Notas iniciais
olá! bem vindos ao cap novo! um cap pra respirar ♥

Então Nefer-ka-ptah foi para a grande caixa onde estava na fenda no meio do rio, e as cobras e escorpiões e coisas rastejantes observavam, mas não podiam detê-lo.

Ele abriu a caixa de ferro e encontrou uma caixa de bronze,

Ele abriu a caixa de bronze e encontrou uma caixa de madeira ceté,

Ele abriu a caixa de madeira ceté e encontrou uma caixa de marfim e ébano,

Ele abriu a caixa de marfim e ébano e encontrou uma caixa de prata,

Ele abriu a caixa de prata e encontrou uma caixa de ouro,

Ele abriu a caixa dourada e encontrou o Livro de Thoth.

~ Fragmento de “O Livro de Thoth”

Depois de todos os acontecimentos daquele dia, Anúbis achou que seria extremamente necessário conversar com Osíris. Ele deixou um suspiro escapar dos lábios enquanto pensava em como o dia havia sido cansativo. Como se suas obrigações normais já não fossem cansativas o suficiente. Afinal, provavelmente nenhum tipo de deus trabalhava mais em qualquer panteão quanto os deuses responsáveis pelos mortos e o submundo. No Salão do Julgamento, lançando olhares preocupados para Merab que, no cantinho, fazia carinho no focinho de Ammit sob os olhos atentos de Ísis, Anúbis e Osíris conversavam sobre as reviravoltas do dia.

— Não basta Rá estar estranho e Khufu ter fechado os templos… — disse Osíris — agora isso…

— Acha que Merab vai ficar bem até o próprio julgamento? — perguntou Anúbis desviando seu olhar de Osíris para Anput que timidamente entrava no Salão do Julgamento.

Depois de tantas reviravoltas no dia, por mais que Anput não soubesse de todas ainda, foi inevitável que a fofoca se espalhasse entre os deuses de que algo grande tinha acontecido. Alguns diziam que um humano tinha lançado uma magia contra Thoth, outros que um humano havia ressuscitado alguém, outros ainda que Ísis havia tido outro filho sabe-se lá como. Assim, ela ficou curiosa para saber o que exatamente tinha acontecido e, assim como outros deuses, resolveu ir até o Salão do Julgamento para tirar suas próprias conclusões. Assim, não foi estranho o fato de que a cada minuto mais um deus chegava naquela parte tão importante do Duat.

Um rápido olhar de Anput pelo Salão deixou-a duvidosa de muitos dos boatos pois ela pôde ver Merab que, apesar do olhar assustado e um tanto vidrado, parecia muito interessado em Ammit. Contudo, Anput não deixou de notar que essa criança era claramente uma mera alma humana. Rápida e silenciosamente, a deusa foi até Anúbis querendo saber de mais detalhes.

— Ele obviamente não pode estar presente nos julgamentos. — dizia Osíris.

— Não tem exatamente muitos lugares para ficar por aqui. — respondia Anúbis — Talvez o mais tranquilo seja a sala de papiros de Thoth.

— Concordo. — disse Osíris desviando o olhar para Anput e abrindo um sorriso convidativo — Imagino que os rumores já tenham se espalhado.

— Duvido que todos sejam verdade. — respondeu Anput — O que exatamente aconteceu? Primeiro roubam o livro de Thoth e agora falam um monte de histórias.

— Minkhaf, — começou Anúbis — um dos filhos de Khufu, ele tentou ressuscitar Merab com uma magia do livro de Thoth.

— Merab? Aquela criança fazendo carinho em Ammit? — perguntou Anput olhando para a alma de Merab — Como ele morreu?

— Foi a parte 1 da ideia de Thoth e Rá para forçarem Minkhaf a devolver o livro. — disse Osíris soltando um pesado suspiro — Uma punição, um teste, um lembrete da força dos deuses. Thoth matou Merab com a magia emprestada de Rá e Minkhaf tentou ressuscitá-lo.

— E então, obviamente, Merab acabou se lembrando da morte dele… — dizia Anúbis — E isso é só o menor dos problemas de trazer alguém de volta à vida.

— Tadinho… — disse Anput soltando um suspiro triste enquanto fitava a criança- Tão novo para passar por tudo isso. É por isso então que ele está aqui no Salão do Julgamento? Lady Ísis vai cuidar dele?

—Sim. — respondeu Osiris olhando para a criança também.

