A Morte Das Areias do Saara
47 Um mundo que cresce
Notas iniciais

No entanto, deixe-me dizer-lhe o que aconteceu comigo.
Eu estava indo para a mina do rei.
Desci ao mar num barco de cento e vinte côvados de comprimento e quarenta de largura.
Cento e vinte marinheiros estavam no melhor do Egito.
Quer olhassem para o céu ou olhassem para a terra,
os seus corações eram mais corajosos do que os leões.
Eles podiam prever uma tempestade antes que ela acontecesse,
mau tempo antes que ocorresse.
~ Fragmento de “O conto do marinheiro naufragado”
Tenso, Ptah olhava para a pura e poderosa pena branca que, como se respondesse ao seu nervosismo, na ponta da pena surgiu uma pequenina chama. Era como se a pena estivesse ameaçando começar a queimar ante o nervosismo e insegurança de Ptah.
— Ptah? — disse Hórus mais uma vez enquanto arqueava as sobrancelhas.
— Certo… certo… — disse Ptah suspirando pesadamente já sentindo medo do que poderia lhe acontecer — Eu sou o pai do Imhotep.
Por um breve segundo, Hórus simplesmente suspirou e encarou Ptah com decepção enquanto pegava a pena da verdade de volta. Ao redor deles, os deuses cochichavam entre si enquanto Ptah encarava o chão sentindo vergonha de si mesmo. Contudo, apesar dos cochichos diante da revelação, havia ali uma deusa que, à passos pesados, ia até Ptah.
Batendo o pé no chão sem cerimônia, Bastet foi até onde Ptah e Hórus se encaravam. No momento perfeito, Hórus saiu da frente de Ptah e logo ia abrindo a boca para perguntar o que Bastet queria. Contudo, ele não teve tempo para isso, pois Bastet logo deu um tapa forte no rosto de Ptah sem qualquer pingo de dó.
O som do tapa ecoando pelo salão fez as conversas e cochichos pararem imediatamente. Todos olhavam para Bastet e Ptah com os olhos arregalados enquanto a expressão de Ptah era a de mais pura vergonha misturada com surpresa.
— Acho que eu mereci isso… — resmungou Ptah.
— ACHA?! — exclamou Bastet — COMO OUSA ME TRAIR DESSE JEITO?
— Bastet… eu posso explicar… — disse Ptah.
— Pode mesmo?! — reclamou Bastet que com certeza estaria segurando a gola de Ptah levantando-o levemente do chão ameaçadoramente se ele estivesse vestindo alguma camisa para começo de conversa — Independente de qual explicação que você possa dar, você me fez o que é imperdoável. Humilha-me desse jeito! Se enfia nos braços e na cama de uma mortal qualquer enquanto finge-se de perfeito marido.
— B-Bastet… — gaguejou Ptah sem encontrar as palavras.
Irada, a deusa gata pegou a mão de Ptah fortemente sem se preocupar em causar-lhe alguma dor ou incômodo. De maneira brusca e sem cerimônias, ela arrancou do dedo de Ptah o anel que era um símbolo emocional do relacionamento deles.
— ACABOU! — gritou Bastet pegando o anel de Ptah para si e arrancando também o próprio anel enquanto sentia os olhos enchendo de lágrimas e lutava bravamente contra elas.
— B-Bastet… — gaguejou Ptah — F-Foi só uma vez.
— E UMA VEZ FOI SUFICIENTE PARA PERDER MINHA CONFIANÇA! A-CA-BOU! — gritou Bastet apontando com seu dedo ameaçadoramente para o rosto de Ptah — TRAÍRA! CAFAJESTE! QUE PASSE O RESTO DA ETERNIDADE SOZINHO, POIS AS HUMANAS COM AS QUAIS SE DIVERTE LOGO MORREM MESMO QUE SEJA DE VELHICE!
No meio dos gritos, logo três deuses se aproximaram do centro do conflito. Cada qual com um objetivo em mente. Um deles era Anúbis que, seguido de Anput, pegou de volta a pena da verdade de mãos de Hórus enquanto ambos assistiam o desenrolar da cena. Outra deusa que se aproximou foi Sekhmet que, lançando um sorriso debochado e cheio de presas para Ptah, passou o braço displicentemente ao redor de Bastet.
