A Morte Das Areias do Saara
94 Um Grande Selo
Notas iniciais

É dito (que houve uma vez) um rei, que não tinha filhos homens.
(Ele orou por um herdeiro) e os deuses atenderam ao seu pedido.
Eles decretaram que um deveria nascer para ele.
Ele deitou com sua esposa à noite, e ela ficou grávida.
Ela completou o mês do parto e, em seguida, deu à luz um filho menino.
~ Fragmento de “Papiro Harris 500”
A boca de Apófis era simplesmente grande demais. Mesmo com os 1,83m de altura que tinha, Anúbis, para Apófis, era tão pequeno quanto uma única tâmara ou um grão de arroz. Mas, ali estava ele, numa posição horrível, bem de frente para Apófis um pouco além de onde Ísis estava tanto assustada e preocupada com ele, como se preparando para a próxima parte. Pois a deusa viu que, apesar do perigo do momento, aquele era um ótimo momento para um pequeno improviso desesperado.
— Anúbis! — gritou ela com o coração apertado e torcendo para que tivesse tempo de passar para ele a ideia dela — Cuidado com as costas!
Anúbis não estava de costas para Apófis, estava de costas para Ísis. Não tinha tempo para pedir para Ísis elaborar qual exatamente era o perigo que podia acontecer as costas. Só tinha tempo para chutar em uma das possibilidades que surgiram em sua mente. Torcia para ter chutado certo e realmente entendido qual o plano da deusa.
Se tivesse entendido certo, teria que deixar sua fuga do bote de Apófis para os últimos segundos possíveis. Com o tanto de dor que sentia pelo corpo com os ferimentos horríveis que deixavam sua pele em carne viva e faziam o sangue prateado escorrer até pingar na areia, Anúbis tinha certo medo de não conseguir fugir a tempo.
Atrás dele, Ísis havia criado um enorme feixe de luz horizontal o qual lançou bem na sua direção. O feixe de luz fazia parte do plano de Thoth, só não fazia parte do plano Anúbis estar no meio do caminho. Foi tudo muito rápido, Anúbis já sentia o bafo da serpente e a pureza de do largo, fino e horizontal feixe de luz mágico criado por Ísis quando dissolveu-se em névoa saindo do encontro entre os dois lados.
O enorme feixe de luz atingiu Apófis bem na boca sendo forte o suficiente para rasgar os cantos da boca seguindo cortando a cobra bem ao meio. O feixe de luz não se desfez, nem parou de cortar. Mesmo com o caos corroendo a ponta dos dedos de Ísis, ela continuou com a mão erguida fazendo o feixe seguir adiante. A intenção era fatiar Apófis o máximo que ela conseguia até chegar em Heka.
Eventualmente, sob os olhos atentos de vários deuses, o feixe de luz chegou até Heka. O deus logo estendeu a mão também e pegou o feitiço para si fazendo com que ele continuasse cortando o corpo da serpente ao meio pelo corpo da serpente enquanto Ísis olhava para tudo preocupada. O corte estava torto e os deuses não tinham força o suficiente nem para chegar na metade do corpo de Apófis, mas aquilo deveria bastar para a parte final.
Independente de se os planos dariam certo ou não, ao ver o grande Apófis fatiado ao meio, muitos dos demônios restantes decidiram que era hora de ir embora. Isso logo se tornou extremamente útil para os deuses que conseguiram focar mais aqueles mais versáteis em magia ao redor de Apófis que estava largado na areia cortado ao meio até apenas parte de seu corpo formando uma letra Y grotesca e ensanguentada que, por mais horripilante que fosse, ainda se remexia levemente e piscava.
— Rápido! Vamos aproveitar o momento! — gritou Hórus enquanto Heka, Ísis, Shed, Werethekau e Wepset se arrumavam em círculo ao redor de Apófis.
— Cadê Thoth com Rá? — perguntou Bastet com os ferimentos lentamente se curando se juntando à Apófis no meio do círculo.
— Qebui foi chamar eles…. — respondeu Anput ofegante.