Atenta a cada detalhe, Anput olhou para Anúbis e notou que muitas coisas se escondiam em seu olhar. Notou tristeza, irritação, preocupação e talvez até cansaço embora Anput não acreditasse que fosse cansaço físico. Provavelmente era cansaço mental. Fazia mais sentido sendo eles dois deuses. Toda a situação de Merab junto com tudo que Anúbis já tinha que lidar no dia a dia era no mínimo bem cansativa.

E de fato, Anúbis sentia a preocupação e a responsabilidade pesar em seus ombros. Tinha ali uma alma jovem que deveria tentar proteger para que não sofresse mais do que já havia sofrido. Era um caso especial. Uma alma recém-ressuscitada numa ressurreição que não deu certo. Além disso, Anúbis sabia que a memória da própria morte podia ser extremamente prejudicial para a integridade emocional e mental de uma alma. Uma coisa era meramente se lembrar do ocorrido como uma memória ou um sonho ruim e traumatizante. Isso já era ruim o suficiente. Outra era reviver as sensações do momento à flor da pele tal como Merab havia sentido.

Todavia, apesar da importância e problemática do momento, o mundo continuava a viver… e morrer. Almas continuavam chegando e pessoas continuavam orando pela alma dos entes queridos ou clamando vingança e justiça por aqueles que lhes destruíram a vida. Assim, a cada segundo chegava na mente de Anúbis cada mínimo detalhe da vida de algum morto, também chegava várias preces ao mesmo tempo ecoando em sua mente sem parar. Não era uma situação nada confortável, e Anput notava.

Delicadamente, a deusa botou a mão no ombro de seu marido que logo olhou-a com olhos cansados e tristes.

—Não vai ter que julgar mais nenhuma alma por hoje, vai? — perguntou ela.

—Infelizmente tem. — respondeu ele — Isso tudo deixou o Duat um caos e aumentou a fila no tempo que ficamos discutindo o problema e tentando lidar com ele.

Anput afirmou tristemente com a cabeça enquanto sua mente já estava tentando ter ideias desesperadamente.

—Então… — disse Anput ainda sem certeza do que sugerir — Mais tarde posso voltar? Pouco antes do sol se pôr. E te roubar pelo resto da noite?

Anúbis estava pensando na proposta mas, antes que ele pudesse responder qualquer coisa, Osíris, que também via o cansaço nos olhos do sobrinho, se adiantou na resposta.

—Seria maravilhoso. — disse Osíris — Leve-o para tomar um ar e distrair a mente. Sem dúvida precisa e a noite, quando os mortais se entregam ao sono, provavelmente será mais tranquilo. Queria poder liberá-lo agora, mas realmente temos que arrumar o Duat por enquanto.

— Depois venho te roubar um pouquinho. — disse Anput com um doce sorriso dando um breve beijo na bochecha de Anúbis.

E tão breve quanto apareceu, Anput se foi deixando Anúbis curioso com o que ela estava pensando e Osíris sorrindo ao ver o carinho trocado pelos dois.

— Ela é uma boa garota… — comentou Osíris.

— Fico preocupado com ela quando acontecesse coisas grandes assim e às vezes no dia a dia… — admitiu Anúbis — Sei que ela não gosta de às vezes ser mais deixada de escanteio e não ter muitas funções próprias.

— Entendo… — respondeu Osíris soltando um suspiro triste — Isso infelizmente não é algo que temos muito controle. A ordem de importância dos deuses não é algo simplesmente escolhido, embora sem dúvida nossas decisões afetem isso até certo ponto. Mas também é uma boa dose de sorte e acaso. Além disso, embora a maioria de nós não veja os mortais como mais do que meros insetos, a verdade é que dependemos deles. Suas crenças nos moldam, nos fortalecem.

Foi nesse ponto que, interrompendo toda a conversa, Thoth se aproximou dos dois com meio mundo de papiros amontoados no braço. O deus da sabedoria parecia estar tentando organizar sua papelada para que os julgamentos pudessem começar.

— A alma do filho mimado de um dos nobres de Tebas está fazendo uma bagunça perto da entrada do Duat. — disse Thoth — As almas estão se amontoando demais sem organização alguma. Sugiro começarmos logo os julgamentos ao menos da primeira porção das almas enquanto organizamos as demais.

— Faremos isso. — disse Osíris

Osíris bateu palma então duas vezes lentamente, mas o som que emanou das palmas foi denso, grave e ecoou por todo o Salão do Julgamento chamando a atenção de todos até os deuses.

— Quem não deveria estar aqui, favor voltar à seus afazeres. — anunciou Osíris — Os julgamentos dos mortos irão recomeçar.

