A Morte Das Areias do Saara
112 Um Pouco do Lado Ruim do Chacal
Notas iniciais

Agora, quando a aurora apareceu (o jovem) foi todos os dias pelo espaço de dois meses. Ora, aconteceu algum tempo depois disso, que o jovem estava sentado e fazendo um banquete em sua casa. Ora, aconteceu que, aproximando-se a noite, o jovem deitou-se na sua esteira, e o sono sobrepujou-lhe os membros.
~ Fragmento de “Papiro Harris 500”
Era impossível ver qualquer coisa ao redor. A tempestade de areia havia engolido toda a área que concentrava a luta entre Anúbis e Set. Anúbis não conseguia ver um palmo na sua frente e mal podia contar com os ouvidos devido ao barulho do vento forte misturado com areia que bagunçava vigorosamente o cabelo negro dele. No pouco que Anúbis conseguiu ver e sentir, ele notou que, para se tornar mais ameaçador, Set tinha se envolvido em seu enorme avatar que, diferente do dos outros deuses, era feito de areia e fogo.
Com sua espada, agora de tamanho colossal, envolta em chamas, Set tentou acertar o filho que apressadamente envolveu o corpo no próprio avatar luminoso com cabeça de chacal e parou o golpe com o cetro que também aumentou de tamanho. Os olhos vermelhos de Set brilharam ameaçadoramente e um sorriso maligno apareceu em seu rosto. O deserto era a terra de Set, o lugar onde ele era mais poderoso. Seria uma luta terrivelmente desigual e ambos sabiam disso, até porque a diferença de tamanho dos avatares já era um ótimo indicativo. O de Set tinha facilmente 9 metros de altura, o de Anúbis parou em 7 metros.
Se essa luta acontecesse na necrópole de Gizé ou de Saqqara, a história seria diferente. Mas, na atual situação, tudo o que restava para Anúbis era praticamente apenas se defender um pouco desesperadamente dos golpes rápidos da espada do pai. Golpes rápidos e fortes demais para serem defendidos ou evitados por completo e que acabavam por cortar Anúbis, mesmo às vezes de raspão. E como a espada estava envolta em fogo, o corte era queimado logo em seguida. Uma combinação de dor nem um pouco agradável.
A névoa negra de Anúbis se misturava com a areia da tempestade e putrefazia levemente o corpo de Set, tal como o fogo de Set queimava levemente o de Anúbis. Os danos que eram feitos no avatar de ambos era repassado para o corpo protegido em seu interior. Os ferimentos de Anúbis aumentavam mais que os do pai, mas ao menos lentamente eram curados enquanto outros apareciam.
Sentindo a pele, principalmente das mãos, arder com o fogo e o calor intenso lhe sufocando e enchendo-o de suor, Anúbis tentou desesperadamente invocar faixas de linho para conter ao menos parcialmente os movimentos de Set e quem sabe afastar ele o suficiente para que conseguisse trocar aquela luta de lugar sem colocar o sarcófago em risco. Contudo, as faixas de linho não duravam muito. O avatar feito de fogo e areia as queimavam depois de algum tempo sem grandes dificuldades, mas ao menos por alguns segundos conseguiam atrapalhar Set. Ele não gostou disso.
Irritado, Set balançou o braço com a espada poderosamente rompendo as já frágeis faixas de linho e usou toda a sua força para atacar Anúbis na altura do pescoço de seu avatar. Anúbis interrompeu o golpe com o cetro que emitiu um ruído preocupante como se ele também estivesse sofrendo para segurar o golpe. Podia ser um cetro só de madeira, mas ainda era mágico e deveria aguentar praticamente qualquer coisa. Então o barulho não foi uma boa notícia.
Chamas explodiram do corpo de Set para tão longe que Anúbis usou as faixas de linho para enrolar o sarcófago de Osíris e empurrar ele para longe da briga e consequentemente o perdendo na tempestade de areia. Anúbis também não conseguia se concentrar o suficiente para transportar todos dali para ao menos fugir da tempestade de areia, e isso tudo ficou pior quando a enorme mão flamejante de Set apertou-lhe a garganta e empurrou-o ao chão. O impacto fez Anúbis soltar uma tosse doída e dolorosa sentindo como se fosse vomitar. A pressão na garganta era combinada com a terrível dor das chamas de Set queimando-o sem piedade.
