A Morte E A Sonhadora
4 Capítulo 04 - Família Pappenheimer
Notas iniciais
“Alemanha, 1600
A família mais humilhada que assisti em toda minha existência, acho que só lamentei desse jeito quando vi minha mãe, uma das primeiras bruxas(Sendo assim, muito tola a ponto de contar para a própria Igreja que era uma bruxa para tentar amparar um padre que estava a desfalecer), expirando de um jeito parecido de Anna.
Trinta e sete anos juntos, construindo sua vida humilde, tentando melhorar as condições dos seus três filhos: Gumpprecht e Michel os mais velhos e o pequeno Hoel. As vítimas de Maximiliano, acusados de bruxaria e tendo que admitir algo que não são por culpa das torturas aplicadas a eles, foram Strappados e ficaram em selas separadas. Só por serem luteranos em terra católica. Anna confessou que havia voado em um pedaço de madeira para ir ao encontro do diabo, que havia feito sexo com seu amante demoníaco, matado crianças para fazer pomadas com seus corpos e feito pó demoníaco das mãos das crianças mortas. A pomada e o pó, segundo ela, eram usados para cometer assassinatos. Lógico que nada disso é verdade. Uma multidão enorme de oitocentos metros se formou para ver a execução da família. Primeiro foram despidos para que seus corpos fossem queimados em brasa. Então os seios de Anna foram decepados, o que me deixou nostálgico pelos gritos femininos de uma mãe de família. Os seios sangravam e foram enfiados em sua boca, o que me deu ânsia, e depois na boca de seus dois filhos adultos! O carrasco parecia fazer o mesmo de boa vontade, desviei o olhar naquele momento. Era grotesco, ainda é grotesco. Enquanto a cavidade no peito de Anna sangrava, as carroças carregavam os quatro condenados balançando. Em determinado ponto foram obrigados a descer da carroça e se ajoelhar diante de uma cruz e confessar seus pecados, e ali lhes ofereceram vinho. Todos foram condenados a morrer na fogueira, sem o “privilégio” de serem enforcados antes. Paulus, o pai, ainda teve seus braços amarrados a uma roda de ferro até que seus ossos se quebrassem. O barulho dos ossos se quebrando ecoo na minha mente. Anna foi poupada da roda por ser mulher. O pai de família foi empalado com um espeto, sendo assim estigmatizado como sodomita. A tortura dessa família não foi apenas física, anulava tudo o que eles tinham sido em vida. Os quatro foram queimados até a morte, enquanto Hansel, de onze anos, foi obrigado a assistir toda a tortura de sua família. Ouvi-o gritar em plenos pulmões “Minha mãe está se contorcendo!”. Três meses depois, ele foi executado queimado.
Eu penso se o meu amor passou alguma vez por tudo isso, se vai passar, se está passando ou até se eu a encontrarei antes de qualquer coisa. MordeOssos disse que não, que é impossível ela ter nascido sendo que ainda não tive ataques cardíacos e súbita depressão. É assim que acontece quando nossos amores nascem, ficamos doentes por estar longe e não podermos cuidar. Não sei como é o sofrimento por estar tão longe dela, como é a satisfação por ela finalmente ter nascido e eu poder cuidar dela e nem como é a alegria constante de estar perto dela e ser aceito. A minha ainda não nasceu. Sentiria-me solitário se não fosse por MordeOssos.
NML”.
Coloquei a página solta de volta, dentro do que restou do livro original e fiquei estática olhando para Sophia que estava tão ocupada falando de como o estudante tem lindos olhos verdes, mas que tem vergonha de ser observada por eles que nem percebeu que eu tinha lido uma das páginas do livro e nem prestado atenção nela. Realmente, as torturas de antigamente me assustam agora sabendo tudo como é detalhadamente. Lógico que eu sabia que bruxos, ou pelo menos quem era acusado de bruxaria, era torturado da pior forma possível, mas eu nunca soube detalhadamente sobre esse assunto.
E o pequeno Hansel? Foi traumatizado sem clemência! Viu seus pais e seus irmãos naquela humilhação podre, quebrando toda a sua dignidade. Quem é MordeOssos que vive dando uma de Merlin? Quem é esse tal de NML que escreve essas maluquices? Estou começando a acreditar que Harry Potter realmente existe, estou começando a ficar assustada, estou começando a me sentir doente, estou começando a achar que terei meu primeiro desmaio, estou começando a...
_Sophia, pode ir. Vou ficar com Alana_ Julia interrompeu meus pensamentos.
Sophia praticamente correu para o lugar mais afastado da biblioteca, para não dar de cara com o estudante-que-não-deve-ser-nomeado. Julia se sentou no banco do meu lado e começou a me olhar, quase como se esperando que eu começasse a falar sobre os problemas da minha vida ou que eu confessasse meus pecados para um padre, que no caso é ela.
_Está melhor? As prateleiras caíram em cima de você, ficou praticamente soterrada..._ Tentei começar uma conversa e amenizar o clima que se instalou.
_Isso não vem ao caso, eu vi a sua reação quando o livro começou a se desmanchar. Você não se preocupa tanto assim com livros, não ficou desconcertada na frente de todo mundo por vergonha e sim por ainda estar digerindo o estrago que fez no livro. Não levou em conta que estragou o aniversário da Sophia, a tentativa de limpeza de Lúcio, derrubou Fred da escada em cima de um bolo, fez Leandro derrubar prateleiras em cima de mim... Mas mesmo assim se preocupou mais com isso_ Apontou para o livro.
