A Morte E A Sonhadora

18 Capítulo 18 - Despertando para a nova vida...


Notas iniciais
Não estou demorando muito, não é? Comparando ao meu antigo tempo de escrever acho que até estou indo bem. Agradeço os comentários e as sugestões para o capítulo bônus. Boa leitura!!

Havia mais ou menos três meses que eu havia tido aquele tumor, mas minha memória continua falhando. Não consigo me recordar do que houve antes da cirurgia e nem depois, apena que a Sophia morreu, mas... Não lembro muito, é apenas uma confirmação e não algo que eu sei. É que nem um bebê nadando, ele não sabe como faz, apenas faz. Nesse meio tempo fui morar com a minha mãe, decidi que minha vida estava indo pelo fundo do poço e com minha mãe pelo menos faria algo que preste.

Comecei a cozinhar, ainda tenho uma vaga memória de que antes não sabia. Estou começando a cuidar mais de mim mesma, trabalho atualmente para um jornal como articulista e até que ganho bem. Estou, como minha mãe costuma dizer, resolvida na vida, porém ainda continuo com problemas de relacionamento. Tenho muitas amigas, nenhuma inimizade, fiquei mais sociável e até posso dizer que virei uma agradável companhia... Mas com homens?

_A biblioteca está completamente diferente_ Disse Julia entusiasmada no telefone_ Mas o gerente ainda não apareceu, parece que tinha coisa melhor pra fazer. Fred te substituiu e entrou novos estagiários e tal... A prateleira onze não existe mais.

_Como não existe mais?_ Lembro muito bem que ninguém limpava a prateleira onze por que havia alguma coisa lá.

_Não tem prateleira onze. Fica um grande vazio entre a dez e a doze, mas nenhuma onze. Já procurei, parece até que não queriam que essa prateleira existisse... Mas em compensação, as outras aumentaram de tamanho e agora são de mármore. Vieram novos livros e até restauraram alguns antigos. Está super legal!

_Eu não me lembro direito_ Comentei triste, odiava não poder lembrar das coisas.

_Mas que droga, o que houve no seu cérebro?

_ Não faço ideia Ju. Ninguém sabe o que houve, os médicos dizem que é um tumor a muito tempo diagnosticado e que eu queria manter em segredo, mas não aprofundam o assunto_ As vezes tinha até medo de morrer, ter alguma doença letal e eles não quiserem contar pra mim.

_Essa história é muito suspeita_ Assumiu um tom acusador, como se isso fosse ajudar em algo.

_Minha mãe já tentou peitar eles, mas não deu certo. Até minha irmã e o marido advogado dela vieram_ Infelizmente era verdade, ainda não acredito que minha irmã veio.

_Duvido que Mary tenha vindo só pra te ajudar.

_Mas veio. E eu também não estou muito confiante nisso, mas vamos ver onde isso vai dar_ Minha irmã, Mary Rapsakiá, era a popular da escola quando éramos jovens. Ela sempre tinha os melhores namorados, as melhores roupas, a melhor maquiagem, a melhor faculdade, a melhor letra, as melhores amigas... E agora, se casou com um tal de Breno Lacrimos, e se tornou Mary Lacrimos. Um advogado com trinta e dois anos e ela uma secretária com vinte e sete, moram em um apartamento enorme com oito quartos... Nossa, que dejavu.

Depois de conversar mais com Julia tive que desligar, teria que trabalhar agora. Fui para a cozinha e comecei a preparar algo pra comer antes de ir. Peguei uns pedaços de bolo que eu havia feito ontem, fiz café e preparei o meu lanche-antes-do-trabalho. O bolo de cenoura com chocolate é, definitivamente, o meu favorito.

_Bom dia_ Minha mãe apareceu pegando um pedaço e colocando café em uma caneca.

_Bom dia mãe!

Liguei a televisão, já que ainda era cedo e me pus a escutar o que o repórter dizia: “Maré de mortes vem acontecendo a mais de três meses. Estranhamente, os remédios estão expirando rápido demais e as máquinas de hospitais que ajudam pacientes em período vegetativo estão desligando a noite. Ninguém sabe o que está causando isso, além dos ataques terroristas de homens bomba e...”.

Nisso minha mãe desligou a televisão revoltada, eu sei o quanto ela odiava ouvir notícias de manhã. As mortes e desgraças pareciam ser as únicas notícias do mundo. Lembro de que quando era criança ela retirava a televisão da tomada por dias, admito que também nunca suportei essas notícias. Elas depreciam e faz com que não tenhamos vontade de ajudar o mundo, dá a impressão de que ele está perdido.

Coloquei uma blusa azul de mangas cumprida, uma saia branca que vinha uns três dedos acima do joelho e uma bota preta sem salto (nunca gostei de ser mais alta que as outras pessoas). Minha mãe e minha irmã decidiram fazer uma espécie de reforma no meu guarda-roupa e fui obrigada a deixar. Agora era obrigada a ir de metrô, mas ainda preferia ir a pé, mas de carro eu não vou. Com tantos acidentes acontecendo ultimamente, minha mãe prefere que eu vá de metrô, debaixo da terra, longe de qualquer terrorista.

