A Morte E A Sonhadora

3 Capítulo 03 - A conversa de Semelhantes


Notas iniciais
Desculpem a demora para postar, eu iria fazer isso ontem, mas minha net caiu quando fui postar e perdi o capítulo. Desanimei, mas agora estou de volta!
Boa leitura!

Ao acordar descobri que não era Ian Somerhalder acariciando o meu rosto e sim Atenas que estava pedindo comida, o que me deixou completamente tonta. Deixei leite e comida para ela em um canto e corri para me trocar, estava atrasada. Nunca me atrasei em toda a minha vida, nem quando criança, nem adolescente, nem adulta. Isso que dá ler livros velhos e antigos que não falam nada com nada.

Coloquei uma blusa branca com mangas curtas, uma saia preta que ia um pouco abaixo do meu joelho e uma bota preta de salto alto. Quem vê pensa que fiquei horas escolhendo a roupa com todo o cuidado e carinho para alguém em especial. Lógico que eu não fiz isso, era a roupa que estava mais próxima.

Pensei no livro que tinha lido ontem, a leitura tinha sido envolvente. Será que eu devolveria? Digo, fiquei um pouco curiosa mesmo que o livro seja o motivo do meu atraso. Um livro com um gênero daquele despertar interesse em mim? Há muito tempo isso não acontece comigo, poderia simplesmente deixar para lá e continuar com minha vida monótona ou... Ah, estou conversando demais com a minha mãe, estou chamando a mim mesma de monótona, só falta me chamar de encalhada.

Mas não é verdade que eu sou encalhada. Talvez agora sim, mas aos cinco anos tasquei um beijo em um garoto bem bobão e tinha dois garotos bagunceiros que adoravam me abraçar, é lógico que eu fiz tudo sem consciência, imitando meus pais e batendo nos dois garotos bagunceiros, mas fiz e isso fala muito sobre a minha pessoa.

Eu praticamente corria pela calçada, alguns me olhavam como se eu fosse uma louca, outros olhavam para trás esperando alguma câmera ou algo do gênero, como se aquilo fosse uma cena de filme. Tive que ignora-los, dessa vez eu tinha que compreende-los.

Nunca me atrasei na minha vida e, graças a esse livro, tive uma ótima noite de sono. Coisa que eu não tenho há muito tempo, o que é estranho se você for pensar com cautela, uma pessoa ter uma ótima noite de sono por causa de um livro e não de um namorado.

Finalmente cheguei perto da biblioteca, escancarei a porta de entrada e pus os meus pés para dentro da mesma. Quer uma dica? Nunca faça isso em uma biblioteca que está praticamente mais abandonada do que asilos de idosos. Nunca! Os resultados podem ser estranhos, como por exemplo:

Primeiro Resultado: Fred cai de uma escada em cima de um bolo cheio de glacê. Ah, hoje é aniversário da Sophia!

Segundo Resultado: Sophia esbarra no estudante que ela tanto gosta fazendo com que o mesmo se sente no colo de uma outra estudante. Ah, ela também caiu em cima de um balde... De água... Para limpeza, digamos assim... Que já tinha sido usado.

Terceiro Resultado: Leandro escorrega e esbarra em uma das enormes prateleiras, causando um efeito dominó; Cada prateleira enorme e pesada foi caindo uma em cima da outra.

Quarto Resultado: Júlia é praticamente esmagada no meio dessas prateleiras.

Quinto Resultado: Alessandra quebra o computador-já-quebrado-mas-que-tínhamos-que-esconder-para-não-levar-bronca-da-Jenny ao deixa-lo cair no chão pelo susto.

Sexto Resultado: Algumas aranhas e baratas saem de baixo de uma das prateleiras ainda em pé (Isso é nojento).

Sétimo Resultado: Lúcio esbarra em mim pelo susto das prateleiras caindo e dos bichos, coisa que ele nunca faz: Se assustar.

Oitavo Resultado: Eu caio em cima de uma poça que estava em frente á portaria, que era uma tentativa falha de Lúcio de limpar aquela biblioteca.

Nono Resultado: Sophia sai correndo da biblioteca, chorando de vergonha por ter caído em cima de um balde de água suja na frente do garoto por quem ela é apaixonada. E passa por cima de mim, pisando na minha mão.

Décimo Resultado: O livro que eu estava lendo cai junto comigo na poça, e a tinta fica toda borrada e o papel quase se quebra.

