A Morte Me Dá Spoilers
12 Capítulo 11: De volta ao começo
Precisava procurar as outras pessoas, não pense você, querido leitor que esqueci disso. Começaria pela Úrsula, irmã da Margaret.
Liguei no número que ela me deu
— Oi Úrsula, tudo bem? Queria saber como está a Margaret e se poderia fazer uma visita a ela.
— Oi, Nadine, sempre uma querida, ela está bem sim e claro que pode vir nos visitar. Venha no final de semana, assim preparo uns biscoitos e bolo deliciosos para gente comer a tarde. Te mando o endereço por mensagem, o que acha?
— Perfeito, Úrsula. Muito obrigada.
— Obrigada você querida.
Fiquei esperando o endereço e nada, o tempo passou no escritório e nada dela me retornar. Quando tentei ligar para o mesmo número, dava fora de área. Mas que porra era aquela? Não era possível que eu não tinha direito a um dia de paz nessa merda de vida.
Liguei para o detetive que havia deixado o número comigo depois do “incidente” com o carro da Rachel
— Oi, Detetive Reynolds, Sou eu Nadine. A mulher taser. Liguei porque estou preocupada com uma pessoa e acho que poderia me ajudar.
— Diga, vindo de você já sei que será alguma coisa maluca, mas meu dia está entendiado mesmo.
— Minha vizinha Margaret sofreu uma tentativa de assassinado há um tempo, eu sou que ela teve alta e vai ficar com a irmã por um tempo, mas eu ligo para irmã dela e só dá fora de área. Ela me ligava regularmente para falar sobre a saúde da Margaret, mas quando sugeri visitá-la, ela disse que me mandaria o endereço por mensagem supercontente e desligou. Depois disso não consegui, mas entrar em contato com ela.
— Nome da sua vizinha completo, você sabe?
— Margaret Olliver e a irmã dela é Úrsula Pratz.
— Okay, vou procurar para ver se encontro alguma informação, okay? Se achar algo te ligo nesse mesmo número. Mas não crie muitas expectativas, as vezes as pessoas só não sabem como evitar interações sociais e dizem que sim e depois dão o chamado Gohsting.
Não acreditava que esse era o caso, mas o agradeci do mesmo jeito. Era muito estranho fazer questão de me ligar semanalmente falando da irmã, mas na hora de me receber pessoalmente, me evitaria... Se bem que por que nunca foi a Margaret que me ligou? Sempre a Úrsula dizendo que a irmã estava grata... Se alguém tivesse me salvado e eu estivesse grata, eu mesma ligaria para a pessoa... mas não era esse o caso.
Será que estou ficando paranoica??
Resolvi mudar de alvo, liguei para a equipe de manutenção.
— Oi, boa tarde. Me chamo Nadine e trabalho no décimo andar, estou procurando um funcionário.
— Qual o nome senhora?
— Não sei o nome, mas foi o que consertou o elevador da última vez. Um homem com uma idade mas avançada, moreno, cabelo grisalho e sotaque do México.
— Ah, o Hernandes. Ele se aposentou, tem um ou duas semanas. Alguma reclamação, senhora?
— Não de jeito nenhum, eu queria elogiá-lo pela destreza do trabalho e pela educação impecável. Se soubesse que estava se aposentando teria comprado um presente para ele, sabe de despedida. Tem algum jeito de enviar esse presente para ele... ?
— Creio que não senhora, ele falou sobre uma mudança de endereço e não deixou nada anotado no nosso RH.
— Obrigada, de qualquer jeito. Tenha uma boa tarde.
Andei até a sala da Rachel, bati na porta e disse:
— Vamos sair para um café? Eu pago – “Eu pago” era sempre um bom jeito de convencer qualquer um a aceitar um convite.
Ela deu de ombros como se não tivesse mais nada para fazer e antes de sair me lembrou
— Não esqueça que ainda preciso da análise dos Livros que te pedi.
Ah, certo, Manual de como não ser bem-sucedido, tenho que admitir é um livro com potencial, me arrancou algumas gargalhadas bem forte, mas ainda merece ser mais bem trabalhado. E qual era o outro... O Último Reino da Terra, era interessante uma distopia que misturava, eugenia e manipulação genética. Os dois pelos menos tinha um conceito interessante, escritos pelo mesmo autor, mas com linguagens bem diferentes.
— Entrego ainda essa semana, pode deixar.
Saímos do escritório e fomos na cafeteria mais perto. Café na mesa e ela olhando para mim como quem dissesse fala de uma vez. Contei sobre a ligação para a irmã da Margaret e do cara da manutenção.
