A Morte Me Dá Spoilers
8 Capítulo 7: Uma bomba relógio de crochê
Acho que estou ficando maluca. Ou mais maluca. Ou talvez meus poderes estejam expandindo de um jeito tão aleatório quanto a playlist do Bob — que, aliás, ontem misturou Beethoven com country sem nem piscar.
Nos últimos dias, venho tentando treinar minhas visões. Nada muito intenso, claro — não estou me jogando em cenas de crime pedindo para ver a morte de ninguém. Só… observando o cotidiano. Focando em coisas pequenas. Simples. Controláveis. Tipo saber se o elevador vai chegar no térreo ou no segundo andar primeiro. Spoiler: nunca certo, ainda bem que não uso elevadores.
Mas hoje, enquanto eu lia o romance erótico mais broxante da face da Terra — um negócio chamado A Verdade Desnuda, que, sinceramente, só deveria ficar desnuda de uma prateleira e ser jogado direto no fogo —, me veio um pensamento estranho.
Bob vai passar e derrubar a caneca que está na ponta da mesa.
Nem estava olhando para o Bob. Nem sabia que ele estava ali. Não foi uma visão, não teve aquele peso, aquela coisa cinematográfica que geralmente acompanha as premonições. Foi só um pensamento intrusivo, tão aleatório quanto a cena de sexo com queijo brie que eu acabei de ler no maldito livro.
Dei de ombros. Voltei a ler. Me arrependi imediatamente.
Segundos depois, um barulho de algo se espatifando no chão. Olhei para trás.
Bob.
Caneca no chão.
Xícara falecida.
Ele estava agachado, catando os cacos e murmurando algo sobre "instabilidade de superfícies" como se fosse um engenheiro da NASA e não um cara que tropeça no próprio chinelo.
Fiquei parada, encarando a cena.
— Mas que porra foi essa? — murmurei.
Bob não morreu. Ninguém morreu. A não ser que você considere que a caneca morreu… mas mesmo assim, não foi uma visão. Não daquelas que me fazem travar, respirar fundo, sentir o cheiro de sangue no ar. Foi só um pensamento. Uma sensaçãozinha leve. Um plim. E então, bam, a realidade acompanhou.
Parei de ler aquela merda de livro e fui pegar um café. Merecidamente.
Voltei com o café. Aparentemente, ele não tinha visão futura de que eu tomaria um gole e queimaria a língua. Ou talvez esse dom só funcione pra tragédias alheias, tipo a morte de canecas inocentes.
Tentei de novo, só pra testar.
“A porta vai bater com o vento.”
Nada.
“Alguém vai espirrar.”
Silêncio total.
“O Bob vai dizer uma idiotice.”
— Acho que a caneca tinha um defeito estrutural. — disse ele, muito sério.
Cuspi o café.
Não foi a previsão que queimou minha boca. Foi ele mesmo.
Se bem que… Bob dizer uma idiotice faz quase parte do que ele é. Não vou colocar isso na conta não. Seria roubado, igual está sendo roubado meu tempo enquanto leio esse livro.
Tentei ignorar, mas aí outro pensamento veio.
O telefone vai tocar na sala da Rachel. Porteiro avisando que o elevador quebrou.
Dez segundos depois… trim-trim.
Rachel atendeu.
— Merda! — ela berrou.
Saiu da sala feito um furacão e anunciou em alto e bom som que o elevador tinha quebrado e todos deveriam usar as escadas.
Eu fiz de novo.
Isso pode ser útil.
Não ver só mortes.
E definitivamente não ter aquele ban que me invade por inteira em uma visão...
Ser apenas esse pensamento intrusivo... nossa, meu dia seria muito mais fácil...
Ban.
A palavra veio e me travou.
Não estava no escritório. Era o poço dos elevadores. Não estava lá, só via. O cabo ia se romper. O técnico estava dentro do elevador. Ele atendeu uma chamada antes de cair, dizendo que às 17h15 tudo estaria resolvido.
Acordei num susto.
Quase caí da cadeira.
Rachel aparentemente me viu assustada. Veio discretamente até a minha mesa e perguntou:
— Quem, onde e como?
— Técnico da manutenção, poço do elevador, vai ser esmagado.
Ela saiu sem dizer mais nada, como se isso fosse um assunto absolutamente normal. Foi até sua sala e pediu para o técnico ir até lá antes de começar qualquer conserto.