Na próxima vez me lembre de não fazer isso, eu nem sei por que fui dar uma de esperta. Em uma tentativa falha de salvar o que restou do livro, comecei a chacoalha-lo. Vocês devem imaginar a minha cara ao ver ele se desfalecendo, suas páginas se soltando... Sério, analisando friamente a situação: Eu sou uma bibliotecária, eu tenho que saber que se você chacoalha um livro molhado e velho ele vai se soltar! As páginas vão desfalecer e ele virará poeira...

_Ai, meu..._ Não consegui completar a frase, estava entorpecida pensando se alguém daria falta daquele livro e descontasse do meu salário.

_Droga! Por que você entrou desse jeito aqui? Está atrasada, é lógico, mas precisa fazer todo esse estardalhaço?_ Alessandra estava irritada por ter quebrado o computador-já-quebrado-mas-que-tínhamos-que-esconder-para-não-levar-bronca-da-Jenny.

_Eu... Ah_ Não conseguia formular nenhuma frase para me defender, por que não havia nenhuma.

_Por que fez isso? Você é tão calma normalmente, não é de entrar desse jeito nos lugares_ Fred olhava para a blusa que agora estava cheia de glacê_ Ai, minhas costas...

_Quer matar alguém do coração? Sabe que aqui é mais abandonado que cemitério, se bem que vai bastante gente de vez em quando..._ Lúcio estava com a mão sobre o peito.

_Me desculpem..._ Peguei todas as páginas do livro e me levantei. Tinha estragado o aniversário da minha amiga, e na frente do amor de sua vida (Que amor...)_ Alguém tem que ir atrás da Sophia..._ Tentei amenizar o clima.

_Vai você! Quem causou tudo isso foi você, e é melhor você cuidar da Sophia se não te faço levantar tudo isso aqui sozinha_Leandro tentava, sem sucesso, levantar uma das prateleira.

E é por esse motivo que nunca, absolutamente nunca tento ser social, nunca chego atrasada e nunca tento chamar atenção. Mas, principalmente, não me dou bem com a sociedade, não adianta! Qualquer coisa que eu faça acaba nisso! Não exatamente em prateleiras uma em cima da outra ou estragando o aniversário de uma amiga, ou até de praticamente derrubar o garoto que está te paquerando da escada em cima de um bolo cheio de glacê, mas sim com a minha dignidade que nem essas folhas de papel: Destruída!

Deixei minha bolsa na sala dos empregados e lavei meu rosto. Estava suada de tanto correr, que droga! Pensei melhor, também estava morrendo de fome então roubei um biscoito de Julia, não iria fazer falta. Dessa vez fui andando até a porta principal, iria me desculpar com Sophia por ter estragado sua chance com aquele estudante. Não tenho culpa de que o garoto se sentou em cima de outra garota mais bonita que ela, particularmente falando. Não que ela seja feia, mas seu corpo não é assim... Avantajado.

Esqueci-me de deixar o que restou do livro na sala, mas já estava longe então continuei mesmo assim. Achei-a sentada em um banco do parque central. Pensei no que falar para ela que sentia muito, que ele não a merecia, que aniversários são assim mesmo, que eu sou muito desastrada... Talvez fosse melhor começar pedindo desculpas.

Mesmo um pouco hesitante no começo, aproximei-me e me sentei ao seu lado. Ficamos quietas, só observando a paisagem por um tempo. Era até confortável ficar assim, em silêncio, apenas refletindo. Sophia tem cabelos negros longos e lisos, muito pálida e vive com manchas na pele por conta de limões que ela tanto gosta, seus olhos são tão escuros que juro serem negros, um pouco mais baixa que eu e seu peso é bem distribuído (Talvez nem tanto comparada a namorada do estudante).

Não podia continuar simplesmente assim, quietinha. Mesmo que seja melhor assim. Sem remorso, sem desculpas. Mas eu sei que tinha que conversar com ela, não é do meu feitio adiar conversas.

_Me perdoe Soph, não foi minha intenção_ Olhava para as minhas mãos enquanto conversava_ Não deveria ter entrado daquele jeito, estragando o seu aniversário... Feito você passar vergonha, principalmente na frente dele. Tudo isso é minha culpa, e se quiser eu te ajudo_ Soltei tudo de uma vez_ Qualquer coisa, eu juro.