_Não, é lógico que eu fiquei preocupada com vocês_ Me defendi, mesmo sendo mentira.
Eu me preocupei mais com o livro do que com qualquer outra pessoa, caso contrário eu não teria levado o livro na conversa com a Sophia.
_Não tente me enganar, te conheço a muito tempo minha querida_ Tentou me persuadir.
Eu e Julia nos conhecemos desde pequenas, sempre os patinhos feios da sociedade que entendiam uma a outra. Acompanhavam uma a outra, teve até uma época que ela virou emo por um garoto. Eu sempre fiquei do seu lado e do seu lado continuo, mas ao crescermos nos distanciamos. Lembro que quando éramos pequenas nos chamávamos com apelidos carinhosos como Julieta e Alaniet.
Suspirei, não posso esconder dela. Não por questão de querer, por que eu queria muito guardar o segredo do livro apenas para mim... Eu não conseguia, eu ainda sou um ser humano por mais que odeie isso. Preciso descarregar e principalmente com a Julia, não me sinto a vontade falando com outra pessoa.
_Ele parece... Real_ Comecei. Tentei continuar, mas parecia não ter coragem o suficiente para isso.
_Como assim?_ Indagou tentando me compreender. É isso que eu gosto na Julia, ela quer te compreender, mas também quer ser compreendida.
_Ele fala sobre bruxas, sobre como era antigamente, as torturas e castigos para aqueles que desafiassem a igreja... Eu me assusto de vez em quando ao ver os detalhes... Das torturas, quero dizer_ Suspirei me lembrando da família que, segundo NML foi uma das mais humilhadas naquela época.
_Então esse livro é praticamente um diário de torturas da época, certo?_ Tentou falhamente me compreender, mas se bem que pelo menos ela tentou me compreender.
_Tecnicamente não, é um bruxo que narra sobre o que acontece na Alemanha antigamente. Sobre como os bruxos realmente são, como se escondiam e como se apaixonavam. Sobre os humanos que são considerados bruxos e sobre os bruxos realmente bruxos_ Tentei faze-la compreender, mas acho que dei um nó no seu raciocínio.
Tenho certeza que Julia não entendeu o que eu quis dizer já que ela me olhava como se eu fosse louca. Depois pegou o que restou do livro de minhas mãos e deu uma lida em uma das páginas, não sei qual era. Enquanto isso, procurei o nome do livro em alguma das fichas. Teria que colocar “Alugado” até conseguir concertar, as vezes algum estudante poderia querer aluga-lo. Sabe, aula de História.
_Quem é MordeOssos?_ Perguntou olhando nos meus olhos.
_Não sei, é um nome estranho... Talvez seja algum apelido de um bruxo ancestral.
Estranhei, não tinha nem uma ficha do livro Cruciatu Antequam Mors, o que significa que o livro não é da biblioteca. Será que é alguma herança de família chata que alguém “esqueceu” aqui? A biblioteca não é apenas um lugar abandonado aonde estudantes vão obrigadamente para pegar algum livro que necessita para trabalhos ou provas, também serve como um depósito de coisas que as pessoas não querem mais. Já achamos cadernos usados em várias prateleiras, pulseiras quebradas e até pão embolorado.
Mas quem seria burro o suficiente para deixar um ótimo caderno de estudos sobre caça as bruxas aqui? Só se for realmente real, se for herança de família e o ser em questão não ter aptidão à leitura. Deve ser aqueles adolescentes que se preocupam mais com atualizações no seu Tablet ao invés do que aconteceu com o pequeno Hansel e milhares de outras crianças.
_O nome do livro não está aqui... Não tem ficha..._ Comentei com Julia.
_Ou então MordeOssos é um nome de bichinho de estimação. Será um gato?_ Olhei para ela sem acreditar_ O que foi? É uma boa teoria.
_Por que um gato?_ Indaguei sem entender.
Com tantos bichos no mundo ela pensa logo em gatos. Se soubesse disso, teria levado Atenas para as minhas provas. É bem possível que ela saiba em que ano Damon Salvatore nasceu e em que ano ele se transformou. Se bem que eu sei disso de cór e salteado.
_Por que bruxos têm gatos... Pretos de preferência_ Ela tomou as fichas da minha mão e começou a procurar o livro_ Tem certeza que procurou direito?
_Tenho. Em Harry Potter, os bruxos tem corujas, sapos e serpentes. Gatos nem sempre_ Ela olhou para a capa do livro e começou a estuda-la.
_Que livro curioso Alaniet_ Suspirou e devolveu para mim_ Um mistério solucionado: O livro não é dá biblioteca. Portanto não vão descontar do seu salário por causa do que você conseguiu fazer com ele_ Deu mais uma olhada nas páginas soltas e uma gargalhada estrondosa.
_Não tem graça Juliet. Agora temos outro mistério_ Seus olhos por trás dos óculos brilharam de curiosidade.
_Qual mistério Alaniet?_ Se esgueirou para mais perto de mim, para que ninguém ouvisse o papo de doidas que estávamos tento uma com a outra.
_Se ele não é da biblioteca, de onde ele surgiu?
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