A Morte Me Dá Spoilers

11 Capítulo 10: E a missão continua...


Fiquei pensando em quais eram os tipos de mortes mais comuns... sempre me vinha à cabeça o trânsito, com ciclista ou pedestre. Você, caro leitor, deve estar se perguntando por que estou pensando nisso, não é? Simples: passei anos vendo como a morte orquestra os seus planos — e se agora eu tentasse orquestrar o meu para esse idiota morrer...

Posso estar me achando um pouco convencida demais ao me comparar com a estrategista da morte, mas algumas coisas eu aprendi com todo esse tempo observando:

as situações mais improváveis são as mortes mais certeiras.

Hoje em dia parece improvável que alguém ainda insista em andar com o celular na rua sem prestar atenção ao sinal, ou coma produto fora da validade, ou aceite coisas de estranhos... mas essas mortes ainda acontecem. Banais. Casuais.

O psicopata gostoso não é uma criança pra aceitar doce de estranho e talvez nem tão burro pra comer algo vencido (ou tenha uma boa microbiota intestinal, nunca se sabe), mas ele certamente poderia andar descuidado com o celular na mão.

Eu e Rachel estávamos pegando o segundo ônibus antes de pegar um Uber. Ele realmente não era bom em seguir a gente, ou eu era muito boa em mudar as rotas.

— Pense em se encontrar com ele em uma rua pública. Você marca o encontro com ele e, na última hora, muda o lado da rua. Faz sinal pra ele te ver e continua no telefone...

Ela fechou os olhos e imaginou, em várias ruas diferentes, e em todas elas, ele parava antes pra olhar o sinal.

— Merda, ele presta atenção no sinal.

— Pensa em chamar ele pra festa da firma, que vai ser naquele chalé no lago.

— Mas a gente não decidiu onde seria a festa ainda.

— Eu já decidi e você vai aceitar.

— Aquele lago é perigoso.

— Exatamente. Pensa logo, porra. Mas acredita no que tá pensando.

— Esquece o chalé com o lago. Bob vai se afogar — disse, sentindo um peso horrível na minha fala. — E Sally vai se perder na mata e ser devorada por um urso.

SÓ PODIA SER PALHAÇADA ISSO.

Rachel começou a rir compulsivamente, e eu a segui...

— Como uma pessoa do tamanho do Bob não consegue boiar?? E como alguém com uma voz tão estridente quanto a Sally consegue se perder e ainda ser comida por um urso? Se ela gritar, o urso foge!

— Acho que você tá passando tempo demais comigo, Rachel. Meu humor ácido tá te contaminando.

Senti uma brisa vindo. Parecendo que uma visão iria me tomar.

Estacionamento. Estamos nós duas lá, mas por quê?

Me vejo no meu carro. Me aproximo do carro, olho o relógio: 17:15.

O dia era hoje. Volto a procurar pela Rachel.

Ela está se aproximando do carro dela...

Ele aparece.

Puxa a Rachel pelo cabelo. Ela dá uma joelhada nele tão forte que acho que os testículos voltaram pro abdômen e corre em direção ao meu carro.

Ele levanta. Corre também.

Ligo o carro, acelero, jogo na direção dele.

Fim da visão.

Quando penso em contar pra Rachel como iríamos fazer, minha mente fica enevoada. Só vejo o corpo dela sendo retirado da baia, morta, gelada.

— Precisamos sair mais cedo do trabalho. Quando eu disser pra sair, você sai comigo e me segue. Não me pergunta pra onde, quem, quando, nada. Só me segue. Okay?

— Okay. Não posso saber de nada pra não cagar com a sua visão. Já entendi. — Porra, a mulher é esperta. Não é à toa que é a chefe.

Saímos mais cedo do trabalho. Coloquei um fone nela e disse pra onde íamos: minha casa. Peguei meu carro e vendei ela, mantendo os fones. Apesar de saber que estava enlouquecendo por não saber nada, ela aceitou tudo.

Chegamos no estacionamento. Pedi pra ela descer e andar até o carro, sem apertar o botão.

Eu estacionei exatamente no lugar da minha visão.

17:13. Faltava pouco.

Motor ligado. Mãos no volante. Coração acelerado como se eu estivesse prestes a jogar meu carro num stalker — ah, espera. Estava.

Rachel andava até o carro dela, seguindo o plano. Lenta, calma. Tudo certo.

E então ele apareceu.