A areia rodopiando ameaçadoramente ao redor de ambos parecia comemorar enquanto escondia o sorriso calmo e mortífero de Set que pouco fraquejou quando Anúbis usou tudo de si para tentar envolver ambos numa névoa negra e trocar a luta de lugar. Não importava o quanto Anúbis tentasse, mesmo com a queimadura aumentando no pescoço, Set puxava-os de volta para ali assim que o cenário começava a ameaçar mudar.
Apesar da tempestade de areia escondendo visualmente os detalhes visuais da luta e atrapalhando bastante, era extremamente óbvio para qual lado a luta estava desequilibrada Set não parecia ter muita dificuldade, até que no segundo seguinte ele foi acertado no rosto por um poderoso soco vindo de um terceiro deus envolto em seu avatar luminoso.
Anúbis tossiu aliviado pela falta da pressão no pescoço, tosse essa que lhe doeu agudamente devido às queimaduras. Contudo, enquanto se recuperava, também tentava entender, apesar da tempestade de areia, quem era o recém chegado. Foi levemente surpreso que distinguiu a imagem de Hórus, que gritou no meio da tempestade:
— Troque o balanceamento da luta que eu arrumo as coisas com o sarcófago!
— Vamos ter que ir juntos pra cima dele para eu conseguir trocar de lugar! — respondeu Anúbis, um tanto rouco com a garganta e pescoço ainda se curando do fogo, tentando fazer a voz dele ser ouvida no meio da tempestade também.
Hórus afirmou com a cabeça e invocou na mão de seu avatar sua própria kopesh. Então, os dois primos que tanto brigavam entre si, partiram juntos na direção de Set para apoiarem um ao outro naquela luta, torcendo para conseguirem ao menos empatar.
O deus falcão rapidamente alcançou o já recuperado Set e trocou golpes poderosos e rápidos de kopesh com ele. Os golpes de Set eram pesados e fortes, fazendo Hórus sentir seus ossos tremerem pelo esforço de aparar cada um. Felizmente, ele não estava sozinho. Anúbis envolvia sua névoa negra ao redor de Set causando-lhe dor e também usava o cetro para acertar o pai com golpes que Set não teria tempo de desviar e bloquear se estivesse totalmente concentrado em Hórus. Mas claro que Set não estava totalmente concentrado em Hórus.
Como estava no deserto, lugar que lhe dava mais força, os golpes de Set estavam mais fortes e rápidos do que o normal e também do que os de Hórus e Anúbis, e o fogo e a tempestade de areia com certeza eram tremendamente incômodos. Hórus distorceu o espaço criando estranhas anomalias na realidade, como se ela estivesse se dobrando como um origami para então atacar e cortar Set. Assim, os dois conseguiram distrair Set por tempo o suficiente para, com toda a força e agilidade que tinha, Anúbis envolver Set rapidamente nas faixas de linho e, no mesmo segundo, com a mais densa névoa negra que conseguia juntar na ponta de seu cetro, atingir o pai com o cetro na nuca.
— Saqqara! — gritou Anúbis, ainda rouco, como uma dica para Hórus.
Na exata fração de segundo em que Set e Anúbis estavam conectados pelas faixas de linho e pelo cetro, o deus da mumificação carregou os dois forçadamente para um novo campo de batalha. Todavia, um sacrifício foi necessário, pois o cetro de Anúbis se partiu com o golpe depois de ter durado bravamente até ali.
A ponta quebrada do cetro de madeira caiu inofensivamente no chão de areia e cascalho de um novo cenário sem Hórus, sem sarcófago de Osíris e sem tempestade de areia. Set caiu no chão com um buraco negro e nojento na nuca profundo o suficiente para mostrar as primeiras vértebras do pescoço envoltas em carne originalmente cor de ouro puro que se decompunha numa mistura nojenta de preto e roxo.
Set caiu de cara no chão e nesse momento enquanto sentia a areia e uma pequena pedra pressionando sua bochecha, foi que ele viu também que estavam agora no enorme pátio murado diante da pirâmide escalonada de Djoser, a primeira pirâmide de todas e a maior tumba na necrópole de Saqqara. Ali era um local sagrado de morte com outros sepultados nas redondezas além de Djoser. A luta havia acabado de pender para o lado de Anúbis e ele não daria tempo de Set desfazer isso, pois logo o prendeu com faixas de linho que, dessa vez, estavam bem mais difíceis de serem queimadas.