Cansada e colecionando os próprios ferimentos também, Anput logo correu desengonçadamente pela areia fofa indo até onde Anúbis estava. Por mais difícil que fosse correr na areia, ela logo alcançou o ponto onde Anúbis estava de pé, claramente com dor, olhando para o estrago dos ferimentos causados pelo caos que Apófis exalava. Com boa parte da pele em carne viva, apesar de “em carne viva” para os deuses significar um belo tom de dourado pois era de ouro que sua carne era feita tal como o sangue era feito de prata, o deus da morte nem ousava mexer um centímetro sequer. Qualquer movimento mínimo era muito doloroso. Queria sentar e já teria o feito se não fosse o receio de isso ser mais doloroso que ficar de pé.
— Você.. tá… bem? — pergunto Anput com insegurança da própria pergunta pois sabia que era uma pergunta burra.
— Suficientemente… Mas por um triz… — disse Anúbis olhando para a ponta dos dedos que, apesar de pingarem sangue prateado na areia, também estavam ameaçando se desfazer em areia. Era um claro sinal de que mais um pouquinho e ele teria morrido, por mais que fosse uma morte temporária.
— Vamos torcer pra nos livrar logo disso para tentar curar todo mundo nem que seja só pra diminuir as dores… — sugeriu Anput preocupada pois a situação dele estava bem pior que a própria — Esperar tudo isso curar não parece nem um pouco bom.
— Se é que vai sobrar alguma magia depois… — disse ele suspirando dolorosamente.
Com dor demais para prestar muita atenção no que acontecia ao seu redor, Anúbis mal notou o momento que Rá apareceu acompanhado de Thoth. Era claro que Rá não só estava em sua forma de Amon-Rá, como também que a mente dele não parecia estar muito estável.
— Foco… — pedia Thoth ao se juntar ao círculo deixando Rá logo ao lado — Precisamos que seja você à fazer isso.
Anúbis e Anput, assim como vários dos deuses, assistiam a cena. Viram como um Amon-Rá, desgastado e com a mente confusa demais para enfrentar Apófis todo dia como sempre vinha fazendo até então, olhou para o inimigo caído e para todos os deuses cheios dos mais diversos ferimentos profundos e doloroso. Anúbis podia não se dar tão bem com Bastet, mas notou como ela parecia nervosa enquanto Thoth curava seus ferimentos. O medo do rosto de Bastet era quase palpável enquanto ela segurava um par de facas com tanta força que os nós das mãos eram extremamente visíveis.
— Achei surpreendente Rá ter escolhido Bastet… — sussurrou Anput para Anúbis.
— Eu nem tanto… — admitiu ele — Ela é uma guerreira formidável por mais que eu odeie admitir isso. E dentre todos os melhores lutadores que temos… bem… a maioria cuida de coisas muito mais importantes, únicas e cruciais do que felinos…
— Você cuida dos canídeos… — lembrou Bes que se aproximava se juntando a conversa enquanto encarava Bastet sério.
— E de um monte de coisa mais… Tá, ela também cuida de outras coisas mas... — resmungou Anúbis revirando os olhos — As outras opções eram Set e Hórus. Set, Hórus e Bastet são facilmente os melhores guerreiros entre nós. Mas Hórus cuida da guerra, dos céus, lidera o Egito possuindo praticamente todos os faraós… Set cuida dos desertos, das tempestades… do caos e do mal seja lá isso útil ou prejudicial pra gente…
— Ma’at é tudo sob equilíbrio. — lembrou Anput — Tem que ter o bem, mas também tem que ter o mal. E se algo acontecer com Rá.. Amon-Rá… ainda mais nesse estado, Set é, infelizmente, nossa melhor aposta de proteção à Amon-Rá. Amon-Rá ficar morto por um dia sequer é algo terrível.
— Set pode ser o filho da puta que for… — resmungou Bes cruzando os braços — Mas o maldito é bem leal à Rá.