— Vejo que fui esperta quando me separei de você décadas atrás. — disse Sekhmet olhando de cima para baixo para Ptah — Nem eu imaginava que poderia cair tanto.
— S-Sekhmet.. — gaguejou Ptah já notando que estava sem palavras para dizer além de gaguejar o nome das deusas.
Ao som de seu nome, Sekhmet achou que Ptah merecia um tapa na cara vindo de sua mão também. Apesar de ter terminado com ele anos atrás, também se sentia no direito de aumentar aquela humilhação pública um pouco mais.
— Pai… — murmurou Nefertem para si mesmo à alguns metros dali soltando um pesado suspiro diante a clara burrice do pai.
Revoltada, Bastet deu as costas para Ptah seguida de Sekhmet. Contudo Ptah, humilhado, foi logo seguindo as duas deusas enquanto murmurava explicações esfarrapadas e pedidos de desculpas.
— Acho que ele foi bem humilhado por enquanto. Depois lido com ele. — disse Hórus para Anúbis.
— E Imhotep? — perguntou Anúbis.
— Não pretendo fazer nada com ele. De verdade. — disse Hórus enfatizando isso depois do olhar incrédulo de Anúbis — Ele não é o culpado aqui afinal de contas. Mas prefiro que isso não se repita. Temos que ter um pouco de ordem aqui e dar o exemplo. Não podemos nos portar como os sumérios.
— Voltando para um assunto anterior… — disse Anúbis cruzando os braços e soltando um suspiro.
Lentamente, Hórus encarou Anúbis e, ao ver Anput logo ao lado, Hórus soltou um suspiro já imaginando qual seria o assunto. Hórus cruzou os braços e olhou para Anput.
— Acho que imagino o que seja. — disse Hórus.
— É sobre os Nomos… — disse Anput delicadamente.
— Não pretendo rearranjar as separações dos Nomos. — disse Hórus negando com a cabeça.
— Não precisa tentar reorganizar os Nomos. — disse Anúbis — Ela pode ficar com um dos meus.
— Sendo assim, podem simplesmente dividir, não? — perguntou Hórus.
— Eu… queria algo só pra mim, sabe? — arriscou Anput.
— Fora de questão. — disse Hórus negando com a cabeça — Parem de insistir nesse assunto, tenho mais o que fazer. E obrigado pela pena.
Hórus deu as costas para o casal e Anput soltou um suspiro de decepção. Com o canto do olho, Anúbis notou a triste decepção da garota e, enquanto ela se recuperava e se enchia de determinação para tentar de novo, Anúbis teve uma ideia. Contudo, antes de compartilhar essa ideia, ele achou melhor esperar Hórus ficar um pouco mais distante.
— Vamos tentar de novo. — dizia Anput com uma determinação apenas parcial na voz.
— Vai dar no mesmo. — disse Anúbis — Só simplesmente pegue um dos meus Nomos e pronto.
— Todinho pra mim? — perguntou Anput.
— É. — disse Anúbis dando de ombros — Pode ser Atef-Khent ou Anpu. Estou sozinho com eles mesmo. Heqat tem outros deuses então Hórus pode acabar notando e você ainda teria que dividir com alguém de toda forma.
— Sério? Vai desobedecer Hórus assim? — perguntou Anput soltando uma leve risada.
— É só ele não notar. — disse outra pessoa, Serket.
Os dois se viraram e olharam para Serket cujo olhar frio era bem comum dela. Com os braços esguios mas fortes cruzados, a deusa dos escorpiões não parecia ligar para o escorpião amarelo que subia pelo seu ombro e pescoço em direção à sua cabeça onde outro escorpião repousava ameaçadoramente pronto para fazer qualquer um se arrepender por ter irritado a deusa.
Preocupada que Serket fosse dedura-los para Hórus, Anput olhou ao redor para checar se alguém mais tinha ouvido. Felizmente, os únicos que pareciam ter ouvido eram Nefertem e Qebui. Felizmente, o posicionamento deles no assunto parecia bem claro pois, enquanto o braço de Nefertem passava sobre os ombros de Qebui, ambos mostravam claramente com seus gestos que Anput deveria insistir na questão mesmo se tivesse que mentir para Hórus.