— Você ainda está presa nisso? – ela parecia estar genuinamente preocupada.
— Mas você não acha esquisito o caso da Margaret.
— Acho, já li e publiquei livros de suspenses e assassinatos demais para acreditar que isso é completamente normal. E acho que o Hernandes não tinha tanto tempo de casa assim para se aposentar. Mas o que me resta fazer? Você fez o certo, ligou para a polícia e quanto ao Hernandes, vai ver ele encontrou um emprego melhor em outra cidade e quis se mandar.
Continuei mexendo no meu café com a colher formando círculos e aos poucos desfazendo a obra prima que o barista tinha feito no topo do café. Eu estava perdida, aqueles dois eram os “mais” fáceis de começar. Enquanto me perdia em pensamentos, o vento suave veio, eu sabia o que veria a seguir.
Era em um lago, olhei em volta tentando me localizar, achar qualquer placa, mas nada... do outro lado da margem algo grande embrulhado era jogado no fundo do lago. Eu mergulhei no lago para ver... e havia vários “embrulhos” no fundo do lago. Subi rápido tentando ver quem os lançou, mas não havia mais ninguém lá. Sai do lago com frio, olhando a floresta em volta, um deck de onde começou a visão e rochas contornando o lago. Nenhuma placa, nenhum sinal, nada. Era o fim da tarde, eu procurei por um relógio em mim mesma, mas não havia nenhum.
Acordei, como se acorda de um pesadelo, mas sem alarde, só abrindo os olhos e percebendo que foi apenas algo passageiro.
— O que viu? – Rachel perguntou
— Um lago, alguém jogando corpos embrulhados no fundo de um lago. Parecia um cemitério de corpos. Todos enrolados em lençol branco e preso a pedras. Mas não sei onde era, nem que horas ou quando... não tinha nada que pudesse me ajudar a identificar. Era só um lago no meio de uma floresta.
As vezes parece que quanto mais eu queria achar um sentido, mas a vida tirava completamente o meu prumo. Eu não sei o que esperar, antes pelo menos esperar a tragédia era alto tão rotineiro que passava a ser tedioso, agora essa incerteza me causava pânico. A visão do lago foi diferente de tudo que eu já havia visto ou sentido na minha vida, me deixando incapaz até de tirar qualquer deboche dessa situação, qualquer ironia, qualquer piada.
Aonde eu me encaixava nisso tudo?
Qual era o meu papel na vida de todas aquelas pessoas enterradas no fundo daquele lago?
Eu causei aquilo?
Agora era tarde para volta, eu tinha quebrado a minha principal regra de não deixar que as pessoas entrassem na minha vida. Rachel, Bob e Sally já entraram e não havia nada que eu não fizesse para poupá-los da morte.
Durante anos eu me senti morta e até a própria morte, assistindo aos últimos olhares, vendo as pessoas percebendo que não chegariam para o jantar, que não dariam mais um abraço em quem amavam. Agora, eu tive a leve esperança de fazer as coisas mudarem, mas talvez eu tenha tornado tudo pior.
No meio do meu devaneio, ainda na cafeteria, meu telefone toda. Era o Detetive.
— Nadine?
— Sim, sou eu. Descobriu algo? – eu não conseguia esconder a inquietação na minha voz.
— Preciso que venha a delegacia, tenho umas perguntas para você.
— Sobre? – meu coração batia na boca. Tinha alguma coisa errada com a Margaret
— Sobre o que conversamos mais cedo. Venha assim que puder.
— Ok. Vou tentar sair mais cedo do trabalho. – desliguei o telefone e expliquei o teor da ligação para Rachel e ela prontamente respondeu:
— Vai menina, eu pago. Só vai. – Eu sai correndo do café, mas ouvi ela gritando – vai com calma e me liga se precisar conversar. – Só olhei para ela e assenti com a cabeça.
À caminho da delegacia minha cabeça pensava em um milhão de cenários alternativos. Decide tentar me acalmar e esperar para ver o que era. Parei na primeira vaga que achei no estacionamento da polícia e entrei.
O detetive Reynolds já me esperava próximo a porta e me guiou até uma sala.
— Me fala o que sabe sobre sua vizinha, Margaret?
— Ela tá bem? – ele não parecia que iria me responder se eu não respondesse antes – Não muto. Eu a vi as vezes passeando pela rua, ela me cumprimentava e eu respondia. Nada demais.
— Um relacionamento tão distante, por que chamou a polícia?
— Porque era certo a se fazer, eu ouvi o barulho lá fora e vi o cara parado na varanda dela. – quase tinha dito que havia visto a porta escancarada mas lembrei que isso foi após a visão e não foi o que disse a polícia.