Enquanto os três deuses conversavam, aqueles que formavam um círculo ao redor de Bastet e Apófis ergueram as mãos para o céu sem nuvens e, em uníssono, invocaram palavras poderosas. Os deuses começaram a brilhar enquanto, dentre eles, Ísis olhou preocupada para Amon-Rá. Ela quem tinha sido a primeira a falar que, talvez, estivesse na hora de Amon-Rá ter umas férias maiores ou quem sabe até se aposentar. Afinal, ele não parecia bem. Mesmo tendo sido arrastado até ali, ele fitava o chão com uma mão sobre a têmpora, provavelmente tentando organizar as três personalidades que lutavam por espaço em sua mente.
—Amon-Rá — disse Sekhmet chamando a atenção do deus que não havia começado a fazer sua parte -Está na hora.
Quase como num transe, como se talvez estivesse com a aparência de Amon-Rá mas controlado por Rá, Amon-Rá invocou seu cetro em sua mão e estendeu ao céus. Palavras mais antigas e poderosas foram ditas por ele invocando todo o poder que ele como sol tinha.
O deus foi envolvido por uma poderosa e incandescente chama de fogo dourado que ardia bem mais alto que qualquer um dos deuses. Essa mesma chama começou a nascer, pequena, tímida, no grande círculo de deuses que envolvia Apófis e Bastet. Gradualmente, no entanto, essa chama foi crescendo sedenta para realizar a magia tão poderosa que precisava de tantos deuses juntos para realizá-la.
O círculo dourado se fechou ao redor de Bastet e Apófis criando uma parede de fogo. Com as chamas no meio do caminho, era difícil para os outros deuses verem como a areia dentro do círculo começava a brilhar num belo dourado que lentamente se tornava o mais denso e tenebroso preto enquanto começava a engolir Bastet e Apófis como uma areia movediça.
Apófis não tinha mais forças para lutar, mas Bastet apenas se deixou ser engolida pela areia enquanto uma lágrima escorreu pelo seu rosto. A deusa gata olhou uma última vez em sabe-se lá quanto tempo para os deuses mais queridos que estavam ali… Ptah, apesar de tudo, Thoth, Amon-Rá, Bes, Serqet, Sekhmet… se viu desejando que Hathor estivesse ali também ao invés de cuidando do filho recém nascido que havia tido com Hórus. Mas, antes que pudesse sequer pensar em talvez dizer algumas palavras para sua estranha e complicada família imortal, a areia negra terminou de devorar ela e logo então Apófis selando ambos no Duat para um eventual combate potencialmente infinito.
Com exceção de Amon-Rá, todos os deuses que estavam envolvidos no feitiço que selou Bastet e Apófis caíram no chão de joelhos exaustos. Em alguns segundos, aquele pedaço do deserto tinha apenas deuses exaustos se curando automaticamente de forma lenta e demais cicatrizes de uma batalha. A expressão de tristeza deles era a prova que ninguém ali estava menosprezando o sacrifício que Bastet estava fazendo para manter a ordem no mundo. Claro, ainda tinham muitos problemas para resolver, mas poder se livrar do problema que era Apófis, ao menos momentaneamente, era extremamente útil.
Se juntando com os seus queridos para momentos de consolo e alívio, um a um os deuses foram deixando o lugar para seguir com o resto de seus dias. O sol forte e escaldante do meio dia brilhava sobre o Egito sem os mortais saberem da importantíssima luta que havia acontecido à sudoeste do território egípcio. Ísis aproveitou o resto do dia, praticamente um feriado que todos concordaram sem qualquer conversa que era necessário, ao lado de Osíris, Qebui e Nefertem resolveram ficar nas margens de um oásis em Fayum, Seshat preferiu ficar sozinha chorando nas margens do Mar Mediterrâneo praticamente imitando o mesmo choro que Bes deixava para trás só que nas margens do Mar Vermelho sofrendo pela paixonite nunca declarada por si ou correspondida por Bastet.