Alguns minutos depois, ele apareceu — pela escada, obviamente.
— Pois não, senhora?
— Como o prédio não faz manutenção nos cabos dos elevadores há um bom tempo, sugiro que comece por lá. Não queremos ninguém morto no poço dos elevadores, não é?
— Certo, senhora, mas por que me chamou?
— O seguro me ligou cobrando isso. Acionei eles assim que me avisaram que o elevador deu problema. — Tenho que dar o crédito a improvisação dela, porque merecia um Oscar — Não quero correr o risco de perder a cobertura do seguro caso alguém morra esmagado.
— Positivo, senhora. Mas irá demorar então para resolver.
— Não tem problemas... somos do último andar. Se podemos subir dez andares, os outros também podem.
O homem assentiu e saiu.
Rachel voltou até minha mesa, ajeitando o blazer como quem tinha acabado de salvar o mundo de uma ameaça nuclear.
— Consegue ver se ele ainda vai morrer?
— Ele vai viver. Tem festa de quinze anos da neta dele hoje — falei sem pensar. Foi como se o pensamento intrusivo tivesse falado por mim.
Rachel me olhou de um jeito estranho.
— Como sabe?
— Eu acabei de descobrir.
Fechei os olhos por um instante, me concentrei e então vi. Vi mesmo. Ele dançando com a neta, ela de vestido rosa, a família toda reunida, ao fundo uma música mexicana. Uma cena leve, feliz. Parecia tão claro... Será que meu cérebro tinha imaginado isso?
Alguns minutos depois, do telefone da mesa da Rachel, liguei para o porteiro:
— O técnico já foi embora?
— Já sim, saiu cedo hoje. Disse que era aniversário de quinze anos da neta dele.
— Obrigada.
Desliguei e olhei para a cara da Rachel, que devia estar igual à minha naquele momento.
Mas que porra foi essa…?
Fazia três dias que eu não via nenhuma morte.
Nenhuma.
O que seria um alívio, se não fosse substituído por um novo tipo de tortura: prever inutilidades cotidianas.
"O estagiário vai entrar com a camisa do lado avesso e só perceber depois do café."
Adivinha? Aconteceu. Ele ainda saiu reclamando que “alguém devia ter avisado.”
Sim, claro. Vamos implantar detector de etiqueta nas portas agora.
"A Claudinha vai derramar café na blusa branca e usar o ventilador pra secar, fingindo que tá tudo sob controle."
Corte para: Claudinha, blusa molhada, cara de quem perdeu a dignidade e o café.
"A Rachel vai passar rebolando por aquele cara novo do jurídico e escorregar porque esqueceu que o chão estava encerado."
Sim, Rachel rebolou. Sim, escorregou.
Sim, xingou o encerador de 'agente do caos' com uma autoridade que só alguém que usa saltos 12 às 8 da manhã tem.
No começo, eu achei que essas previsões banais fossem treino. Um estágio intermediário do meu poder.
Mas depois de duas previsões de pessoas pegando o elevador errado e uma de um lanche que ia cair no chão antes da primeira mordida, eu só queria dormir. Ou desmaiar. O que viesse primeiro.
“Você tá mais rabugenta que o normal”, Rachel disse, entregando uma folha que eu previa que ela ia rasgar sem querer.
Mas a noite as coisas mudaram, estava pronta para comer meu mac’n’chese e assistir algum episodio que Criminal Minds quando veio.
Não fazia ideia de quem era a casa, mas parecia uma casa de uma senhora aposentada, toda decorada com crochê. Identifiquei na hora a voz cantando ao fundo, parecia ser na cozinha. Era a Sally do escritório. Procurei por sinais que indicassem a hora, achei um relógio de coruja medonho no corredor 21:40. Okay, já sabia o horário, olhei procurando correspondências para achar o endereço Rua Patrick Oliones, 705. Já tinha o endereço e o horário, mas que porra ia acontecer... comecei a sentir o cheiro de gás e logo em seguida o calor me acordou.
Olhei para o relógio era 20:49, ótimo. Já sabia o local e o horário. Sai correndo de pijama, entrei no carro coloquei o endereço no maps. O mapa demorou para carregar. Claro que sim. Porque quando você precisa salvar uma vida, o 4G resolve tirar férias. Enquanto dirigia (não façam isso) disquei 911. A mão tremia tanto que apertei o 1 três vezes. Respirei fundo. Fingi que era uma atriz. Que não conhecia a Sally. Que não estava com o coração martelando na garganta.
