A Morte de Jonas
8 Ontem
Estávamos de frente ao local. Meu estômago pareceu revirar instantaneamente. A mulher percebeu que eu havia freado e me perguntou:
— Vai ter uma crise de pânico?
— Não. – Eu respondi brava. Eu me recusava a demonstrar tanta vulnerabilidade àquela charlatã. Eu entraria plena naquele restaurante maldito.
— Então, vamos.
E entramos.
Tudo estava do jeito que eu lembrava: a fonte que fora uma vez lavabo para meus pés, a cor dourada forte predominante em todo cenário, as saletas que faziam você e sua companhia se sentir que eram as únicas pessoas no estabelecimento e as exóticas estatuetas de animais aleatórias.
Sentamo-nos e esperamos sermos atendidas o que não aconteceria por um bom momento. Enquanto isso a mulher me olhava ansiosa.
— O quê? – Perguntei, irritada.
— Olhe ao redor. Tente sentir. Você deve perceber alguma coisa. – Ela disse misticamente.
Amarrei a cara e olhei forçosamente ao redor.
— Nossa! – Comentei então.
— O que foi? Percebeu alguma coisa?
— Sim! – Falei em tom de surpresa. – Olha aquela estátua de macaco, que coisa macabra. Quem olha para aquilo e pensa: “que bonito, vou usar de enfeite no meu restaurante”?
Ela olhou para a estatueta de macaco atrás dela.
— Eu achei bonitinho.
— É claro que achou.
— Vamos, tenta fazer um esforcinho. Deve ter alguma coisa aqui que nos dê uma pista sobre o assassino.
— Não fale essas coisas em voz alta! – repreendi – Estou olhando, me dê um tempo.
Meu celular tocou. Pela tela soube que era minha mãe. Decidi que não atenderia.
— Atenda! – A mulher me incentivou.
— Eu não quero!
— Não é legal deixar as pessoas esperando.
Virei os olhos e atendi o telefone. Talvez minha mãe me poupasse, mesmo que virtualmente, um pouco da companhia da charlatã.
— Oi, mãe.
— Oi, filha. Como você está?
— Estou bem e aí?
— Tudo certo por aqui. Tem certeza que está bem?
— Sim, está tudo ótimo.
— Sua prima me ligou. Disse que você precisa de ajuda. Você sabe que pode contar comigo, não sabe?
— Mãe, está tudo bem. Minha prima está delirando.
— Ela me pareceu muito preocupada… Você some. Todo mundo me pergunta de você, eu não sei dizer, você nunca dá notícia. Sua vó é a que mais sente, você deveria ir visitá-la…
— A vó nem lembra quem eu sou, mãe.
— Não é verdade. Ainda não é.
Fiquei em silêncio. Uns trinta segundos depois ela respondeu:
— Sua prima disse que você estava muito sozinha.
Eu odiava minha prima nesse momento.
— Não é verdade. Tanto que nesse exato instante estou com uma amiga.
A palavra “amiga” fez a mulher na minha frente rir de orelha a orelha, o que era algo que não me agradava. Ativei a câmera do meu celular, com o flash ligado bem contra os olhos dela, fazendo-a se retesar e dar um gritinho de incômodo.
Mandei a foto dela para a minha mãe.
— Tudo bem, então, eu acho. – Minha mãe disse enfim. – Qualquer coisa estou aqui… Você tem deixado seu apartamento limpo? Você sabe que sua saúde é frágil e você não pode com poeira…
— Sim, mãe. Tenho que ir, tá bem? Beijo.
Desliguei. A mulher a minha frente me olhava com um sorriso bobo.
— O que foi?
— Disse que somos amigas.
— Era só pra não preocupar minha mãe.
Ela claramente não acreditou e continuava feliz.
— Para de fazer isso ou vou te dar um soco na cara.
— Fazer o quê? – Ela perguntou, sem mudar a expressão.