Anúbis e Anput, por sua vez, foram já perto do pôr do sol para o planalto de Gizé depois de terem se recuperado de seus ferimentos. Pensativos e silenciosos, eles acompanharam com o olhar o espetáculo que o pôr do sol fazia com as pirâmides cuja pedra que as revestia era tão lisa e bela que conseguia refletir a luz do sol. Para conseguir um pouco de privacidade, usaram a prática magia de não deixar nenhum mortal os ver enquanto deixavam o estresse do dia ir embora junto com o sol.
Quando o céu começou a ser tomado pelas estrelas, elas atraíram o olhar de Anput ao passo que Anubis preferiu fitar a esfinge que começava a ser soterrada de areia. Com o caos que havia se espalhado pelo Egito de tantas formas possíveis, não havia tanto interesse assim em tirar a areia que começava lentamente a engolir as patas da enorme escultura.
— Ainda bem que passamos por essa... — disse Anput — Foi bom Heka, Ísis e os demais estarem lá desde do começo. O plano de Thoth foi muito bom e importante.
— Uhum… — disse Anúbis com a mente claramente meio distante enquanto ainda encarava a esfinge e ela notou isso.
— No que está pensando? — perguntou ela torcendo para o clima não ficar estranho de novo entre os dois.
— Em quanto tempo mais a gente deve durar… — admitiu Anúbis.
— “A gente” os deuses ou “A gente” o Egito? — perguntou ela.
— Os dois… — respondeu ele — Nem tem como sabermos se os dois momentos seriam um só ou não.
Sem saber bem como responder, Anput apenas suspirou e, pensativa, entrelaçou seus dedos da mão direita com os de Anúbis enquanto, silenciosamente, pedia para que os desenrolares da história lhes dessem uma época mais estável, tranquila e rica tal como a que tinha criado as pirâmides diante deles. Claro, tiveram seus problemas, uma paz total era algo impossível de pedir. Mas seria bom se livrar da ansiedade de descobrir se viveria para ver o século seguinte e então poder se ver mais livre para sonhar.
As respostas demorariam para chegar, por mais que o fim de um dia e o raiar de um novo parecesse insignificante na longa sequência de eventos que era a história. Mas, eventualmente, o dia seguinte chegou para os deuses e, lentamente, após todos arrumarem os sentimentos e ferimentos físicos e emocionais da batalha contra Apófis e do adeus de Bastet, as coisas foram voltando à normalidade.
O Salão do Julgamento estava numa velocidade preguiçosa enquanto se preparava para recomeçar o julgamento dos mortos. Ninguém estava com muita pressa de começar, exatamente por isso que todos agradeceram silenciosamente quando Anúbis chegou perto de Osíris com um pedido.
— Antes de começarmos… — disse Anúbis — Surgiu algo para resolver lá em cima.
— Tudo bem… — disse Osíris que com certeza não teria negado nada, não só porque gostava do garoto como um filho, como também porque se sentia mal por não ter podido ir lutar contra Apófis como os demais — Acho que todos gostariam de um tempinho a mais antes de começar. Vá.
Anúbis agradeceu com um breve aceno de cabeça e imediatamente foi para de onde havia escutado em sua mente uma prece vindo. Por já saber de quem era, fez questão de ir até o lugar.
Quando surgiu na laje da casa invisível para aqueles que oravam para ele, a primeira coisa que viu foi o amplo céu azul que cobria Siwa. Em seguida, viu a pequena Merti junto com a avó, Tameniut, de joelhos diante de uma pequena estatueta de madeira dele sentado em forma de chacal cercada com algumas flores e um par de incensos.
— … estava muito chocada com a morte de meu filho… — dizia Tameniut deixando as lágrimas escorrerem pelo seu rosto já provavelmente na metade da frase de sua prece — assim, me desculpe, acabei sem agradecer-lhe por trazer Merit sã e salva até mim.
— É… obigado por me trazer até a vovó… — disse Merit dando uma pequena fungada enquanto deixava escorrer suas próprias lágrimas — e cuida do papai, por favor.
— Sim.. sei que cuidarás bem de meu filho. — disse Tameniut tentando se controlar em meio às lágrimas — Estaremos esperando por seu corpo para poder realizar os ritos e enviá-lo até ti novamente para julgá-lo diante de Osíris. Mas, por hora, o que mais quero dizer é obrigada… por tudo.
