A Morte Me Dá Spoilers
15 Capítulo 14: O ponto que envergou a linha
Era tarde, o frio parecia ter invadido os ossos do prédio, e o café na mesa já tinha passado do ponto de amargor. Ele espalhou os arquivos como quem joga cartas marcadas, cada rosto uma ausência, uma história interrompida.
Eu, Rachel e Brian estávamos sentados no chão da sala da minha casa, olhando todas as fotos de pessoas desaparecidas, buscando algo em comum. Mas nada batia... eram de regiões diferentes, idades, raças... continuar olhando todos aqueles rostos me dava náuseas, e o pior era olhar e não achar nada. Nada que pudesse nos levar a algum lugar.
— Esses aqui são os casos mais recentes — disse Brian, empurrando para o lado uma pilha mais fina de fotos.
Levei um tempo até conseguir isolar todos os rostos que reconheci da visão. Ver os nomes daqueles rostos afogados me fazia sentir outro nível de ansiedade. Agora eles não eram apenas rostos, eram pessoas com família e amigos que nunca mais os veriam...
Exausta, me largo deitada no chão. Não havia lógica nem sentido. Passo as fotos para Rachel, na esperança de que ela enxergue um padrão, algo que eu tenha perdido... Rachel é metódica e ama encontrar lógica no dia a dia... não sou tão diferente dela... mas, para mim, aquilo era muito pessoal. Talvez estivesse cega por não conseguir ver aquilo de uma visão mais ampla...
Brian já estava no terceiro café. Algo me diz que ele vai se arrepender dessa decisão — e nem preciso de visão para saber.
Meu estômago começou a reclamar. Me levanto para pegar algo para beliscar, coisa saudável: nachos, batatinhas e um pote com cheddar. Enquanto derreto o cheddar no micro-ondas, ouço Rachel gritar:
— É ISSO!
— É isso o quê, porra?
Corro para a sala, largando tudo na cozinha.
— Que foi, criatura? — berro quando chego.
— Eu descobri o elo entre as pessoas. Todas desapareceram depois do dia 10 de março.
— Parabéns? — O que mais eu deveria falar? Dez de março. Um dia aleatório que ela poderia ter tirado do orifício...
— Você não lembra o que aconteceu nesse dia?
— Eu não lembro nem do que almocei hoje, Rachel. O que dirá há meses atrás. Nos ilumine com a sua luz — já não dava para segurar o deboche. Porra... que data aleatória.
— Pois eu lembro bem, porque no dia 10 de março você entrou na minha sala dizendo que o técnico ia morrer esmagado pelo elevador. Era o dia da morte do Hernandez.
Brian parecia mais perdido que cego em tiroteio... mas eu havia entendido.
Era ali que os pontos começavam a se conectar...
Minhas mãos tremiam... A morte da Úrsula, o desaparecimento da Margaret e de todas as outras pessoas só aconteceram após o dia 10 de março... como eu não vi isso?
Então algo veio à minha mente: "Não tem como ver algo que não existe".
Esse era o ponto de virada.
— As mortes não estavam no futuro porque... elas não existiriam. Se ele tivesse morrido, nada disso teria acontecido.
Rachel me olhou confusa, ela tinha descoberto a data, mas não tinha ligado os pontos.
E então, sussurrando para o vazio:
— A única morte que eu não deveria ter evitado... era a dele. Ele matou todos os outros...
As palavras ficaram presas na garganta. A revelação me atingiu com força bruta. Era como se cada rosto que eu tentara salvar voltasse agora, em silêncio, para me acusar. Eu havia quebrado o elo errado da corrente. Talvez o universo tenha tentado consertar as coisas... mas eu fui mais rápida.
— Será que ele escolhia pelo acaso? — murmurei, mais para mim mesma. — Se foi ele que matou Margaret e a Úrsula, quem falava comigo no telefone semanalmente?
— Ele mesmo. Ele pode ter apenas a Úrsula como alvo, mas quando invadiu a casa viu a Margaret lá, ainda se recuperando... ela era mais fácil de levar para o lago. Matou a irmã e levou a Margaret para desovar no lago. Sair com dois corpos seria muito complicado. Fora que ele pode ter tentado coagir Margaret para ela cooperar com ele... a Úrsula foi encontrada no quarto. Talvez a Margaret não soubesse da morte da irmã e achou que talvez ele a pouparia. — Brian respirou fundo, eram apenas suposições, mas poderiam ser verdade — Todas as outras me parecem vítimas de oportunidade. Alguns sequestradas em estacionamentos de supermercados, farmácias, feiras de rua...
— Mas como sequestrar uma pessoa onde todos veem? — Rachel perguntou quase imediatamente.
— Esse é o brilhantismo, se todo mundo acha que está todo mundo olhando, na verdade ninguém tá olhando. O desaparecimento de pessoas em lugares públicos é mais comum do que você imagina. A pessoa vê alguém em uma situação fora do comum e prefere não se meter porque "com certeza" outra pessoa vai ajudar.