— Possível vazamento de gás, Rua Patrick Oliones, 705.
Desliguei e acelerei, cheguei antes da emergência. Bati na porta.
— Oi, Sally, eu e a Rachel resolvemos fazer uma fez do pijama, vamos. Não precisa levar nada, só vamos... Resolvemos do nada isso menina, festa só das mulheres.
— Não entendo toda essa pressa, eu podia preparar alguma coisa. – Sally parecia bem frustrada por não poder levar nada.
— Essa é a diversão no caso, vamos parar numa conveniência e comprar o que tiver... assim, sem pensar nem nada. No improviso – Cara, eu era muito ruim naquilo. Parecia uma maníaca sequestrando a Sally, mas ela era tão ingênua...
— Parece divertido, okay então – Mas em algum momento eu deveria ter uma conversa série sobre aqueles crochês todos e aquele relógio medonho.
Enquanto ela se ajeitava no banco do meu carro eu digitei.
“Preciso do seu endereço, falsa festa do pijama, casa da Sally vai explodir, estou com ela no carro”
Será que ela entenderia?
“Entendi porra nenhuma, mas ok. Avenida central, 1015B – delivery de salgados e bebidas?”
“Esse é o espírito. Algo sem álcool pra mim, por favor” — ela podia ser agente secreta ou só completamente irresponsável. Difícil saber às vezes.
“Deus me livre gastar uma noite inteira com você bêbada, já basta a Sally”
Enquanto a Sally escolhia o que levar e eu empacotava o que havia comprado eu parei por um tempo para pensar... pela primeira vez eu consegui andar pela visão, ver as horas, o endereço, sentir o cheiro... isso tudo era novo. Eu estava consciente na visão, não apenas vendo a desgraça acontecer.
Entramos no carro e fomos direto até o apartamento da rachel, Sally já estava, digamos que calibrada, já havia bebido boa parte do espumante que tinha comprado... eu percebi que essa noite seria bem longa.
Rachel nos recebeu com um sorriso que dizia “estou tentando parecer calma, mas quero respostas AGORA”. Fingiu que tudo estava sob controle — como sempre — e nos guiou até a sala como se estivéssemos entrando em um hotel cinco estrelas e não no seu apartamento bagunçado com cheiro de pipoca doce queimada.
— Meninas, fiquem à vontade. Nadine, se quiser tomar um banho, tem toalha limpa no banheiro. Sally, champanhe?
— Espumante! — Sally corrigiu, já segurando a garrafa como se fosse um troféu. — E eu tô ótima assim, Rachelzinha. Só falta a música!
Ela foi direto até a TV, escolheu uma playlist com nomes como Divas da Noite e Hits para cantar errando a letra e aumentou o volume como se a vizinhança fosse parte da festa também. Eu, ainda segurando minha sacola com salgadinhos e uma garrafinha de suco, só observei o furacão Sally se espalhar pela sala como glitter em festa de criança.
Rachel se aproximou discretamente e tocou meu braço.
— Vem cá pegar um travesseiro, Nadine.
“Travesseiro”, no caso, significava “venha para a cozinha porque eu preciso entender que porra foi essa agora”.
Fomos até a cozinha, onde ela pegou um travesseiro qualquer jogado sobre a bancada só pra manter a desculpa. Assim que a porta se fechou, ela me encarou com um olhar que poderia atravessar concreto.
— O que porra foi aquilo, Nadine?
— Específica, porque meu dia teve uma morte evitada, uma caneca assassinada, um estagiário invertido e um atentado crochê.
— A explosão, Nadine. A Sally. A festa do pijama improvisada. Você saiu correndo de pijama como se tivesse visto o diabo dando entrevista no elevador.
— Ah, aquilo — dei um gole no suco só pra ganhar tempo — Eu vi. Uma casa. Um cheiro de gás. Fogo. Sally morta. O crochê queimado. A tragédia completa.
Rachel piscou devagar. Inspirou. Expirou. Repetiu. Ela fazia isso sempre que queria socar alguém, mas precisava manter o emprego.
— E você resolveu sequestrar a mulher e inventar uma festa do pijama?
— Achei que “vem que você vai explodir em 30 minutos” não era a melhor abordagem.
— Você sequestrou a Sally, Nadine.
— Se você tiver uma abordagem melhor, a gente anota pra próxima explosão.