— Ai, vamos embora. – Eu disse, passando a alça da minha bolsa pelo ombro e seguindo para fora da saleta. Nesse exato momento o garçom vinha nos atender e nós nos trombamos na passagem da saleta. O cardápio que ele trazia na bandeja foi ao chão. Meu coração palpitou rápido e forte, mesclado com uma estranha sensação de tontura. Fiquei paralisada olhando o homem com a bandeja na mão. A mulher do carpe diem rapidamente alcançou o cardápio no chão e o colocou de volta a bandeja.
— Desculpe-nos. – Ela disse ao garçom. Ela segurou minha mão e me puxou para fora do restaurante.
Já do lado de fora, ela me fitava curiosa.
— O que foi? Você está pálida.
— Eu acho que me lembrei de uma coisa que havia esquecido…
— Claro, você só pode se lembrar de coisas que você esqueceu.
— Quê?!
— Nada, nada. O que foi? O que você lembrou?
— Eu não tenho certeza. Eu não sei. Já teve a sensação de que talvez você esteja inventando memórias?
— Eu não sei, acho que não. – ela me olhou, encabulada. – Mas parece uma sensação horrível. Você está muito pálida.
— Sim, é uma sensação horrível. – Confirmei. E isso me fez viajar nos pensamentos por um momento. – Eu vou fazer o que minha mãe disse.
— Eu ia falar pra você faxinar seu apartamento, mesmo. Olha, eu detesto ser a que comenta, mas aquilo lá está inabitável…
— Não, doida. Eu… Eu vou visitar minha avó.
— Agora?!
— Sim.
— Tá bem. Eu vou com você.
— Não. É melhor não.
Mas ela me seguiu e não pude evitar.
Chegamos na casa de vovó. Ela nos recebeu com simpatia e logo perguntou quem era a moçoila no meu encalço.
— Apenas a ignore, vovó. – Eu disse.
Vovó nos pediu para sentarmos no sofá e mandou que sua assistente buscasse uma garrafa de café e umas xícaras, que recusei prontamente. Vovó me ofereceu então leite de vez café. Recusei também. Ela me ofereceu refrigerante. Recusei. Ela me ofereceu cachaça e pra não fazer desfeita, aceitei.
— Você desapareceu, minha querida. – Ela comentou. – Minhas memórias da última vez que a vi estão vívidas. Isso quer dizer que faz tempo que não te vejo. Ou que eu tenha esquecido das vezes recentes que te vi.
— Não, vovó. Eu estive distante mesmo. Sabe como eu sou, né?
— Ah, sim. Você sempre foi muito presa no seu mundinho, desde criança. Mas sempre extremamente amorosa. Teve com quem partilhar esse amor, pelo menos?
— Ela não teve. – A mulher do carpe diem disse por mim. – E acho que é por isso mesmo que anda extremamente amargurada. Sua neta precisa da sua ajuda.
A vovó riu-se.
— A velha maldição da família. Não se preocupe, querida. A má sorte no amor é hereditária, não tem muito o que fazer se não aceitar. Viu-te o traste que casei?
— Falando nisso, por onde anda o vovô?
— Sei lá. – Ela respondeu.
Ficamos em silêncio por um tempo.
— Você tá bonita, minha filha. A palidez te cai bem. Está magra que nem um palito, mas nisso eu posso te ajudar. – E pediu que a assistente trouxesse bolinhos.
A vovó falou um pouco sobre seu cotidiano com meu avô e sua assistente. Por um momento pareceu perturbada e eu perguntei se havia alguma coisa errada.
— Eu não consigo me lembrar do seu nome, querida. Perdão. Será que pode me dizê-lo? Ah, que péssimo.
— Tudo bem, vovó. Eu mesma estou com alguns problemas quanto a isso.
— Está com Alzheimer, também? – Ela perguntou, surpresa.
Antes de negar, parei para pensar na possibilidade.
— Às vezes… – Vovó começou, o olhar distante. – … Digo, esquecer certas coisas pode ser bastante inconveniente. Logo eu que sempre prezei pelos mais minúsculos detalhes das coisas. Ah, não dá para dizer que é uma benção isso que me ocorre, definitivamente não é. Mas, minha querida, acho que está no nosso sangue a ansiedade e a preocupação constante. Se eu tivesse me esquecido completamente de você, eu ainda saberia que era minha descendente só pelo seu olhar.