Não demorou muito mais do que alguns minutos para que todos que não deveriam estar ali irem embora e então os julgamentos recomeçarem. Alma após alma, os deuses julgaram os mortos sem nem um segundo de distância entre cada julgamento. Era um processo demorado, afinal todo o julgamento egípcio era bem mais demorado do que simplesmente pesar o coração do morto contra a pena da verdade.

Mesmo com o tempo se passando muito mais devagar do que no mundo dos humanos, muitas horas se passaram com os deuses julgando alma atrás de alma. O sol que havia brilhado forte no dia da morte de Merab havia se posto e foi trocado pela lua. Contudo, poucos minutos antes do sol se pôr, Anúbis sentiu no meio de um julgamento de uma senhorinha fofa, que o corpo de Merab havia sido entregue à algum embalsamador pois em sua mente chegou uma prece da mãe de Merab.

— Oh Senhor do E-Embalsamamento… — dizia a voz chorosa e soluçante de Ahura — … Pegue a alma de meu pequeno Merab... e... g-guie-o até diante do trono de Osíris. E-Entrego o... corpo dele à.. um dos seus na esperança de que ele possa ter o sepultamento que merece…. N-Não o culpe pelos erros dos pais... Por favor.

Ahura chorava e resmungava a última prece pelo filho segurando-lhe a mão e olhando com ternura e desamparo para o rosto desacordado da criança. O corpo do tão amado filho estava deitado sobre uma mesa de madeira dentre várias outras mesas com corpos em estágios diferentes do demorado processo de mumificação. As lágrimas de Ahura caíam sem parar em completa tristeza acompanhadas das lágrimas de Minkhaf que passava o braço por trás dos ombros da esposa tentando dar-lhe forças que nem ele mesmo sabia se tinha para oferecer.

A luz do sol que se esvaía lentamente a cada segundo lançava um aspecto mais tenebroso ao local enquanto soldados rodeavam a triste família tentando dar-lhes o mínimo de privacidade. O único outro autorizado no pequeno círculo criado ali era o sacerdote de Anúbis de Koptos. Quando Minkhaf deixou a cidade para trás tantas horas atrás, não imaginava que voltaria tão cedo e para pedir pela preparação do corpo do filho.

— Não temos forças para continuar a jornada no momento. — disse Minkhaf para o sacerdote tentando esconder do tom de voz como estava destruído por dentro — Prepare o corpo de meu filho com as honras dignas do filho de um príncipe.

— Ficarão aqui até que as cerimônias finais sejam concluídas? — perguntou o sacerdote.

— Sim. — respondeu Minkhaf olhando para a esposa desamparada que chorava sem parar e gritava em plena dor — Pagarei quanto for necessário para que meu filho possa ser enterrado. Aqui, no lugar que ele pereceu depois de uma viagem que estava tão empolgado para fazer.

Minkhaf engoliu em seco sentindo em sua garganta o quanto aquilo lhe parecia injusto. Em seu próprio jeito de lidar com o pesar, Minkhaf ignorou o sacerdote quando ele acenou com a cabeça e pareceu-lhe perguntar alguma coisa. As palavras não chegavam mais a Minkhaf e sua visão começava a ficar embaçada pelas lágrimas que se acumulavam. Mas, em meio a tristeza, Minkhaf também sentia muito ódio.

Quando a lua e as estrelas já brilhavam no céu tranquilamente como se estivessem compondo uma serenata silenciosa, Anput reapareceu no Salão do Julgamento. O Salão que a deusa encontrou dessa vez era bem mais calmo do o que ela encontrou mais cedo naquele mesmo dia. Com passos leves e ansiosos, ela foi até Anúbis enquanto notava com o olhar que Merab não estava mais ali.

— Ele está com Ammit e Ísis na sala de papiros de Thoth. — respondeu Anúbis notando que Anput parecia estar procurando alguma coisa.

— Ele está se sentindo melhor? — perguntou Anput.

— Última vez que vi estava desenhando. — respondeu Anúbis — Parecia mais tranquilo mas ainda não falou uma só palavra.

— E você? Como está? Foi um longo dia. — disse Anput.

— Foi… — respondeu Anúbis suspirando — Já começaram a mumificação de Merab. Resolveram voltar para Koptus e fazer lá mesmo ao invés de continuar o caminho até Mênfis.

— É mais rápido assim… — comentou Anput levianamente — Eu… posso te roubar pelo o que resta do dia, embora não seja muito, até uma pequena parte do dia seguinte?