— Não vai contar pra ele? — perguntou Anput.
— Que motivo eu teria? — questionou Serket com um olhar levemente irritado.
— Você também não ganhou nenhum Nomo… — disse Anúbis.
— Não. — respondeu Serket — Por mais que esse casamento estúpido seja completamente arranjado e não passe de uma conveniência para gerar um herdeiro, eu imaginava que Hórus fosse dar alguma coisa para a própria esposa. Talvez isso seja o troco pelo casamento ir ruim.
Sim, um casamento arranjado. Foi isso que sobrou para Hórus. O posto de faraó dos deuses criava a forte necessidade de ter um herdeiro e, considerando os problemas passados com Set, os deuses também tinham certeza de outra coisa, o herdeiro tinha que ser forte. Assim, querendo aumentar as possibilidades de vir um bom herdeiro, os deuses acharam plausível a mãe ser uma das filhas de Rá. Com quase todas elas já casadas, restando apenas Hathor e Serket solteiras, Serket não conseguiu escapar do compromisso arranjado.
Assim, mesmo levando anos para gerar um herdeiro, Hapi acabou nascendo. O garoto certamente não parecia tão forte quanto os pais, na verdade, o garotinho azulado parecia, na maioria das vezes, feliz demais. Mas não é todo mundo que pode dizer que tem total e pleno controle sobre o Nilo.
— Está tão ruim assim? — perguntou Anput.
— Não está óbvio a cada vez que estamos no mesmo cômodo de que mal trocamos olhares? — questionou Serket.
— Estava tentando ser educada. — justificou Anput.
— Vocês nunca realmente se gostaram tanto assim, até onde me lembro. — disse Anúbis — Piorou?
— Tudo está muito pior desde que Hapi nasceu. O propósito do casamento era um herdeiro, isso foi feito. Essa besteira perdeu o sentido. Faça o que quer, melhor ainda se tem o potencial de irritar Hórus.. — disse Serket fazendo pouco caso com a mão e então se afastando para ir embora — Eu iria adorar.
Eles ficavam vendo Serket se afastar por alguns segundos até que Anput abriu um sorriso de cumplicidade para Anúbis que não pode resistir a abrir um sorriso também e revirar os olhos.
— Então? — perguntou Anúbis.
— Pode ficar com Atef-Khent. Quero Anpu.- disse Anput.
— Todo seu. — disse Anúbis logo dando um rápido mas doce beijo na testa dela.
As circunstâncias logo fizeram com que eles tivessem interesse em ir para outros lugares longe dali. Assim, embora a noite já anunciasse sua chegada, eles deixaram Mênfis para trás e foram visitar os Nomos sobre os quais caíam suas responsabilidades. Julgando tudo que havia acontecido durante e tal longo e dia, e por causa do olhar de tristeza que havia vislumbrado no rosto de Anput mais cedo aos pés da pirâmide de Djoser, Anúbis achou melhor irem para o Nomo pelo qual Anput ficaria responsável.
Sem grandes dificuldades, eles deixaram Mênfis para trás e seguiram para sul em direção ao 17º Nomo do Alto Egito. Lá, às margens do Nilo, hipopótamos se preparavam para dormir enquanto, à alguns quilômetros à oeste, os humanos faziam o mesmo apagando o fogo que ardia em suas tochas. Aquele pequeno vilarejo humano, apesar de ainda pequeno, tinha um nome e era o centro do Nomo de Anpu.
Andando das margens lamacentas do Nilo em direção à cidade, Anúbis e Anput logo começavam a ver mais detalhes da cidade que se preparava para dormir. Nos limites da cidade, um homem armado, provavelmente um guarda, soltava um grande e preguiçoso bocejo que fez Anúbis pensar em como as coisas eram diferentes agora. Com o Egito unificado, ao contrário da época na qual havia nascido, os problemas que o povo egípcio enfrentava estava, geralmente, além de suas fronteiras. Claro, ladrões existiam dentro daquele império que crescia, mas a carnificina que a guerra trazia jazia nas fronteiras e além delas. Contudo, aquela cidade não estava nas fronteiras, e nem era tão grande assim. Era grande o suficiente para ter nome, mas não estava em posição tão interessante ou fácil para exércitos estrangeiros.
