A Morte E A Sonhadora
7 Capítulo 07 - Joana d'Arc
Notas iniciais
Obrigada por acompanharem!
Acordei me sentindo meio tonta, como sempre. Estava com vontade de dormir, por isso me cobri ainda mais com o cobertor fofinho que eu tinha e me encostei mais a parede (tenho mania de fazer isso quando quero me esquentar). Havia sonhado que estava surfando em cima de um livro negro, como se ele fosse um bote salva-vidas, e fiquei cantando De repente, Califórnia. Não me pergunte porque, não gosto muito de Lulú Santos. Acho que dormi enquanto a minha vizinha com sete gatos ouvia essa música. Ela adora músicas antigas.
Senti uma mão no meu pescoço e uma coisa peluda e fofinha nas minhas pernas. Imagino que a coisinha peluda seja Atena, já que agora estou sentindo dentinhos e unhas também. E a mão no meu pescoço fazia leves carícias, quase como se quisesse que eu voltasse a dormir. Parecia querer me proteger, me aconchegava de tal modo que eu podia dormir por anos e sentir-me protegida do mesmo modo. A mão no meu pescoço deve ser...
_Bom dia Náthan_ Me virei para ele só para vê-lo.
Eu adoro esses olhos vermelhos-marrons madeira. Dá uma angústia imensa não saber a verdadeira cor de seus olhos. Uma hora pareciam vermelhos, outra parecia marrom. Acho que posso dizer que seus olhos lembram um pouco o Pau-Brasil. É parecido, mas não igual. Me sentei na cama e comecei a acariciar Atena e pude ouvir seu ronronado.
_Bom dia... Perdão, embora conheça-te há dias permaneço a desconhecer teu nome .
_Alana Rapsakiá. Não sei a origem e nem o que significa. E você? Como se chama?_ Tentei ser dócil e amável.
Só que eu tinha acabado de acordar. Dócil e amável não é uma característica de alguém que acabou de acordar. Minha voz saiu rouca e cansada, parecia que eu perguntava por obrigação. Mas vou ser sincera, estava super curiosa. Náthan é um mistério; aparece do nada, quando mais preciso e ninguém sabe onde ele mora. Por que ele tem que morar no prédio já que vive aqui dentro. Mas em que andar?
_Náthan Lamouke. Desconheço o princípio, mas creio ser importante.
_ Princípio?_ Fiquei parada por um tempo olhando para aqueles olhos avermelhados-amarronzados até compreender_ Ah, entendi.
Eu sabia que princípio era o começo, origem, mas nunca ouvi ser usado no lugar da palavra Origem. É tão difícil assim me acostumar com essa linguagem arcaica? Sim, isso me confunde. Mas não é para tanto! Dá pra entender algumas coisas, mas me deixa confusa ao ouvir ele falando normalmente. Não sei vocês, mas eu tenho dificuldade em falar desse jeito.
_Tu és funcionária da biblioteca?_ A primeira frase coerente que ouvi desde que o conheci. Ele falou isso olhando para o meu caderno de Fichas da Biblioteca.
_Sim, bibliotecária. Mas agora vai acontecer uma reforma não apenas na biblioteca e sim em tudo referente a ela. Vão mudar tudo! Não que eu goste da prateleira onze, pelo contrário tenho medo dela. Mas eu simplesmente não gostei do que fizeram em relação aos funcionários.
_Que te chateia?_ Seus olhos pareciam compreensíveis.
Ele se aconchegou do meu lado e começou a brincar com o meu cabelo. Senti-me anestesiada por um momento, deitei minha cabeça em seu ombro e relaxei. Eu acho estranho que tenha me acomodado a ele, não fiz isso nem com a minha mãe! Ele simplesmente chega e eu simplesmente adoro isso. Posso considera-lo meu amigo?
_Posso considera-lo meu amigo?_ Perguntei para ele da mesma forma que perguntei a mim.
_Ininterruptamente_ Olhei para ele com a sobrancelha levantada_ Sim.
_Eles vão ter que revistar as mochilas de todos os funcionários, todos! Não haverá exceção, como se nós fossemos nos interessar por livros que nós vimos mofar, apodrecer e alguns serem devorados por um bicho que fica na prateleira onze e que ninguém sabe o nome! Além disso, não há consideração comigo e com o meu trabalho. Eu trabalho lá há cinco anos e não vou ser promovida a gerente. A idiota da Jenny não fez nada sobre os funcionários. Nem relatórios, nem fichas. E agora vai vir sei-lá-quem que se diz dono da biblioteca tomar o lugar de gerente. Se ele, ou ela, fizer isso eu acho que a biblioteca vai à falência. Se ele não cuidou dela quando esteve longe, imagina agora que está perto? E ainda terão que fazer um teste com todos os funcionários por causa da Jenny, a antiga gerente. Isso é completamente injusto!_ Estava com lágrimas nos olhos.