Anúbis abriu um pequeno sorriso com a ideia e segurou-lhe a mão antes de olhar rapidamente pelo Salão do Julgamento notando que tudo parecia estar em ordem.

— Sou todo seu. — respondeu ele.



Com um doce sorriso, Anput se aproximou dele lentamente e, tocando-lhe delicadamente a bochecha com uma das mãos, selou-lhe os lábios com um saboroso e carinhoso beijo. Juntos de olhos fechados, eles deixaram o Salão do Julgamento para trás e Anúbis deixou Anput guiar o próximo destino.

Anúbis sentiu o chão sólido de pedra sob seus pés ser substituído pela areia fofa e o ar gelado e pesado do submundo ser trocado pelo ar frio e seco de uma noite desértica. Quando abriu os olhos e se separou do beijo, Anúbis notou que ambos estavam no meio do nada. Apenas areia os cercava pelos lados e o céu estrelado os protegia por cima. As dunas de areia moldavam a paisagem com pouco mais do que a luz da lua para montar suas formas. Só não era a imensidão de literalmente nada pois, logo ao lado deles, no topo de uma das dunas, estava estirado um tapete vermelho com estrelas douradas bordadas sobre círculos azuis-marinhos. Sobre o tapete, estava uma bandeja com frutas e uma pequena ânfora egípcia que, pelo cheiro de uvas, deveria ser vinho.

Surpreso e curioso com a ideia, Anúbis olhou para Anput com um olhar questionador e a deusa simplesmente segurou a mão dele antes de explicar.

— Achei que você estava precisando de um momento para respirar e relaxar… — disse ela — Talvez embaixo das estrelas. Assim podemos ficar um tempinhos juntos e conversar.

— Parece muito bom. — respondeu ele — Obrigado. Acho que estou precisando de algo assim mesmo.

— Você devia tirar ao menos uns dias de férias todo ano. Não todo século. — sugeriu Anput.

— Não dá pra simplesmente desligar as mortes… sabe disso. — explicou Anúbis enquanto iam até o tapete e sentavam-se cada um de um lado. Não foi preciso mais que um estalar de dedos de Anúbis para uma pequena bola de fogo surgir criando um clima mais romântico no lugar enquanto também o iluminava mais um pouco.

— Eu sei. — admitiu Anput com um suspiro triste já entrelaçando seus dedos com os dele — Vamos aproveitar ao menos hoje então. Os humanos dormem e Merab está bem com Ísis. Ela é boa com crianças.

— Ela é. — respondeu ele com um pequeno sorriso quando pequenas e breves cenas de sua infância passaram pela sua mente.

Enquanto Anúbis deu-se alguns segundos para se perder em algumas memórias, Anput simplesmente olhava para ele observando cada pequeno movimento e alteração de expressão de seu rosto. Ela deixou-se perder no rosto dele enquanto comia um pedaço de tâmara, ao ver o pequeno, mas verdadeiro, sorriso que escapou de seus lábios, a deusa não conseguiu evitar sorrir também.

—Você também é bom com crianças. — comentou Anput levianamente — E apesar de ficar nos julgamentos tentar dar medo tentando se passar por um juiz sério e impiedoso… você na verdade é muito bonzinho.

Anúbis corou com o comentário e coçou a nuca sem graça sem saber bem o que dizer para o elogio.

— Não deixe os humanos ouvirem isso. — respondeu Anúbis — Vão parar de me levar a sério. Já tenho que esconder o pequeno fato de ser bem mais jovem do que eles imaginam.

— “Ser” mais jovem e ao mesmo tempo não ser. — comentou Anput — Você se sente jovem como somos ou se sente um velho no corpo de um jovem?

— Primeira opção. — respondeu Anúbis — Podemos até ter 523 anos já mas… Claro que isso é bem mais confuso pra gente do que é pros humanos que envelhecem no mesmo ritmo e não param de envelhecer…

— Mas ainda se sente com a mesma idade que tinha tantos séculos atrás. — completou Anput já imaginando o que ele queria dizer — Quando Set fatiou os pedaços de Osíris.

— Também se sente assim? Parece até que foi ontem tudo isso. — respondeu Anúbis sabendo que era ridículo dizer isso por mais de 500 anos já terem se passado.

— Sim. Acho que por isso que não me desce a garganta quando ficam reclamando que a gente deveria já ter filho. — admitiu Anput deitando a cabeça no ombro de Anúbis — E… também… Não… deixa pra lá..

— O que? — perguntou ele delicadamente passando o braço ao redor de sua cintura.