Apesar de exércitos estrangeiros serem de fato uma preocupação dos governantes egípcios e do povo que vivia na fronteira, eles dificilmente faziam um estrago tão grande ou muito profundo. Afinal, aquele jovem Império que poucos séculos marcavam sua unificação, já era o mais forte da região. Por isso, conquista por conquista, o Egito crescia. Seu território quase chegava até a Núbia ao sul, engolia lentamente a península do Sinai conseguindo um vantajoso acesso para o Mar Vermelho, e por vários quilômetros tocava o Mediterrâneo. Dentre seus vizinhos mais próximos dos quais já tinham conhecimento, como Fenícios, Núbios e Sumérios, eles pouco tinham a temer de qualquer um. Os Sumérios eram os maiores e mais fortes dentre seus vizinhos, mas as relações entre eles e os egípcios eram boas.
— Ali está Hadar… — disse Anput olhando a cidade chamando-a por seu nome enquanto exibia um pequeno sorriso no rosto — Espero que eu consiga tomar conta bem desse Nomo.
— Tenho certeza que irá. — disse Anúbis segurando na mão dela.
— Tem certeza que não liga? — perguntou Anput — Hadar é um dos centros de seu culto.
— E também é Zawty em Atef-Khent. — disse Anúbis — Não é como se tivesse muito para onde fugir. Aposto que foi pensando nisso que Hórus me deu esses dois nomos.
— Bem, pode continuar com todo seu trabalho com os sacerdotes em Zawty. Mas deixe o resto comigo. Todos os deuses têm que cumprir seus deveres com seus sacerdotes mesmo. Independente de onde eles estejam. — disse Anput dando de ombros — Planejo voltar aqui amanhã, com o raiar do dia, quando o povo estiver acordado e seguindo as atividades do dia. Checarei como vão as coisas e o que podem precisar.
Eles passaram pouco tempo mais em Hadar. O cair da noite rapidamente deixavam as coisas mais quietas e monótonas. Mas, mesmo assim, eles foram para os outros dois Nomos que precisavam visitar e em cada um deles passaram mais alguns minutos deixando para trás promessas de voltar com o raiar de um novo dia.
Por mais que certamente fosse interessante passear para cima e para baixo aproveitando o que as terras e o povo à margem do Nilo tinham a oferecer, Anúbis e Anput tinham outros assuntos a resolver e almas à julgar. Assim, depois de alguns minutos mais, eles prontamente voltaram para o Duat.
As paredes não mais tão brancas do Salão do Julgamento certamente mostravam como ele havia mudado. Não era uma mera questão de ter enfeitado as paredes com textos e mais textos com histórias e cenas de mitos ou do passado, era algo mais. O Duat estava diferente. Era como se ele fosse o Salão do Julgamento e outro lugar mais ao mesmo tempo. Como se sua aparência, som e cheiro tentassem se assemelhar a outro lugar. Poderia ser qualquer lugar mas, naquele momento, aquele lugar era o palácio onde, séculos e séculos atrás, Osíris viveu ao lado de Ísis.
Sentado no trono central, Osíris era um misto de saudade, tristeza e saudosismo. Distraído com seus pensamentos, ele mal notou quando o casal voltou para o Salão do Julgamento. O mesmo não pode ser dito de Ammit que logo se levantou de seu cantinho e foi correndo a passos pesados cumprimentar os dois, principalmente Anput.
Anput prontamente fez carinho na cabeça de Ammit e também em seu lugar favorito, atrás da orelha. A grande besta abria a boca deixando a língua pra fora e batia a pata no chão com alegria como se fosse um cachorrinho mimado. Ansiosa sem saber de quem receber carinho primeiro, Ammit depois de uns segundos logo começou a se esfregar na perna de Anúbis pedindo um pouco de seu carinho também. Com um pequeno sorriso, ele logo fez carinho na cabeça dela.
— Acho que ela está com fome. — disse Anput.
— De novo? Você não comeu umas 7 pessoas mais cedo? — perguntou Anúbis para Ammit que nada respondeu.
