisar de uma manicure em breve...
“ELE NÃO MORREU SEU CHATO” Mona começou a gritar fervorosamente. E eu, tomando uma decisão drástica, tapei a boca da peste irritante.
“Ahm, não. Sinto muito” na hora seus olhos lagrimejaram mais. Okay, talvez eu achasse a praga uma coisinha fofa, tipo um filhote de gatinho ou cachorrinho, apesar de muito irritante. Um filhote de praga é fofo?
“Papai disse que vovô quis visitar as estrelas, mas ele não podia me levar” Seus olhos marejaram com a lembrança. Buscando alguma frase que a reconfortasse, lembrei-me de algo.
“Um dia você estará junto dele” Apesar da morbidade sentida por mim, Mona não percebeu.
Ela deu um micro sorriso em minha direção, ergueu o polegar formando um positivo com a mãozinha pequena.
“Mona, deixe-me” A Praga me interrompeu, sacudindo-me como um boneco.
“Como sabe meu nome?’ Gritou, a vozinha de criança afinava a cada sílaba.
“Eu sei porque sei, oras!” Respirei fundo “Agora, vou continuar, posso?” Mona meneou positivamente, a menina era pura energia.
“Um dia...”
“Moço, você está fazendo errado! É Era uma vez”
“Mona!” Bronqueei. “Pois bem, era uma vez” Mona abriu a boca, mas logo lancei um olhar atravessado.
“Era um dia de verão, e eu era uma criança muito espoleta e acabei sendo atropelado e ai fui ver as estrelas. Fim!”
‘Bah, isso foi muito chato!” Resmungou consigo.
“A vida não é feita de flores, querida” Usei a doce ironia que preenche minha vida.
“Uh, uh, invente outra então.” Ela deitou na grama e discretamente enxugou os olhinhos cheios de lágrimas.
Com o céu entardecendo, fui falando sobre histórias amenas, até que notei que Mona dormia com o dedinho na boca. Sem esperar que ela acordasse, fiz-lhe um pingente em forma de um peixe, exatamente igual ao Azulzinho, o cristal usado era azul também, e grudado uma estrela prateada. Desta vez, fui embora, mas não antes de cobrir Mona com a minha capa, que não vou nem comentar a cor dela.
Sai da casa dos Alabarda no mesmo silêncio que vim, a diferença? Irei ganhar um provável aumento. Isto é, se o meu chef José Alabarda, quiser.
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