Rachel bufou, mas não respondeu. Só esfregou as têmporas como quem estava ouvindo um resumo de uma temporada inteira de Grey’s Anatomy em modo acelerado.
— Você tem ideia do que isso significa?
— Que eu vou precisar de pijamas melhores? — tentei sorrir. Ela não achou graça. Droga.
— Que seu dom tá mudando. Que você tá vendo além da morte. Que você tá dentro das visões agora.
— É… eu pensei nisso também. Eu vi o endereço, o relógio… eu consegui me mover, Rach. Eu sabia que tinha que tirar ela dali. Foi instinto. Ou sei lá, download celestial. Não sei.
Ela se encostou na pia, cruzando os braços.
— Isso pode ser muito bom… ou muito perigoso.
— Bom, por enquanto, só tô prevendo gafes e atentados culinários. Mas é um upgrade. E sem sangue, o que já me deixa feliz. Me deixa com gases, mas feliz.
Rachel soltou uma risada curta e cansada.
— Eu devia te mandar pra um laboratório. Estudar você. Clonar você.
— Só se me der férias antes. E um vale-pijama decente.
Do outro lado da porta, ouvimos Sally cantar Shakira em falsete enquanto batia palmas completamente fora do ritmo. Rachel fez uma careta.
— Acha que ela vai lembrar de alguma coisa amanhã?
— Nem do próprio nome.
Rachel pegou uma taça de vinho que estava pela metade na bancada e me entregou.
— Brinde à sobrevivência?
— Brinde à sobrevivência.
— E ao fato de que você, oficialmente, é a mulher mais maluca e mais útil que eu conheço.
— Você só diz isso porque eu te livrei de uma manchete “explosão mata funcionária do setor de RH e queima crochês sentimentais”.
— Verdade — ela riu. — Agora vai, antes que a Sally resolva fazer uma coreografia improvisada com o abajur.
Voltei pra sala com a taça na mão, pronta pra encarar o caos.
Porque aparentemente, agora eu via o futuro… e também era responsável por impedir que ele explodisse na minha cara. Literalmente.
Quando voltei pra sala, Sally já tinha transformado duas almofadas em “instrumentos de percussão” e dançava como se o chão estivesse pegando fogo — o que era bem irônico, considerando o futuro que quase aconteceu. Ela me viu e me puxou pra dançar junto, mas eu desviei como uma ninja e me joguei no sofá.
Rachel sentou ao meu lado com um suspiro exausto e me entregou outra taça.
— Posso te fazer uma pergunta? — ela começou, me olhando com aquela sobrancelha arqueada que indicava perigo iminente.
— Não sou paga o suficiente pra isso, mas vai.
— Por que, exatamente, você fala tanto sobre o crochê da Sally?
— Porque você não tem ideia do que tem dentro daquele crochê, Rachel.
— Como assim, dentro?
— Tem uma casa. Literalmente. Uma casa feita de lã. Com telhado, janelas, cortinas… Uma casa digna de filme da Pixar e pesadelo de taxidermista.
Rachel me encarou por três segundos antes de virar o resto da taça de uma vez só.
— Você tá me dizendo que Sally mora dentro dos próprios crochês?
— Não. Quer dizer, eu espero que não. Mas ela faz uma casa em miniatura dentro de cada peça. Cada flor tem uma mobília. Cada ponto tem uma história. Eu vi uma poltrona num girassol. Tinha uma minicozinha funcional. Eu juro que se eu cutucasse aquilo com uma pinça, ia sair cheiro de sopa e dor de costas.
— Isso é… medonho.
— E fofo. Medonho e fofo. Tipo… o abraço da sua avó quando você sabe que ela vai comentar seu peso na sequência.
Rachel ficou em silêncio. A música de fundo trocou pra algo mais calmo, quase reflexivo. Sally continuava dançando sozinha, agora com um tapa-olho rosa que, com certeza, não era tapa-olho — era a parte de cima de um sutiã velho, mas tudo bem. Eu não tinha mais energia pra questionar nada.
— Será que todo mundo do RH é assim? — Rachel perguntou, meio pra mim, meio pro universo.
— Você diz… talentoso e psicologicamente questionável?
— Exatamente.
— Olha, se forem, tá explicado o motivo do e-mail de boas-vindas ser uma carta escrita à mão com cheiro de canela e culpa.
— E por que todo mundo tem plantas com nomes de pessoas mortas nas mesas.
— E por que ninguém nunca levanta a voz, só olha… olha fundo demais.