— … Eu… — hesitou Anput decidindo se falava ou não e quais palavras usar — … sabe… Muitas vezes o ponto de ter filho é para ter um herdeiro. Somos imortais. É difícil eventualmente precisarmos de um herdeiro. Mas mesmo assim, cobram muito até porquê você é o juiz dos mortos e se algo acontecer com você não sabem o que fariam. E no meio de tudo isso eu fico preocupada sabe?

— Preocupada com a pressão? — perguntou Anúbis — Sei que é irritante mas....

— Não… não com a pressão. — cortou Anput — Quer dizer… com a pressão também mas… Eu sou só uma deusa menor. Hórus é um dos deuses mais importantes, Hathor também e os filhos deles até agora não são do nível que Shu e os outros esperavam. Ficam falando que “não se fazem mais deuses como antigamente” e que Hórus deve ter gastado tudo com quando teve Hapi com Serket. Se eles dois que já são bem fortes não tiveram filhos tão incríveis assim… eu não devo dar pra você nenhum filho tão incrível também.

Não gostando de ter ouvido aquelas palavras saindo da boca de Anput, Anúbis se afastou um pouco e segurou-a pelos ombros para que ela olhasse para ele e entendesse o peso e a seriedade das palavras que iria dizer.

— Primeiro, Shu e os outros que ficam falando essas coisas são um bando de velhos irritantes. Nem Hórus os aguenta. Aposto. — disse Anúbis seriamente — Segundo, eu não ligo para nada disso e você já deveria saber.

— Eu também não ligo… mas.. .é difícil não me sentir rebaixada num ambiente desses. — admitiu Anput — E não quero que qualquer criança minha passe pelo mesmo.

— Eles não vão mudar. — disse Anúbis suspirando — Sabe disso. Não deixe eles limitarem o que quer fazer. Achei que gostasse de quebrar o que esperam de nós, como quando você puxou eu e Qebui para virarmos amigos de humanos.

— Isso é diferente. — admitiu Anput tocando gentilmente na mão de Anúbis e tirando-a de seus ombros — Olhe só para mim. Trouxe-te aqui para relaxar e estou aqui sendo consolada.

— Eu não iria nunca conseguir relaxar vendo você infeliz e desconfortável. — respondeu Anúbis e Anput abriu um sorriso.

— Vamos deixar isso de lado então… tentar aproveitar o céu. — sugeriu Anput — Perdeu tanto tempo no submundo que logo logo o sol já deve estar nascendo.

Tentando deixar a conversa complicada de antes para trás, Anput apoiou a cabeça no ombro de Anúbis novamente. Contudo, apesar dos esforços de Anput, ele continuou a fitando com olhares preocupados e pensando muito sobre o assunto por mais que não tenha trago o assunto à tona novamente.

Decidida a mudar o rumo da conversa, Anput começou a conversar sobre os povos dispersos e um tanto primitivos que, diziam as conversas, pareciam se formar mais à norte onde séculos mais pra frente viria a se chamar Europa.

— Tão estranho os humanos… — dizia ela — Estão vivos ao mesmo tempo mas em situações tão diferentes. Os minóicos estão fazendo comércio, aqui as construções ficam cada vez maiores, os sumérios não param de inventar coisas antes da gente apesar de algumas vezes os mortais por aqui ganharem na velocidade das invenções.

— Ouvi falar que os sumérios inventaram algo novo usando fogo e areia… — comentou Anúbis seguindo a onda da conversa — Algo transparente… não entendi bem o que é… Parece tão novidade que ainda poucos sabem.

— Sim! Seshat mencionou algo do tipo! Fiquei curiosa para ver. — disse Anput — Enquanto do lado de cá está cheia de novidades, mais ao norte parece até que descobriram o artesanato e o arco e flecha ontem.

Nesse ritmo a conversa seguiu por mais que Anúbis ainda pensasse no que fazer e no que falar sobre a confissão que Anput lhe fez. Eventualmente, sol timidamente começou à mostrar seus raios iluminando o mundo para mais um dia. A areia do Saara, enegrecida pela escuridão da noite, logo ia ganhando tons de dourado como se tentasse competir com o brilho do sol. E as sombras, que ainda se escondiam por trás das dunas, ajudavam a criar um cenário inóspito mas muito belo. A única outra luz naquela parte do deserto era uma pequena chama que magicamente flutuava diante de Anput e Anúbis.

Notas finais
admito q me diverti um pouco com a ideia de a Europa ser a referência de "atrasado" kk