Com aquele ar de vilão sexy de novela ruim, a jaqueta de couro, a faca de cozinha — que provavelmente pegou da casa da mãe. Eu pisquei uma vez, e ele já tava puxando a Rachel pelo cabelo.

Rachel, a musa dos direitos trabalhistas e do kung fu emocional, girou o corpo e deu a joelhada com tanta força que quase ouvi um crack. Ele caiu no chão gritando igual criança que levou bolada.

Ela correu em direção ao meu carro.

A hora era agora. Eu acelerei.

Mas aí... aí a morte resolve que pode quer o brilho só para ela e resolve inovar com uma sequência de acontecimentos dantescos que, nem em todas as minhas visões, eu já teria visto algo se quer parecido. E parecia que dessa vez a morte tava meio puta com esse cara.

Um velhinho numa motinho elétrica apareceu DO NADA virando a esquina do estacionamento — juro por tudo, ele surgiu como uma entidade. Pisei no freio tão forte que os pneus gritaram.

Rachel entrou no carro. Estávamos bem. O stalker se levantou, ainda com as mãos nos restos da dignidade, pronto pra correr atrás de novo.

Mas o destino tinha outros planos.

Planos dignos de Tarantino.

A lâmpada de LED do letreiro do lava-rápido começou a piscar. Apagou. Um funcionário tropeçou e deixou cair uma placa metálica que dizia:

"PROMOÇÃO DE ENCERAMENTO TOTAL".

O barulho assustou um cachorro preso num poste.

O cachorro latiu, se soltou, e saiu correndo.

Levou o poste de sinalização junto.

O poste caiu. BEM na cabeça do stalker.

Tunf.

Ele cambaleou, escorregou pra trás…

...e caiu direto numa tampa de bueiro aberta — onde funcionários estavam limpando a caixa de gordura de um quiosque de pastel.

Sumiu. Inteiro.

Silêncio.

Três segundos depois:

PLOC.

Um funcionário se aproximou, olhou lá dentro e falou:

— Ih... caiu bem em cima da hélice da bomba. Vai dar nem pra identificar.

Rachel, ainda trêmula, murmurou:

— Ele... caiu numa caixa de gordura industrial?

— Com a hélice ligada. — Dei um tapinha no volante. — Parabéns, morte. Você venceu. Eu só apertei "play", você fez o resto. Puta que pariu Morte, sempre te achei criativa, mas Baby, agora você elevou o jogo para outro nível. Essa cena merecia estar num filme

— Triturado? — ela perguntou, meio horrorizada.

— Marinadinho no óleo da fritura do quiosque. Pode virar especial do dia.

Ela gargalhou. Um riso nervoso, de alívio, e meio psicótico. Eu ri junto. Porque, sinceramente?

Não era exatamente como eu tinha planejado. Mas foi perfeito.

Tivemos que esperar a polícia, obviamente, porque as câmeras do estacionamento tinham flagrado ele puxando a Rachel pelos cabelos. Um clássico.

Quando o primeiro policial chegou, ele me reconheceu na hora.

— Você é a mulher do taser? De novo você?

— Olá, detetive. Pois é. A vida não tá sendo legal comigo, mas dessa vez nada de taser. Prometo.

— Isso depende. Pode me explicar o que aconteceu aqui?

— Então acho que seu dia não vai muito bem... — tentei um sorrisinho, do tipo “me desculpa, mas você vai ter trabalho”.

Ele não achou graça, mas me deixou continuar.

— Vim trazer minha chefe para pegar umas coisas no carro. Ela estava se escondendo daquele cara que... bom, foi acertado pela placa. O mesmo que vivia ligando pra ela, mandando mensagem, seguindo. Nos últimos dias, ela tem ficado comigo. Mudamos de rota várias vezes, sempre com medo de dar de cara com ele. Hoje ela precisava pegar documentos que estavam no carro e ver o estado dele — essa parte a gente já tinha combinado. Eu fiquei esperando no carro, mais afastada, pra facilitar a fuga se ele aparecesse.

Fingi que a voz falhava um pouco. Um toque de performance ajuda nessas horas.

— E ele apareceu. Foi tudo muito rápido. Ele puxou ela pelo cabelo, eu já tava com o carro ligado... ela reagiu, deu uma joelhada que deve ter feito os testículos dele subirem até o esôfago, correu até mim... Por um momento, eu realmente pensei em atropelar ele. Juro. Mas apareceu um senhorzinho com uma daquelas motos elétricas, acho, e tive que desviar. O carro derrapou, ela entrou no banco de trás, e eu me preparei pra ir embora dali. Foi aí que... bom, aí que veio o cachorro, a placa voadora, o buraco no chão e o sumiço dele.