Fiquei tentando lembrar se eu havia fumado alguma coisa nas últimas horas que meus olhos pudessem denunciar.
— Você definitivamente carrega esse fardo. – Ela continuou. – E então vem essa doença. E depois que você aceita, quando você finalmente aceita… Você consegue ver até certa paz. Eu quando finalmente me perder, quero que se lembrem que fiz amizade com a paz no fim da vida. Esquecer certas coisas me deu uma tranquilidade que acho que nunca tive. E certas coisas que eram importantes, mas estavam enuviadas, subitamente ficaram mais claras. Mais fáceis de ver. Como se dissessem: você deveria ter se importado com a gente, não com outras bobagens. Eu posso não me lembrar do seu nome, querida, mas eu sei quem você é. Você é aquela garotinha que está sempre se escondendo, morrendo de medo de que descubram que você tem necessidades, como qualquer outra pessoa…
— A senhora percebia isso em mim? – Eu perguntei.
— Agora percebo. Perdoe seus velhos, minha querida, eles esquecem demais quando são novos. Eles gostam de acreditar no que é conveniente. Você sempre se mostrou forte. E a criança forte é conveniente para os adultos. Ah, se é.
A mulher ao meu lado assoou o nariz emocionada. Vovó lentamente fechou os olhos e não abriu mais. Eu fiquei assustada e perguntei a assistente:
— Ela morreu?!
A mulher veio até nós, olhou para a idosa descansando solenemente na cadeira de balanço e me respondeu:
— Não, só está dormindo. Daqui umas duas horas ela volta.
— Ah. – Eu ainda estava confusa, mas fiquei aliviada.
Saímos da casa da vovó e a mulher do carpe diem comentou:
— Uau, que mulher sábia e inspiradora, você estava certa em querer vir.
— É, mas eu estava errada.
Ela me olhou encabulada. Expliquei:
— Não me entenda mal, a ajuda da vovó e de todas as pessoas que me ofereceram e oferecem apoio é muito bem-vinda. Mas esta dependência…
“Como eu posso duvidar das minhas próprias memórias? Dos meus sentimentos? Eu não consigo sair de onde estou porque eu preciso que me digam se o que lembro é real ou não, mas só eu estava lá. Ninguém pode me dizer o que eu vi, o que eu sinto, o que se passou. Por mais que todo mundo diga que entende, que compreende, que quer ajudar… Não é essa a questão. Se eu não fizer, não será feito e pronto.”
— Eu não sei se estou entendendo onde você quer chegar…
— É complicado. Mas é como se eu soubesse das coisas, mas duvidasse delas porque não tinha ninguém pra confirmar que elas eram daquele jeito mesmo. Como se eu precisasse que me dissessem “sim, isso aconteceu de fato”, ou “sim, você tá sentindo é isso”.
— Como se você não confiasse em si mesma?
— Sim, mas pôr dessa forma pode ser desviante. É como… Uma completa falta de confiança nos próprios sentidos sensoriais. Uma agoniante incerteza se eles são reais. E isso com tudo. Alguns sentimentos ou emoções veem e tomam conta de mim. A tristeza, a frustração, o ciúme. A saudade, o medo. E por eu não vê-los pelo que são, eles me paralisam. Não porque não quero, ou não entendo, mas porque não tem ninguém pra me dizer: “é isso mesmo que isso é.”. “É isso mesmo que tá acontecendo”, “é isso que você tá passando”. E mesmo quando dizem, às vezes, vai contra o que eu acho que é e então, não adianta nada. Não é questão de pedir ajuda. É questão de me deixar estar certa. Ou me deixar estar errada.
— Não sei se tô acompanhando o raciocínio. Tem certeza que não quer conversar sobre isso de novo depois que o efeito da cachaça passar?
— Eu sei o que aconteceu. Eu sei como resolver o caso do assassino. E estou indo fazer a denúncia agora.
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