Rachel se recostou no sofá, agora levemente assustada.
— Acho que a Sally é a mais normal deles, o que é preocupante.
— Sim, mas agora ela tá viva, então… progresso?
— Progresso.
A gente brindou de novo, dessa vez em silêncio, assistindo a Sally fazer uma performance dramática com um lenço, como se estivesse em um musical que só existia na cabeça dela.
E naquele momento, com as luzes piscando, o som baixo, e o universo ameaçando me tornar a heroína de uma série paranormal com orçamento duvidoso, eu percebi:
Nada mais me surpreendia. Nem casas de crochê. Nem RHs encantados. Nem o fato de que eu, Nadine Swan, estava genuinamente preocupada com a sanidade da única pessoa que sabia sobre meu dom… e que talvez estivesse construindo uma vila inteira dentro de uma touca.
Eu precisava dormir.
Sally desmaiou gloriosamente no chão da sala ao som de Waka Waka, enrolada num lençol como se fosse uma dançarina ancestral invocando a Shakira interior. Estava sorrindo, com um dos braços pra cima, como se tivesse congelado no meio de um movimento. Uma estátua viva do delírio alcoólico e das fibras têxteis.
Eu a cobri com outra coberta — ela já estava enrolada demais, mas o simbolismo importa — e me joguei de novo no sofá. Rachel se juntou a mim, dessa vez com um pote de batatinhas no colo, oferecendo sem olhar.
— A gente devia estar comemorando, né? — ela disse, voz baixa, quase como se estivesse com vergonha de falar alto perto da múmia Shakira.
— Estamos. Só que nossa definição de “comemorar” envolve questionar a sanidade coletiva do RH e fingir que nada de estranho aconteceu esta semana.
Ela mastigou uma batatinha, pensativa.
— Nadine… O que porra foi aquilo?
Eu sabia que ela ia perguntar. Desde o elevador, desde a dança, desde o momento em que eu entrei naquele maldito laboratório e vi o cadáver que não ia morrer — eu sabia que Rachel ia juntar os pontos. Ela não era burra. Só estava ocupada demais fingindo que o mundo era normal.
— Aquilo o quê? O experimento? O taser? Ou o fato de eu parecer uma vidente bêbada quando encaro alguém por tempo demais?
Ela me lançou um olhar afiado.
— Você sabia que ela ia morrer. E depois sabia que não ia. Você sempre sabe. Quando alguém vai morrer.
O silêncio entre nós pesou. Até Sally soltou um ronco dramático, como uma trilha sonora acidental.
— Sim — eu respondi, sem floreios. — Eu sei.
Rachel não respondeu de imediato. Terminou a batatinha, pegou mais uma. Eu esperava qualquer coisa — riso, negação, talvez um “isso é impossível”. Mas ela só mastigou, pensou e perguntou:
— E como isso funciona?
Suspirei. Peguei o pote das mãos dela, mais por ansiedade do que fome.
— É como… um segundo rosto. Quando eu olho pra alguém e sei, é como se tivesse um espelho atrás da pessoa, me mostrando o fim. Às vezes é rápido. Às vezes é cruel. Mas quando acontece, eu simplesmente vejo. Não como uma visão com raios e trovões, nem como premonição em câmera lenta. É seco. Objetivo. Sem apelo.
Rachel me encarou por alguns segundos. Depois, deu um risinho curto, mas sem graça.
— E você… tenta impedir?
— Tentei. No começo, tentei e falhei miseravelmente, mas algo mudou. Ainda não sei como funciona, mas consegui salvar a Sally pela segunda vez, salvei você no dia que o cara tentou invadir o prédio e foi eletreocutado pela cerca, salvei o técnico. Mas não sei o que isso vai afetar. Agora vejo coisas mundanas, decisões estúpidas, coisas não associadas a morte, mas ainda tenho a visão. O mais estranho no caso da Sally é que eu procurei por informações que poderiam me ajudar, hora, endereço... parece que meus poderes estão gradualmente se expandindo sem que eu saiba exatamente para onde ou como controlá-los. Mas estou tentando viver um dia de casa vez. E hoje vou ficar feliz por salvar a Sally e amanhã você vai ficar triste porque vamos precisar de roupas emprestadas para ia para o trabalho.
Antes de ir dormir só consegui pensar "Festa do pijama, o caramba. Eu estava com uma bomba-relógio de crochê sentada no meu sofá
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