— Posso fazê uma ofelenda, vovó? — perguntou Merti.
— Pode sim, querida. — respondeu amorosamente a avó.
Largada ao lado da garota, estava sua preciosa boneca de pano. Merit pegou-a com o carinho de uma criança que pegava o brinquedo mais precioso e deixou-a sentada desengonçadamente diante da pequena estatueta de Anúbis enquanto o original observava a cena calmamente apoiado sobre o batente da laje sem que nenhuma das duas pudesse vê-lo.
— Eu… Eu vou da minha boneca de ofelenda… — anunciou Merti — É minha boneca mais preferida. A ajuda foi mais grande, então vou dar minha boneca. Também pa não esquecer de mim levá também depois pa ficar com a mamãe e o papai.
Anúbis ouviu aquelas palavras infantis mas tão profundas com atenção enquanto considerava aparecer ou não para as duas. Sem dúvida não era uma boa opção só surgir do nada, iria acabar matando a idosa do coração. Antes que ele pudesse tomar alguma decisão, a idosa suspirou pesadamente quando o incenso se apagou.
Quando ela se levantou, já não mais com a cabeça tão abaixada, ficou claro pelas orelhas que ela ainda estava profundamente envolvida no luto pelo filho. Também ficou claro que a prece dela tinha acabado embora Merti tenha permanecido ali diante da pequena estatueta. Tudo que a garota fez foi sair de seus joelhos e sentar de pernas cruzadas.
— Vai ficar mais tempo aqui, Merti? — perguntou a avó e a pequenina apenas confirmou com a cabeça — Só não demore muito ok? O sol está bem forte hoje.
— Tá… — respondeu ela olhando para a pequena estatueta e a boneca.
Quando a idosa foi embora, Anúbis deixou seu cantinho para trás e se agachou logo atrás da pequena estatueta de si mesmo e lentamente pegou a boneca. Ao ver a boneca se mexer, Merti ficou mais alerta e surpresa. Foi exatamente por isso que não levou um susto quando Anúbis lentamente deixou a magia de lado e apareceu diante dela.
— Você veio! — exclamou ela.
— Claro… — disse ele olhando para a boneca e então para a garota — Mas tem certeza que quer me dar sua boneca? Não vai sentir falta dela.
— Tenho ceteza! — disse a garota sorrindo determinada — Vai cuidar bem dela né?
— Claro que vou. — garantiu Anúbis.
Não tinha utilidades pra dar pra uma boneca mas, mesmo se tivesse, provavelmente não iria querer fazer mais do que guardar ela como uma memória doce em alguma prateleira.
— Já… começou a cuidá do papai? — perguntou ela curiosa e subitamente meio cabisbaixa ao mencionar o pai.
— Começarei hoje. — garantiu ele sério — Muita coisa aconteceu desde que te deixei aqui. Mas hoje sem falta começarei. Mas mesmo assim vai demorar alguns dias. Tudo bem?
Ainda um pouco cabisbaixa, Merti afirmou brevemente com a cabeça enquanto Anúbis pensava em como trazer o sorriso dela de volta. Não era fácil, claro. Não era fácil para uma criança lidar com a morte de um parente tão próximo.
— É normal ficar triste… — ele disse colocando a mão no topo da cabeça dela fazendo acidentalmente ela erguer os olhos chorosos para ele — E eu tenho certeza que você sabe mais do que eu o tanto que dói. Mas você vai ficar bem. Você é forte e, daqui a vários anos, quando estiver bem velhinha, quando for encontrar seu pai e sua mãe, vai contar como foi forte.
Ela afirmou com a cabeça e passou as mãos pelos olhos limpando qualquer sinal de lágrimas e logo tentou abrir um sorriso para Anúbis para mostrar que era sim forte. Não era um sorriso totalmente feliz, o luto ainda era óbvio ali, mas era uma vitória grande o suficiente por enquanto.
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