Haviam duas, apenas duas coisas que me faziam chorar:
Primeira coisa: Raiva. Eu odiava quando me obrigavam a fazer algo e normalmente essa é a razão número 1 do meu choro. A segunda razão é mais ridícula.
Segunda coisa: Mágoa. Odiava rancor e mágoa, eu botava tudo pra fora, mas não admitia que alguém continuasse a ficar com raiva de mim. Humilhação está incluso nisso, quando eu gosto muito de alguém e esse alguém me humilha eu sinto mágoa.
_Estais pranteando?_ Ele se aproximou de mim e acariciou meu cabelo_ Se eu articular um idioma aberto, paras de prantear?
_Pode ser_ Dei um sorrisinho_ Eu me sentirei muito mais contente em saber o que significa as suas frases.
_Está bem_ Ele disse lentamente, quase que se certificando e raciocinando para que não fale nada em uma linguagem arcaica_ Isso é tão difícil...
Dei um sorrisinho, pelo menos está se esforçando. Deitei-me no seu ombro novamente e tive vontade de dormir por causa da sua mão que acariciava meus cabelos. Sorri toda boba com isso. Definitivamente estava perdida, se pensar melhor era até perigoso o que eu estava fazendo. Abrindo a porta para um estranho, se bem que ele não tentou nada comigo quando eu estava apenas de toalha... Mas mesmo assim é muito arriscado! E além do mais...
_Onde você mora?_ Eu perguntei olhando nos seus olhos.
Ele disfarçou, tive completa ciência disso. Desviou o olhar e ficou sem fala por um tempo. Então eu comecei a desconfiar. Ficar no vácuo é algo que eu simplesmente odeio, mas antes que eu pensasse mais alguma coisa ele voltou a falar.
_Digamos que por aqui, nesse prédio_ Sua fala estava mais rápida que antes, talvez estivesse se acostumando rápido com a nova linguagem ou então estava nervoso o suficiente para fazer isso automático.
_Isso eu sei, se não você não conseguiria entrar_ Fiquei irritada por causa de tanto mistério e me sentei na cama_ Mas em que andar?
_Neste_ Ele respondeu simplesmente.
_Como neste andar? Não dá para você morar aqui! Tem o casal nojento do quarenta e dois que só sabem transar; A velha com sete gatos que foi ameaçada de perder todos eles do quarenta e três; Os três solteiros do quarenta e cinco; E casal de aposentados fofinhos do quarenta e seis. E eu do quarenta e quatro!
Ele riu e me olhou divertido, quase como um cachorrinho pego em uma travessura, mas não sentindo remorso. Ele se levantou da minha cama, segurou a minha mão e me puxou para fora do quarto.
_Espera!_ Senti que deveria levar a bolsa comigo. Peguei a minha bolsa e voltei para o lado de Náthan, que tinha um sorriso bobo brincando em seu rosto_ Pronto!
Abriu a porta, guardou a chave no bolso e me puxou para fora. Antes disso trancou a porta, lógico. Mesmo que da ultima vez eu tenha me dado bem e conhecido um cara super lindo e super misterioso, não queria correr o risco de isso acontecer novamente(Quero dizer, um cara estranho entrar no meu apartamento quando eu estou cega e somente de toalha). Agora estou me certificando sempre de trancar a porta, comigo dentro ou não.
_Vamos passear_ Ele ia para o elevador, mas eu retesei. Náthan não entendeu de primeira, olhou-me confuso, mas pareceu compreender a situação_ Ou podemos perder uns quilinhos.
Olhei para a escada. Ela é estreita, os degraus são pequenos, sempre tinha um inseto morto lá, não tinha um cheiro bom, não era muito limpa, mas é escorregadia e...
_Vamos de elevador_ Empurrei ele para dentro do elevador e fechei a porta correndo por que jurei ver uma coisa preta pulando daquela escada.
Quando as portas do elevador se fecharam, lembrei do incidente que aconteceu a pouco tempo e me acolhi mais a Náthan. Ele apertou o botão T e senti o elevador descendo. Juro que senti algo vibrar dentro da minha bolsa. Não trazia celular (já que aquela coisa havia quebrado ele), o que me assustou um pouco.