Cheguei ao prédio onde trabalho, ele é muito grande e tem vários andares que eu ainda nem tive a oportunidade de conhecer. O elevador é panorâmico e dava pra ver toda a empresa trabalhando, isso era legal, mesmo ainda sentindo saudade das escadas da biblioteca embolorada e das tentativas falhas de lavar aquele local. Eu lembrava de alguns momentos divertidos sim, e também na minha masca na mão esquerda, no pulso, que o bichinho da prateleira onze havia deixado.

Meu artigo atual era conselhos de autoajuda, algo que ajudasse as pessoas a não se suicidar (Essa era uma das catástrofes que o repórter se referia, a onda de suicídios estava aumentando consideravelmente). Já que estava perto do dia dos namorados, decidi fazer algo referente ao amor. Por mais que eu não tivesse muita sorte no amor ou então tivesse muita experiência nisso, tentei usar o que eu tinha nos livros. Experiências que não eram minhas, mas que podiam ser usadas no lugar.

“O amor que queremos...

Sem dúvidas o amor é algo aterrorizante, todos já sentiram ou sentem algo parecido. É comum as vezes, quando estamos solitários, admirarmos os casais nas praças. O amor é algo muito admirado não apenas por anônimos, mas também por notáveis. Compositores, artistas, filósofos, escritores e muitos outros adoram usar o amor como tema de suas obras. Tornou-se comum ver adolescentes lendo livros de romance ou suspirando por algum ator ou atriz, mas o verdadeiro amor parece que se perdeu. Amamos mais quem não nos conhece do que quem convive conosco diariamente. Não olhamos mais para o céu com o mesmo olhar apaixonado de antes, não admiramos mais as estrelas que brilham lá longe para alegrar nossa noite. Se notássemos o que o amor se tornou, talvez tentaríamos mudar algumas coisas.

Atualmente, existem quatro caminhos para o amor: Quando se ama e é correspondido, mas um dos dois não demonstra por questão de orgulho e nega a todo custo; Quando se ama e é correspondido e nenhum dos dois nega, mas algo sempre os separa; Quando se ama e é compreendido que não é a mesma coisa que ser correspondido, mas é mais reconfortante, a pessoa amada simplesmente aceita e não te julga; Quando se ama e é incompreendido, o mais famoso e o mais usado, quanto aquela pessoa amada te julga e não te aceita, quando a pessoa amada faz questão de te fazer depressiva e melancólica”.

Minhas colunas eram curtas, mas isso estava ridículo... Eu não me encaixava em nenhuma dessas categorias e até parecia encarar o amor como algo frio e doloroso. Não era essa a impressão que eu queria dar do amor, queria que fosse algo desejado e... Vou reescrever essa ultima parte.

“Atualmente, existem quatro cinco caminhos para o amor: Quando se ama e é correspondido, mas um dos dois não demonstra por questão de orgulho e nega a todo custo; Quando se ama e é correspondido e nenhum dos dois nega, mas algo sempre os separa; Quando se ama e é compreendido que não é a mesma coisa que ser correspondido, mas é mais reconfortante, a pessoa amada simplesmente aceita e não te julga; Quando se ama e é incompreendido, o mais famoso e o mais usado, quanto aquela pessoa amada te julga e não te aceita, quando a pessoa amada faz questão de te fazer depressiva e melancólica; E o mais popular atualmente, que veio junto com os bestsellers e sonhos adolescentes, quando se ama e a pessoa amada não existe”.

Infelizmente, isso tratava da atualidade. Queria que tivéssemos algo mais Romeu e Julieta, algo como Amar e se sacrificar pela pessoa amada, mas hoje em dia os adolescentes parecem gostar somente ficar e mudar de relacionamento como trocam de roupa. O amor começou a ser tratado como uma baboseira, os garotos odeiam falar sobre isso e as garotas sentem vergonha de se apaixonar. Não os culpo, foram praticamente programados para sentir isso. O mais próximo do amor que já senti foi o quinto, tenho uma espécie de sonhos com alguém de olhos castanhos avermelhados. Até agora não compreendi, mas sempre sonho com os mesmos olhos amorosos e carinhosos como se fossem familiares.

De qualquer forma, não gosto de falar disso. Sei que vão pensar que sou louca por ficar me apaixonando por alguém dos meus sonhos, literalmente. Escolhi algumas frases de amor de alguns filósofos, analisei elas, escolhi umas fotos e mandei pro editor. Era assim que eu trabalhava e, por incrível que pareça havia demorado quase duas horas. Tinha que fazer um grande texto de no mínimo 200 palavras.

Eu até que gosto da minha nova vida, mas ela é pior que a outra. Muito mais pacata e agora não tenho mais o Fred tentando algo comigo, ou as lágrimas da Sophia querendo saber se está bonita pro estudante que ela gosta, ou Julia sendo a melhor amiga que já tive na vida, ou Jenny me ignorando mesmo eu tentando ser a melhor... Aqui a vida é muito simples e fácil e eu, sinceramente, prefiro como eu vivia antes. Naquela biblioteca sem graça, triste e monótona em que eu vivi os melhores momentos da minha vida (que posso me lembrar).

Notas finais
Adorei a sugestão para o capítulo bônus de Daughter of Apollo, vou ver se posso fazer algo parecido com um casamento de Alana e Náthan (Isso se eles voltarem a se ver hehehe)
Obrigada por lerem e agradeço a todos os leitores (em sua maioria mulheres) por terem acompanhado a fic até o final ; )