O policial já parecia cansado antes de eu terminar, mas anotava tudo. Foi então que Rachel se aproximou.

Ela parecia... devastada. Dramática no ponto certo pra fazer qualquer juiz duvidar de que ela conseguiria cortar um pão sozinha, quanto mais armar um plano. Brilhante.

— Senhorita, pode nos dizer o que aconteceu?

Rachel respirou fundo, colocando a mão no peito como se estivesse tentando conter uma arritmia.

— Tem sido um inferno. — A voz dela saiu embargada. Eu quase aplaudi. — Ele me ligava vinte vezes por dia, mandava flores com bilhetes estranhos... ficava parado na esquina da empresa. Eu não conseguia mais dormir. Não conseguia viver. Se não fosse a Nadine... — ela olhou pra mim com olhos marejados. Eu retribuí com meu melhor olhar de "heroína relutante".

— Eu só queria pegar meus documentos. Só isso. E ele apareceu. Me puxou pelo cabelo, me xingou, disse que eu ia me arrepender... — Ela fungou, dramática. — Eu achei que fosse morrer ali mesmo. Eu só corri. Só queria fugir. Só...

Ela se calou, tremendo um pouco. O policial respirou fundo, solidário.

— Pode abrir o carro, por favor? Precisamos pegar esses documentos.

Rachel assentiu, ainda tremendo. Pegou a chave no bolso. Me lançou um olhar rápido — a confirmação silenciosa.

Ela apertou o botão de destravar.

BUM.

O carro explodiu numa bola de fogo tão alta que deu pra sentir o calor mesmo estando a metros de distância. Vidros estilhaçados, chamas subindo, um impacto que sacudiu o chão. Gritos ao redor. Policial se jogando no chão. Rachel no chão, mãos na cabeça, soluçando como se fosse uma vítima de guerra. E eu, por um breve segundo, só observando com a serenidade de quem já tinha visto tudo isso antes.

Porque eu tinha visto.

Três dias antes, a imagem veio como um relâmpago. O carro explodindo, Rachel gritando, o botão da chave clicando, o calor. Vi até a placa do estacionamento refletida nas chamas. Foi claro como um trailer de filme ruim. E quando vi o stalker agachado perto do carro dela, dois dias atrás, a confirmação veio como um soco no estômago.

Não dava pra impedir a bomba. Mas dava pra usá-la.

Quando tudo se acalmou e os bombeiros começaram a apagar os restos fumegantes do carro, um dos agentes que analisava as câmeras se aproximou com um tablet na mão.

— Achamos isso nas imagens de terça-feira.

Na tela: o stalker. Ajoelhado ao lado do carro da Rachel. Luvas, boné, mochila. Mexendo embaixo do banco do motorista com uma precisão que indicava prática.

O policial olhou a imagem, depois olhou pra gente. Rachel ainda estava no chão, segurando a cabeça como se fosse desmaiar. Eu estendi a mão pra ela, ajudando a levantar com um pouco de teatralidade.

Rachel deixou escapar um soluço dramático. Eu me aproximei, como quem ia abraçá-la, mas aproveitei pra sussurrar:

— Tá entregando o Oscar ou vai guardar pra outra ocasião?

Ela respondeu com um sorriso nervoso, ainda em meio aos soluços. O detetive olhou pra gente.

— Vocês duas vão precisar prestar depoimento oficial. Isso é mais sério do que um simples caso de perseguição.

— Claro. — Assenti, com um olhar resignado. — A gente vai com vocês. Só deixa a gente respirar um pouco antes

Quando tudo se acalmou e os bombeiros começaram a apagar os restos fumegantes…

...eu só conseguia pensar em como a morte tem um timing espetacular.

O stalker virou paçoca industrial, Rachel saiu viva, e o carro dela — aquele mesmo que ela vivia dizendo que odiava — finalmente encontrou um propósito maior: explodir de forma cinematográfica e salvar a vida da dona.

No fim, nada saiu como planejado. Mas tudo saiu como precisava ser.

E se isso não é um bom resumo da vida, eu não sei o que é.

— Jogada de mestre — murmurei para a Morte.

E caso a morte esteja me ouvindo, uma salva de palmas para ela.