O avatar de Set diminuía gradativamente de tamanho enquanto o de Anúbis só aumentava. A preferência de terreno também significava que as horrendas queimaduras de terceiro grau que se acumulavam principalmente no pescoço e nas mãos de Anúbis começaram a se curar mais rapidamente. Enquanto isso, a névoa que envolvia principalmente as faixas de linho putrefazer Set e faziam ele resmungar e se contorcer de dor.
Apesar de tudo, Set ainda era um deus poderoso então, apesar da vantagem territorial de Anúbis, Set conseguiu, com esforço, romper as faixas de linho. Mas Anúbis, ao notar isso, invocou um par de guerreiros com cabeças de chacal feitos de pedra e armados com suas próprias khopesh e que começaram a atacar Set complicando suas tentativas de fuga. Set, por sua vez, irado, numa medida desesperada, num piscar de olhos diminuiu de tamanho afrouxando assim as faixas de linho e se transformou num enorme gato, como um leopardo mas sem mancha alguma em seu pêlo dourado e ainda com um buraco doloroso no pescoço. Irado e livre das amarras, Set pulou na direção de Anúbis com garras e presas à mostra.
Contudo, sem grandes dificuldades, o grande avatar de Anúbis deu um soco com o dorso da mão esquerda derrubando Set no chão. Assim que o corpo do pai tocou a areia, um par de chacais de névoa apareceu e então ambos pularam na garganta de Set que nem ao menos teve tempo de trocar de forma novamente. Fraco, com o pescoço ficando cada vez pior e sentindo que estava prestes a morrer (não que isso fosse tão impactante e irreversível assim para um deus), Set ficou mais calmo e ofegante enquanto era envolto novamente em faixas de linho.
— O local faz mesmo muita diferença, né? — questionou Anúbis encarando a madeira quebrada e pontuda do seu cetro com os olhos do avatar de chacal brilhando intensamente em dourado — Mas, claro, Hórus ajudou bastante também. Conhecendo ele, ele logo deve chegar.
Encarando a ponta quebrada do cetro enquanto desfazia seu avatar, Anúbis teve uma ideia. Ele fez surgir uma pequena chama que queimou a ponta quebrada do cetro transformando-o numa estranha tocha. A madeira se avermelhou e, logo em seguida, Anúbis aproveitou a ponta afiada quebrada para acertar Set como um punhal flamejante. Set, ainda como um leopardo, gritou de dor e repetiu o grito quando Anúbis puxou o cetro quebrado, queimou a ponta mais uma vez, e apunhalou o pai novamente. E ele repetiu o ato de novo, e de novo, e de novo, e de novo. Até que boa parte do corpo felino estivesse marcado de queimaduras circulares negras salpicadas de sangue prateado.
— Como ousa tentar roubar o corpo de Lorde Osíris e queimá-lo? — questionou Anúbis — Já não causou problemas o suficiente para ele?
Set nada respondeu, apenas lenta e dolorosamente, voltou para sua forma normal e, nesse mesmo momento, Hórus chegou voando como um falcão e pousando em sua forma normal logo ao lado de Anúbis. Os olhos heterocromáticos de Hórus percorreram o corpo de Set completamente antes do faraó dos deuses soltar um suspiro cansado.
— Antes eu estava preocupado de alguma coisa estar acontecendo com Hapi por ele estar lá com vocês no desfile da Hatshepsut, o que não é normal, mas… — disse Hórus — Não imaginei que seria esse problema que encontraria quando você repentinamente sumiu de lá.
— Também não imaginava que seria isso… — admitiu Anúbis torcendo para Hórus não entrar muito no assunto de Hapi — E o sarcófago?
— Ísis está cuidando dele. Ela deve chegar logo. — respondeu Hórus — Você deu sorte de eu ter conseguido te achar. Notei que tinha algo errado e fui sobrevoar o Egito e perguntar aos outros se viram algo estranho acontecendo. Uma tempestade de areia foi bem chamativa.
— Vou lembrar dessa da próxima vez. — resmungou Set entre-dentes.
— Cala a boca. — reclamou Hórus chutando o rosto de Set — E fique quieto aí se não quiser ficar morto pela próxima década pelo menos.