Eu me lembro de todos os anos que ela o observava atentamente, que dava sorrisos tímidos direcionados a ele, descrevia o quanto era bonito, se esforçava em fazer o melhor serviço, em dar o melhor livro, como ficava ansiosa para que ele abrisse as portas velhas na biblioteca e entrasse por lá só para a ver... Mas que no final sentia tristeza por ver ele todos os dias com uma garota diferente, beija-las, abraça-las... Na frente de quem mais o ama: Ela

Se tiver alguém digno ao amor em todo o mundo, são as mulheres. Nunca vi um homem chorar, demonstrar amor, carinho, arrumar o cabelo da namorada, protegê-la... Os amigos são mais importantes, deve ser isso que pensam. Por isso ficarei assim, estacionada nos relacionamentos, mas não permitindo que mais ninguém me acompanhe nesse posto.

_Não tem problema. Não é inteiramente sua culpa, eu falei demais!_ Ela deitou sua cabeça no meu ombro_ Eu me exaltei, você chegou na hora certa. Obrigada Alana_ Seus olhos estavam marejados.

_Como assim?_ Estava confusa.

_Eu disse que o amava e que o queria para mim. Que sentia ciúmes, que o observava todos os dias, que trocava de turnos por ele... Sabe, não é legal ter uma perseguidora. Garotos não gostam muito, se sentem presos e..._ Parecia a beira da depressão_ E ameaçados_ Deu um riso irônico, pelo que tudo indicava tinha sido isso que ele falou para ela.

_Tudo bem, pelo menos você já disse o que tinha para dizer. Mas... Sabe, não devemos julgar os garotos pelo o que ele aparentam ser_ Eu estava me contradizendo, acabei de xingar eles por pensamento_ Não somos homens para dizer tal coisa, não sabemos o que passa pela cabeça deles, certo?

_Sim, mas...

_Mas nada! Volta para lá e o ignore, finja que ele é um cliente comum. Só mais um em todos os outros, ele não é digno de sua atenção, de seu carinho. Olhe direto nos olhos dele quando falar contigo, sorria como sorri para qualquer um, atenda-o como atenderia qualquer um...

_Como?_ Perguntou indignada_ Isso é impossível! Eu não vou conseguir esquecer tudo o que disse, ele deve pensar que sou louca! Uma psicopata, obsessiva...

_Uma garota apaixonada_ Terminei a frase.

_Psicopatas sentimentais, Obsessivas iludidas, apaixonadas pelo vazio... E mesmo assim, felizes com o desprezo_ Ela olhava fixamente para o meu livro, e mesmo assim não o vendo realmente (não o notando, em outras palavras)_ É isso que acontece quando nos apaixonamos.

_Sim, mas..._ Suspirei, é difícil ajudar alguém sem saber realmente sua situação_ Ser uma perdedora que venceu, uma amiga desconsiderada, a figurante mais esquecida deve ser melhor do que não participar de uma luta, do que realmente não ser amiga, do que não fazer parte de filme nenhum.

Ela me analisou por um tempo e, conformada, se levantou e caminhou sozinha até a biblioteca, sem me esperar. Decidi que ia tentar organizar as páginas na biblioteca mesmo, essa coisa de conselhos amorosos foi algo cansativo.

Cheguei na biblioteca uns minutos depois, tinha passado em uma lanchonete para comer alguma coisa caso contrário morreria de fome. Todos já estavam mais calmos e voltado para a rotina. Fred me substituiu enquanto estive fora e realmente parecia feliz em fazer esse favor para mim.

Esperei as folhas secarem para começar a montar o livro de volta. Nenhum cliente entra, poeira sai e finalmente comecei a mexer no livro. Primeiro tentei organizar por datas, mas parecia que todas elas tinham borrado e estavam totalmente codificadas. Eu não consegui organizar o livro, mas descobri três coisas coisas.

Primeira: Não fazer estardalhaço em um lugar abandonado.

Segunda: O que não fazer quando se tem um livro velho e gasto na sua mochila.

Terceira: Como aconselhar uma amiga.

Acho que essa conversa com a Sophia foi algo mais do que pena por ela passado vergonha na frente do estudante, mais do que culpa por eu ter sido o motivo dessa vergonha, mais do que uma simples conversa entre amigas para que ela não chore pelo garoto, mais do que uma simples conversa com um psicólogo para saber se causei traumas na sua vida, mais do que uma conversa de mãe com o objetivo de que nada magoe sua princesa. Foi uma conversa de semelhantes.

Notas finais
Obrigada por lerem! E obrigada a aqueles que forem comentar