— Isso é o suprassumo do nosso individualismo, se não é meu problema, outro pode resolver. — A fala do Brian me acertou como um tijolo. Era isso. Tava tudo ali.
Um cara com cara de técnico padrão, uniforme limpo, sorriso educado. Ninguém desconfia de quem parece estar apenas fazendo o trabalho. Ninguém questiona o homem com ferramentas. Se ele carregasse uma mala com um corpo dentro, ainda assim diriam “licença, senhor”.
Eu mesma o deixei escapar.
Sento-me novamente no chão. Meus joelhos fraquejam, e não é drama, é exaustão mesmo — física, emocional, cósmica. Pego as fotos que antes me causavam náusea. Agora, cada uma parece gritar comigo.
— Eu preciso entender o padrão de escolha — falo, mas não sei se para mim, para eles, ou pro teto.
Rachel se aproxima. Ela se senta ao meu lado, e seu olhar tem aquele misto de dor e raciocínio lógico que só ela consegue carregar ao mesmo tempo.
— Se for mesmo o Hernandez, precisamos descobrir se há uma ligação entre essas pessoas... além da data.
— E se não houver? E se ele só… gostar daquilo? — minha voz sai baixa. — E se ele não precisa de motivo?
Brian coça a cabeça. Parece desconfortável. Ele tenta manter o profissionalismo, mas o nojo dele é palpável.
— Psicopatas nem sempre têm um padrão lógico. Mas se encontrarmos ao menos uma coincidência entre duas ou três vítimas, podemos montar um perfil.
— Já temos uma coincidência — murmuro. — Eu salvei o cara.
O silêncio que se seguiu foi o mais pesado da noite.
Rachel foi quem quebrou, abrindo o notebook e começando a digitar como se o mundo dependesse disso — e talvez dependesse mesmo. Brian se levantou pra buscar os nachos que eu deixei abandonados. E eu... fiquei ali, olhando para os rostos.
Se eu não tivesse aberto a boca naquele dia, Hernandez teria morrido. A linha reta da vida dele teria acabado ali. Mas eu curvei o destino. E nessa curva, gente demais caiu do trilho.
Eu precisava endireitar o caminho de novo.
Mesmo que isso significasse ver outra morte.
Ou causar uma.
— Não adianta se culpar, você salvou a Rachel e a Sally e nenhuma das duas se tornaram assassinas em série. — Brian tentava me consolar, mas nada naquele momento mudaria o que eu estava sentindo olhando para aquelas fotos. Eu fui egoísta ao achar que brincaria de Deus e que nada iria me afetar... eram 17 vidas que se foram por conta de uma vida que salvei, a matemática não engana.
—Conseguiu encontrar algo sobre a Fazendinha Azul? — o rosto da menininha ainda flutuava na minha mente ao longo do dia e minhas visões estavam bem caladas ultimamente. Quantas pessoas mais iriam pagar por uma escolha que eu fiz... todo o meu foco era trazer essa menina de volta, pelo menos assim não sentir que tão perdida, tão frustrada e tão culpada
Toda a minha estabilidade emocional e psicológica estava presa ao encontro dessa menina viva. Eu precisava desse fechamento.
— Sim e não. — Ah, la vem o Brian com as suas respostas que me dão vontade de perder meu réu primário. Pelo olhar dele, ele conseguiu entender meus pensamentos e se apressou para explicar — Sim, porque descobri que é uma franquia de acampamento de férias e não porque como é uma franquia está presente em 28 dos 50 estados do país.
— Puta que pariu, porque americana ama essa merda de acampamento de férias, parece que não quer olhar para a cara do filho...
— Mas é por isso mesmo, Nadi — Rachel fala com um tom de obviedade que me faz soar burra — Eu quando tiver filhos mando logo para um camping desse ou para fazer qualquer outra coisa... Deus que me livre de ter um monte de criança correndo pela casa...
— Não é por nada não, Rachel, mas eu acho que você deveria repensar a maternidade...
— É bom para as crianças, se desapegam rápido e ficam mais independentes... — Ela não parece aceitar muito bem meu comentário. — Você ficaria o dia inteiro cuidando de pirralhos nas férias?
— Não, porque eu não os teria.
— É, também há essa possibilidade.
O Brian parecia genuinamente entretido com a nossa conversa, só observando para onde o tema ia e como a gente conseguia sair de um assunto para o outro de maneira tão rápida e meio desconexa. Olhei para ele como se o convidasse para entrar na conversa.
— Podem continuar, estou me divertindo aqui... Sabe nem em um milhão de tentativas eu chutaria que essa pessoa do seu lado é a sua Chefe, Nadine. A interação de vocês duas já é o suficiente para me entreter durante essa investigação de merda... Já pensaram em montar um show de comédia só de vocês duas discutindo por 40 min? Olha eu acho que faria um puta sucesso.
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