— Margaret está desaparecida e sua irmã Úrsula, a quem diz que falou hoje mais cedo, foi encontrada morta na cada dela, o corpo já está lá há alguns dias.
— Mas isso não faz sentido algum.
— Posso ver o número que ela te ligou, sim claro. – peguei o celular e mostrei o número.
— Mas esse não é o número registrado no nome dela.
— Quando há encontrei no hospital ela tinha me dado esse outro número aqui... alguns dias depois que Margaret teve alta, ela me ligou desse número e disse que tinha mudado. Eu não questionei, só anotei como novo número dela.
— Com que frequência falava com ela?
— Uma vez por semana mais ou menos... exceto semana passada quando tive o problema com a minha chefe.
— Já chegou a falar com as duas numa mesma ligação, ou usando facetime?
— Não, só falava com a Úrsula, ela que me ligava. Ora a Margaret estava na fisioterapia, ora estava dormindo... eu estranhei um pouco mas achei que isso fosse uma carência da Úrsula.
— O que exatamente conversaram hoje mais cedo?
— Perguntei como a Margaret estava e se ela se importava de eu ir fazer uma visita. Ela pareceu achar uma boa ideia e combinamos que seria sábado e ela disse que assaria biscoitos e bolo.Disse que mandaria o endereço por mensagem, na hora eu achei esquisito ela não me dar o endereço por telefone mesmo, mas concordei. – Eu deveria ter insistido. – Eu esperei um tempo e acabei me prendendo com coisas no trabalho, quando tentei ligar de novo já dava fora de área ou desligado. Resolvi te ligar logo depois. Se eu não falava com a Úrsula, com quem eu falava?
— Talvez com a Margaret, ou talvez com alguém que tenha sequestrado a Margaret e matado a Úrsula. Você parece bem pensativa, alguma ideia que queira compartilhar.
— Não, só me perguntando se faria alguma diferença se eu insistisse em ir visitá-las antes.
— Olha Nadine, você me parece uma pessoa boa, mas que vive um inferno na vida. E parece ser do tipo que ajuda todo mundo. Ajudou sua chefe... quem em sã consciência ajudaria a chefe e se arriscaria desse jeito. E ajudou uma vizinha que nem conhecia ao certo... não ponha culpa sobre os ombros, okay.
— Obrigada Detetive Reynolds.
— Brian, pode me chamar de Brian, já nos vimos várias vezes para mantermos essa formalidade.
— Obrigada Brian.
— Quer uma carona para casa?
— Não, eu vim de carro.
— Se sente segura para dirigir? – assenti que sim, tomei o resto do café horroroso que ele me ofereceu e sai da delegacia. Já era tarde quando sai, resolvi ir na casa da Rachel, precisava conversar. Interfonei para ela:
— Sou eu, posso entrar?
— Vou preparar o whisky – ela respondeu juntamente com o som do portão destravando.
A porta já estava aberta. Entrei e me joguei no sofá enquanto ela me entregava um copo de whisky e eu nem bebia...
Despejei tudo que Brian havia me contado e ela também ficou estarrecida igual a mim.
— A Úrsula tá morta. Encontraram o corpo dela na casa dela, e faz dias. Dias, Rachel. — Eu respirava rápido. — E a Margaret tá desaparecida.
Ela arregalou os olhos, e agora o muffin era só um detalhe esquecido na mão dela.
— Mas... você falou com ela hoje.
— Eu falei com alguém hoje. Alguém que se passou por ela. Mas não era a Úrsula. Talvez nem fosse a Margaret. E esse alguém sabia como ela falava, o que me dizia toda semana. Eu nem sei mais se era a Margaret nas outras ligações...
— Caramba, Nadine...
— Eu não contei nada ao detetive. Não sobre as visões. Nem sobre o lago. Nem sobre os corpos. Não quero ele já me achando mais louca do que sou.
— Você acha que o lago tem a ver com a Margaret?
— Eu não sei. Mas tinha algo errado naquilo. Eu senti. Não era como as outras vezes. Era diferente. Mais... pesado. Mais real.
Rachel ficou em silêncio por um tempo. Depois, disse com a voz firme:
— A gente vai descobrir.
— A gente?
— Claro. Eu sou sua editora e sua amiga. Não sei qual dessas duas funções vai te salvar primeiro, mas vamos até o fim nessa história.
— E se o fim for o fundo daquele lago?
— Aí você me puxa junto, mas com estilo.
Eu ri. Pela primeira vez naquele dia.
— Obrigada, Rachel.
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