Logo, o olhar de Anúbis foi para Osíris que seguia com uma expressão de tristeza contemplativa. Anúbis e Anput se entreolharam por um segundo enquanto se perguntavam, preocupados, o que se passava na mente de Osíris.
— Está tudo bem? — perguntou Anúbis olhando para Osíris.
Apesar da pergunta, Osíris nada respondeu, afinal, nem pareceu ter ouvido pra começo de conversa.
— Lorde Osíris? — perguntou Anput novamente e, ao ouvir seu nome, Osíris pareceu finalmente perceber que estavam falando com ele.
— Oh. Não havia percebido que já haviam chegado. — disse Osíris — Faz muito tempo que estão aí?
— Um pouco… — disse Anúbis — Está tudo bem?
— Admito que estou um pouco… perdido em pensamentos. — disse Osíris soltando um suspiro — O Salão do Julgamento poder agora se parecer com algum lugar no mundo mortal com certeza é bom, mas também abre um buraco de tristeza e saudosismo. Mas não posso sair daqui, não importa o quanto eu queira ou tente. Por mais que Ísis e Hórus frequentemente venham até aqui… ainda não é a mesma coisa.
— Será que tem algo que dê para fazer? — perguntou Anput — Nem que seja… não sei… pedir para Lady Ísis e Hórus virem aqui mais vezes ou… talvez trazer uns papiros para ler? Os mortais estão fazendo mais histórias e poesias.
— Não…. está tudo bem. — disse Osíris suspirando — Enfim, descobriram finalmente quem é o pai de Imhotep?
— Ptah. — respondeu Anúbis — Ele deve estar até agora implorando o perdão de Bastet e talvez até de Sekhmet.
— Isso se as duas já não tiverem estraçalhado ele à essa altura. — disse Anput.
— Ptah? — comentou Osíris demonstrando alguma surpresa — Incrível… não achei que ele fosse capaz disso. Todas as características mais chamativas de Imhotep que descreveram faziam-me pensar que seria Thoth o pai. Embora eu certamente duvidasse de que ele teria a capacidade de trair Ma’at.
Depois de voltar para o Salão do Julgamento deixando para trás o que melhor seria descrito como um dia inteiro de descanso, não demorou muito para os julgamentos começarem. Apenas foi necessário deixar tudo preparado novamente e esperar todos os envolvidos chegarem. Afinal, as pessoas não simplesmente paravam de morrer. Doenças, maldições, acidentes, assassinatos, velhice. Vários males levavam ao fim de uma vida mortal.
Com os deuses fazendo seus afazeres, os dias um a um se passaram até a estação do ano mudar e a inundação do Nilo passar. Era hora de os trabalhadores das pirâmides voltarem para seus lares para trabalhar a terra para o próximo plantio. Mas enquanto o povo preparava o gado, o campo e as sementes para o plantio de trigo, cevada, figos, melões, romãs, videiras e outros, planos maiores eram formados. A primeira prova desses planos maiores, foi a pequena e descontraída reunião que aconteceu no Salão do Julgamento.
Diante do trono no qual Osíris se sentava, estavam Anúbis, Anput, Hórus, Ísis, Thoth e Seshat. Apressadamente Thoth registrava e lia informações em seus vários papiros sendo ajudado por Seshat à achar a informação certa. Enquanto isso, Anput tentava disfarçar sua empolgação com o plano que vinha pela frente.
— Algum de nós tem que ir até lá. — dizia Ísis — Os dois impérios crescem. Certas condições e situações devem ser discutidas e acertadas.
— Não só algum de nós, como também algum dos humanos. — dizia Thoth — O comércio só cresce e temos vizinhos em comuns que podem, potencialmente, virar inimigos em comum.
— Ou pior. — disse Anúbis — Os sumérios, por enquanto, são nossos amigos. Nada garante que isso seguirá assim eternamente.
— Assim como somos os mais fortes desse lado do mar, eles são os mais fortes do outro lado do mar. — disse Hórus se referindo ao Mar Vermelho — Alcançar um entendimento militar é importante. Contudo, a viagem não é exatamente fácil para os mortais até lá. Não pretendo aceitar também influências diretas a ponto de facilitar a viagem, como deixá-los lá num piscar de olhos, mas não sou contra a ideia de auxiliar um pouco no longo trajeto, quer seja feito integralmente por mar ou parcialmente por terra.