_Com licença_ Desvencilhei-me dele e abri a minha bolsa.
Por completa surpresa minha, era o diário que estava vibrando. Não sei se fiquei mais surpresa por ele estar vibrando, por ele estar na minha bolsa vibrando, ou por ele estar intacto na minha bolsa vibrando. Não deixei Náthan ver, ele nem fez esforço, respeitou como um grande cavalheiro... Está bem, não foi bem isso. Tenho ciência de que ele me lançou umas olhadinhas discretas e curiosas. Abri o diário, que realmente não tinha nem uma folha soltam ou gasta ou despedaçada ou rasgada ou... Estava em bom estado.
"1739, Portugal
Cansei de ficar na Alemanha, parecia não haver mais fim o nazismo. Estava certo, eu e MordeOssos previmos que daqui a pouco tempo o Nazismo começaria a dominar e seriam tempos ruins. MordeOssos está cada vez mais agitado, talvez tenha descoberto quem é minha prometida, mas esteja com medo de que o deixe solitário.
Acho que nunca contei a história de MordeOssos antes. Essa serpente macho foi um presente de uma tia minha, quando eu nasci, para que sempre me acompanhasse e nunca deixasse-me sozinho. Consequentemente nos apegamos muito com o tempo, tem pele branca e olhos vermelhos. Gosta muito de comer animais como ratos, morcegos e outros insetos. Ele pode prever o futuro e eu também, mas não gostamos muito de comentar isso um com o outro (se bem que eu gostaria de saber quem é minha prometida, quando irá nascer e onde). Estou começando a entrar em fase de depressão, não pode ser que esteja tão próximo assim o seu nascimento, talvez eu esteja me me sentindo muito sozinho. Eu não nasci na Alemanha como deve pensar, e sim na França. Conheci a história de Santa Joana d'Arc e devo muito respeito a ela. Uma das únicas bruxas capturadas da história, sendo que todas elas ajudaram os humanos com todo o coração que tinham. Lembro que era apaixonado por ela e que naquela época achei que minha prometida fosse ela. Foi no dia 30 de Maio de 1431, mesmo não sendo minha prometida ainda era minha amiga. Foi queimada viva com apenas dezenove anos de idade, A cerimônia de execução aconteceu na Praça do Velho Mercado, em Ruão. Ela veio vestida de branco, muito bonita e cheia de graça (pelo menos para mim). Antes ela se confessou com Totmouille e Ladvenu, os administradores dos sacramentos da Comunhão. A praça estava cheia, eu por um momento achei que deixariam-na livre por ter salvado tantas vezes a França com suas estratégias. Puro engano, após lerem seu veredito a vi sendo queimada viva. Suas cinzas forma jogadas no rio Sena, para que não fosse venerada. Foi o fim da heroína francesa, o fim de Santa Joana e o fim do meu amor.
Depois aprendi a me conformar com sua morte, nunca tive nada com ela por mais que tentasse. Não dava certo, eu sou o bruxo da Morte e ela é uma Santa que evita a Morte. Além disso, Joana vivia no meio de guerras e eu aparecia nelas apenas para levar o espírito dos mortos para o lugar onde merecem. Não fui eu a levar Joana ao céu, ela já sabia o caminho por si só sendo que é uma Santa. Desde então sai da França, com nojo do que fizeram a minha Joana e fui para a Alemanha muito tempo depois. Não faz diferença, vou para o Brasil logo logo... E com sorte encontro minha prometida. Uma curiosidade; bruxos são nômades para procurarem seus amores e não serem pegos com facilidade.
NML"
Fechei o caderno, os meus olhos ficaram arregalados. Senti um ódio de Joana d'Arc por NML ter se apaixonado por ela, ela com certeza sofria de esquizofrenia e era apenas uma retardada que se fazia de bruxa e dava sorte... O que eu estou falando? Joana d'Arc foi um ótimo exemplo feminino, é o meu exemplo! Eu sempre a usei para trabalhos escolares e tudo mais e... Acho que estou com ciúmes de algo que não existe. Coloquei o diário dentro da minha bolsa e voltei minha atenção para Náthan que me olhava com a sobrancelha arqueada. Estava encostado na porta do elevador, que estava aberta. Já estávamos no Térreo a um tempo... E eu nem percebi!
_Há quando tempo eu estou aqui, parada?
_Um tempo considerável.
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