Hórus suspirou cansado enquanto Anúbis esfregava as mãos e o pescoço recém-curados das queimaduras mas que ainda pinicavam um pouco. Em seguida ele olhou para o cetro quebrado e queimado, e soltou um suspiro cansado e deprimido que atraiu o olhar de Hórus.
— Ísis ou Heka podem deixar ele como novo de novo. — lembrou Hórus.
— Eu sei… — disse Anúbis dando de ombros — É que… foi a primeira vez que ele quebrou.
Como se Set preso pelas faixas de linho e com chacais de névoa negra ainda com as bocas em seu pescoço não fosse suficiente, Hórus colocou a ponta de sua khopesh contra o nariz do deus e pressionou a ponta levemente cutucando o nariz de Set como uma brincadeira. Os dois primos ficaram ali em silêncio, de olho em Set e esperando Ísis por alguns minutos até que a deusa elegantemente surgiu atrás deles e se aproximou do centro da complicação.
— Nos fez perder um desfile muito interessante, Set. — disse Ísis — O povo e Hatshepsut pareciam ambos muito felizes.
— Hatshepsut é entediante. Não é minha culpa. — resmungou o deus.
Isis foi até Anúbis, gentilmente colocou a mão em seu ombro e ambos trocaram um olhar que indicava que aquela conversa era importante e delicada.
— Consegue sentir? — perguntou Ísis.
Por alguns segundos Anúbis não entendia exatamente o que era para ele sentir, mas logo chegou à conclusão que era a nova localização do sarcófago de Osíris. Ele parou um pouco para se concentrar e logo sentiu-o, enterrado profundamente numa ilha no meio do Nilo na parte bem ao sul do Egito. Anúbis então afirmou com a cabeça e Ísis abriu um sorriso orgulhoso para ele antes de se virar para Set mais uma vez.
— Então… pelo o que Set já passou como castigo por hoje por seus feitos? — perguntou a deusa e os dois primos narraram a luta até a chegada dela e ela afirmou satisfeita com a cabeça.
— Não faltava muito para ele morrer. — acrescentou Anúbis.
— Vamos tentar passar mais alguns séculos sem nenhum de nós morrer. — pediu Ísis — Apesar das complicações, e… particularidades… de alguns, todos somos importantes para manter o equilíbrio de Ma’at. E Set, apesar de tudo, é um fiel e dedicado seguidor e protetor de Rá, agora Amon-Rá, que, espero que tenham notado, não parece estar muito bem…
— Notei… — disse Anúbis e, ao olhar para Hórus, o deus falcão afirmou com a cabeça — Parece estar, não sei… esquecido e distraído.
— Isso sinceramente me preocupa. — disse Hórus — Mas espero que seja só uma fase de ele talvez se ajustando com isso de ser Rá e Amon-Rá. E ainda tem todos os séculos que ele passou constantemente lutando contra Apófis, que não acho que isso seja muito saudável.
— Concordo. — disse Ísis olhando para Set com o nariz levantado — Assim, deveria se preocupar com aquele a quem profundamente segue e protege ao invés de ficar nos causando problemas. Não seremos tão gentis da próxima vez.
— Isso foi ser gentil? — perguntou Set.
— Foi. — respondeu Anúbis sem rodeios.
Já cansada daquela confusão, Isis ergueu seus braços para o céu e começou a proferir um longo feitiço. Os hieróglifos das palavras mágicas flutuavam em luz dourada ao redor da deusa, circulando-a e dançando ao seu redor e a cada palavra dita, mais Hórus e Anúbis ficavam surpresos, e mais Set ficava amedrontado.
— Sob o sol que brilha no céu de Nut, cujos raios são refletidos no Nilo e que ilumina a escuridão e inunda as Duas Terras como o disco ao amanhecer, eu declaro este feitiço. Set, prostrado derrotado diante de nós, Senhor do Deserto, de agora e pelos anos que vierem, irá servir a Osíris, o poderoso, Senhor da eternidade, cujos nomes são múltiplos, cujas formas são sagradas, ele sendo de forma oculta nos templos, cujo Ka é sagrado. — anunciava Isis como um canto invocando todo o poder que tinha, que não era pouco — Que este feitiço te coloque de joelhos diante das ordens daquele que é permanentemente benigno e jovem, Osíris, o Senhor do Silêncio.