— E tem outro problema que anotei aqui o aviso de Tawaret três anos atrás. — disse Thoth procurando dentre os papiro a informação que queria. — Ficamos muito tempo sem dar atenção para isso.
Contudo, apesar de Thoth portar o título de escriba real principal dentre os deuses, foi Seshat, a deusa da escrita, que achou primeiro o papiro que continha a informação que queriam. Assim, ela entregou-o para Osíris e terminou a fala de Thoth.
— Três anos atrás um mercador sumério gerou um filho em uma mulher egípcia. — disse Seshat sem precisar usar o texto do papiro de apoio para dizer os detalhes de tal problema que devia ser solucionado — O homem, infelizmente, morreu no mar alguns meses depois disso. Mas a criança nasceu saudável e agora cresce no seio da mãe. Tais misturas estão se tornando cada vez menos incomuns conforme o nosso contato com outros povos aumentam. Contudo, essa é a primeira com um povo de fato grande. A criança, por mais que seja metade egípcia e até então cresça no Egito, também tem sangue sumério correndo em suas veias. Um dia, quando ela morrer...
— Pode acontecer algum problema para decidir quem terá a alma do garoto. — disse Anput notando isso com leve surpresa enquanto Anúbis apenas afirmava com a cabeça.
— Até então temos pegado todas as almas que tenham algum sangue egípcio. — disse Anúbis.
— Sei bem que está pegando também as almas dos soldados que morreram fora de nossas fronteiras. — ralhou Hórus. — Não deveria e sabe disso. Preocupe-se apenas com as almas dentro de nossas terras.
— Você lida com os vivos, eu vivo com os mortos. — disse Anúbis seriamente — Eu decido se devo ou não pegar as almas dos soldados e comerciantes que você e qualquer que seja o faraó mortal do momento, mandam para longe de nossas terras em busca de escravos, ouro, terras e demais luxos.
— Eu sou seu faraó. Você obedece a mim. — disse Hórus.
— Você não tem poder de decisão sobre o destino dos mortos. — rebateu Anúbis — Eu sou o deus da morte, não você.
— De toda forma… — disse Osíris interrompendo que se mostrava como o começo de uma briga — Temos muito a discutir com os sumérios e isso é fato. Um representante do faraó mortal deve ir, um representante de Hórus e um representante meu. Os sumérios não estão interessados em cruzar toda a distância até o Egito no momento.
— A Suméria não é unificada como o Egito. — disse Ísis — Vários reis governam várias cidades. Um acordo igual que seja um consenso entre todos é no mínimo um sonho.
— De fato. — disse Thoth — Mas temos um pequeno detalhe em nosso favor. Apesar da falta de unidade, essa década é provavelmente a primeira vez que os Sumérios tem um rei em uma das cidades que é tão forte e influente que os outros reis acabam por escutar o que ele tem a dizer.
— Gilgamesh. O rei de Uruk. — completou Seshat.
— Temos que ir para a cidade de Uruk então. — disse Anput.
— Sim. — concordou Osíris — Anput e Anúbis, podem ir como meus representantes?
— Com certeza. — disse Anúbis enquanto ele e Anput colocavam a mão direita sobre o coração e abaixavam a cabeça levemente.
— Conversarei com Djoser sobre o assunto embora ache que ele já tenha escolhido um representante dentre os seus. — disse Hórus.
— Imagino que Enlil tenha discutido sobre o assunto com Gilgamesh? — perguntou Ísis.
— Foi o que ele disse ao menos. — disse Hórus dando de ombros e olhando para Thoth — Poderá ir como eu representante, Thoth? Tenho muito a resolver. Não posso simplesmente deixar o Egito para trás assim.
— Infelizmente eu também tenho muito a resolver. Mas… — disse Thoth olhando para Seshat de forma pensativa — Imagino que Seshat seja mais do que apta a lidar com o assunto.
— Está decidido então. — disse Osíris levantando-se de seu trono com um suspiro — Comecemos os preparativos para irmos para a cidade suméria de Uruk.
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