Como se o feitiço estivesse só esperando a palavra final, os hieróglifos giraram ao redor da deusa como um furacão e então se lançaram para o corpo de Set em tamanhos menores envolvendo-lhe principalmente ao redor do pescoço e do tornozelo. As palavras sagradas e mágicas brilharam intensamente ardendo na pele do deus do deserto e então desapareceram como se nada tivesse mudado, mas tudo estava diferente agora.
Assim, com um sorriso de uma mãe tranquila, como se não tivesse acabado de prender Set num feitiço poderosíssimo que havia deixado Hórus e Anúbis chocados e sem palavras, Ísis foi até onde uma das metades quebradas do cetro de Anúbis estava largada no chão. A deusa pegou-a e então gentilmente pegou o resto do cetro da mão do deus da mumificação sob o olhar ainda surpreso deste. As mãos da deusa brilharam intensamente numa luz branca e dourada que se espalhou pelas duas metades do cetro.
Ísis juntou as duas metades do cetro como se estivesse montando um quebra-cabeça de duas peças ignorando o fato de que as duas metades não se encaixavam mais tão bem assim já que uma delas havia sido usada repetidas vezes como um punhal flamejante. Mas a magia poderosa da deusa prontamente resolveu esse problema restaurando as partes danificadas e completando o cetro de forma que, em questão de segundos, a luz que ele emitia ficava cegante de tão forte e o cetro se tornava completo tal como era antes do confronto.
A luz cegante se apagou e então a deusa calmamente devolveu o cetro para um ainda surpreso Anúbis e acariciou-lhe a bochecha brevemente e repetiu o gesto com um igualmente chocado Hórus.
— Vamos voltar, rapazes? — perguntou ela — Acho que conseguimos ainda pegar o final do desfile.
— Ahm… — disse Hórus olhando para Set largado no chão pálido e com os esbugalhados.
— Não se preocupe. — disse Ísis notando o olhar do filho — Ele não irá fazer nada mais por hoje.
Gentilmente forçando eles a deixar Set para trás, ela colocou a mão no ombro de Hórus e girou-o para que ficasse de costas para Set e repetiu o processo com Anúbis. Os dois primos se entreolharam e olharam para Set enquanto Isis os empurrava gentilmente para longe em direção a um portal mágico que havia aberto diante de si.
Nenhum dos dois realmente via motivo para continuar ali de olho em Set. O feitiço de Isis era poderosíssimo, tinham certeza disso, tinham sentido isso. Exatamente por isso que estavam chocados. Estava longe de ser uma magia simples de fazer com um deus, especialmente sem saber o Nome Secreto dele, que era uma arma inegável e absoluta ao controlar um deus, e por isso uma informação fortemente protegida.
Quando os três atravessaram o portal, estavam vendo do alto a continuação da procissão de Hatshepsut que agora voltava para o palácio. A rainha e futura faraó parecia radiante de felicidade e a maior parte dos deuses, especialmente das deusas, que assistiam, pareciam quase tão felizes quanto.
— Porquê que você é o faraó, e não ela, mesmo? — sussurrou Anúbis para Hórus.
— Cala a boca. — respondeu Hórus na mesma altura baixa de voz.
— Olhem, admirem esse momento que nem Set conseguiu estragar. — disse Ísis olhando para Hatshepsut — Com certeza serão anos de grandes mudanças e um novo frescor enquanto ela governar.
— Antes de falar disso… — disse Hórus ainda encarando Anúbis — Hapi. O que está acontecendo com o Hapi? E não tente fugir da pergunta.
— Não deveria ser eu a contar para você. — respondeu Anúbis — Fale com ele, só que sem parecer que vai dar uma bronca nele depois, independente do que ele conte.
Hórus bufou irritado principalmente por saber que o primo tinha razão na sugestão. Falaria com Hapi e tentaria fazer o filho se sentir seguro o suficiente para contar o que havia acontecido para deixar ele se comportando tão estranhamente. Enquanto pensava em como lidar com Hapi, Hórus acompanhou o desfile e seu fim conforme todos os participantes deste voltavam para dentro do palácio e o povo conversava nas ruas sobre o dia e a estranha novidade de que uma mulher iria governar o Egito como faraó.
Já a atenção de Anúbis estava dividida entre o final do desfile triunfante da amiga, e o olhar distante de Anput que, de onde estava, tentava por mímica perguntar para Anúbis o que havia acontecido. Com certeza teriam uma longa conversa logo em seguida.
Fale com o autor